quarta-feira, 30 de setembro de 2020

“TEÓLOGOS” OLAVETES – E UMA GRANDE NOTÍCIA

                                                                                                                               Carlos Nougué

 Não é que, recentemente, alguns ilustres “teólogos” olavetes passaram a referir o livro La liberté religieuse et la Tradition Catholique, do Fr. Basile O.S.B., que busca fundar a doutrina claramente herética do CVII sobre a liberdade religiosa na tradição da Igreja e especialmente em S. Tomás? Esse frade é (ou era) do mosteiro beneditino do Barroux, e seu livro, pretensamente muito erudito, tem a bagatela de 2.960 páginas. Parabéns, antes de tudo, a tais “teólogos” olavetes por o terem conseguido ler... Sucede, depois, todavia, que o Fr. Jehan, outro monge e sacerdote do mesmo mosteiro, publicaria em 2004 um memorial de Direito Canônico em que prova que a tese do Fr. Basile padece de um vício fatal: falsifica radicalmente a doutrina de S. Tomás sobre o Direito. “Apenas” isto! – Mas o que tão doutos “teólogos” olavetes nem sequer referem é que, se se trata de tradicionalismo mais profundo, antes de acusar o CVII e seus papas de cometer heresias, é preciso provar que segundo eles mesmos sua autoridade DOUTRINAL é nula, sem o que faltaríamos com a devida docilidade ao magistério da Igreja. (Diga-se, aliás, que os tradicionalistas que desconhecem isso contribuem, ainda que involuntariamente, para a confusão generalizada quanto a este árduo assunto.) Desafiei um de tais “teólogos” a que respondesse por escrito a meu opúsculo “As Diversas Correntes na Igreja Atual” (https://www.estudostomistas.com.br/.../as-diversas...) e a meu livro Do Papa Herético, nos quais mostro precisamente a nulidade doutrinal do magistério conciliar segundo ele mesmo. Continuo esperando-o, sentado... Mas, mais que a mim, desafio esses “teólogos” capazes de ler 3 mil páginas de um só livro a responder à segunda edição ampliadíssima (e com tradução minha e de Danilo Rehem) de A Candeia Debaixo do Alqueire, do Padre Álvaro Calderón, cuja pré-venda, segundo a editora Castela – alvíssaras! –, provavelmente começará ainda em outubro. Foi o Padre Calderón, o maior teólogo vivo (e muito mais), quem resolveu o enigma do CVII e do magistério conciliar, sem todavia perder a docilidade devida ao magistério da Igreja. Mãos à obra, portanto, senhores “teólogos” olavetes. Fico ainda esperando sentado, mas agora numa cadeira de balanço.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

CATOLICISMO OU ANARCOCATOLICISMO?

 

Carlos Nougué

 

O tradicionalista argentino Antonio Caponnetto mostra, uma vez mais, na conferência, “Contra la ‘Nueva Normalidad’, la Pedagogía del Ánimo”, para onde caminha essa corrente tradicionalista que acusa de ultraclericalismo calvinista a defesa intransigente da ordenação essencial do estado à Igreja: para um anarcocatolicismo. Na referida conferência, Caponnetto simplesmente nega ao estado a autoridade máxima em questões sanitárias. Pode ser que, por argentino, Caponnetto extrapole para o resto do mundo a situação de seu país, em que um tiranozinho se vale da crise sanitária para aprofundar a revolução. Mas isto está longe de ser verdade para a maior parte do mundo; e já vimos aqui a posição muito equilibrada de Roberto de Mattei quanto a isto.

Parece todavia que Caponnetto e seus pares se esquecem da lição de São Paulo e de São Pedro (respectivamente em Romanos 13, 1-7, e 1 Pedro, 2, 13-17) e de Santo Tomás (na Suma Teológica) sobre o dever de submissão do católico ao governante na esfera própria do estado (dever de submissão que, para S. Tomás, se estende até a leis iníquas mas não demasiado gravemente ofensivas da lei natural). Esquecem-se, ademais, que o magistério autêntico da Igreja afirmou e reafirmou que o estado é sociedade perfeita, e que a família não o é. Claro, resta explicar como pode ser que uma sociedade perfeita, o estado, deva ordenação essencial a outra sociedade perfeita, a Igreja, questão árdua que ocupará boa parte de meu “Da História e Sua Ordem a Deus” (que sairá como apêndice, longo, de meu Comentário ao Apocalipse). Mas diga-se desde já que a resposta se encontra, por um lado, no triplo modo como algo se pode dizer perfeito e, por outro lado, na absoluta gratuidade da graça e da beatitude eterna da parte de Deus – além, naturalmente, de na ordenada subordinação dos fins.

Mas diga-se desde já também que, se é verdade que, excetuadas talvez a Polônia e a Hungria, todos os demais estados atuais são em ilegítimos e em algum grau cadáveres de estado, também é verdade que isso não anula sua autoridade em questões como a sanitária, assim como um pai ateu não perde a autoridade sobre seus filhos quanto a assuntos estritamente domésticos. Que um católico como Caponnetto proponha o contrário é vergonhoso – e não dista muito do liberalismo e do anarcocapitalismo.     

