domingo, 29 de agosto de 2021

Se o católico pode apoiar o fascismo

                                                                                                Carlos Nougué

Dizem alguns: Pode, sim, porque Pio XI afirma em sua Encíclica Non abbiamo bisogno que, “por tudo o que acabamos de dizer, Nós não pretendemos condenar o partido e o regime [fascistas, de Mussolini] como tais” (n. 31).

Mas o católico não pode fazê-lo, pelas seguintes e múltiplas razões.

Antes de tudo, os que se fundam nesta frase de Pio XI para afirmar a licitude de apoiar o fascismo agem, como os modernistas, qual “pescadores de águas turvas”: buscam fazer de uma frase uma pérola perdida, sem dar-se ao trabalho de considerar nada mais, porque, se o fizessem, acabariam por exibir sua sem-razão. Mas façamo-lo por eles.

• Comecemos por entender a referida frase da Non abbiamo bisogno. O que é “tudo o que acabamos de dizer”? Para sabê-lo perfeitamente, há que remontar no tempo, e lembrar que a Santa Sé havia assinado com Mussolini a Concordata de Latrão. As concordatas, salvo em casos excepcionais (como o foi a da Espanha de Franco e como o seria a de Portugal de Salazar), já desde Napoleão eram recursos de que a Igreja lançava mão enquanto cidadela sitiada. Com o fim da Cristandade, na qual os estados e as nações não só se ordenavam essencialmente ao poder espiritual mas eram, eles mesmos, a título de pessoas jurídicas ou morais, membros da Igreja; com o fim da Cristandade, digo, e com o avanço da revolução liberal e comunista, as concordatas eram para a Igreja um recurso de sobrevivência, assim como uma nação derrotada numa guerra cede ao vencedor uma parcela de seu território para sobreviver autonomamente. Dado todavia o rumo dos acontecimentos, ou seja, a perseguição policialesca do regime fascista na Itália à Ação Católica e a todas as demais organizações católicas, já no início de Non abbiamo bisogno escreve Pio XI, como que em sinal de certo arrependimento: “Se se quer falar de ingratidão, foi e segue sendo para com a Santa Sé a obra de um regime que a juízo do mundo inteiro tirou de suas relações amistosas com a Santa Sé, na nação [italiana] e fora dela, um aumento de prestígio e de crédito, [e com respeito ao qual regime] a muitos na Itália e no estrangeiro pareceu excessivo o favor e a confiança [que lhe foram dados] de Nossa parte” (n. 9); até porque, diz com um travo amargo mais adiante, “não obstante os juízos, as previsões e sugestões que de diversas partes e muito dignas de consideração nos chegavam a Nós, sempre Nos abstivemos de chegar a condenações formais e explícitas; até chegamos a crer possível e a favorecer de Nossa parte compatibilidades e cooperações que a outros pareceram inadmissíveis” (n. 28). Ademais, como Pastor e Pai, preocupava-se Pio XI com a sorte dos católicos que estavam vinculados ao partido fascista. Com efeito, escreve ele na mesma encíclica: “Conhecendo as múltiplas dificuldades da hora presente e sabendo que a inscrição no partido [fascista] e o juramento [de lealdade acima de tudo ao partido, ao regime e a Mussolini] são para grande número a condição mesma de sua carreira, de seu pão e de seu sustento, Nós buscamos um meio que desse paz às consciências, reduzindo ao mínimo possível as dificuldades exteriores. [Este] meio, para os que já estão inscritos no partido, poderia ser fazer diante de Deus e de sua própria consciência esta reserva: Salvo as leis de Deus e da Igreja, ou ainda: Salvo os deveres do bom cristão, com o firme propósito de declarar exteriormente esta reserva se a necessidade se apresentasse. Quiséramos, ademais, fazer chegar Nosso rogo ao lugar de onde partem as disposições e as ordens, rogo de um Pai que quer cuidar das consciências de tão grande número de filhos seus em Jesus Cristo, a fim de que esta reserva fosse introduzida na fórmula do juramento, a não ser [atenção] que se faça coisa ainda melhor, muito melhor, ou seja, que se omita o juramento, que é sempre um ato de religião e que não está certamente em seu lugar na ficha de inscrição de um partido” (n. 30). Ou seja, pode discutir-se se a Santa Sé deveria ou não ter assinado a Concordata de Latrão com Mussolini. Mas não se deve perder de vista a referida situação de cidadela sitiada em que se encontrava a Igreja, nem que, mesmo depois de Mussolini, seu partido e seu regime mostrarem suas garras e sua verdadeira feição anticatólica, ainda restava a Pio XI a preocupação com os muitos católicos inscritos no partido fascista e com as mesmas Ação Católica, Juventudes Católicas, etc. Certamente, na mesma Non abbiamo bisogno Pio XI ainda acalentava certa miúda esperança de poder atenuar a perseguição policialesca aos católicos na Itália e a dissolução de todas as suas organizações. Por isso, o Papa ainda não julgava o momento oportuno para uma condenação formal do fascismo, ao contrário do que faria com o comunismo seis anos depois: com efeito, quanto a este não poderia acalentar-se nenhuma esperança, por mínima que fosse. Erro político de Pio XI quanto ao fascismo? Suspendo o juízo, mas afirmando: ainda que se tivesse tratado de erro, isso nem minimamente abalaria a impossibilidade de o magistério autêntico errar segundo o definido pelo Vaticano I e por Pio XII. É que a assistência do Espírito Santo é dada ao Papa quanto aos costumes, à fé e a assuntos conexos, mas não necessariamente em atos estritamente práticos, nos quais sempre a Igreja e seus Doutores admitiram a possibilidade de que ela incorresse em equívocos.

Se no entanto Pio XI, pelas razões aduzidas, não se sentia seguro de condenar formalmente então o fascismo, o fato é que ele o faz, na mesma encíclica, mais que indiretamente: quase diretamente. Entreguemos-lhe outra vez a palavra, e ver-se-á que quase nada mais haverá que acrescentar para mostrar o desatino dos atuais defensores católicos do fascismo: “Eis-nos aqui diante de um conjunto de autênticas afirmações e de fatos não menos autênticos que põem fora de dúvida o propósito, já executado em grande parte, de monopolizar inteiramente a juventude desde a primeira infância até a idade viril para a plena e exclusiva vantagem de um partido, de um regime, sobre a base de uma ideologia que explicitamente se resolve [atenção] numa verdadeira estatolatria pagã, em aberta contradição tanto com os direitos naturais da família como com os direitos sobrenaturais da Igreja. Propor-se e promover semelhante monopólio; perseguir como se veio fazendo, com esta intenção, de maneira mais ou menos dissimulada, a Ação Católica; desfazer com este fim, como se fez recentemente, as Associações de Juventude equivale ao pé da letra a impedir que a juventude vá para Jesus Cristo, dado que isso é impedir-lhe que vá para a Igreja, e ali onde está a Igreja está Cristo. E chegou-se ao extremo de arrancar violentamente esta juventude do seio de uma e de Outro” (n. 23); “O divino mandato universal que a Igreja recebeu do mesmo Jesus Cristo de maneira incomunicável e exclusiva estende-se ao eterno, ao celestial, ao sobrenatural, ordem de coisas que por um lado é estreitamente obrigatória para toda criatura racional e a que por outro lado, por sua essência, devem subordinar-se e coordenar-se todas as demais ordens” (n. 24), com o que Pio XI não faz senão relembrar a doutrina infalível, explicitada magnificamente em sua Quas primas (de 1925), segundo a qual todo o humano – família, artes, ciências, economia, política, estado, leis, etc. – deve ordenar-se essencialmente à Igreja e a Cristo Rei; “Uma concepção que faz pertencer ao Estado as gerações juvenis inteiramente e sem exceção, desde a idade primeira até a idade adulta, [atenção] é inconciliável para um católico com a verdadeira doutrina católica; e não é menos inconciliável com o direito natural da família; para um católico é inconciliável com a doutrina católica o pretender que a Igreja, o Papa devam limitar-se às práticas exteriores da religião (a Missa e os Sacramentos) e todo o restante da educação pertença ao Estado...” (n. 27); etc.

