quarta-feira, 30 de junho de 2021

ALEGRAR-SE OU ENTRISTECER-SE COM A MORTE DO SERIAL KILLER LÁZARO?

                                                                                                                           Carlos Nougué

 Uns dizem que devemos alegrar-nos com sua morte porque assim se protege a sociedade. Outros dizem que não devemos alegrar-nos com ela porque, como se lê em Ezequiel, Deus não se alegra com a morte do pecador. No entanto, o correto quanto a este assunto reside, uma vez mais, no justo meio; e este quase sempre requer explicação algo longa. Vamos pois a esta.

1) Antes de tudo, Deus de fato não se alegra nem se entristece com nada, porque não é sujeito de paixões, como o somos nós. Quando se lê nas Escrituras que Deus se ira, ou se alegra, ou se entristece com algo, trata-se sem dúvida de metáfora, assim como as mesmas Escrituras falam metaforicamente do braço de Deus para indicar sua virtude operativa.

2) No caso da passagem de Ezequiel, trata-se antes da morte espiritual – ou seja, a segunda morte do Apocalipse, ou seja, a condenação eterna ao lago de fogo e de enxofre – que da morte física do pecador, ou de sua morte física pela qual morre em pecado mortal.

3) Isto nos remete à questão de se Deus quer a salvação de todos ou a salvação de alguns e a condenação de outros. Já o tratei no opúsculo “Se Se Deve Rezar pela Salvação do Mundo” (in Do Papa Herético e outros opúsculos), e reproduzo-o resumidamente aqui. Com efeito, para conhecer se Deus quer a salvação de todos os homens (ainda que, como diz o Concílio de Quiersy, nem todos se salvem, porque, como visto, para punir o pecado, Deus exerce sobre alguns sua justiça), há que recorrer antes de tudo à distinção entre vontade antecedente e vontade consequente segundo o que diz São João Damasceno (De fide orthod., 1.2 c. 29: MG 94, 968 C-969 A). Naturalmente, como escreve Santo Tomás de Aquino (Summa Theol., I, q. 19, a. 6, ad 1), “essa distinção não se toma da parte da própria vontade divina, em que não há antes nem depois, mas da parte das coisas que ele quer”. Sigamos porém a argumentação de Santo Tomás nesse mesmo lugar. Com efeito, qualquer coisa, na medida em que é boa, não pode não ser querida por Deus. Sucede porém que algo considerado à primeira vista pura e simplesmente bom ou pura e simplesmente mau pode, se considerado por algum outro aspecto que se lhe acrescente, revelar-se o contrário. Por exemplo, em termos absolutos, um homem estar vivo é um bem, enquanto matar outro homem é um mal; mas, como um assassino é uma ameaça a alguém em particular ou à comunidade, e é pois um mal, é um bem que alguém o mate em legítima defesa ou que o próprio estado lhe tire a vida. Decorre daí que, sem perder a justiça, um juiz possa querer com vontade antecedente que todo homem viva, mas com vontade consequente que o assassino perca a vida. “Similarmente”, diz ainda Santo Tomás, “também Deus quer, quanto à vontade antecedente, que todos os homens sejam salvos, mas, quanto à vontade consequente, quer que alguns sejam condenados, segundo a exigência de sua justiça”. Há mais, todavia: mesmo o que queremos com vontade antecedente, não o queremos pura e simplesmente, mas por certo aspecto, segundo algo. Com efeito, a vontade relaciona-se às coisas tais como elas são em si mesmas, e por isso, diz ainda o Doutor Angélico, “queremos absolutamente uma coisa quando a queremos levando em conta todas as circunstâncias particulares” – o que, precisamente, é querer com vontade consequente. Por essa razão, completa Tomás de Aquino, “podemos dizer que o juiz justo quer absolutamente que o assassino seja enforcado, ainda que por certo aspecto quisesse que vivesse, ou seja, enquanto é um homem”.Assim, quando São Paulo diz a Timóteo (1, 2-4) que “Deus quer que todos os homens se salvem”, di-lo com respeito à vontade antecedente segundo o explicado por São João Damasceno. – E diga-se o mesmo quanto ao dito em Ezequiel.