Ainda sobre as relações entre o poder temporal e o espiritual


 Carlos Nougué

Se não aceitam a palavra deste que lhes escreve, senhores católicos bolsonaristas, nem a autoridade teológica do Pe. Calderón, aceitem ao menos a palavra de Cristo, do magistério autêntico da igreja, das Escrituras e da tradição sobre as relações entre estado e Igreja. Se não o fazem, pecam contra a fé. 

“Dizei às nações: O Senhor é rei. [...] / Jubilem todas as árvores das florestas / com a presença do Senhor que vem, pois ele vem para governar a terra: julgará o mundo com justiça, e os povos segundo a sua verdade.”

Salmo 95 

“Foi-me dado todo o poder no céu e na terra: ide, pois, e instruí todas as nações.”

Nosso Senhor Jesus CristoEvangelho de São Mateus 

“Uma coisa é, para o príncipe, servir a Deus na qualidade de indivíduo, e outra fazê-lo na qualidade de príncipe. Como homem, ele o serve vivendo fielmente; como rei, fazendo leis religiosas e sancionando-as com um vigor conveniente. Os reis servem ao Senhor enquanto reis quando fazem por sua causa o que só os reis podem fazer.”

Santo Agostinho, Carta ao Governador Bonifácio 

“É necessário que o fim da multidão humana, que é o mesmo que o do indivíduo, não seja viver segundo a virtude, mas antes, mediante uma vida virtuosa, alcançar a fruição de Deus.”

Santo Tomás de Aquino, De regno 

“[A Igreja tem em seu poder dois gládios (ou espadas)], o gládio espiritual e o gládio temporal. Mas este último deve ser usado para a Igreja, enquanto o primeiro deve ser usado pela Igreja. O espiritual deve ser manejado pela mão do sacerdote; o temporal, pela mão dos reis e dos soldados, mas segundo o império e a tolerância do sacerdote. Um gládio deve estar sob o outro gládio, e a autoridade temporal deve ser submissa ao poder espiritual.”

Bonifácio VIII, Unam Sanctam 

“O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isso, salvar sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para o ajudarem a alcançar o fim para o qual é criado. Donde se segue que o homem há de usar delas na mesma medida em que o ajudem a alcançar seu fim, e que ele há de privar-se delas na mesma medida em que dele o afastem.”

Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais 

“Se eu conseguir ganhar um rei, terei feito mais pela causa de Deus do que se tivesse pregado centenas ou milhares de missões. O que um soberano tocado pela graça de Deus pode fazer no interesse da Igreja e das almas, milhares de missões jamais o farão.”

Santo Afonso M. de Ligório, apud P. Berthe, S. Alphonse 

“Para os povos como para os indivíduos, para as sociedades modernas como para as sociedades antigas, para as repúblicas como para as monarquias, não há sob o céu outro nome dado aos homens em que eles possam ser salvos além do nome de Jesus Cristo.”

Cardeal Pie de Poitiers, Discours au Président de la République (1870) 

“O Estado está para a Igreja assim como o corpo está para alma.”

Leão XIII, Immortale Dei 

“Os que no governo dos estados pretendem desconsiderar as leis divinas desviam o poder político de sua própria instituição e da ordem prescrita pela própria natureza.”

Leão XIII, Libertas præstantissimum 

“Na ordem das doutrinas, [o liberalismo] é pecado grave contra a fé [...]. Na ordem dos fatos, é pecado contra os diversos Mandamentos da Lei de Deus e de sua Igreja.”

D. Félix Sardà i Salvany, El liberalismo es pecado 

“Não, a civilização não está por inventar [...]. Ela já existiu, ela existe: é a civilização cristã, a cidade católica. O que falta é instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos contra os ataques sempre renascentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade: Omnia instaurare in Christo.”

São Pio X, Notre charge apostolique

 “No juízo final, Jesus Cristo acusará os que o expulsaram da vida pública e, em razão de tal ultraje, aplicará a mais terrível vingança.”

Pio XI, Quas primas 

“Nós percebemos a numerosa classe daqueles que consideram os fundamentos especificamente religiosos da civilização cristã [...] sem valor objetivo [para os dias de hoje], mas que gostariam de conservar o brilho exterior dela para manter de pé uma ordem cívica que não poderia passar sem tal. Corpos sem vida, acometidos de paralisia, são eles mesmos incapazes de opor qualquer coisa às forças subversivas do ateísmo.”

Pio XII, Discurso à União Internacional das Ligas Femininas Católicas 




domingo, 27 de setembro de 2020

DA IDADE DO UNIVERSO, DA TERRA, DOS ANIMAIS, DO HOMEM

 Carlos Nougué

1) A questão da idade do universo é de livre disputa 

a) Argumento de fé. A Comissão Bíblica sob S. Pio X, e com seu endosso, respondeu a esta questão: “Se na denominação e distinção dos seis dias dos quais fala o capítulo 1 do Gênesis se pode tomar o ‘dia’ ou em sentido próprio, como um dia natural, ou em sentido impróprio, como um espaço indeterminado de tempo, e se é lícito discutir livremente sobre essa questão entre os exegetas”, com um “Sim”.

b) Argumento de matéria física conexa com a fé. Na Alocução Un Ora Sobre as Provas da Existência de Deus à Luz da Ciência Natural Moderna, pronunciada numa audiência solene à Academia Pontifícia de Ciências, Pio XII assume a teoria do big bang como a mais provável; mas aceitá-la implica aceitar que a idade do universo seja de bilhões de anos.

c) Meu argumento. De fato, a teoria do big bang parece ser verdadeiramente, hoje, a mais provável quanto ao modo como o universo veio ao tempo, o que implica a aceitação de que tenha sido criado há bilhões de anos. Mas o universo é uma imago Dei, uma imagem de Deus, e, para representar a eternidade divina, parece mais conveniente que o universo tenha tão longa idade do que se tivesse uma curta idade – assim como o fato de que o universo seja imenso é mais conveniente para representar a infinitude de Deus do que se ele fosse menor. 