Depois disso, com efeito, quase nada mais há que acrescentar para mostrar a incompatibilidade entre catolicismo e fascismo. O que há que acrescentar aqui, porém, é breve, e diz respeito a algo que passa longe da mente dos que irresponsavelmente querem fazer penetrar o fascismo entre os católicos: a analogia da fé, segundo a qual há que haver coerência e harmonia interna entre os todos os dogmas ou definições de fé. Com isso, assim como as passagens mais obscuras da Escritura devem entender-se pelas mais claras e em consonância com elas, assim também, mutatis mutandis, se dá com o magistério, razão por que encíclicas como a Non abbiamo bisogno, escrita sob pressão de acontecimentos aflitivos, devem entender-se segundo a clareza de documentos da Igreja escritos sobre o mesmo assunto mas sem tal pressão. Pois bem, pelo menos a Epístola Duo sunt, de São Gelásio I; o “Documento de excomunhão e de deposição de Henrique IV”, de São Gregório VII; a Encíclica Sicut universitatis, de Inocêncio III; a Bula Unam Sanctam, de Bonifácio VIII; a Constituição Licet iuxta doctrinam (Erros de Marsílio de Pádua e de João de Jandun sobre a constituição da Igreja), de João XXII; a Encíclica Etsi multa luctuosa, a Encíclica Quanta cura e o Syllabus, de Pio IX; a Encíclica Immortale Dei e a Encíclica Rerum novarum, de Leão XIII; a Encíclica Vehementer Nos, a Encíclica Communium rerum, a Encíclica Jucunda sane, a Encíclica Pascendi, a Encíclica E supremi apostolatus, a Encíclica Il fermo proposito, a “Carta sobre a ação social” (janeiro de 1907), a Encíclica Ad diem illum, a Alocução Gravissimum e a Encíclica Notre charge apostolique, de São Pio X; a Encíclica Ubi arcano, a Encíclica Quas primas (a carta magna da Cristandade), a Encíclica Divini illius magistri, a Encíclica Quadragesimo anno e a Encíclica Firmissimam constantiam, de Pio XI; e a Encíclica Summi Pontificatus, a Encíclica Benignitas et humanitas, o “Discurso aos juristas católicos italianos” (1953) e a Exortação Apostólica Menti Nostrae, de Pio XII; pelo menos estes documentos definem, cada um por si ou em conjunto, e de modo infalível, aquilo que podemos traduzir pelas seguintes palavras: Ou as nações se põem sob o estandarte de Cristo Rei; ou inevitavelmente se tornam carniça para os demônios, como, com efeito, se deu com a Itália sob o fascismo


sábado, 28 de agosto de 2021

Objeção de consciência: recurso liberal e nada católico

                                                                                                                            Carlos Nougué

 Por influência do liberal-conservadorismo católico, alastrou-se até entre certos tradicionalistas católicos a defesa do recurso chamado “objeção de consciência”. Mas onde estão os superiores desses católicos para dizer-lhes que objeção de consciência é o mesmo que “liberdade de consciência”, a mesma liberdade condenada por uma sequência ininterrupta de cerca de dez papas até Pio XII? Se, num país revolucionário, pode o médico católico arguir objeção de consciência para não praticar o aborto, pode também o revolucionário, num país menos revolucionário, arguir com o mesmo direito objeção de consciência contra a lei que proíbe o aborto. Ou seja: liberdade de consciência, repita-se, a qual implica liberdade de expressão, liberdade religiosa, liberdade de imprensa, etc., liberdade sempre para o bem ou para o mal (e que acaba sendo antes para o mal, como vamos sentindo hoje na própria carne). Fujamos disso e repitamos a postura que nos ensinaram os mártires de todos os tempos: Não farei isso porque é contra a lei de Deus e da Igreja, a lei do único e verdadeiro Deus e de sua única e verdadeira Igreja. Isto, sim, é cristão, isto, sim, é católico. E ponto final.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

A babel da taxonomia, ou de como desclassificar as espécies

                                                                                                                         Carlos Nougué

Os evolucionistas têm algo em comum: não se entendem, e especialmente quando o assunto é a espécie. Vejamos algumas de suas tão “concordantes” definições de espécie (grato a Urlan Salgado de Barros pela recolha), as quais são impressionantes nulidades tanto isolada como conjuntamente:

• Sneath & Sokal, 1973 (Escola Fenética): espécie é o agrupamento menor e mais homogêneo que pode ser reconhecido e é distinto de outros agrupamentos;

• Templeton, 1989 (Conceito de Coesão): espécie é a população mais inclusiva de organismos tendo uma coesão potencial, através de mecanismos intrínsecos de coesão;

• Van Valen, 1976 (Conceito Ecológico): espécie é uma linhagem que ocupa uma zona adaptativa minimamente diferente daquela de qualquer outra linhagem e que evolui separadamente dessas outras linhagens. [Esta, para mim, merece o Oscar.];

• Willey, 1981, modificado de Simpson, 1961 (Conceito Evolutivo): espécie evolutiva é uma única linhagem de população ancestral e seus descendentes, que mantém sua identidade em relação a outras linhagens, e que possui suas próprias tendências evolutivas e destino histórico [sic];

• Rosen, 1979 (Conceito Cladístico): espécie é uma população ou grupo de populações definido por uma ou mais características apomórficas;

• Cracaft, 1989: espécie é um grupo irredutível de organismos diagnosticamente distintos de outros grupos e no qual existe um padrão de ancestralidade e descendência.

Pois bem, segundo esta babel – e para ficarmos apenas entre os homens – constituiriam espécie os pigmeus (talvez sejam algum elo perdido encontrado no século XX, como de fato pensaram não poucos evolucionistas...); também os bajaus, que por certa mutação podem permanecer muito mais tempo debaixo d’água que os demais homens (e talvez se entronquem em alguma linhagem anfíbia...) –; igualmente os veganos (por que não?); etc. ad nauseam; além dos próprios evolucionistas, entre os quais aliás já se vai formando uma nova subespécie, com “destino histórico” e tudo: a dos darwinistas que, como diria João Victor Schmanski, defendem a evolução das espécies sem nem sequer fazer ideia do que seja evolução e do que seja espécie, embora esta subespécie de evolucionistas talvez seja involutiva... É pois de surpreender que hoje se calcule o número das espécies na casa dos milhões, e que ninguém se entenda na hora da classificá-las, razão por que hoje não há, falando propriamente, quadro taxonômico algum do mundo animal?

Mas dou aqui minha definição de espécie animal (que vale também, de certo modo, para a espécie vegetal): a que tem sob si muitos diferentes só em número e capazes de procriar entre si outros que lhes são essencialmente idênticos. Ou seja, os indivíduos de uma mesma espécie animal são capazes de gerar uma prole cuja essência é igual à sua, o que se dá porque lhe eduzem o princípio formal dessa mesma essência: uma alma que só difere da sua em número.

Observação 1: esta definição não é lógica, mas metafísica (ou antes, metafísico-biológica).

Observação 2: Per accidens, os indivíduos podem ser ou tornar-se absolutamente incapazes de procriar – se são ou se tornam acidentalmente estéreis – ou só relativamente incapazes de procriar, assim como, se portadores humanos do gene da ELA (esclerose lateral amiotrófica) só procriarem durante algumas gerações com outros portadores do mesmo gene, chegará o momento em que sua descendência já não poderá procriar com outros humanos que não possuam este gene – e isto sem deixar de ser humanos. 