4) Quanto a nós, Deus quer que queiramos pura e simplesmente a salvação de todos, razão por que, através do Anjo, Nossa Senhora nos mandou rezar: Ó meu Jesus, [...] levai as almas TODAS para o céu”.

5) Quanto porém se devemos sentir alegria ou tristeza pela morte de Lázaro, trate-se a modo de conclusão.

a) Antes de tudo, e ao contrário de Deus, nossa alma é sujeito de paixões (como vou dizendo agora mesmo no tratado da Ética da Escola Tomista), e alegramo-nos pelo bem alcançado e entristecemo-nos pelo bem perdido.

b) Mas a morte de Lázaro, e tal como se deu, é um óbvio bem para a sociedade, conquanto implique muito provavelmente a condenação eterna do assassino, o que do nosso ângulo, justamente porque devemos querer a salvação de todos, é certamente um mal.

c) Logo, devemos alegrar-nos pelo bem alcançado por sua morte e entristecer-nos com a muito provável perda eterna de sua alma.

sábado, 12 de junho de 2021

Observações sobre a influência do ocultismo no discurso católico tradicional (parte 2 de oito partes)

 Alistair McFadden

Tradução

Danilo Rehem

 

Parte II:

Perenialismo e a “Unidade Transcendente das Religiões”

 

Em 2005, o mencionado autor Stratford Caldecott, publicado quatro vezes pela Angelico Press, postou - com aprovação, ao que parece - o texto de uma carta enviada a ele por seu colega, também escritor com obras publicadas pela Angélico, Professor Wolfgang Smith, no fórum da Internet da Second Spring, uma empresa fundada por Stratford e sua esposa que “oferece serviços editoriais e educacionais no campo da fé e da cultura”. Até o momento, esta organização publicou um total de onze livros sob seu próprio selo “Second Spring” com a Angelico, que lamentou a morte de Caldecott (que faleceu em 2014), se referindo a ele como “uma luz orientadora para todos nós da Angelico Press”. A carta do Prof. Smith diz, em parte:

“Só recentemente (talvez no ano passado ou retrasado) é que finalmente pareço ter feito as pazes com a doutrina da UT [Unidade Transcendente] ...

Estou plenamente convencido de que HÁ uma unidade transcendente, da qual toda religião autêntica constitui uma manifestação desejada por Deus. Parece-me que esta unidade transcendente é de fato a pérola da verdade consagrada em cada religião, que os fiéis estão destinados a descobrir e tomar posse no final do caminho, quando terão, Deo volente, alcançado o que o Cristianismo chama theosis; pois, de fato, essa verdade não é mais uma questão de doutrina, de concepções teológicas ou metafísicas, mas é o próprio Deus: Eu sou a verdade, disse Cristo “.

Do meu ponto de vista simples de leigo, não consigo compreender como esta “unidade transcendente das religiões” difere materialmente da afirmação: “O pluralismo e a diversidade das religiões ... [é] querido por Deus em Sua sabedoria”, para o qual o Papa Francisco controversamente deu consentimento papal quando assinou o Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e da Convivência Comum em 2019, e pelo qual foi tão duramente criticado nos círculos católicos tradicionais, não menos pelo Dom Athanasius Schneider,  grande defensor da Fé em nossos tempos. Com efeito, quando muito, a carta de Wolfgang Smith vai ainda mais longe, tornando explícito o que aquele documento apenas implica; a saber, que Deus deseja positivamente uma multiplicidade de religiões. E, no entanto, esta parece ser uma opinião compartilhada pelos principais autores da Angélico, que veem Stratford Caldecott – “Strat” para seus fãs – como seu líder visionário. [1]

Eu exagero? Eu acho que não. Outra evidência do consenso de “unidade transcendente” que existe na Angelico Press pode ser encontrada em outra de suas editoras, a “Sophia Perennis”, sob a qual a Angelico publicou dezenove títulos até agora, tornando-se a principal impressão especial da Angelico. Pertence a uma editora de mesmo nome, dirigida pelo cofundador da Angelico Press, James Wetmore [2], cujo site declara sua missão nos seguintes termos:

“Sophia Perennis se dedica a publicar os melhores escritos contemporâneos sobre as tradições de sabedoria do mundo, principalmente de uma perspectiva tradicionalista ou ‘perenialista’, bem como reimprimir clássicos reconhecidos. Tentamos permanecer fiéis aos princípios centrais tradicionalistas - notadamente a Unidade Transcendente das Religiões - ao explorar novas aplicações desses princípios, bem como retornar às próprias grandes Revelações para um novo insight. “

De acordo com a página “FAQ” de Sophia Perennis, a “regra” principal do Tradicionalismo / Perenialismo - doravante usarei este último termo ao me referir à escola filosófica para evitar confusão com o tradicionalismo católico - é que “um tradicionalista deve permanecer fiel em sua prática pessoal para uma e apenas uma das Tradições reveladas ... “A este respeito, a Escola Perenialista se posiciona em oposição ao sincretismo religioso (como defendido pela Teosofia ou pelo New Age, por exemplo):

“O tradicionalismo rejeita todo sincretismo. As diferenças entre as religiões são tão providenciais quanto os aspectos que elas têm em comum. Misturar religiões é como tentar trilhar caminhos separados, mas paralelos ao mesmo tempo; não pode ser feito, exceto na fantasia. As religiões verdadeiras e reveladas foram todas enviadas pela Realidade Absoluta, bem como remetem e garantem acesso a essa mesma Realidade, mas seus caminhos não convergem neste mundo; a unidade das religiões existe apenas no transcendente. Assim, o Tradicionalismo, enquanto permanecer fiel aos seus primeiros princípios, é totalmente contrário a todas as tentativas de reunir as religiões do mundo sob uma autoridade não religiosa, ou de criar uma religião mundial. “

Isso, entretanto - como qualquer leitor católico reconhecerá imediatamente - é puro indiferentismo religioso; como tal, cai na mesma categoria de erro do sincretismo ao qual pretende se opor. O autor da seção “FAQ” da Sophia Perennis, reconhecendo este aparente paradoxo, procura resolvê-lo perguntando e respondendo às seguintes perguntas:

“O tradicionalismo implica que somos obrigados a nos comprometer seriamente com UMA das religiões reveladas. Isso não entra em conflito com a ideia de que mais de uma religião é válida? Como você pode assumir um compromisso sério com uma religião se não vê essa religião como a própria Verdade?

“A única maneira, em última análise, é desenvolver um senso tão profundo e inabalável de Deus ou Realidade Absoluta, que Ele mesmo, e não sua religião particular, se torne o foco principal de sua fé - e então entender seu caminho religioso como um dom incomparável dado a você por Aquele Que especificamente o chamou para se aproximar Dele por meio desse dom. Sua religião torna-se então, como seu amado humano, sua ‘única’; compará-la com outras religiões é inútil, irrelevante - na verdade, um insulto Àquele que o chamou a Ele por meio disso - uma vez que tais comparações exigem que você desvie sua atenção Dele e se concentre em questões secundárias. Ao buscar a Unidade Transcendente das Religiões, você aprende como deixar os outros seguirem seus próprios caminhos, e descobrir (se Deus quiser) que seu único dever é seguir seu único caminho até o fim.”

Esses “assuntos secundários”, é claro, são as diferenças doutrinárias óbvias que existem entre as múltiplas religiões do mundo. No jargão perenialista, eles são referidos como representações meramente circunstanciais, “exotéricas” (externas e superficiais) de verdades universais, “esotéricas” (internas e profundas); quem leva a primeira opção muito a sério - evangelizando não católicos, por exemplo - está perdendo o foco.

É somente trabalhando a partir de tal premissa que se pode chegar à conclusão do próprio Professor Wolfgang Smith da Angelico, “que a verdade não é mais uma questão de doutrina, de concepções teológicas ou metafísicas, mas é o próprio Deus: Eu sou a verdade, disse Cristo.” Embora não sem uma certa lógica interna, é revelador que esta conclusão requer do perenialista cristão uma abreviatura bastante dissimulada da declaração de Nosso Senhor: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14: 6) Cristo, em outras palavras, devidamente entendido, não é apenas o destino final (“a verdade”), para ser “tomar posse no final da estrada”, como Smith imagina, mas é também a própria estrada (“o caminho”); na verdade, a estrada única e exclusiva, contra o perenialismo.

