quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

A obra do historiador argentino Rubén Calderón Bouchet

                                                                                                                Carlos Nougué 

Em seu essencial El Reino de Dios – la Iglesia y el orden político, o Padre Álvaro Calderón escreve sobre seu pai o seguinte: “Como já começamos a fazer, tomaremos como guia para percorrer os séculos a Rubén Calderón Bouchet, o qual não só possui em alto grau as raras qualidades [de historiador] a que nos referimos, senão que, ademais, foi levado ao ponto que buscamos por um processo diferente e de certo modo contrário ao que nós seguimos. Nós transitávamos pelas alturas da especulação religiosa e descemos, sem querê-lo nem esperá-lo, ao terreno político, descobrindo a continuidade que há entre os dois. Calderón Bouchet sobrevoava as planícies dos fatos políticos e viu-se necessitado – não por preconceito clerical, podemos assegurá-lo, mas pela força da verdade – de alçar-se aos cumes da religião, descobrindo exatamente o mesmo”. Neste pequeno trecho escrito pelo filho está cifrada a concepção central do pai historiador: ou a história tem um fim transcendente, ou simplesmente não passará de mero suceder-se de momentos ordenado ao nada.

É vasta a obra de Rubén Calderón Bouchet (1918-2012): vai da Antiguidade até a atualidade, mas não como um suceder de “momentos” livrescos numerosos, e sim como um organismo que se desenvolve. Diga-se antes de tudo, transcrevendo a Antonio Caponnetto, que “se algo concorda com o magistério fecundo de Don Rubén é a juntura de três palavras: a luz que tudo acende e fulgura porque tem sua origem na única Luz da Luz, como se rezou para sempre em Niceia. O ágape, que traz as reminiscências mais nobres da helenidade, mas o fruto mais alto do banquete católico. E a cordialidade, que de coração procede, e que o Coração de Jesus tem por última fonte, tal como ensinou Pio XII na Haurietis Aquas”. Mas com isto ainda estamos nos preâmbulos. Porque, com efeito, diferentemente da mais larga maioria dos historiadores – incluindo os mais renomados –, Don Rubén escreveu seus muitos livros para mostrar que a disciplina da História tem um limite grave e insuperável: não é capaz de explicar cabalmente por si seu mesmo sujeito, seu mesmo objeto de estudo.

É que, como se não bastasse a razão para prová-lo, a própria realidade veio fazendo ruir todas as enteléquias imanentes que se foram dando à história desde o outono do Medievo: o domínio total da natureza pelo homem, como o queriam René Descartes e Francis Bacon; a liberdade e a democracia totais, como o queriam os iluministas e seus brutais agentes revolucionários; o fim do reino da necessidade, como o queriam Marx e seus sanguinários sequazes; conquanto alguns ainda insistam, nestes nossos tempos de tintas apocalípticas, em que o fim da história seja a eliminação de todos os freios às paixões, como o queriam Nietzsche, Freud, Marcuse, Foucault... Mas, se assim é, ou seja, se o fim da história não é imanente, não será senão transcendente – Deus e a completação do número dos que, por libérrima vontade Sua, O terão face a face por todo o sempre –; sendo porém transcendente, ou a disciplina da História se põe ao cabo sob as luzes da única disciplina que tem por sujeito o transcendente divino, a Teologia, ou será uma empresa frustrada.

Daí que, na vasta e orgânica obra de Rubén Calderón Bouchet, se destaque a trilogia composta por Formação da Cidade Cristã (que acabam de lançar entre nós as editoras Castela e Resistência Cultural), Apogeu da Cidade Cristã e Decadência da Cidade Cristã: com efeito, foi exatamente a Idade Média aquela que de longe melhor e mais se ordenou ao fim transcendente divino da história; e sua ruína, devida ao anseio burguês e régio de livrar-se da direção espiritual da Igreja para entregar-se sem jugo a suas mesmas paixões, implicou a deriva da maioria dos agentes humanos da história para os antípodas de seu fim último. 

Link para compra da Formação da Cidade Cristã:

https://www.resistenciacultural.com.br/formacao-da-cidade-crista-de-ruben-calderon-bouchet .

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

FELIZ E SANTO NATAL A TODOS, E BALANÇO E PERSPECTIVAS

                                                                                                                           Carlos Nougué 

I) Desejo-lhes a todos, antes de tudo, um santo e feliz Natal.