Uma das incontáveis estultícias do evolucionismo: o lobo e o cão

                                                                                                   Carlos Nougué

 Que estudante nunca leu, em seus livros de texto de Biologia, que os cães são certos lobos europeus domesticados há centenas de milhares de anos? A coisa é estulta em si, como já mostrarei; mas o mais impressionante é que quase todos a engulam como se se tratasse de uma evidência. Pensemos. Antes de domados, os cavalos são selvagens; depois de domados, no entanto, continuam a ser os mesmos cavalos. Por que então os cães não continuariam a ser os mesmos lobos ainda que agora domesticados graças a certa seletividade nos cruzamentos? Ah! responderia o astuto darwinista: É que ao serem assim domesticados os lobos evoluíram para outra espécie, a dos cães. Mas, senhor darwinista, o senhor não sabe que é impossível que hábitos adquiridos de qualquer modo façam uma espécie evoluir para outra? Se tal fosse possível, haveria multidão de espécies humanas ainda hoje; e com efeito é o que diz o racista darwinismo social. (Aliás, os indivíduos do povo Bajau adquiriram a capacidade pulmonar de permanecer muto mais tempo que os demais homens debaixo d'água – típica alteração fenotípica –, o que porém não é capaz de torná-los outra espécie humana senão talvez em alguma obnubilada mente evolucionista.) Ademais, arguto senhor, se os lobos foram domesticados, é porque tinham potência para sê-lo, motivo por que, se os cães forem soltos ainda jovens num ambiente selvagem, não adquirirão o hábito da domesticidade e, portanto, voltariam a ser lobos; assim como um grande pianista, se nunca tivesse visto um piano, seria um simples não pianista. – Além disso, o fato é que lobos, coiotes, chacais, dinos e cães cruzam entre si e geram crias perfeitamente férteis, o que, embora eu vá dizer algo que soará javanês para o pobre darwinista, patentemente indica que são da mesma espécie: com efeito, se os indivíduos da mesma espécie são capazes de gerar crias férteis, é porque as geram com a forma substancial da espécie, a qual, quando se trata de viventes, se chama alma (< latim anima). Mas, entre os viventes, a alma é justamente o princípio formal constitutivo da espécie. Por conseguinte, lobos, coiotes, chacais, dinos e cães são raças da mesma espécie, umas com potência acidental (não essencial) para domesticação, outras não. Logo, os cães simplesmente não são lobos domesticados, mas uma raça da espécie canídea com potencial acidental para ser domesticada, assim como, mutatis mutandis, o golden retriever é potencialmente mansíssimo e o fila brasileiro potencialmente ferocíssimo. Como se vê, a raça pode dividir-se em sub-raças, e pode fazê-lo potencialmente ao infinito; mas a espécie – se for ela mesma um gênero – só pode dividir-se em duas (como já o diziam Sócrates e Platão), as quais se opõem entre si segundo perfeição e defeito (falta). Assim, o gênero animal divide-se em bruto (por defeito) e em homem (por perfeição). Isto todavia é já avançar demasiado além da “ampla” capacidade de compreensão do darwinista, a quem, aliás, sempre convido a inscrever-se na Escola Tomista. Nunca é tarde.




Nem Islamismo nem Fascismo

                                                                                                                         Carlos Nougué

É impressionante, mas é um fato: por ocasião do que está ocorrendo no Afeganistão, vejo alguns católicos (e dos melhores) hesitar quanto a nada menos que o Islã. Por isso, indico-lhes aqui três opúsculos meus sobre o assunto, todos publicados neste mesmo blog:

1) “Santo Tomás e o Islã”;

2) “O Corão e a Suna – Obscuridades e Incongruências”;

3) “Se o Deus do Islã Tem Algo em Comum com o Deus Cristão”.

Mas como é possível tal hesitação? As razões são múltiplas. Dou duas. Primeira: o mal entendimento do que sejam, na Cristandade e no mundo islâmico, as relações entre o estado e a religião. A diferença, todavia, é radical: enquanto na Cristandade o estado se ordena essencial e diretamente à Igreja quanto aos fins e aos meios para estes fins, mas essencial e só indiretamente no respeitante à jurisdição (ou seja, em termos de potestade e de ordem); no mundo islâmico, por seu lado, estado e religião simplesmente se confundem ou tendem a confundir-se. Objeção ao que digo: no mundo judeu do Antigo Testamento também se confundiam. Resposta: até aos Juízes e sobretudo aos Reis, sim. Mas tratava-se do mesmo Deus do cristianismo, e não do Deus do islamismo. – Segunda: muitos bons católicos ainda não se conformaram com que já se tenham cumprido todos os sinais dados por Cristo de que o fim dos tempos está próximo (ou seja, de que pelo menos até o Anticristo final não haverá restauração cristã, além de que, se se der tal restauração depois do Anticristo, ao que tudo indica haverá de ser mais ou menos breve); e, por não se terem conformado com isso, procuram sucedâneos para a Cristandade. É também por isso, aliás, que alguns bons católicos começam a ver com simpatia o fascismo e até um de seus defensores mais satânicos, Julius Evola, o mais ferozmente anticristão dos gnósticos perenialistas. Quanto a isto, no entanto, escreverei opúsculo à parte. – Como quer que seja, aprendamos dos Padres e dos Doutores e de todos os Santos da Igreja: devemos desejar, com desejo de fé, a segunda e definitiva vinda de Cristo e a constituição da Jerusalém celeste final (o que o olho nunca viu, nem o ouvido nunca ouviu, nem nenhuma criatura é capaz por si de conceber, e que está reservado aos que amam a Deus acima de todas as coisas, incluído, claro, este mesmo mundo caduco), ainda que por amor e imitação de Cristo devamos padecer voluntária e pacientemente este tempo de espera, por longo e duro que seja. É a cruz que devemos carregar para poder seguir o Cordeiro degolado.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

INOCÊNCIO III E O DOGMA DE FÉ DO REINADO DE CRISTO

Será que lendo estas palavras do Papa Inocêncio III os católicos que se deixam envolver em discussões tão liberais e tão tolas como voto impresso versus voto eletrônico entenderão, por fim, que ou as nações se porão sob o estandarte de Cristo Rei ou, com voto impresso ou com voto eletrônico, sob Bolsonaro ou sob Lula, não deixarão de ser carniça para os demônios?

Com efeito, escreveu o grande Papa nas Bulas Venerabilem Fratrem, Vergentis in Senium e Sicut Universitatis: “É dogma de fé que Jesus Cristo possui autoridade soberana sobre todas as sociedades e sobre todas as gentes que as compõem; e que, portanto, as sociedades, em sua existência e em sua ação coletiva, e os mesmos indivíduos, em sua conduta privada, estão obrigados a submeter-se a Jesus Cristo e a observar suas leis; e à Igreja Católica Apostólica Romana, pois é de Roma que o Sumo Pontífice apascenta o rebanho de Cristo. À Igreja Católica Romana, porque esta sagrada instituição carrega em si própria o ideal [...] do Reinado do Nosso Senhor, expandindo-o sobre todas as potestades (Sl 72, 11), sobre ‘gregos e judeus (Rm 10, 12)’, de uma extremidade a outra do mundo, até que a voz do Anjo que toca a última trombeta e a voz da Igreja sejam uma só, como nos disseram os Profetas e os Apóstolos: ‘E, quando o Sétimo Anjo soou a última trombeta, trovejaram nos céus grandes vozes que bradaram: os reinos deste mundo caíram diante de Nosso Senhor Jesus Cristo e Ele Reinará para sempre’ (Ap. 11, 15); e ‘Todo joelho dobrar-se-á e toda língua professará que Jesus Cristo é o Senhor dos senhores pelos séculos dos séculos’ (Rm 14, 11; Fl 2, 11; Is 45, 23)”.