Objeção. Definiu o Concílio Lateranense IV: “Deus... Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, das espirituais e corporais, por seu próprio poder onipotente no princípio do tempo criou ao mesmo tempo e desde o princípio todas as criaturas do nada, espirituais e corporais a saber, anjos e criaturas materiais, e por último o homem, constituído por assim dizer, tanto de espírito como corpo”. Logo, parece que os argumentos acima não se seguem.

Solução. Note-se a aparente imprecisão da formulação: criou tudo ao mesmo tempo, mas o homem por último. Logo, “ao mesmo tempo” não quer dizer aqui “simultaneamente” no tempo, mas sim “(criar) da eternidade (que é simultânea)”; o que se reforça pela expressão “desde o princípio”. É que não temos termos para expressar perfeitamente a criação ex nihilo. – Ademais, cada alma humana é criada e infundida junto com cada união prolífica de dois gametas paternos. Assim, Deus não criou ao mesmo tempo todas as almas humanas. – Por fim, terão São Pio X e Pio XII incorrido em desvio da fé?

2) A questão da idade da terra 

Meu argumento. Por todo o dito quanto à questão anterior, não parece inconveniente que a terra tenha milhões ou bilhões de anos, como, aliás, por diversos indícios, parece ter efetivamente. 

3) A questão da idade dos animais 

Meu argumento. Parece difícil que os animais estejam na terra há muito mais tempo que o homem. Com efeito, vemos correntemente espécies animais extinguir-se (como aliás se extinguiram os dinossauros) ou estar à beira da extinção. Ora, se os animais vivessem aqui há demasiado tempo, é provável que já não existisse a maioria das espécies, ao menos as terrestres. 

4) A questão da idade do homem 

a) Argumento de fé. Embora o magistério nunca se tenha pronunciado formalmente sobre a idade do homem, as Escrituras indicam que está na terra há cerca de seis mil anos.

b) Argumento de razão do Padre Álvaro Calderón (com o qual concordo plenamente). Se existindo há cerca de seis mil anos o homem já fez tudo quanto fez e já ocupou quase toda a terra, imagine-se o que se teria se existisse há, por exemplo, vinte mil anos (para não falar do que se teria se existisse há centenas de milhares de anos...). 

Observação. Os métodos radiométricos de datação são todos de algum modo falhos, como mostrarei num apêndice a meu livro Comentário ao Apocalipse. O menos falho é o de datação por carbono-14. Mas este só vale até seis mil anos...



terça-feira, 22 de setembro de 2020

AINDA O SOFISTA OdC


 Carlos Nougué


O sofista OdC nunca diz claramente o que quer dizer, o que é próprio dos gnósticos perenialistas. Algumas coisas, pois, sobre o estrebuchamento seu a meu respeito que se lê no print abaixo.

1) Não é digno de um filósofo tratar a seus adversários por apodos injuriosos e vazios de doutrina. Mas algum, como OdC, o faz. Por isso, deve dizer-se que carece da dignidade do filósofo.

2) Todo filósofo o é justamente porque partindo de certos princípios alcança certas conclusões. Ora, todo o que se diz filósofo mas, como OdC, só admite como conclusivo o perceptível deixa, ipso facto, de fazer filosofia; justamente porque o que é perceptível é evidente, e o evidente não se demonstra, e não há filosofia sem demonstração. Logo, tal nem sequer é filósofo.

3) Só alguém primário de inteligência é capaz de dizer que uma coisa é a necessidade de algo e outra a realidade deste algo. Como sabem todos os principantes em filosofia, o absolutamente necessário é aquilo que sempre foi e nunca deixará de ser. -- Mas pode ser que OdC não creia em tal distinção absurda, e a diga contra mim tão somente como recurso retórico-sofístico-neurolinguístico. É que quase sempre ele atua tão somente para o aplauso de sua pobre e manipulada galeria.

4) Ademais, e por fim, “esquece” fingidamente OdC que eu já provei que sua doutrina sobre Deus é não só nula mas herética: fi-lo em “Defesa da terceira via de Santo Tomás de Aquino” (in Do Papa Herético e outros opúsculos). Só não citei ali seu nome para, digamos, não macular a obra. Mais: no próximo ano sairão minhas Questões Metafísicas, cujo núcleo será justamente “se as cinco vias de S. Tomás permanecem válidas e se necessitam de algum reparo”. Creio que surpreenderão a todos. Mas tenho certeza de que reduzirão a pó a doutrina “metafísica” de OdC, ao pó, aliás, de onde ela nunca deveria ter saído. Mais ainda: escrevê-las-ei outra vez sem citar seu nome...




segunda-feira, 21 de setembro de 2020

MARIA É, SIM, CORREDENTORA DO GÊNERO HUMANO


 Carlos Nougué


Para que se perceba a gravidade de negar a Nossa Senhora o título de Corredentora, veja-se o que dizem, entre outros, alguns dos documentos do magistério autêntico da Igreja sobre isto.

