quinta-feira, 2 de abril de 2020

SANTO TOMÁS DE AQUINO: "MEU DEUS, NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM" -- ORAÇÃO


[Tradução: Gederson Falcometa]

Meu Deus, não te esqueças de mim,
quando eu me esqueço de ti.
Não me abandones, Senhor,
quando eu te abandono.
Não te distancies de mim,
quando eu me distancio de ti.
Chama-me se fujo de ti,
seduz-me se te resisto,
levanta-me se caio.
Dá-me, Senhor, Deus meu,
um coração vigilante
que nenhum vão pensamento leve para longe de ti,
um coração reto
que nenhuma intenção perversa possa desviar,
um coração firme
que resista com coragem a toda adversidade,
um coração livre
que nenhuma paixão torpe possa vencer.
Concede-me, peço-te, uma vontade que te busque,
uma sabedoria que te encontre,
uma vida que te agrade,
uma perseverança que te espere com confiança,
e uma confiança que ao fim chegue a possuir-te.
[Amém.]




terça-feira, 31 de março de 2020

Direitismo conservador “católico” versus Teologia da Libertação – duas cabeças da mesma hidra


Carlos Nougué

1) A Teologia da Libertação é um dos cânceres surgidos na Igreja em nossa época, que provavelmente (como o diz Santo Antônio Maria Claret) é a última do mundo (para um estudo meu acerca desta questão, cf. https://www.estudostomistas.com.br/2018/06/se-se-deve-rezar-pela-salvacao-do-mundo.html). Tomando por ponto de partida algo correto e sustentado pelo magistério da Igreja – a saber, que o liberalismo e o capitalismo dele resultante vão contra a lei natural –, a TL, todavia, “esquecendo” outro ponto sustentado pelo mesmo magistério – a saber, que o comunismo é intrinsecamente mau e, até porque brota da mesma raiz liberal, não é solução para os males do capitalismo –, adere à iníqua doutrina marxista. Deixa de lado, assim, a doutrina da “Quas primas” de Pio XI, segundo a qual, se não se põe sob o reinado de Cristo, o mundo não pode senão sucumbir.
2) Mas o direitismo conservador “católico” faz o exato oposto que a TL. Tomando por ponto de partida algo correto e sustentado pelo magistério da Igreja – a saber, que o comunismo é intrinsecamente mau –, o direitismo conservador católico, “esquecendo” o outro ponto sustentado pelo mesmo magistério – a saber, que o liberalismo e o capitalismo dele resultante vão contra a lei natural e foram os coveiros do que restava de cristandade –, adere ao mesmo e iníquo liberalismo (para a indistinção essencial entre o liberalismo liberal e o liberalismo conservador, cf. meu vídeo https://www.youtube.com/watch?v=ofO9N121ZHI&t=1126s). Deixa de lado, portanto, tal como a TL mas com sinal invertido, a doutrina da Quas primas de Pio XI, segundo a qual, insista-se, se não se põe sob o reinado de Cristo, o mundo não pode senão sucumbir.  
3) É pois por isso que o direitismo conservador “católico”, mesmo quando brada “Viva Cristo Rei!”, tem por únicos inimigos, em geral, o comunismo e, em particular, a TL. Contando no Brasil com vasta rede de entidades, com centros diretores ostensivos ou discretos e com lideranças (laicas e até religiosas) altamente representativas, todos os quais, ademais, se aliam ao direitismo conservador não católico e constituem com este uma verdadeira seita política (cujo expoente popular é ninguém menos que atual e instável presidente da República), o direitismo conservador “católico” mostra sua verdadeira face diante da atual pandemia de coronavírus: o que lhe importa é a conservação do econômico, razão por que