Vejam bem, senhores católicos liberais, liberal-conservadores ou liberal-tradicionalistas: é de fé a necessidade do reinado social de Cristo.

domingo, 22 de agosto de 2021

A queda do bolsolavismo

                                                                                                                         Carlos Nougué

 Todo o esquema bolsolavista está ruindo, enquanto os bolsolavistas, tentando salvar a própria pele, passam de fanfarrões a cordeirinhos lamurientos. Voltará ao poder a esquerda? Se voltar, sofreremos todos; no entanto, a culpa terá sido toda não só do tosco e estúpido Bolsonaro mas – e talvez sobretudo – de toda a hoste de seus ideólogos (OdC e olavetes. Donato e donatistas, IPCO, e outros que tais, incluindo não poucos tradicionalistas católicos), tão trapalhões e tão irracionais como o mesmo Bolsonaro. A negação do evidente – o pior dos pecados intelectuais – fez Bolsonaro e sua cloroquina ser atropelados pela pandemia; o liberalismo econômico fez Bolsonaro não obrigar os banqueiros, os grandes financistas e os grandes industriais a arcar, junto com o governo, com o ônus da crise da covid-19 e do necessário sustento dos economicamente mais frágeis, além de, sob a batuta imbecil de Paulo Guedes, tê-lo impedido de implementar um vasto plano de obras públicas para compensar as falências e as demissões galopantes; o liberalismo ideológico fez Bolsonaro descumprir a promessa de campanha de lutar a todo o custo contra a ideologia de gênero, que ao contrário ganhou mais e mais espaço sob seu governo; a incapacidade de entender o que é uma guerra justa, que supõe um exato exame da correlação de forças, fez Bolsonaro ver-se minado por atos bravateiros não só próprios, mas de um Allan dos Santos, dos 30... ops, dos “300” de Brasília e seus “mortíferos” rojões, etc.; a ausência da verdadeira moral, que reza, por exemplo, que mentir é sempre pecado, fez Bolsonaro, seus filhos, os olavetes e outros que tais incrementar uma idiota indústria de fake news, igualzinha à da esquerda, com, aliás, as consequências que estamos vendo agora; e a falta de um verdadeiro programa cultural e doutrinal que formasse a ampla base popular de apoio ao presidente base que se estreita cada vez mais fez Bolsonaro aliar-se a gente tão “impoluta” como Roberto Jefferson sob o aplauso de olavetes e de donatistas. Diante deste triste quadro, não nos cabe senão repetir com Pio XII: “Nós percebemos a numerosa classe daqueles que consideram os fundamentos especificamente religiosos da civilização cristã [...] sem valor objetivo [para os dias de hoje], mas gostariam de conservar o brilho exterior dela para manter de pé uma ordem cívica que não poderia passar sem tal. Corpos sem vida, acometidos de paralisia, são eles mesmos incapazes de opor qualquer coisa às forças subversivas do ateísmo” (Discurso à União Internacional das Ligas Femininas Católicas).

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Perenialismo contra modernismo: o perigo de uma falsa restauração

                                                                                                                             Carlos Bezerra

O pontificado de Francisco expôs, definitivamente, uma espécie de guerra civil no interior da própria Igreja, mas com repercussões políticas em âmbito mundial. Não se trata, porém, de uma batalha do bem contra o mal, como os mais simplistas gostariam que fosse; longe disso, trata-se na realidade de algo mais complexo, repleto de sutilezas, e que, por sua própria força de atração, ainda arrastará muitos para o erro, porque as pessoas se movem por suas paixões desordenadas e se cegam mesmo diante das evidências. Primeiramente definirei as principais características dos lados envolvidos neste conflito, com o que pretenderei ser mais didático na exposição dos fatos.

O Papa Francisco segue de forma objetiva aquilo que mais obviamente se depreende das resoluções e disposições do Concílio Vaticano II ( 1962-1965) e de toda extensão do próprio “magistério” conciliar: ecumenismo, liberdade religiosa e colegialidade. Essa tríade correspondia, desde o princípio, aos anseios de um governo mundial aos moldes socialistas:  igualitário, republicano e democrático. O pontificado do Papa Paulo VI se encarregou do ecumenismo em sentido mais restrito, ou seja, comunhão com os protestantes e os ortodoxos, contribuindo para a farsa de um cristianismo que nunca existiu, porque a Igreja de Cristo é, pura e simplesmente, a Igreja Católica.

No longo pontificado de João Paulo II, o projeto se ampliou, correspondendo então aos anseios da “Nova Era” sonhada por Madame Blavatsky, Annie Besant e Alice Bailey: o interconfessionalismo, ou parlamento das religiões, como se verificou no encontro de Assis em 1986. Eram os anos do Live Aid e da “We Are the World”, a canção que reuniu multidão de artistas da música pop. Parecia mesmo o sonho de Lennon de um mundo sem fronteiras, multicultural, sem céu nem inferno; apenas uma irmandade de homens. João Paulo II era o líder religioso capaz de promover essa paz religiosa. O “comunismo” ideal, o sonho de um mundo perfeito, sem pecado original – eram essas as marcas de tal religião do amor.

Como era óbvio, a religião de Woodstock e dos  Beatles (John e Paul: ironicamente os nomes dos papas do concílio) só poderia corresponder a uma utopia, “comunista” em sua forma idealista , pacifista e contrária a qualquer forma de violência, mas favorável a toda  libertinagem: “É proibido proibir”, “Toda forma de amor vale à pena”, “ Faça sexo, não faça a guerra”.  Logo, portanto, o comunismo realmente existente teria de se transmutar, a partir de fins dos anos 80, para alguma coisa mais panteísta; a ECO 92, a defesa da mãe terra, expressa na carta redigida pelo próprio ex-presidente comunista Mikahil Gorbachev e assinada por seu grande amigo João Paulo II, e a plena adesão da chamada “teologia da libertação” eram sinais claros dessa mudança.

Entre o fim do pontificado de João Paulo II e o de Francisco, houve um interregno importante para a compreensão deste artigo: o movimento tradicionalista. Primeiramente lembremo-nos de Dom Marcel Lefebvre: em verdade, sua defesa não foi a de um movimento chamado tradicionalista, mas da tradição em sentido próprio, ou seja, a tradição apostólica. “Transmiti integralmente”, disse ele, “tudo o que recebi de meus predecessores e pretendo continuar a fazê-lo: a Doutrina ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo.” E assim o fez porque se tornou evidente para ele que o que ocorrido no e após o Concílio era a gênese de uma nova religião.

Mas voltemos ao dito movimento tradicionalista, e veremos a antítese que marca a infernal e dialética hegeliana nesse conflito. Bento XVI, em 2007, ampliou o indulto concedido anteriormente por João Paulo II aos padres que desejassem celebrar a Missa no chamado “rito extraordinário”, mas com a condição de aceitarem plenamente as disposições do Concílio e, sobretudo, o reconhecimento do Missal de Paulo VI como o do rito ordinário da Igreja. Obviamente, para os mais atentos, a questão já não era essencial (doutrinal), mas acidental (prática): um apego à beleza da liturgia tridentina em oposição aos excessos do Missal de Paulo VI. Bento XVI compreendeu bem que o debate deveria ficar restrito apenas à Missa. O tradicionalismo não lhe era um problema, e já veremos por quê.

Agora tratemos do outro lado envolvido neste conflito: a “Tradição”. Há uma tradição com T maiúsculo, que não é a tradição apostólica defendida por Monsenhor Lefebvre, mas a chamada “Tradição perene”, cujos principais expoentes são René Guénon, Frithjof Schuon, Ananda Coomaraswamy, Julius Evola e outros mais recentes, de que falaremos depois.