1) Leão XIII, na Encíclica Supremi Apostolalus e na Constituição Ubi primum; e na Encíclica Iucunda semper:  a Virgem SS. foi para Cristo “companheira na redenção do gênero humano”; e “esteve unida ao Filho na custosa expiação do gênero humano”.

2) São Pio X, na Encíclica Ad diem illum: houve “comunhão de dores e de vontade entre Maria e Cristo” para a redenção do gênero humano; e Maria, “chamada a cooperar para a obra de Redenção dos homens, merece ‘de côngruo’, como costumam dizer os teólogos, tudo o que Cristo nos mereceu ‘de condigno’”.

3) Bento XV, em Inter sodalitia: a Virgem “de tal maneira padeceu e morreu com o Filho que padecia e morria, de tal modo abdicou para a salvação dos homens seus direitos maternos sobre o Filho, que se pode dizer com razão que Ela redimiu com Cristo o gênero humano”.

Etc.




O PE. GREGORY HESSE – OU O “TRADICIONALISMO CRÍTICO” ELEVADO AO ESCÂNDALO

  

Carlos Nougué

 

Tanto no livro Do Papa Herético como em “As Diversas Correntes na Igreja Atual” (https://www.estudostomistas.com.br/…/as-diversas-correntes-…) insisto na crítica do Pe. Álvaro Calderón ao “tradicionalismo crítico”, dando-lhe embora desdobramentos por que sou inteiramente responsável. Mas a suma importância desta crítica ressalta quando estamos diante de algo como o vídeo cujo link dou abaixo, do Pe. Gregory Hesse. Elevando ao escândalo neste vídeo o “tradicionalismo crítico”, esse Padre de origem austríaca (já falecido), considerado por não poucos como importante porta-voz da tradição em face do Concílio Vaticano II, julga-se no direito de julgar o magistério autêntico da Igreja, incluindo o magistério infalível. Partindo de uma suposta “falibilidade dos Papas”, e entre outras barbaridades, diz Hesse que Pio IX errou no ponto 42 da Ineffabilis Deus (a Bula da definição da Imaculada Conceição!) e que a Bula Unam Sanctam, de Bonifácio VIII, é herética (!). Une-se assim ao coro dos que detratam este papa e negam, hereticamente, a doutrina da Realeza de Cristo. Mas a Bula de Bonifácio VIII, além de ter caráter solene, está perfeitamente alinhada, por exemplo, com a Epístola Duo sunt (de São Gelásio I), com a Encíclica Sicut universitatis (de Inocêncio III), com a Encíclica Immortale Dei (de Leão XIII), com o lema do pontificado de São Pio X (“Instaurar tudo em Cristo”), com a Encíclica Quas primas (de Pio XI). Trata-se, pois, ao menos, de magistério ordinário infalível.

Ou seja, com tradicionalistas assim, para que necessitamos de modernistas?


https://www.youtube.com/watch?v=90aWxkNR3Bs&feature=youtu.be&fbclid=IwAR3wtRH903vzK3kQDBelGmPV52iBw0gfxquC-x1cSol962kgLJhB42iPJ_Q

sábado, 19 de setembro de 2020

DEUS É TRANSCENDENTE A TODAS AS SÉRIES DE COISAS CRIADAS

 Carlos Nougué

Escreveu Santo Tomás de Aquino: “Há uma primazia que se mantém dentro do mesmo gênero e que se exprime pelo comparativo ou pelo superlativo; outra há que ultrapassa o próprio gênero e que se exprime mercê da partícula super” (Div. nom., c. 4 1. 5; cf. De pot., q. 7, a. 7, ad 2-3; Summa Theol., I, q. 4, a. 3, ad 1). Trata-se, por antonomásia, do caso de Deus, que é o primeiro da série de moventes, de generantes, etc., mas estando além dessas próprias séries: é-lhes de todo transcendente. Por isso mesmo, aliás, é que o mundo poderia ter sido criado desde sempre, sem que isso implicasse  falando propriamente – coeternidade com o criador: porque, com efeito, “Deus é anterior ao mundo em duração. Mas este anterior não designa prioridade de tempo, senão de eternidade” (Tomás de Aquino, Summa Theol., I, q. 46, a. 1, ad 8). Tudo isto se encontra aprofundado em meu “Se se contradiz Santo Tomás ao pôr que não repugna ao intelecto que o mundo tivesse existido desde sempre” (in Do Papa Herético e outros opúsculos).




quinta-feira, 17 de setembro de 2020

RESPOSTA A UMA QUESTÃO METAFÍSICA

 Carlos Nougué

 

Um aluno da Escola Tomista perguntou-me o seguinte:

 

“Ao ler De L’Acte de Lavelle, percebi que ele afirma que o Ser é idêntico ao Ato de Ser próprio que o produz, e que o Ser que está sendo é Ato de Ser. O senhor poderia, por favor, discorrer um pouco sobre se isso cai na ocultação do Ato de Ser listada por Fabro? Pois me surgiu a dúvida de se de fato Lavelle cai nesse problema”.