seu foco é atacar a China ou judas como a Rússia de Putin e não considerar que esta peste resulta da ação de um dos cavaleiros do apocalipse. É um flagelo de Deus pela apostasia – liberal ou comunista ou marcusiana – do mundo, com sua multidão de pecados contranatura e de ignominiosos sacrilégios e blasfêmias (até no âmbito da mesma Igreja: “a abominação da desolação instalada no lugar santo”). Mas nada disto importa ao direitismo conservador “católico”. Despreza que em momento tão dramático se deva aplicar a doutrina social da Igreja, de modo que caiba agora aos mais ricos (além de ao estado) o ônus de sustentar a sociedade e suas camadas mais desfavorecidas. E, para que se veja que esta proposição não é de modo algum absurda, saiba-se que em nosso país pouco mais de 40 homens acumulam mais dinheiro que metade de nossa população (ao passo que, se se trata do mundo, este é como que uma propriedade de algumas poucas dezenas de famílias). Nunca houve tal disparidade antes da vitória definitiva do espírito burguês no século XIX (conquanto tal espírito tenha nascido no âmbito mesmo da cristandade, no século XIII). Mas nem precisamos chegar a tais detalhamentos econômicos. Basta-nos, aos católicos, conhecer os documentos da doutrina social da Igreja e o que nossos santos e doutores escreveram desde sempre sobre isto. Com efeito, diz São Basílio (em seu “Comentário a Mateus” 25, 31-46): “O pão que para ti sobra é o pão do faminto. A roupa que guardas mofando é a roupa de quem está nu. Os sapatos que não usas são os sapatos dos que andam descalços. O dinheiro que escondes é o dinheiro do pobre. As obras de caridade que não praticas são outras tantas injustiças que cometes. Quem acumula mais que o necessário pratica crime”. Diz, por seu lado, São Gregório Magno (in “Regula pastoralis”, 3, 21): “Quando damos aos pobres as coisas indispensáveis, não praticamos com eles grande generosidade pessoal, mas lhes devolvemos O QUE É DELES. Cumprimos um dever de justiça e não um ato de caridade”. E diz Santo Tomás de Aquino (em dois lugares da “Suma Teológica”), o mesmo Santo Tomás cuja doutrina a Igreja fez sua: “A propriedade é um direito, mas tem por limite o bem comum”; e “as coisas que possuímos com superabundância são devidas, por direito natural, ao sustento dos pobres”.  Mas não: o direitismo conservador “católico” chega a aderir à proposta de expor a população a contágio do novo vírus desde que se salve, intacta, a sacrossanta riqueza dos mais ricos. É o sacrifício da vida, imolada no altar do deus Mamon. Por isso não hesito em pôr entre aspas o “catolicismo” desta direita conservadora. 
4) Não caiamos porém nós mesmos em erro análogo ao desta direita: não corramos em busca de soluções ou saídas políticas, porque, com efeito, dado o estado atual do mundo, a doutrina sócio-político-econômica da Igreja não tem hoje condições de impor-se. Tudo aponta para um governo mundial (que, não se duvide, incluirá os EUA de Trump ou de outro), governo que será o cenário propício para a entronização do Anticristo. É hora de heroísmo. É hora de nos refugiarmos do mundo no abrigo de nosso lar e na alcova de nossa alma, além de praticar a caridade e de gritar ainda que num como deserto: Arrependamo-nos todos de nossos pecados e convertamo-nos a Deus. E rezemos para que também os da direita conservadora “católica” se convertam, e assim não soçobrem na pantomima mundana e trágica de uma hidra bicéfala.