Em síntese, a Tradição perene defende que Deus revelou uma religião primordial no início da humanidade, cuja essência porém com o tempo se esoterizou, ou seja, ficou restrita a um grupo de homens que conseguiam unir-se plenamente ao divino, enquanto para a maioria da humanidade a religião seria apenas algo externo (exotérico), com ritos e práticas litúrgicas tradicionais e adequadas a cada religião. Portanto, a Tradição primordial é o fundamento de todas as religiões em sua busca de união com a divindade, não devendo jamais se esvaziar daquilo que tem de mais significativo em suas práticas ritualísticas.

Naturalmente, o Tradicionalismo perene tende a opor-se a toda e qualquer forma de modernismo, globalismo, ecumenismo, multiculturalismo, comunismo, nova era, socialismo, porque busca exatamente o contrário disso: o “nacionalismo” e a tradição de todas as religiões, pois que sua união só pode dar-se de forma transcendente, o que implica a desigualdade entre os homens. E, com efeito, somente os pneumáticos ou espirituais podem unir-se ao divino. Portanto, o inimigo dos perenialistas é tudo aquilo que eles próprios denominam Nova Ordem Mundial, Deep State, Deep Church e, mais recentemente, Great Reset. Aí está o projeto de Steve Bannon, perenialista seguidor de René Guénon e Julius Evola, articulador político da campanha de Donald Trump em 2016 e da atual campanha de Jair Bolsonaro por sua reeleição. Mas Bannon tem seus olhos também voltados para a Europa, para aquilo que ele chama Cruzada pela Civilização judaico-cristã Ocidental, e para tal empreendimento se faz necessária uma forte oposição ao Papa Francisco, seu inimigo número um. Para isso é que Bannon arrendou o antigo mosteiro de Trisult, a poucos quilômetros de Roma, contando com o apoio do Instituto Dignatis Humanae, do qual fazem parte muitos cardeais e figuras proeminentes, como Matthew Festing, ex-grão mestre da Ordem de Malta. No dizer de Bannon, é fundamental  formar uma escola de gladiadores para assumir a direção da Igreja e promover uma restauração da tradição – nos moldes, claro, desejados por René Guénon. Mas isso só poderá ser bem-sucedido com a adesão de todos os movimentos tradicionalistas católicos, em algo que se pode chamar a união dos clãs: a FSSP, todas as comunidades Ecclesia Dei, os sedevacantistas, a Resistência e sobretudo a FSSPX.

Obviamente, muitos católicos, apegados antes aos sentidos, se deixam levar sobretudo pela beleza do rito tridentino, principalmente quando acompanhado de canto gregoriano, em uma bela Igreja ou catedral, ou ao som de um órgão, ou de um coral polifônico. Esses católicos serão muito piedosos, lerão dezenas de livros de espiritualidade e de vidas dos santos, mas pouco se importarão com a conversão do mundo a Nosso Senhor Jesus Cristo. Continuarão a defender as liberdades modernas, a democracia partidarista e o Estado laico, desde  que possam viver seu catolicismo tradicional. Por isso, muitos rejeitarão a Missa de Paulo VI e o Concílio Vaticano II. Desejarão ardentemente alguma restauração antimodernista. Mas outra característica desses católicos já aprisionados pelo Tradicionalismo perenialista é justamente sua agenda oposta à que eles identificam nas esquerdas: o imigracionismo, o movimento LGBT, as políticas pró-aborto e o modelo pedagógico de Paulo Freire. De fato, toda essa agenda é demoníaca, mas o erro é associá-la apenas às esquerdas, o que leva tais católicos a aderir, sem restrições, à nova direita impulsionada pelo mesmo perenialismo internacional, quando em verdade o perigo está em ambos os lados. E observe-se que nenhum dos dois lados se opõe ao Concílio Vaticano II em sua essência: a religião do homem.

É que é o humanismo a fonte de um e de outro mal, ou seja, tanto do modernismo como do perenialismo, os quais de fato se complementam, porque seu resultado será sempre um catolicismo cabalístico em um mundo em ruínas e pronto para o reinado do Anticristo final.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A infernal gangorra direita/esquerda

                                                                                                                     Carlos Nougué

A alternância direita/esquerda é própria da Revolução; e é diabólica no preciso sentido de que envolve o conjunto dos cidadãos de modo tal, que estes não têm como escapar a ela, ou seja, não têm como escapar à própria Revolução. É um círculo vicioso sem fé, nem lei, nem rei, em sentido estrito. Ao longo do tempo, todavia, essa gangorra vai assumindo feições diversas. Por vezes a esquerda comunista deu a impressão de que da ditadura do proletariado não haveria volta. Mas a queda do muro de Berlim e da URSS e o atual estado de decrepitude dos países mais propriamente comunistas (Cuba, Nicarágua, Venezuela, Coreia do Norte) desfizeram-lhe as ilusões. Pode até dizer-se que tal ditadura ainda persiste, firme, na China; mas de modo profundamente alterado, ou seja, já não visa à consecução do comunismo final. É hoje antes uma ditadura capitalista. A Rússia de Putin, por seu lado, conquanto geopoliticamente deva apoiar as moribundas nações comunistas, é o que chamo um “czarismo republicano”, com cesaripapismo e tudo. No restante do mundo, a gangorra direita/esquerda dá-se no palco da democracia liberal, que é sobretudo uma sementeira de convulsões sociais, mas não é democracia em sentido algum. É antes uma partidocracia a serviço de uma plutocracia mais ou menos velada pela ação da mídia e pela miragem do sufrágio universal, que faz que um dogradicto de 16 anos tenha o mesmo peso eleitoral que um sábio jurisconsulto. Não é democracia efetiva porque não é orgânica, ou seja, porque não se funda em corpos sociais devidamente hierarquizados, senão que é um como o esgoto dos lábeis e manipuláveis anseios de uma massa informe e ignara. E é neste palco que a referida gangorra infernal assume sua atual feição na maior parte do mundo. A revolução hegemônica nos dias de hoje é a que chamo marcusiana ou sadolibertina, uma mescla de marxismo profundamente alterado – ou seja, essencialmente capitalista mas capaz de métodos de ação marxistas e tendente a um governo global – com o liberalismo paroxístico que começou com um Marquês de Sade. O partido desta revolução, fundado sempre no grande capital antes de tudo financeiro, é a ONU com seus tentáculos; e sua religião tem sua trindade: o deus Mamon, o deus Himeros e o deus Homem, o superior da tríade, ao qual também servem o ecumenismo e o laicismo vaticano-segundos. E partidos como o PT e o Psol, sob a veste bolorenta do marxismo, não fazem senão ser pontas de lança desta revolução libertina: estão em verdade a serviço de homens como Soros e Gates, os quais, quando julgam que já não servem a seus interesses, os descartam – foi o que se deu com Dilma. Hoje porém o PT parece voltar a servir a seus interesses, para que possam livrar-se também no Brasil da direita liberal-conservadora. Qual é precisamente, no entanto, a doutrina da atual direita liberal-conservadora internacional? Em uma palavra: o liberalismo sem o libertinismo de Sade, ou melhor, sem este libertinismo encarnado em corpo legal. A direita liberal-conservadora não é de modo algum contra a prática privada do que a ideologia de gênero defende; é contra que esta se torne lei. E isto tão só em princípio, porque tal direita é capaz de conviver até com a ideologia de gênero feita lei desde que se preservem os direitos do sacrossanto livre mercado, da sacrossanta liberdade de expressão para o bem ou para o mal, da sacrossanta liberdade religiosa para Deus ou para Satã, etc. Sucede contudo que a atual direita liberal-conservadora tem uma nota muito própria: o irracionalismo advindo de sua liderança gnóstica internacional, cujo expoente é o perenialista Steve Bannon. (O lado eurasiano também tem seu expoente gnóstico: Alexandr Duguin, um assumido satanista.) É justamente de suas lideranças perenialistas que a massa direitista atual herda irracionalidades como: não há pandemia, essa invenção dos globalistas para poderem promover o Great Reset; a máscara contra a covid é um instrumento do Deep State para despersonalizar as pessoas; as vacinas contra a covid imprimem a marca da besta ou introduzem um chip de 5G, ou têm por fim matar a humanidade (com o que, digo eu, se teria um governo mundial sem governados...); o homem não foi à Lua; a terra pode ser plana; Trump é o grande obstáculo ao advento do Anticristo (D. Viganò dixit); dois mandatos de Bolsonaro nos permitirão instaurar o reinado social de Cristo (Centro Dom Bosco dixit); etc., literalmente ad nauseam.