II) Faço depois uma brevíssima análise do mundo, em dois pontos.

a) Continuam os efeitos do castigo de Deus que é a atual pandemia: risco de guerra entre EUA e Europa, por um lado, e Rússia, por outro; inflação mundial, sobretudo no campo dos alimentos e da energia; crise energética; aumento do desemprego global; um coronavírus que segue mudando e matando, apesar do sucesso parcial das vacinas; etc.

b) Fim do ciclo da direita liberal-conservadora e/ou perenialista: derrota de Trump, provável derrota de Bolsonaro (aliás, os ratos já começam a abandonar o navio), vitória da esquerda radical no Chile, tudo em razão no só da mesma pandemia, mas da estupidez e irracionalismo desta direita e seus aliados católicos conservadores, incapazes de fazer efetiva frente à revolução global-marcusiana.

III) Perspectivas para meu trabalho em 2022.

a) Em agosto próximo, gravarei a última aula da Escola Tomista, que cumprirá então os cinco anos previstos, com ordenados início, meio e fim. Naturalmente, a Escola continuará no ar e aberta sempre a novos alunos, e eu continuarei a responder a suas dúvidas. Mas sem dúvida alguma – dever cumprido.

Observação: impressionantemente, a Escola Tomista vem mantendo desde o início o mesmo número médio de alunos. Graças a Deus, e grato a todos.

b) Serão lançados durante o ano três novos livros meus, cujo título e data precisa ainda não posso dizer por razões editoriais. Talvez, porém, saia um quarto.

c) Estarei envolvido de algum modo no lançamento de quatro importantes traduções, duas delas minhas.

IV) Recomendação a meus alunos (alunos em sentido lato): deem o mais possível as costas ao mundo, nunca se voltem contra a fé em razão de adequação às coisas efêmeras desse mesmo mundo, e confiem sempre nos desígnios de Deus, ainda quando não os possamos entender. A cada dia seu cuidado. De minha parte, asseguro-lhes: não vivo senão para minha família, para meus livros e cursos (e para meus alunos), para meus estudos, e sobretudo, claro, para Deus. E que ladrem os cães famintos de sucesso, que a verdade passa imperecível. 

domingo, 12 de dezembro de 2021

COMO O HOMEM CONHECE – OU MINHA ÚLTIMA PALAVRA SOBRE ESTA QUESTÃO

                                                                                                                   Carlos Nougué 

Desde que há 25 anos comecei a estudar a doutrina de S. Tomás, deparei com alguns pontos que só tempo me permitiu compreender perfeitamente, ou mais perfeitamente, desentranhando-lhes o sentido original, o que não raro se mostra difícil pelo modo lacônico do nosso Mestre de expor. Esse laconismo é fundamental em vários sentidos, incluindo o deixar aos seguidores de Tomás a salutar tarefa de explicitar o não expresso e, em decorrência, muitas vezes, aprofundá-lo. É o que, por exemplo, fez Santiago Ramírez O.P. com respeito à analogia, e o que faz o P. Álvaro Calderón com respeito ao amor. Se porém tal laconismo é fundamental, não raro todavia se faz ocasião de erro por parte dos tomistas, sobretudo se a ele se junta o uso por Tomás de terminologia algo inadequada – ou antes, aviceniana ou boeciana ou, até, agostiniana – para tentar fazer que sua ampla audiência compreendesse uma doutrina, a tomista, absolutamente nova. E, com efeito, foi o que se deu com a tese-eixo da doutrina do Mestre: a distinção real entre essência e ser ou ato de ser, a qual só hoje, com o P. Calderón, se mostra íntegra, na esteira dos esforços muito importantes mas algo parciais de Cornelio Fabro.