 

Minha resposta:

 

“Conheço muito bem a obra de Lavelle (traduzi milhares de páginas suas), sobre a qual falarei no ponto da História da Filosofia. Pois bem, embora de modo geral sua obra seja confusíssima, ele, digamos, “quase” acerta aqui. Quanto a Fabro, acerta bem mais, muito mais, mas peca por rigorismo terminológico. Dou-lhe aqui, portanto, em resumo, a metafísica tomista quanto ao ser.

1) A distinção entre essentia (essência) e existentia (existência) é evidente para todos (como diz Fabro, como que se toca com o dedo), mas é só de razão.

2) Por seu lado, a distinção entre essentia e esse vel actus essendi (ser ou ato de ser, termos sinônimos) só é evidente para os sapientíssimos, mas é real (tão real como a distinção entre matéria e forma).

3) Esta última distinção (entre essência e ser ou ato de ser) é a que funda a primeira (entre essência e existência), e nos leva a distinguir, por outro lado, entre o ens per participationem (ente por participação) e o ens per essentiam vel Esse per se (ente por essência ou Ser por si): ou seja, entre as criaturas, que recebem o ser ou ato de ser por participação do Criador, e Deus, que participa às criaturas o ser ou ato de ser ao criá-las.

4) O ser ou ato de ser é a razão própria do objeto da criação divina. Mas atenção: Deus não dá um ‘pedaço de seu ser’ às criaturas (isso seria panteísmo, ou antes panenteísmo), senão que, ao criá-las, cria com elas o chamado esse communis (o ser comum ou geral).

5) Não devemos usar o verbo existir para Deus. Isso é assim porque existir quer dizer ‘provir de, provir de causa ou de causas’. Mas Deus é incausado. Logo, Deus não ‘existe’; Deus é.

Observação 1: no entanto, para principiantes, pode-se usar existir, existência para Deus, enquanto tais principiantes não alcançam a Metafísica – embora eu prefira, quase sempre, não fazê-lo.

Observação 2: Note-se, ademais, que nas criaturas a existência é o ser em ato permitido pelo ato de ser participado por Deus. Em Deus, porém, ser em ato e ato de ser são exatamente o mesmo. E é isso o que Lavelle não consegue alcançar”.

sábado, 12 de setembro de 2020

Live do Prof. Carlos Nougué sobre Chesterton


AS DIVERSAS CORRENTES NA IGREJA ATUAL (republicação revista)

Carlos Nougué

I
O modernismo conservador
e sua hermenêutica da continuidade

1) Segundo o modernismo vitorioso no Concílio Vaticano II, a Igreja vive da experiência do mistério de Cristo. Sucede, porém, que os homens que a compõem necessitam expressar esta vivência. A Revelação oferece-lhes para isso a Escritura, que é a própria expressão da experiência dos primeiros discípulos. Mas, depois, em cada época é preciso reexpressar a experiência do mistério de Cristo, como um Evangelho reencarnado nas condições históricas e culturais do momento. Para tal se unem a Hierarquia e o conjunto dos fiéis, que meditam a Palavra e a exprimem numa pluralidade de teologias, ao passo que a Hierarquia deve unificar tais teologias para que se tornem de fato eclesiais: é a “autenticação” da interpretação comum. Veja-se que tal aberração só é possível por uma inversão herética: agora, a Hierarquia deixou de ser docente e os fiéis discentes, porque estes são dotados por si e em conjunto de um infalível senso da fé, ao contrário do definido, por exemplo, pelo Vaticano I, segundo o qual a Igreja em conjunto só é indefectível na fé porque o Papa e os Bispos a tornam tal. 
2) É a hermenêutica da continuidade, a doutrina hegeliana do modernismo conservador. Em tal processo de reinterpretação contínua, há três momentos: o início (a tese), o movimento (a antítese) e o termo ou término (a síntese), que requerem três modos de intervenção do Magistério. 
a) Primeiro: a insistência na tradição dogmática, como se vê, por exemplo, nas encíclicas de Paulo VI Mysterium Fidei, de 1965, e Humanae vitae, de 1968; na “Profissão de Fé” e no “Juramento de Fidelidade” promulgados pela Congregação da Doutrina da Fé em 9 de janeiro de 1989, com aprovação de João Paulo II; na Carta apostólica Ordinatio sacerdotalis, do mesmo João Paulo II; talvez no Motu proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI; etc. Como diz o Padre Calderón no estupendo opúsculo “La autoridad doctrinal del Magisterio conciliar”, se há algum grau de autoridade nos documentos conciliares e pós-conciliares, encontra-se nos documentos deste momento de “tese”. Mas, se o há, será menor ou ínfimo, justamente porque este momento se subordina ou ordena aos dois seguintes. 
b) Segundo: as contribuições do Papa, enquanto mero membro da Igreja, para a reflexão do conjunto de seus membros, como se vê pela grande maioria das confusíssimas encíclicas pós-conciliares, que, como já se disse, poderiam definir-se como “cartas de unidade”. O grau de autoridade destas encíclicas é nulo, e nem sequer, a nosso ver (como o dizemos em Do Papa Herético), pode ter-se por magistério autêntico. Reduzem-se de algum modo, a meu ver ainda, a magistério de doutores privados. Não por nada, com efeito, João Paulo II começa a substituir em suas encíclicas o “Nós” pelo “eu”. 
c) Terceiro: os documentos de síntese, como o são os do Vaticano II e o “Catecismo da Igreja Católica”. Sua autoridade é igualmente nula, por sua mesma intenção. É o caso, repita-se, do CIC, a mais perfeita concretização da Lumen Gentium, e cuja autoridade é negada em seu próprio bojo. Com efeito, ao tratar “A interpretação do depósito da fé” (n. 84), diz o CIC antes de tudo: “O depósito da fé confiado à totalidade da Igreja. O depósito sagrado da fé... foi confiado pelos apóstolos ao conjunto da Igreja”, pastores e fiéis juntos. E passa a sustentar e explicar a herética noção de “senso da fé infalível por parte do conjunto da Igreja por si”. 
Observação: por isso mesmo é que a alteração feita por Francisco no CIC com respeito à pena de morte é nulíssima: nulidade de nulidade. 
3) Alguns ilustres membros da Hierarquia, como D. Athanasius Schneider e D. Carlo Maria Viganò, vêm deixando de ser modernistas conservadores para passar a tradicionais. Mas há que ver se terminarão no tradicional em sentido estrito ou no chamado (pelo Padre Calderón) “tradicionalismo crítico”.