Qualquer esforço para forçar a fixação do Cristianismo - e do Catolicismo especialmente - no buraco redondo do Perenialismo invariavelmente mutila tanto a Escritura quanto a Tradição. Veja, por exemplo, essa tentativa do falecido Professor James S. Cutsinger, outro estudioso cristão da Escola Perenialista, de reconciliar sua fé com sua filosofia em um ensaio que ele contribuiu para Christianity: The Complete Guide: “Deve ser admitido”, ele escreve, “que o Cristianismo tradicional é amplamente hostil à filosofia perene ...

“De acordo com [Frithjof] Schuon e outros perenialistas, essa atitude dominante entre os cristãos não é surpreendente, nem deve ser questionada sua utilidade para a vasta maioria dos crentes. O objetivo de qualquer religião é garantir a salvação do maior número de pessoas possível, e a maioria das pessoas, sejam cristãs ou não, são capazes de levar sua tradição a sério apenas se forem persuadidas de que é a melhor, se não a única, maneira de chegar a Deus ... “

[Há ecos aqui de Valentin Tomberg (ver Parte I deste ensaio), que supostamente impressionou um de seus discípulos - note bem, após sua conversão ao catolicismo – sobre a importância de “Viver na Tradição! Somente aquele com gênio deve (e pode) transcendê-lo.” Os tons gnósticos são inconfundíveis; as verdades mais elevadas, profundas e puras devem permanecer veladas e inacessíveis ao homem comum, e ensinadas apenas aos iniciados.]

“... Os críticos argumentaram que o Novo Testamento, tomado como um todo, se opõe à filosofia perene, e isso é em geral verdade ... Mas para o perenialista isso simplesmente mostra que o objetivo principal das religiões do mundo, começando com suas escrituras e autoridades apostólicas, é ajudar seus adeptos a permanecerem focados em uma única forma de verdade salvadora, não para lançar as bases para o diálogo inter-religioso. Por outro lado, dada a origem comum das religiões em uma Fonte transcendente que, como as próprias tradições atestam, ultrapassa infinitamente até mesmo suas próprias autoexpressões, é da natureza das coisas que as formulações escriturísticas e dogmáticas de cada religião devem incluir certas aberturas ou pistas para a validade subjacente da filosofia perene ...

“Seguindo o fio das pistas [como encontradas no Cristianismo], começa-se a sentir que o Filho ou o Verbo, longe de estar limitado a uma única religião, é o princípio divino por trás de toda revelação e a fonte eterna de salvação em toda autêntica tradição. Embora verdadeiramente encarnado como Jesus Cristo no cristianismo, ele é salvificamente atuante nas religiões não cristãs e por meio delas também. Em algumas ele está presente de forma igualmente pessoal, como em Krishna e os outros avatares hindus, nos quais ele também foi ‘feito homem’ (Credo Niceno), enquanto em outros ele aparece de forma impessoal, como no Alcorão do Islã, onde se fez livro ... “

Que Nosso Senhor é simultaneamente um homem, um livro e um demônio - “Porque todos os deuses dos gentios são demônios ...” (Salmo 95: 5) - e que os dogmas da Fé existem apenas para manter as massas não iniciadas na linha, espero, será um choque para os fiéis católicos. Mas a Angelico Press aparentemente não se incomoda com a sugestão e mantém sua parceria com Sophia Perennis mesmo assim. De fato, Stratford Caldecott até se juntou a seu colega Professor Smith ao contribuir com um endosso de contracapa para um dos títulos exclusivos da Sophia Perennis, Guénonian Esoterism and Christian Mystery, do filósofo perenialista francês Jean Borella.

Sem dúvida será do interesse dos leitores católicos tradicionais que Borella, um autodenominado tradicionalista católico [3] que Caldecott frequentemente citou em seus escritos e recomendou [4] aos seus leitores, foi o tema de um livro de 1996, Les hérésies de la Gnose du professeur Jean Borella, para o qual o Bispo Bernard Tissier de Mallerais, da Fraternidade São Pio X (FSSPX), escreveu o Prefácio:

Qualquer uma das ideias centrais para o pensamento de Borella entra em conflito com as condenações históricas da Igreja aos erros gnósticos ...