domingo, 29 de março de 2020

CARTA QUE EU ENVIARIA A JAIR BOLSONARO SE TIVESSE COMO FAZÊ-LO


(Mas, se alguém tiver como fazê-lo e se quiser fazê-lo, sinta-se à vontade.)

Excelentíssimo Senhor Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro

Peço-lhe encarecidamente, Sr. Presidente, que não dê ouvidos a fanfarrões e falastrões metidos a sabe-tudo cujo intuito, ao propor que a crise que vive o mundo hoje com a pandemia do coronavírus não é grave e que se deve suspender abruptamente a quarentena horizontal por todo o país, é pelo menos obscuríssimo. Porque a verdade, Sr. Presidente, é que as projeções para o Brasil com respeito à pandemia são alarmantes, como se pode ver pelo texto que anexo a esta carta, de autoria do Dr. Ney Meziat Filho, PhD. Não por nada, aliás, o presidente norte-americano, Donald Trump, retrocedeu de sua proposta de “quarentena vertical” e diz agora: “Prioridades são garantir a vida e a segurança, e depois a economia...” (https://noticias.uol.com.br/…/trump-prioridades-sao-garanti…).
Mas há mais, Sr. Presidente. Parabenizando-o embora pela medida segundo a qual o governo federal pagará durante dois meses os salários dos empregados das pequenas e médias empresas, devo dizer-lhe, todavia, que é insuficiente, razão por que deve Vossa Excelência exigir dos banqueiros, dos megainvestidores e dos megaempresários que contribuam decididamente com seu dinheiro para o enfrentamento da atual crise. Com isso Vossa Excelência não só calaria a esquerda e os arrivistas de plantão (a esquerda espanhola, no poder, irritou-se sobremaneira quando um empresário espanhol doou 600 milhões de euros para o combate à pandemia...), mas cumpriria um preceito cristão e, assim, até honraria um de seus nomes, Messias. Vossa Excelência sempre se diz católico, e, sobretudo por isso, é que me abalanço a mostrar-lhe a doutrina da Igreja quanto à propriedade e à riqueza. Com efeito, escreveu Santo Tomás de Aquino (cuja doutrina a Igreja fez sua) na “Suma Teológica”, “a propriedade é um direito, mas tem por limite o bem comum”. E não só isso, senão que escreveu também na mesma obra: “Portanto, as coisas que possuímos com superabundância são devidas, pelo direito natural, ao sustento dos pobres". E, como se não bastassem tais citações e o conjunto das encíclicas de vários papas que configuram a chamada Doutrina Social da Igreja, deixo-lhe, para encerrar esta carta, estas sublimes mas duras palavras de São Basílio (em seu “Comentário a Mateus” 25, 31-46): “O pão que para ti sobra é o pão do faminto. A roupa que guardas mofando é a roupa de quem está nu. Os sapatos que não usas são os sapatos dos que andam descalços. O dinheiro que escondes é o dinheiro do pobre. As obras de caridade que não praticas são outras tantas injustiças que cometes. Quem acumula mais que o necessário pratica crime”.
Cordialmente e orando por Vossa Excelência, despeço-me.

quinta-feira, 12 de março de 2020

ADEUS A UMA ILUSÃO – MEU ROMPIMENTO FORMAL COM O CENTRO DOM BOSCO E COM A LIGA CRISTO REI


Carlos Nougué

Nota prévia 1. Peço-lhes desde já imenso perdão pela extensão e pela aridez das linhas que se seguirão. Como porém todo o caso que culmina na decisão minha que se lê no título deste texto envolve muita desinformação, duplicidade e inverdade, e como nos últimos três anos minha atividade católica pública esteve muito identificada com o CDB e com a LCR, vejo-me obrigado a escrevê-las assim. Mas tentarei que seja minha última palavra sobre o assunto. Quero virar esta página definitivamente, e só voltarei ao tema se se disserem falsidades graves acerca de mim. Não se pense que me tenho em alta conta; meu ofício não é ter razão, e sou um pecador como outro qualquer. Mas tenho coisas que defender: um magistério tomista, uma produção livresca filosófica, e antes de tudo uma família, onde meu filho de 15 anos jamais verá seu pai encolher-se como uma donzela diante de nenhuma cara feia – nem, muito menos, de hereges.
Nota prévia 2. O que relatarei aqui tem muita semelhança com algo que vivi entre 2009 e 2011. Não vou tocar este caso neste texto, e não o farei nunca se deixarem de aguilhoar-me com indiretas. Se todavia continuarem a fazê-lo, ver-se-á perfilar por minhas palavras uma figura horrenda, mesclada de inveja, de traição e de covardia.