II
progressismo

1) Vimos já a dialética de cariz hegeliano que saiu vitoriosa no Concílio Vaticano II: segundo ela, o conjunto da Igreja tem um senso da fé infalível por si, o que faz que o Magistério da Igreja deponha a autoridade e o carisma da infalibilidade que Cristo lhe deu em matéria doutrinal. É a dialética do modernismo conservador e sua hermenêutica da continuidade, cujos expoentes foram Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.
2) Mas desde o Concílio Vaticano II atuou a corrente progressista, ou seja, aquela que despreza o primeiro momento da referida dialética (o da tradição da Igreja) e por isso defende posições evidentemente heréticas sem nenhum pudor. Para esta corrente, importaria quase exclusivamente o terceiro momento daquela dialética, a saber, o resultante da consulta à pluralidade de posições teológicas do Povo de Deus. Mas atente-se ao seguinte.
a) Isto de que o Magistério deve seguir um infalível senso da fé do conjunto do Povo de Deus por si (doutrina comum a conservadores e progressistas) é tão falso como dizer que na democracia liberal quem manda é o povo. Com efeito, assim como nesta quem manda de fato são os poderes plutocráticos, partidários e midiáticos, assim também na Igreja iniciada pelo Concílio Vaticano II quem manda são os “peritos”, ou seja, os neoteólogos vitoriosos no Concílio, e a hierarquia que os segue.
b) Depois, em verdade o progressismo evidencia as raízes ocultas do mesmo e mais tímido modernismo conservador, razão por que é de todo lícito recorrer a seu extremismo para explicar a tragédia conciliar. Um exemplo: segundo alguns, a missa nova foi uma traição à Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia, indo além, em suas mudanças, do que pretendera o Concílio, mas o fato é que foram os mesmos os que redigiram o documento conciliar e que empreenderam a reforma litúrgica. Mais ainda: em setembro de 1965 Paulo VI emitiu a já referida Encíclica Mysterium Fidei, uma defesa do caráter sacrifical da missa, o mesmo Paulo VI que depois aprovaria uma missa, a nova, antes memorial que sacrifical, de cuja forma ou fórmula da consagração do vinho se chegou a tirar a própria expressão “myterium fidei”! (Se isso torna por si inválida a missa nova ou não, é o que estudarei alhures.) Ademais, como mostra Michael Davies em vários passos de sua obra, os conservadores tentavam impedir maiores radicalizações na missa nova, mas, diante de fatos consumados pelos progressistas, acabavam por incorporá-las...
3) Nada disto, é claro, implica dizer que não há diferenças entre modernistas conservadores e progressistas, conquanto não se deva exagerar quanto a elas. Mas o fato é que tanto as há, que vemos hoje desenrolar-se certo conflito entre ratzingerianos (como o Cardeal Sarah ou o Cardeal Müller, por exemplo) e bergoglianos, em torno por exemplo do celibato, dos “dubia” quanto à Amoris laetitia, do Sínodo da Amazônia, da Pachamama, etc. Não se trata de uma invenção da mídia ou de um jogo de cena. É que pela primeira vez desde o Concílio um progressista se torna papa, o que afeta aquele resquício de apego à tradição que têm os modernistas conservadores. Francisco adere ao mundo de modo muito mais despudorado que seus antecessores.
4) Por outro lado, todavia, em verdade é mais coerente que estes. Diz ele com perfeito e cru realismo: “Também no campo ecumênico o caminho vem de longe, com os passos de meus antecessores. Esse é o caminho da Igreja [pós-conciliar]. Não sou eu. Eu não dei nenhuma aceleração. À medida que seguimos em frente, o caminho parece ir mais rápido, é o ‘motus in fine velocior’”.
5) Cabe porém perguntar ainda uma coisa: se é indiferente para a Igreja a luta entre ratzingerianos e bergoglianos. E deve dizer-se que não. Sempre devemos rezar para que as coisas não piorem. Dizer-se indiferente a isto é postura que ao menos tangencia o sedevacantismo. Obviamente, se Sarah se fizesse papa, teríamos certo respiro; e, apesar de ao fim e ao cabo, por seu compromisso com o erro, ter por efeito próprio o esvaziamento da tradição, a hermenêutica da continuidade pode, acidentalmente, ao frear a velocidade da ação do mal, reacender de algum modo na Santa Sé o fogo da caridade verdadeira (Padre Calderón dixit). Ademais, tenhamos certeza de que, dado o caráter monárquico da Igreja, não haverá solução para sua terrível crise atual senão a partir de cima, ou seja, com a conversão de algum papa à tradição por moção do Espírito Santo (como, mutatis mutandis, ocorreu com Pio IX).
Observação: o Espírito Santo não deixa de atuar nem sequer sobre os papas problemáticos. É evidente que, quando se tornam papas, os modernistas se fazem mais conservadores em algum grau. Foi o caso claríssimo de Bento XVI, e é até o caso de Francisco, que negou, por certo apego à tradição, a ordenação de mulheres (“Quem quiser ordenar mulheres”, disse, “procure outra religião”) e acaba de excomungar um padre LGBT.