Pois bem, algo análogo se dá com a questão do modo humano de conhecer. Não me refiro, naturalmente, à tão equivocada doutrina de Xavier Zubiri; mas à dificuldade que temos todos os tomistas em desentranhar de S. Tomás o que ele efetivamente pensava do assunto em seus múltiplos aspectos. Ademais, também aqui a doutrina de Tomás de Aquino progrediu desde sua fase jovem até sua fase sênior. Não, entenda-se bem, não que S. Tomás tenha mudado simpliciter ou essentialiter de doutrina, senão que, sim, a aprofundou, a poliu, a despiu de influências avicenianas, boecianas e agostinianas, e a expurgou de defeitos ou impurezas, para mostrá-la como ouro puro na Suma Teológica. Mas temos aqui um agravante: é que Tomás, como aliás todos os aristotélicos e todos os escolásticos aristotélicos, usa os termos referentes a este modo de conhecer de modo demasiado plástico ou análogo, muitas vezes sem lhe dar maior precisão. É o caso do termo imaginação: Tomás ora significa com ele o sentido interno da imaginação ou fantasia, ora significa o conjunto dos quatro sentidos internos. Ademais, quanto, por exemplo, aos fantasmas, diz ora que são formados pela imaginação (qual? o sentido interno da fantasia ou o conjunto dos sentidos internos?), ora que são preparados pela cogitativa. Esta é a razão, aliás, de que Martín Echavarría, em seu estupendo A Práxis da Psicologia – ao menos na versão original, espanhola –, atribua ao sentido da imaginação a formação dos fantasmas, sem nunca referir que seja a cogitativa a que os prepara; fica parecendo assim que, para ele, Martín, a cogitativa não intervém para nada na formação dessas imagens sensíveis. Não posso senão discordar.[1] O que contudo importa dizer ou repetir aqui é duplo. Primeiro – como se pode ver até por vídeos meus postados em meu canal do Youtube e por opúsculos da década de 2000, alguns dos quais longos, que hoje todavia desautorizo –, a questão do modo humano de conhecer sempre esteve, com outras, no centro de meus interesses filosóficos. Segundo, que quanto a esta questão vim mudando evidentemente, ainda que não essencialmente; o que se pode constatar se se compara o tratado de Psicologia que gravei (há um ano) para a Escola Tomista com o que se lerá aqui, abaixo. Com efeito, esta é minha última palavra sobre o assunto. Estarei, nesta última palavra, perfeitamente de acordo com a mente de S. Tomás sobre esta questão? Quero crer que sim, ou pelo menos de acordo com as consequências que se podem e devem tirar do que se lê no Mestre sobre o modo humano de conhecer, saltados os escolhos dos referidos laconismo e polissemia com que Tomás tratou todo o implicado neste assunto.[2] Assim, ei-la, esquematicamente:

1) Os sentidos externos (tato, paladar, olfato, audição e visão), reduzidos a ato pelas espécies sensíveis das coisas sensíveis, enviam suas captações parciais, por exemplo de uma maçã, desta maçã, ao sentido comum.

Observação: são quatro os sentidos internos, e dividem-se em dois pares: sentido comum/imaginação ou fantasia; e cogitativa/memória – todos localizados em nosso cérebro.  

2) O sentido comum unifica as captações parciais enviadas pelos sentidos externos e produz uma só imagem da coisa singular: ainda por exemplo, desta maçã. Ou seja, o sentido comum é produtivo.

3) O sentido comum envia esta imagem ou fantasma para a imaginação ou fantasia, que o guarda ao modo de memória. Ou seja, a imaginação é retentiva; razão por que, como diz S. Tomás, é um tesouro de imagens

4) A cogitativa – nosso sentido interno superior – prepara um fantasma, digamos, de nível superior: já não a imagem ou fantasma, por exemplo, desta maçã, mas um fantasma que reúne todos os fantasmas de maçãs que estão retidos ou guardados na imaginação: fantasmas de maçãs grandes e pequenas, verdes ou vermelhas, suculentas ou farinhentas, etc.

5) O fantasma da cogitativa é, por um lado, guardado ou retido na memória, e, por outro, é “exposto” para que o intelecto agente o ilumine e abstraia dele a espécie inteligível, ainda por exemplo, da maçã. A abstração da espécie inteligível já não se dá no cérebro, mas na parte intelectiva e pois espiritual da alma, ainda que, obviamente, para proceder a ela o intelecto agente tenha tido de contar com o concurso dispositivo da cogitativa e seu fantasma.