Mas então que fazer na eleição de 2022, se de fato ela se polarizar entre Bolsonaro e Lula? Na campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro ainda aparecia como um mal menor por suas promessas, incumpridas, de lutar contra a ideologia de gênero; só por isso. Hoje, todavia, depois de anos de descumprimento de promessas eleitorais, de desgoverno irracional e trapalhão e de alianças com corruptos exatamente ao modo petista, será preciso fiar fino para defender como um mal menor a candidatura de Brancaleone... ops, de Bolsonaro. Eu não o farei. Mas votarei nele? Se o farei ou não, eis algo que vai comigo para o túmulo.    

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A Penetração do Liberal-conservadorismo na Tradição Católica (Terceira Parte de Três)

                                                                                                      Carlos Nougué

TERCEIRA E ÚLTIMA PARTE

 Nota prévias:

• Dizem-se atualmente da “tradição católica”, em oposição aos defensores do neomodernismo vitorioso no Concílio Vaticano II, os “tradicionalistas”. Como eu disse já em algum lugar, é nome corrente, do qual dificilmente se pode escapar, e que no entanto me parece inconveniente, por dois motivos. Primeiro: assim também se chamavam os da corrente pietista condenada no Concílio Vaticano I. Segundo: o nome mesmo leva às vezes ao criticável “tradicionalismo crítico” com respeito ao magistério autêntico da Igreja. É que a tradição não é senão uma das duas regras remotas da fé (a outra é a Sagrada Escritura), enquanto o magistério autêntico da Igreja é a regra próxima da fé, razão por que pode não só definir infalível ou certamente quais são os livros canônicos da Escritura e qual é a devida interpretação de todas as suas passagens, mas definir igualmente o que de fato pertence ou não à tradição. Assim, ao decretarem, em 1946, que o milenarismo mitigado não pode ser ensinado sem perigo, Pio XII e o Santo Ofício decretaram também, implicitamente, que esta doutrina, começada por Papias (discípulo de S. João) e continuada por muitos Padres da Igreja, não é da autêntica tradição, ou seja, a começada e essencialmente encerrada pelos Apóstolos. – Por tudo isso, o melhor seria que os tradicionalistas se chamassem “magisterialistas” ou algo assim, porque, com efeito, foi sobretudo com o magistério autêntico da Igreja que o chamado “magistério conciliar” rompeu no CVII. Não obstante, o uso é na língua o senhor.

• Mas, ainda mais restritivamente, dizem-se hoje “tradicionalistas” os que por um estado de necessidade – ou seja, para defender e perpetuar a verdadeira fé e o verdadeiro sacerdócio –, e enquanto vítimas de uma despótica iniquidade começada já por Paulo VI, não se encontram em acordo canônico com a Hierarquia ou Magistério conciliar. São, antes de tudo, os que se querem seguidores de D. Marcel Lefebvre, e que se dividem em dois grupos de maior ou menor importância e presença, conquanto também haja, neste sentido, tradicionalistas independentes.

• Desde há uns quatro anos, conto-me entre estes últimos. Não deixo de defender os referidos dois grupos diante dos ataques dos neomodernistas e suas infundadas e venenosas acusações de cisma, mas, por razões que não vem ao caso desfiar aqui, creio que ajudo mais à causa do “magisterialismo” mantendo-me independente e equidistante dos dois grupos. Por isso, esta mesma série, e em especial esta sua última parte, é duramente crítica dos tradicionalistas porque anelo que não se desviem de sua bondade original aderindo à ideologia liberal-conservadora da direita gnóstica atual. Com efeito, de que adianta combater corretamente o magistério conciliar e seu neomodernismo se acabam por atirar-se, como muitos o fazem agora mesmo, nos braços de um inimigo ainda mais sutil e pernicioso apesar das possíveis aparências em contrário? Outra coisa é se esta minha crítica terá eco geral entre os tradicionalistas, coisa que tenho certeza não acontecerá. Como porém tenho queridos amigos entre eles, espero que ao menos a estes possa alcançar de algum modo meu anelo. – Insista-se, além disso, em que tal crítica não necessariamente inclui a ambos os grupos enquanto grupos, mas sempre a numerosíssimos ou razoavelmente numerosos membros seus.

• Como já tratei o próprio liberal-conservadorismo atual e sua liderança gnóstica na parte 2 da série, não o voltarei a fazer nesta a não ser quanto a algum ponto ainda não aprofundado. Ademais, as duas partes anteriores desta série se encontram neste mesmo blog. E ao longo do texto desta última parte sua, por fim, remeterei a outros escritos que contribuam para a consecução de meu intento com a série.

* * *

1) Com efeito, deixa-me cada vez mais impressionado e triste a concordância entre os meios tradicionalistas e a direita internacional gnóstica e liberal-conservadora quanto a teorias de conspiração. Já respondi a tais teorias não só na parte 2 desta série mas, mais detida e longamente, em “Governo mundial, pandemia, governo Bolsonaro – os campos opostos do catolicismo tradicional e do ‘catolicismo’ liberal-conservador” (in Estudos Tomistas – Opúsculos II). O que porém eu não esperava então, ao escrevê-lo, é a referida concordância, que quanto a isto faz de tais meios tradicionalistas meros apêndices da mencionada direita (coisa, aliás, que esta sempre almejou e tentou; relembre-se, por exemplo, sua já antiga infiltração em seminários da FSSPX, graças a Deus sustada então por D. Lefebvre). Por exemplo: em vez de verem na atual pandemia, como sempre viu a Igreja em casos assim, um castigo de Deus, seguem as mirabolantes teorias de um QAnon, de um Steve Bannon, de um Alex Jones, de um D. Viganò, de um Olavo de Carvalho, que negam o óbvio: a atual pandemia afeta gravemente os planos globalistas, em vez de alentá-los. E, em vez de bradarem, como seria seu dever, aos governos e cidadãos de todo o mundo que ou se porão sob o estandarte de Cristo Rei ou seguirão sendo carniça para os demônios e alvo dos flagelos de Deus, continuam a defender com tal afinco as abstrusas e pueris lucubrações gnóstico-conservadoras, que nem sequer percebem que assim fazem o jogo de insidiosos inimigos. Insista-se: não o digo com gosto; digo-o lamentando-o profundamente.

2) Observe-se o caso do chamado “Great ou Grand Reset” (Grande Reinício ou, oh! “Reinicialização”). Este foi o nome da 50ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WEF), realizada em 2020, que teve por fim tratar da reconstrução “sustentável” (e fundada na chamada Quarta Revolução Industrial) da sociedade e da economia após a pandemia de covid-19. Para tal, o WEF pretende cumprir uma tripla meta: crescimento verde, crescimento mais inteligente e crescimento mais justo. Ou seja, a lengalenga socioeconômica de sempre dos grandes líderes da revolução marcusiana ou sadolibertina que avassala e domina hoje o mundo – e que o faz marchar mais aceleradamente para o Anticristo final apesar dos percalços causados pela pandemia. Sucede todavia que, a partir de alguns, digamos, “indícios”, a saber: um artigo do WEF de 2016 que descreve como seria a vida em 2030; • uma frase do diretor do WEF Klaus Schwab: “A crise da covid-19 representa uma grande oportunidade para reformarmos o sistema”, o que ele repete e explica no livro A Quarta Revolução Industrial; • o slogan da campanha de Joe Biden, Build Back Better (Reconstruir melhor); • e o discurso do primeiro-ministro canadense Justin Trudeau em 20 de setembro de 2020, no qual falava de como criar um mundo mais justo e mais sustentável; a partir pois de tais “indícios”, a direita gnóstica, sobretudo mediante seu instrumento anônimo o QAnon – um dos maiores difundidores de fake news do planeta, o qual talvez só tenha por rival nisto a RT financiada por Putin –, começou a espalhar várias “profecias”:

Em novembro de 2020, ecoando o QAnon, o documentário francês Hold-up, que teve impressionante difusão, afirmava que o Grand Reset constituiria um plano mundial de controle, de manipulação e (nada menos) de destruição da população por meio da pandemia de covid-19 e do 5G.