III
Os tradicionalismos

1) O tradicionalismo atual, que não se deve confundir com o tradicionalismo condenado pelo Vaticano I, começou ainda no Vaticano II com a organização do Coetus Internationalis Patrum, formado por vários padres conciliares (os cardeais Giuseppe Siri, Alfredo Ottaviani, Arcadio Maria Larraona Saralegui, Ernesto Ruffini, Michael Browne, Antonio Bacci, Benedetto Aloisi Masella, Francis Spellman,  Fernando Quiroga y Palacios, José María Bueno y Monreal,  Rufino Jiao Santos; os bispos ou arcebispos Marcel Lefebvre, Casimiro Morcillo González,  Geraldo de Proença Sigaud, Ermenegildo Florit,  Thomas Benjamin Cooray, Georges Cabana, Alfredo Silva Santiago,  Joseph Marie Anthony Cordeiro, Secondino Petronio Lacchio, José Maurício da Rocha, Antônio de Castro Mayer, Luis Carlos Borromeo, Luigi Maria Carli; o abade de Solesmes Jean Prou; além de 250 outros prelados participantes no Concílio). Seria ocioso dizer que este grupo se formou em reação às organizadíssimas correntes progressistas que estavam a dominar, por diversos meios, os trabalhos e as votações na aula conciliar. Mas o Coetus Internationalis Patrum não resistiria ao fim do concílio: o grupo desfez-se em multidão de atitudes diferentes ante o resultado do Vaticano II; e a atitude mais célebre foi a de Dom Marcel Lefebvre, que com o apoio de Dom Antônio de Castro Mayer fundaria a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ordenaria unilateralmente quatro bispos para preservar a fé e o sacerdócio, e seria, com seus quatro bispos e com Dom Antônio, iniquamente excomungado por João Paulo II. Mas a FSSPX tornar-se-ia a coluna da tradição, apesar de encontrar-se fora da jurisdição pela excomunhão de seus bispos, e apesar do fracionamento dos tradicionalistas em muitas correntes, a maioria das quais acabaria por empreender um acordo canônico com as autoridades vaticanas. (Note-se, porém, que Bento XVI suspenderia a excomunhão dos quatro bispos da FSSPX, o que, todavia, por diferentes motivos, não foi suficiente para que as duas partes chegassem a um acordo canônico.)
2) Para quem leu as duas primeiras partes deste opúsculo, seria muito de esperar que nesta parte tratássemos antes das divergências e antagonismos entre os grupos tradicionalistas que fundam suas diversas cristalizações, divergências e antagonismos esses que giram principalmente em torno da licitude ou ilicitude de um acordo canônico com o Vaticano neomodernista. No entanto, embora até uns quatro anos atrás nós também estivéssemos grandemente envolvido em tal disputa, hoje, tradicional independente, já não o estamos – e pretendemos mostrar aqui que o que essencialmente separa os tradicionalistas não é a questão canônica, mas algo que em princípio os divide independentemente dos grupos a que pertençam. Trata-se da divisão entre tradicionalismo “dócil” e tradicionalismo crítico. Esta divisão foi proposta primeiramente pelo Pe. Álvaro Calderón, em especial na segunda edição de seu La lámpara bajo el celemín (“A Candeia debaixo do Alqueire”), sem todavia o aspeado “dócil”, de que lançamos mão nós mesmo. Adotamos sua divisão, mas com desdobramentos por que somos de todo responsável.
3) Mas algo ainda prévio: o sedevacantismo. À primeira vista poderia parecer que os sedevacantistas constituem, eles também, um grupo tradicionalista. Não são todavia tradicionalistas. Como já se disse, sua doutrina é uma como vertigem e, como mostramos cremos que cabalmente no livro Do Papa Herético, implica a enormidade de que a Igreja teria acabado, contra as promessas de Cristo e contra o definido pelo Vaticano I. Não serão, portanto, levados em consideração aqui.
4) O que chamamos tradicionalista “dócil” é o que se funda de algum modo, em seu mesmo tradicionalismo, numa absoluta docilidade ao magistério da Igreja, e que reconhece a assistência do Espírito Santo não só para as definições infalíveis, mas, em algum grau ou de algum modo, para todos os atos de magistério autêntico. Se se opõe ao chamado magistério conciliar (ou seja, o do Vaticano II e dos papas que o seguem, exceção feita talvez e de certo modo, dizemo-lo nós, aos documentos referidos no item 2a da primeira parte deste estudo), se se opõe a ele, portanto, é porque ele mesmo rejeita tal assistência, ao depor sua autoridade e seu carisma para subordinar-se a um suposto senso da fé infalível de todo o Povo de Deus por si. O tradicionalismo “dócil” é a posição que se consolidou definitivamente com a referida obra do Pe. Calderón, de que nós mesmo somos caudatário. Mas note-se que, na citada segunda edição de La lámpara..., o Pe. Calderón, que é da FSSPX, arrola entre os tradicionalistas críticos o outro grande teólogo da mesma Fraternidade: o Pe. Gleize. Propõe-lhe ali, no entanto, uma conciliação doutrinal, e parece que tal conciliação se deu, porque, segundo nos dizem, a segunda edição de outro livro do Pe. Calderón, Prometeo o la religión del hombre, conta com um texto do mesmo Pe. Gleize. Deo gratias. Mas tampouco comunga do tradicionalismo “dócil” qualquer sacerdote que, por exemplo, rechace de algum modo as encíclicas Divino afflante Spiritu e Humani generis, de Pio XII, por considerar que facilitaram nisto ou naquilo o avanço do neomodernismo. Quanto à chamada Resistência, uma cisão mais recente da FSSPX, não nos sentimos seguro para dizer se nela há tal divisão entre tradicionalistas “dóceis” e tradicionalistas críticos.
5) Mas o tradicionalismo crítico subdivide-se.
a) Há, antes de tudo, tradicionalistas como os referidos no ponto anterior, os quais, por não entender que o conjunto do magistério autentico é assistido em algum grau pelo Espírito Santo, razão por que seus documentos não podem encerrar erros (quando muito, imprecisões), nem que ao Magistério conciliar não lhe podemos desobedecer senão porque ele mesmo depôs sua autoridade e carisma, se arvoram em juízes do magistério. É o caso por exemplo, ainda, de um Roberto de Mattei (vide seu livro Apologia da Tradição).
b) O segundo grupo de tradicionalistas críticos distingue-se por algo mais complexo. Vão desde a aceitação de alguns documentos do Vaticano II e do magistério conciliar (documentos que estão entre os descritos nos itens 2b e 2c da primeira parte desta série) até a aceitação "crítica" de todos os documentos do Vaticano II. No primeiro caso encontramos talvez (pelo que pudemos ouvir de apenas um de seus sacerdotes brasileiros) o Instituto Bom Pastor, entre outros. No segundo, tradicionalistas isolados como Dietrich von Hildebrand e Michael Davies. Especialmente estes têm de entregar-se a verdadeiros malabarismos mentais para justificar que, sendo de algum modo infalível (em sua opinião) qualquer concílio, não o seria de modo absoluto qualquer papa (que porém é superior a qualquer concílio, e sem o qual nenhum concílio pode ser infalível). Assim, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II não incorreria em desvio da fé, mas o Papa Paulo VI sim, de algum modo, ao instituir o “Novus Ordo Missae” em 1969.   
Observação final 1: naturalmente, nem sempre a fronteira entre os tradicionalistas críticos das duas subclasses descritas em 5b é perfeitamente nítida.
Observação final 2: uma última palavra. Definitivamente a FSSPX e a Resistência não são cismáticas, mas antes mantenedoras da fé e do sacerdócio, e devem dizer-se antes vítimas da iniquidade do neomodernismo vitorioso no Vaticano II.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Livros e cursos (atuais e futuros) de Carlos Nougué