6) O intelecto agente, então – e agora já não só não se está no cérebro, senão que já nem sequer se requer o concurso dispositivo da cogitativa e seu fantasma  –, imprime esta espécie inteligível no intelecto possível, que, reduzido assim a ato, pode empreender suas três operações. – Mas atenção: de certo modo, a única espécie inteligível é a do ente. Veja-se o que se diz a seguir e que tem relação com isto. 

a) A primeira operação do intelecto possível é chamada simples apreensão ou inteligência dos incomplexos, e sua obra é o conceito ou definição. Mas atenção: de certo modo, o único conceito da primeira operação do intelecto é o de ente, reduzindo-se de alguma maneira todos os outros – tanto os transcendentais como os predicamentais – a este quer como adições quer como modalizações ou categorizações, como aliás o diz de certo modo o mesmo Tomás de Aquino jovem em De veritate

b) A segunda operação do intelecto é o juízo ou composição ou divisão, de caráter duplamente reflexivo, e onde residem a verdade e a falsidade. Assinale-se porém que – tão corretamente segundo a mente de Tomás, ainda que contra a mente de todos os outros tomistas, aqui (como em muitos outros pontos) antes caetanistas que tomistas – Calderón demonstra cabalmente em El orden sobrenatural que não só a verdade enquanto adequação do intelecto à coisa já se encontra de algum modo na primeira operação, senão que ao cabo desta mesma operação já se dá um retorno ao fantasma mediante uma reiluminação deste pelo intelecto agente. A obra da segunda operação é a proposição.

c) A terceira operação do intelecto, por fim, é o raciocínio, cuja obra é a argumentação. E, enquanto as duas primeiras operações são do intelecto enquanto intelecto, a terceira é do intelecto enquanto razão – porque nesta se discorre do desconhecido ao conhecido por um meio ou termo médio que é ou a causa (e temos a demonstração propter quid, a mais propriamente científica), ou algum efeito que faz as vezes da causa (e temos a demonstração quia, como nas cinco vias tomistas que provam que Deus é).

Observação final 1: para surpresa dos zubirianos, S. Tomás diz que o conhecimento de nosso intelecto pode dizer-se, sim, sensível, ainda que só per accidens; ao passo que Zubiri diz que nossa inteligência é per se senciente ou sentinte  o que obviamente conduz à negação da imortalidade da alma. É o passo do equilíbrio de Tomás ao anseio de novidade de um filósofo, Xavier Zubiri, talentoso, mas malogrado justamente por tal anseio cartesiano de reinventar do zero a filosofia.   

Observação final 2: o maravilhoso esquema que se vê abaixo é de Urlan Salgado de Barros, a quem o agradeço. Clique-se nele para vê-lo bem.



[1] Atenção: isto absolutamente não quer dizer que eu não recomende seu livro. Não só acima já o disse estupendo, mas o cito largamente em Da Arte do Belo e até já comprei sua edição brasileira, pelo Centro Dom Bosco. Gostaria, no entanto, de deixar consignada aqui uma divergência de fundo quanto à mesma doutrina geral de Echavarría: o que ele chama Psicologia parece ser um misto das duas ciências que, com fundamento efetivo em Aristóteles e em S. Tomás, tenho por perfeitamente distintas: por um lado, a Psicologia ou ciência da alma e de suas potências; por outro lado, a Ética ou ciência do agir monástico ou individual, a qual é o que correntemente e erroneamente se vem chamando desde há muito tempo Psicologia e envolve o estudo das patologias da alma. E esta disjunção é para mim radical, sem concessão, como bem o sabem meus alunos da Escola Tomista. Mas compreendo perfeitamente que Echavarría não possa proceder assim, dada sua vida profissional e seu interesse na aplicação, digamos, clínica de sua ciência.

[2] Ademais, este brevíssimo opúsculo disponibilizá-lo-ei aos alunos da mesma Escola Tomista, como material de estudo do tratado da Psicologia.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

NADA DE NOVO NO FRONT – APENAS OLAVO SENDO OLAVO

                                                                                                                         Carlos Nougué 

Como não sou de fazer nada artificial, digo desde já que só escrevo este texto porque mo pediram alguns de meus mais queridos amigos. Não fosse isso, não o teria feito, justo porque estou em plena atividade febril de escrever livros – há exatos 30 dias, afastado que estou de redes sociais, etc., venho escrevendo 15 páginas diárias. Façam as contas, e verão quão difícil me foi afastar de tão grata atividade para ocupar-me de uma tristeza chamada Olavo de Carvalho. Mas, como dito, aos amigos tudo.

Pois bem, leiam antes de tudo o post do mesmo OdC que colo abaixo, e verão que nem a experiência de quase morte foi capaz de corrigir esse senhor. Ele continua a ser exatamente o mesmo: como filósofo, é um bom detrator; suas postagens são como estrebuchamentos, como ataques furibundos de apoplexia mental; e suas refutações reduzem-se a argumentos ad hominem, ou seja, a desqualificar o adversário sem de modo algum responder ao que ele diz. Pois bem, vejamos rapidamente as falácias contidas não só neste pequeno amontoado de sem-razões e em outros que escreveu OdC em seguida a este.