• O objetivo de tudo isso seria, para alguns direitistas, o controle político e econômico mundial sob um regime marxista (!!) global: a Nova Ordem Mundial. Tal regime aboliria a propriedade privada, mandaria os militares ocupar as cidades para impor a vacinação obrigatória (!!!), e criaria campos de concentração para as pessoas que se opusessem a isso.

• Segundo outros direitistas, como, por exemplo, D. Viganò, Donald Trump seria o único líder mundial capaz de impedir que tal projeto se realizasse teoria exposta pela primeira vez por um vídeo de agosto de 2020 que foi visualizado por mais de três milhões de pessoas.

Outros direitistas, por fim, assinalam ainda a transferência do campo de gravidade geoestratégico e geoeconômico do mundo para o eixo eurasiático, após séculos de predomínio do eixo transatlântico.

Pois bem, tais “profecias” são da mesma ordem das adivinhações” da mãe de santo com seus búzios: assim como é difícil encontrar alguém que não tenha tido, ao menos na juventude, uma decepção amorosa, assim também não é nada difícil adivinhar a intenção globalista dos líderes mundiais da revolução marcusiana e prever sua consecução. Mas, ao contrário da mãe de santo, que se limita a dizer a seu consulente o óbvio (sua passada desilusão e sua futura ilusão amorosas), a direita atual avança hipóteses absurdas e autocontraditórias, como a de que, apesar de matar a população de todo o planeta, haverá um governo mundial marxista sem governados, com o que tal direita demoliberal e adoradora do livre mercado não faz mais que exibir ainda sua contumaz estupidez. É óbvio que tal governo, quando se instalar, se fundará em megacorporações econômico-financeiras, e é óbvio que nem sequer a China atual é marxista, mas uma invenção do republicano Nixon – além de que Biden é muito mais virulento que Trump contra a Rússia de Putin e seus protegidozinhos mantenedores de um comunismo já caduco e moribundo (Cuba, Venezuela, Nicarágua e poucos mais). O que, portanto, deve o católico tradicional bradar diante de tudo isso aos governos e cidadãos de todo o mundo? Repita-se: que ou as nações se porão sob o estandarte de Cristo Rei, ou seguirão sendo carniça para os demônios e alvo dos flagelos de Deus (como a atual pandemia, os atuais tornados e inundações, etc.). Mas o que vêm fazendo muitos tradicionalistas? Ao endossar as invencionices e bizarrices da direita gnóstica, e esquecer-se de fazer o que acabo de dizer e de que um governo global será inevitavelmente o do Anticristo, incorre num discurso sem Cristo e irracional que mal se pode diferenciar do dos liberal-conservadores; e digo-o tendo diante dos olhos três artigos com este exato teor aparecidos em órgãos importantes ou oficiais dos tradicionalistas, e outro artigo que ao menos tangencia o sacrílego: a convocação a que os fiéis rezem o rosário durante três dias pedindo aos céus que impeçam o Grand Reset... Para quê? Para que o mundo permaneça como está hoje em dia?

Observação: ainda pior, se tal é possível, é que tais artigos defendem não a liberdade para a verdadeira religião – como o faziam os apologistas cristãos do século II –, mas a liberdade pura e simples (um deles chega a invocar ninguém menos que o ateu revolucionário Noam Chomsky!), com o que, certamente sem percebê-lo, caem sob a condenação da Mirari vos, da Quanta cura e do Syllabus, etc., etc.          

3) E, de fato, repetem-se de algum modo mas algo largamente nos meios tradicionalistas as “pérolas” do irracionalismo da direita gnóstica, cujo “hobby” é negar o evidente:

• A pandemia é uma “fraudemia”.

• As vacinas contra a covid-19 ou marcam as pessoas com o sinal da Besta, ou visam a matá-las ou imbecilizá-las dentro de mais ou menos pouco tempo – além de que são feitas a partir de células de fetos abortados; ao que lhes pergunto eu: vocês não aceitariam uma córnea transplantada de um homem assassinado? Para a resposta definitiva a este respeito, ou seja, quanto à licitude de tomar tais vacinas, vide o artigo do Padre Arnaud Sélégny (da FSSPX)Is it Morally Permissible to Use the Covid-19 Vaccine?”.

• As máscaras contra a contaminação pelo novo coronavírus são uma invenção dos globalistas e dos maçons, para tirar a individualidade das pessoas e torná-las massa de manobra sua.