UM “PSEUDO”


Carlos Nougué


Um pseudoteólogo e pseudológico olavete quer impugnar o tradicionalismo católico dizendo que o próprio do católico é a obediência e que não somos nosso próprio magistério. Pois bem, esse referido “pseudo” ou não entendeu ou finge que não entendeu o que diz o melhor tradicionalismo, ou seja: que de fato o próprio do católico é ser dócil ao magistério da Igreja, a ponto de só se poder criticar o magistério conciliar porque ele mesmo diz que não é magistério – em outras palavras, porque ele mesmo diz que não fala em pessoa de Cristo. Ele diz que é apenas representante democrático do Povo de Deus, e não seu docente sob a assistência do Espírito Santo, razão por que sua autoridade doutrinal é nula. Por favor, espiões, enviem este texto ao referido “pseudo”. Quem sabe tenha ele a humildade ou a capacidade de entendê-lo? Digam-lhe, ademais, que o que diz contra o tradicionalismo é pura petição de princípio. Mas não é ele gabado por ser um grande lógico?

terça-feira, 8 de setembro de 2020

PIO XII ÀS MULHERES E MENINAS CATÓLICAS



A MELHOR DESCRIÇÃO DA SEITA CONSERVADORA ATUAL E SEUS ALIADOS CATÓLICOS


“Nós percebemos a numerosa classe daqueles que consideram os fundamentos especificamente religiosos da civilização cristã [...] sem valor objetivo [para os dias de hoje], mas que gostariam de conservar o brilho exterior dela para manter de pé uma ordem cívica que não poderia passar sem tal. Corpos sem vida, acometidos de paralisia, são eles mesmos incapazes de opor qualquer coisa às forças subversivas do ateísmo” (Pio XII, Discurso à União Internacional das Ligas Femininas Católicas).