1) A amizade entre Bezerra e mim funda-se em dupla coisa: antiga convivência familiar e religiosa, e a verdade. Não tem nada que ver com uma aliança contra o Senhor Megalomaníaco, embora tenha, sim, que ver, quanto à nossa manifestação pública, com uma atuação contra os inimigos da verdade em geral. E acontece que OdC é um deles: é representante de uma das cabeças da hidra revolucionária – a liberal ou liberal-conservadora –, enquanto a outra é a global-marcusiana.

2) Ademais, messiânico de primeira ordem, OdC é que sempre teve a pretensão de ele mesmo recuperar o Brasil – quiçá o mundo – das mãos da esquerda global-marcusiana (que o Prometeu-mor insiste em transformar em “comunista”, porque sem este espantalho ele não teria nada para mostrar), recuperar o Brasil, digo, para entregá-lo de novo à raiz revolucionária última da própria esquerda global-marcusiana: o liberalismo, ainda que tingido por OdC e por Steve Banon de “conservadorismo”. Quanto a Bezerra e a mim, e contra o que quer mostrar o Sr. Narciso, dizemos e redizemos que marchamos para o Anticristo e que não haverá recristianização do mundo (pelo menos até a morte do homem de iniquidade final; mas para mim nem depois disto). Por isso, quem quer ter o monopólio da educação católica? Dois homens absolutamente isolados, minúsculos, marginalizados por todas as vertentes revolucionárias, incluindo a sua, e que afirmam e reafirmam expressamente que não têm por fim senão dizer a verdade, não modificar nenhum país, nenhum mundo, por impossível? Não: quem tem esse fim é OdC, mediante seus aliados católicos, seus braços eclesiásticos, seus tentáculos institucionais. E para que querem OdC e seus sequazes consegui-lo? Justamente para tirar o ensino dos católicos das mãos de uma das cabeças da hidra revolucionária, a global-marcusiana, para – insista-se – retorná-la às mãos da outra cabeça da mesma hidra, a liberal fantasiada de conservadora. É este o fim último do Sr. Roubador do Fogo dos Deuses e de seus seguidores, católicos ou não.

3) Ademais – e aqui não faço senão reproduzir argumentos de outros relativos a outros posts que o que colo abaixo, os quais argumentos, porém, faço meus –, OdC pensa que a fidelidade que todo católico deve ter à doutrina de Cristo e do magistério da Igreja é como “pôr um disco com o catecismo para tocar”, excluindo assim a especulação ou a “técnica filosófica” propriamente dita. Pensa ele, como perfeito Prometeu, que a fidelidade à doutrina de Cristo e do magistério como “ponto de partida” é certa “preguiça de pensar” ou certa “falta de segurança” própria de personalidade fracas – exatamente como pensava Nietzsche! – que buscam estribar-se numa autoridade coletiva por medo ou incapacidade de construir a sua própria voz (ou seja, que não atingiram a famosa “oitava camada” e, portanto, insista-se, sua própria voz). – Mas isto é o mesmo de sempre: para OdC, se o filósofo leva em consideração a doutrina católica, deixa de fazer filosofia. O catolicismo do filósofo só influencia sua filosofia na medida em que faz parte da sua experiência pessoal da realidade – e dá-lhe perenialismo! A concordância entre sua filosofia e a doutrina católica, no fundo, é uma aposta; e deve ser verificada a posteriori. O filósofo católico só pode rezar para que suas opiniões estejam de acordo com a doutrina da Igreja. Na prática, é como se tivesse de fingir que desconhece a doutrina católica. Do contrário, não passa de um embusteiro que pretende falar em nome da Igreja e mesmo ter o monopólio da educação católica. Mas o arrogante desprezo da doutrina de Cristo e do magistério Odc o muda em pseudo-humildade; enquanto a humilde submissão à doutrina católica OdC a muda em arrogância santarrona. Em uma palavra nua e crua, ele põe a autoconsciência filosófica acima da doutrina ensinada por Cristo mesmo, doutrina que OdC chega a negar apesar de Nosso Senhor mesmo ter dito a seus apóstolos e discípulos: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações o que vos tenho ensinado”. Ou seja, O Salvador da Pátria emite opiniões semelhantes à dos perenialistas no ato mesmo de negar que tem qualquer influência do perenialismo...