Com tudo isso, tais tradicionalistas incorrem em pecado político. Com efeito, negar-se a proteger-se e a proteger o próximo vai contra os deveres mesmos do cidadão (além de ir, é claro, contra a caridade). Leia-se antes de tudo o que, fundado em S. Tomás de Aquino, escreve o Padre Álvaro Calderón no estupendo El Misterio Pascual (ainda não publicado): “O pecado contra as leis pátrias [que não firam gravemente a lei natural e a lei divina positiva] é também pecado contra a lei natural e contra a lei divina. […]  Os pecados contra as leis pátrias diminuem o bem comum temporal, mancham com pública infâmia e merecem pena por parte da ordem social [como já diziam São Pedro e São Paulo, os quais, observe-se, o diziam sob um império que já perseguia a fé e martirizava os cristãos, razão por que era essencialmente ilegítimo]. [...] O pecado do cidadão causa sempre um dano ao bem comum. Se não cumpre as leis de trânsito, por exemplo, ainda quando não provoque um acidente, influencia com o mau exemplo e tira aos demais a tranquilidade de atravessar com sinal verde sem olhar. Tornou-se inimigo da ordem e devedor da sociedade. O pecados contra a ordem pública podem chegar a eliminar totalmente o bem comum transformando em selva a cidade. [...] Como o pecador ataca o bem comum, tanto a comunidade como o que governa devem reprimir o agressor obrigando-o a reparar o dano e infligindo-lhe um castigo exemplar para corrigir ou ao menos coibir sua má vontade e contra-arrestar o escândalo provocado para os demais. Assim como um organismo são reprime rapidamente os agentes estranhos com seus anticorpos evitando a doença, assim também os que faltam às leis e aos bons costumes são reprimidos de alguma maneira, ou pela ordem mesma, como quando todo o povo ridiculariza o desonesto; ou pelos governantes, como quando prendem o que abusou de sua liberdade; ou pela mesma desordem causada pelo pecado, como quando o que governa permite que o delinquente seja danado por seus mesmos cúmplices defraudados. Neste último caso, o que tem razão de culpa da parte dos cúmplices alcança razão de justa pena da parte do governante, porque podendo impedi-lo não o faz”. E de tudo isso o nosso Padre como que conclui (em El Reino de Dios): “Cada bocado [de comida] do homem temperado é comido pelo bem da Pátria, pela glória de Deus e no Espírito Santo. Se não, não é verdadeiramente um bocado virtuoso”. Ademais, escrevia o jovem Tomás de Aquino em seu Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo (lib. 2, d. 23, q. 1, a. 2, co.): “Pertence à providência divina que cada coisa seja deixada em sua natureza, pois, como diz Dionísio [Areopagita], a providência não corrompe a natureza, mas a salva. A razão disso é que o bem do universo ultrapassa o bem particular de qualquer natureza criada, assim como ‘o bem de uma nação ultrapassa o bem de um homem [ou indivíduo e cidadão]’, como o diz Aristóteles na Ética [a Nicômaco], I”. Além disso, digo eu: quem não se deixa vacinar contra a covid-19 peca de algum modo contra a amizade familiar e política, porque verdadeira amizade tem aquele que é capaz até de dar a vida pelo amigo, assim como o soldado é capaz de dar a vida pela pátria e por seus concidadãos. E, para corroborar tudo isto, dêmos a palavra ao magistério da Igreja. Escreve com efeito o Papa Gregório XVI na Encíclica Mirari vos: “Condenação da rebeldia contra as autoridades. [...] 13. Mas, tendo sido divulgadas, em escritos que correm por todas as partes, certas doutrinas que lançam por terra a fidelidade e a submissão que se devem aos príncipes, com o que se alenta o fogo da rebelião, deve-se vigiar atentamente para que os povos, enganados, não se afastem do caminho do bem. Saibam todos que, como disse o apóstolo [Paulo], toda autoridade vem de Deus e todas as que existem foram ordenadas por Deus. Aquele, pois, que resiste à autoridade resiste à ordem de Deus e se condena a si mesmo (Rom 13, 2). Portanto, os que com torpes maquinações de rebelião se subtraem à fidelidade que devem aos príncipes, querendo tirar-lhes a autoridade que possuem, ouçam como contra eles clamam todos os direitos divinos e humanos. 14. Não era este, certamente, o proceder dos primeiros cristãos, os quais, para obviar a tão grave falta, ainda que em meio das terríveis perseguições suscitadas contra eles, se distinguiram por seu zelo em obedecer aos imperadores e em lutar pela integridade do império, como provaram quer no pronto cumprimento de quanto lhes era ordenado (sempre que não se opusesse à sua fé de cristãos), quer vertendo seu sangue nas batalhas, pelejando contra os inimigos do império. Os soldados cristãos, diz Santo Agostinho, serviram fielmente aos imperadores infiéis, mas, quando se tratava da causa de Cristo, outro imperador não reconheceram que o dos céus. Distinguiam o Senhor eterno do senhor temporal; e, não obstante, pelo primeiro obedeciam ao segundo (In Ps. 124, n. 7)”. O grande Papa tinha alvo certo contra o qual disparar esta seta: o vírus do individualismo liberal, que é puro egoísmo. Infelizmente, porém, grande parte dos católicos atuais – incluindo, como vamos vendo, alguns dos melhores – também está infectada por este terrível vírus, que a rigor é muito pior que o da covid-19: mata a alma.

4) E que dizer da confusão, nestes mesmos meios tradicionalistas, entre votar ou até tolerar um mal menor e apoiar este mal? Com efeito, um sacerdote tradicionalista chegou a pontificar que “quem não apoia Bolsonaro não é católico!” – o mesmo Bolsonaro cujo ministério é composto por maçons e gnósticos e puros corruptos; o mesmo Bolsonaro que não cumpriu seu compromisso eleitoral de combater a ideologia de gênero; o mesmo Bolsonaro cujo alinhamento internacional é sobretudo com os EUA (o que agora, com Biden, se tornou mais difícil) e com Israel, e não com a Hungria e com a Polônia, os últimos restos ou ruínas da já longínqua Cristandade; o mesmo Bolsonaro que de modo sacrílego se vale politicamente do catolicismo mas tem profunda vinculação com o protestantismo pentecostal e suas iniquidades.

Observação: lembra-me, aliás, que um dos fiéis do referido Padre me enviou certo dia um e-mail com um vídeo do príncipe maçônico e deputado federal bolsonarista Luiz Phillippe de Orleans e Bragança. Ingenuamente, recomendei-lhe que não divulgasse mais este príncipe justamente por ser maçom. Tréplica: “Mas ele está dizendo a verdade!” Como pode, pergunto-me, um tradicionalista dizer tal enormidade? Só o pode porque tristemente perdeu a convicção antiberal e antimaçônica – e isto não é senão resultado da influência liberal-conservadora que tento mostrar aqui.

5) Por fim, está o apoio como que oficial de um dos grupos tradicionalistas a D. Carlo Maria Viganò, exaltado por este grupo como uma sorte de novo D. Lefebvre. Além de andar de braço dado com gnósticos perenialistas da importância de Steve Bannon e de Alexander Duguin, satanista confesso; além de ter dito que Trump era o “obstáculo” que impedia o advento do Anticristo (!!!!!!!); além de ter participado de um evento ecumênico ao puro estilo do Encontro de Assis; além de – como o mostrou o insuspeito Roberto de Mattei (tradicionalista crítico e, a seu modo, também liberal-conservador) –  talvez nem sequer seja ele mesmo o autor de seus textos, mas um ghost writter, o que o torna ainda mais obscuro; além de tudo isso, portanto, a doutrina de D. Viganò sobre a crise atual na Igreja é própria do neoconservadorismo católico e portanto é incompatível com a de D. Lefebvre, como se mostra neste meu artigo: “Dom Viganò versus Dom Lefebvre: Doutrinas Inconciliáveis” (neste mesmo blog), e como se comprova pelo último artigo do mesmo Arcebispo: “Lapides clamabunt: Mons. Viganò habla sobre ‘Traditionis Custodes’” (em http://nonpossumus-vcr.blogspot.com). Mas, como se verá, é na própria apresentação deste mesmo artigo – a qual inclui uma crítica de todo infundada e injusta ao superior do outro grupo tradicionalista – que se vê como o grupo tradicionalista em questão perdeu completamente o rumo das razões que justificariam sua própria existência. De fato, elogiar este artigo de D. Viganò implica confessar, ipso facto, e ainda que inconscientemente (como quero crer): Já não sou tradicionalista.

* * *

Conclusão da série: em verdade, tudo quanto se disse aqui não faz senão mostrar que considerável parte do tradicionalismo católico se vai corroendo em seus fundamentos por graves debilidades doutrinais, ou seja, filosóficas e teológicas. É como se parte razoável dos tradicionalistas atuais ainda vivesse na década de 1950-1960, quando o “tradicionalismo” tomista e o da Cúria foram incapazes, apesar de seus esforços, de impedir que o Reno desaguasse no Tibre; eram, para usar expressão alheia, “muros com brechas”. Ou mais ainda: é como se esta parte do tradicionalismo católico ainda pensasse em termos de consagração da Rússia pedida por Nossa Senhora em Fátima e, pois, de um anticomunismo caduco e anacrônico. Com efeito, como mostro em “Fátima e a Rússia de Putin, ou quando se faz imperioso um ‘parece’” (in Estudos Tomistas – Opúsculos II), a promessa de Nossa Senhora era condicional: “Se..., então...”, ou seja, como não se consagrou a URSS a seu Imaculado Coração, o império comunista espalhou seus erros pelo mundo (e até no mesmo CVII); e hoje é o mesmo mundo ocidental, sob o tacão cor-de-rosa da revolução sadolibertina, o que busca espalhar seus erros numa Rússia neoczarista. Com isso, ou seja, se permanecer nesse passadismo que não se quer renovar e que para tal se cega à realidade atual, tornando-se incapaz de aderir na prática à doutrina do reinado social de Cristo e de compreender que o Apocalipse de São João nos revela perfeitamente o que estamos vivendo – o milênio é duplo, como o mostrarei em meu Comentário ao Apocalipse, e ambos já se cumpriram –, esta parte do tradicionalismo católico acabará por não distinguir-se de um dos chifres da Besta da terra, o humanismo, com o que se mostrará inabilitada para cumprir seu papel precípuo: conduzir sua pequena grei a imitar a Cristo nos derradeiros combates da história.