“Pecado original, ele argumenta, é ‘a vontade do ser condicionado de se conhecer como tal’, e eliminá-lo é simplesmente uma questão de o homem ‘retornar ao poder operativo e à eficácia salvífica do conhecimento’. É esta uma cosmovisão atraente, em que o pecado é um erro intelectual e a salvação uma questão meramente de conhecimento? “[5]

O gnosticismo (do qual falaremos mais na 3ª Parte) está intimamente ligado ao perenialismo. O professor Smith certamente mergulha em suas águas turvas ao tratar da “afirmação de um ingrediente sobrenatural no homem..., [a] ‘pequena centelha’ em todo ser humano, dita por ‘incriada e incriável’...”, do místico heterodoxo Mestre Eckhart. Wolfgang Smith concorda claramente com este ensino de Eckhart (apesar de sua condenação pelo Papa João XXII em 1329 [6]), mas, no entanto, aplaude a rejeição “pastoral “da Igreja, porque “tais concepções são compreensíveis para muito poucos, e ... sua disseminação aos fiéis em geral não é apenas desnecessária, mas extremamente perigosa; como disse Clemente de Alexandria: ‘Não se chega a uma espada para uma criança’.” Valentin Tomberg (não estritamente um perenialista, mas cuja crença em “uma energia cósmica geral... que passa por todas as religiões” certamente o situa dentro dessa tradição filosófica) toma a mesma posição obscurantista vis-à-vis da reencarnação em suas Meditações sobre o Tarô (p. 361):

“Você vê agora, caro Amigo desconhecido, por que a Igreja era hostil à doutrina da reencarnação, embora o fato das reencarnações fosse conhecido ... por um grande número de pessoas fiéis à Igreja com experiência espiritual autêntica ... Pois a humanidade poderia [de outra forma] sucumbir à tentação de se preparar para uma futura vida terrestre ... Vale cem vezes mais ... negar a doutrina da reencarnação, do que dirigir pensamentos e desejos para a futura vida terrestre e, assim, ser tentado ... “

Monsenhor Tissier de Mallerais continua:

“Borella também é altamente heterodoxo no assunto da Revelação, afirmando, como ele faz, ‘a origem divina das revelações’ - observe o plural - ‘após a revelação necessária de Cristo’, bem como ‘a presença de um elemento central e propriamente divino na religião não-cristã ‘. Isso, afirma ele, se deve à generosidade sem limites do dom divino da salvação, à existência de visionários em religiões não-cristãs e à beleza transcendente, que não pode ter origem humana, dessas religiões.

“Borella afirma que ‘a inteligência, em sua forma pura, ultrapassa a ordem da natureza ... [e] é ela mesma ordenada ao transcendente’. Ao fazer isso, ele nega a gratuidade e a origem sobrenatural da graça infusa do Batismo. Da mesma forma, ele afirma que ‘o conhecimento da fé, em que consiste a verdadeira gnose, não precisa ser gerado por meio de uma infusão de uma graça particular, como uma experiência mística extraordinária’, mas ‘é capaz de ativar (isto é, de pôr em ação) [a] capacidade natural [do intelecto], ou pelo menos permitir ao intelecto realizar um ato cognitivo que começa a revelar ao intelecto sua própria natureza deiforme / teomórfica’. Isso, novamente, equivale a uma negação da distinção entre as ordens natural e sobrenatural: uma negação que não deixa espaço para crer na gratuidade ou na origem sobrenatural da graça santificante e da virtude teologal da fé... que inere na alma humana em virtude do sacramento do Batismo!”

A Angelico Press, de fato, publicou cinco livros de Borella; e claramente, vários de seus autores mais proeminentes absorveram profundamente das fontes do perenialismo. Mas há outra razão para supor que não apenas esses indivíduos, mas a própria Angelico Press, como instituição, abraçou essa filosofia. De que outra forma explicar a publicação em seu próprio site de um artigo, “The Covenants of the Prophet Muhammad”, que afirma de fato que “os pactos em questão não foram produto de sua própria iniciativa humana [de Muhammad], não o resultado da inspiração divina, mas sim a consequência real da revelação divina”, e fala do Alcorão como “o livro divinamente ditado concedido a Muhammad ibn ‘Abd Allah por meio do Anjo Gabriel”?