4) Nada de novo no front – como todo liberal, OdC considera a doutrina de Cristo e a autoridade do magistério como uma opressão, como um constrangimento da liberdade, que para todo liberal é seu verdadeiro Deus; ao passo que para o católico a doutrina cristã, os dogmas e a autoridade do magistério da Igreja aperfeiçoam a liberdade, porque lhe dão a única rocha firme sobre a qual pode erguer-se. Deus não se engana nem pode enganar-nos; mas o deus liberdade do liberal são as próprias portas do inferno, em todos os sentidos que se podem dar a esta expressão.

5) Comentário final: eu bem o conheço o Sr. OdC, e sei que estas suas canhestras postagenzinhas são só um balão de ensaio para uma longa campanha de detração de Bezerra e de mim, regida por ele e executada por sua legião de sequazes, sob o silêncio cúmplice de tantos católicos que não constituem senão uma das engrenagens de sua poderosa seita. Mas saiba OdC que não reagirei (falo só por mim). E sabe por quê? Não porque me falte coragem para fazê-lo – coisa que OdC bem sabe não me falta, não? –, a mesma coragem que falta a tantos hipócritas sequazes seus que de fachada se mostram perfeitamente católicos mas são incapazes de sequer levantar um dedo em defesa de irmãos da fé que são atacados por uma olavosfera nada católica. Não, repito-o, por falta de coragem. Apenas porque tenho dez ou mais livros que lançar em dois anos, e vou dedicar-me quase que exclusivamente a escrevê-los. Ademais, como verão o Sr. Umbigo do Mundo, que não é um estúpido, e alguns poucos de seus seguidores que ainda não tenham a mente de todo obnubilada por sua ideologia, meus livros porão a nu o que é sua filosofia, o que é a filosofia do Sr. Falacioso de Carvalho: uma colcha de retalhos de um perenialismo mitigado que em parte considerável se identifica com o modernismo anatematizado por S. Pio X na Pascendi. Sim, já sei que o Sofista-mor dirá que quem é perenialista não pode ser modernista e vice-versa. Quanto a isto, OdC terá brevemente uma bela surpresa  e não de minha parte nem da de bezerra  pela qual ficará evidente que essa sua maliciosa disjunção não é senão parte de suas artes de berliques e berloques. Que ele espere um pouco só, sim? Mas digo desde já: é o mesmo Sr. Modernoperenialista Mitigado quem diz  em Visões de Descartes que ao fim e ao cabo apoia o cartesianismo – e como não o faria, se, como dito, é movido por irrefreável impulso messiano-prometeico? É ele mesmo quem diz em Mário Ferreira dos Santos: Guia para o Estudo de Sua Obra que a Filosofia Concreta de Mário Ferreira tem concatenação lógica maior que a dos tratados escolásticos (com o que, claro, estava errado o magistério da Igreja ao aprovar as 24 teses tomistas e ao dizer, por Pio XI, que a doutrina tomista é a única que a Igreja fez sua). É ele mesmo quem defende em Inteligência e Verdade: Ensaios de Filosofia o seu chama-do intuicionismo radical, essa estultícia condenada pela Pascendi de São Pio X. É ele mesmo quem diz em A Consciência da Imortalidade que conhecemos a alma humana por experiências como a de quase morte (oh!). Et reliqua, ad nauseam. Mas, insisto, que OdC não me tema a mim grandemente: em meus livros só falarei dele muito marginalmente e en passant, porque de um filósofo que diz que tudo quanto diz não é senão provisório não há muito que dizer filosoficamente. Não obstante, nestes livros falarei, sim, reduzindo-a ao absurdo, da filosofia do ocasionalista e panenteísta mitigado Louis Lavelle, que OdC diz ser o apogeu da filosofia cristã e que no entanto é de algum modo da mesma corrente de Maimônides, dos Loquentes islâmicos, de Malebranche, de Berkeley: ou seja, dos que negam que os entes criados por Deus tenham potências e operações próprias; e de algum modo da mesma corrente dos perenialistas Guénon e Schuon, e sua comunidade unívoca do ente que engloba também a Deus.

Agora, digo ao Sr. OdC e a mim mesmo mãos à obra: a mim, que volte a escrever livros, e a ele, que me detrate e detrate, que me ofenda e ofenda – porque, com efeito, cada um age segundo seu ser.