Por mais chocante que seja ler tal declaração em um site ostensivamente católico, cuja página inicial é intitulada com o slogan: “Para aprofundar nosso conhecimento da tradição católica. Encontrar novas maneiras de viver nossa fé dentro dessa tradição “, no entanto, está em perfeita harmonia com o pensamento de Stratford Caldecott – a “luz-guia” da Angélico, lembrem-se - que opinou em “The Mystery of Islam: Further Reflections que “o Islã e o Cristianismo podem, de fato, ser doutrinariamente mais próximos do que frequentemente se supõe...

“[O Pe. Roch] Kereszty escreve: ‘Os cristãos não podem deixar de reconhecer que Deus falou através do Alcorão e comunicou a experiência e o conhecimento de si mesmo a incontáveis ​​milhões de pessoas’. O Islã é uma árvore que deu inúmeros frutos bons e ruins...”

Além disso, o fundador da Angelico Press e atual presidente John Riess – que, por sua própria admissão, criou a Angelico “para dar um porta-voz às vozes católicas contemporâneas, como Stratford Caldecott, Jean Borella e Jean Hani” (este último é outro perenialista filósofo) –  pertence a “uma academia e think-tank”, Restore the Arts Inc., cujo manifesto junguiano “neo-humanista” declara que “quaisquer membros deste grupo são pessoas de fé e crentes no Deus Único dos Revelações judaico-cristãs-islâmicas “- uma formulação decididamente indiferentista (para não mencionar quase maçônica).

Que esse assim chamado perenialismo tem suas origens no ocultismo é tão óbvio que isso nem precisa nos deter. Será suficiente notar que o pai fundador da Escola Perenialista, o ocultista francês e apóstata católico René Guénon, foi um maçom de rito escocês; e para citar Morals and Dogma of the Ancient Scottish Rite of the Freemasonry (1871) pelo maçom Albert Pike:

“O brâmane, o judeu, o maometano, o católico, o protestante, cada um professando sua religião peculiar, sancionada pelas leis, pelo tempo e pelo clima, deve retê-la e não pode ter duas religiões; pois as leis sagradas e sociais adaptadas aos usos, costumes e preconceitos de determinados países são obra dos homens. Mas a Maçonaria ensina, e preservou em sua pureza, os princípios fundamentais da velha fé primitiva, que subjaz e são a base de todas as religiões.”

Notas finais:

[1] E eu quero dizer “visionário” no sentido literal: “O próprio Stratford, quando jovem, teve sonhos visionários do Santo Graal ...” (FONTE) Ele também afirmou ter testemunhado a ascensão da alma de seu falecido pai: “… enquanto orava sozinho com seu corpo, acredito que tive um vislumbre da batalha por sua alma, e eu sabia que ele tinha sido vitorioso.” (FONTE)

[2] Em uma entrevista com o Pe. Dwight Longenecker sobre o trabalho da Angelico Press, o fundador John Riess faz referência a “Meu parceiro de negócios James Wetmore e eu ...” (FONTE) Roger Buck também expressa sua gratidão a “John Riess e James Wetmore de Angelico Press “em Agradecimentos de The Gentle Traditionalist Returns. (FONTE)

[3] “Algumas figuras luminosas, como Jean Borella ... foram de fato associadas tanto à Escola Perenialista quanto ao movimento católico tradicionalista ...”.

[4] Por exemplo, “Eu também recomendo os escritos de Jean Borella, um perenialista que se tornou católico ortodoxo, especialmente ... seu livro sobre Esoterismo Guénoniano e Mistério Cristão ...” (FONTE)

[5] Original em francês. Todas as citações deste trabalho são minha própria tradução.

[6] João XXII “condenou dezessete das proposições de Eckhart como heréticas, e onze como mal-intencionadas, precipitadas e suspeitas de heresia ...” (FONTE)