1) Converti-me aos 49 anos (tenho hoje 68) após uma vida de ateísmo e de revolução; e converti-me já em ambiente tradicionalista. A partir de certa altura, ademais, passei a fazer parte do movimento tradicionalista conhecido por Resistência.
2) Há cerca de três anos e meio, no entanto (e perdoem-me qualquer imprecisão cronológica), conheci o CDB e afastei-me da Resistência (sem animosidade, creio) porque ela não via nos rapazes do CDB o que eu julgava ver: no bojo da crise deflagrada na Igreja pelo pontificado de Francisco, a evolução desses rapazes para a doutrina da realeza de Cristo e para um conhecimento cada vez maior das raízes dessa mesma crise. De início, é verdade, deparei com um clima muito influído pelo olavismo, além, é claro, de uma mistura indigesta de correntes católicas não raro antagônicas. Mas como não ter esperanças, se, semanas depois de uma queda de braços com um jovem astrólogo (por sinal, um jovem de ouro), veio agradecer-me ele: tinha até confessado a um padre o pecado da astrologia? Como não tê-la, se se formava a Liga Cristo Rei, se se começava a defender aí o estado católico, se me deixavam campo aberto para tratar a crise da Igreja, se progressivamente mais e mais jovens aderiam ao rito tridentino, etc.? Nunca, em nenhum momento, nem nas aulas no CDB nem nas palestras dos fóruns da LCR, eu deixei jamais de expor a mesma doutrina que sempre expus desde minha conversão. – Além disso, afeiçoei-me a alguns rapazes como a filhos, além de que, já gravemente doente há três anos e meio, sempre recebi generosa e caridosa ajuda deles e do CDB em geral (por exemplo, o CDB arcou com todas as despesas do funeral de minha irmã, após o qual eu teria a primeira de cinco internações no ano passado). A gratidão que lhes tenho irá comigo após a morte como vincos na alma.
3) Mas eis que há uns dois anos minha esperança cambaleou pela primeira vez. Um dos principais dirigentes do CDB me escreveu um dia: “Professor, acho que devemos parar de falar um pouco do estado cristão. O Olavo vai reagir, etc., etc.” Eu, na hora, meio atordoado, disse que sim. Mas exatamente na manhã seguinte lhe escrevi: “Se quiserem vocês parar de falar do estado cristão, façam-no. Eu continuarei a fazê-lo, e que me ataque Olavo”. – Foi por então que percebi a grande influência que Antônio Donato, o responsável pelo grupo Anistia (que coordena, ao que parece, a resistência nacional ao aborto, etc.), exercia sobre alguns dos principais membros do CDB. Ora, já escrevi no FB que por seu livro A Educação segundo a Filosofia Perene não se pode ver em Donato um gnóstico ou perenialista; mas deve ver-se, sim, um modernista conservador, o que se pode provar sobretudo pelo capítulo de seu livro atinente à política: puro Jacques Maritain, o corruptor do tomismo no século XX. Como quer que seja, contudo, é inegável que do Anistia fazem parte muitos e não desprezíveis olavetes, e que a postura geral do Anistia com respeito a Olavo de Carvalho e sua seita é pelo menos de cordialidade. As coisas começavam a juntar-se em minha mente, e não faltava confirmação por parte de algumas pessoas. Como porém algum tempo depois o CDB voltou a falar em estado cristão, minha beata e beócia ingenuidade fez-me cegar outra vez.
4) Mergulhei mais e mais no CDB e na LCR, que passaram a ser o centro de minha vida católica pública. Sucede no entanto que no primeiro semestre do ano passado me chegou ao conhecimento que o ministro Ernesto Araújo, gnóstico perenialista assumido, palestraria no III Fórum da LCR. Opus-me (com outros), mas a resposta da parte do CDB era sempre a mesma: Nossos mestres (Antônio Donato, Leonardo Penitente, Dom Justino...), além de personalidades como o Dr. Ricardo Dip e Miguel Ayuso, não veem óbice nenhum na participação do ministro. Disse então ao CDB que não palestraria eu no Fórum. Após porém muitos e-mails, telefonemas e reuniões, acabei por ceder, até porque se me fez a promessa de que eu poderia palestrar imediatamente após o ministro e dizer, pois, o que eu quisesse acerca do perenialismo, etc. Quis a fortuna que o ministro não pudesse comparecer ao encontro.
5) No III Fórum da Liga Cristo Rei, minha ingenuidade beata e beócia cegou-me ainda mais. Realmente, afigurava-se-me que a Liga como um todo progredia firmemente para posições católicas tradicionais e consequentes. Lembre-se, aliás, que pouco antes do Fórum pude gravar para o CDB a primeira aula da série “Raízes da Crise na Santa Igreja”, na qual resumi a doutrina de meu livro Do Papa Herético (cf. https://www.youtube.com/watch?v=M1fGx3uJhfw&t=202s). – Quanto a OdC, desde 2011, depois de desafiá-lo a um debate para desagravar a honra de um amigo (desafio de que ele correu em meio a mentiras e xingamentos), eu houvera por bem criticar sempre suas heresias gnóstico-modernistas sem todavia citá-lo nominalmente (estando sempre preparado, no entanto, para o confronto público se ele me atacasse nominalmente), e acreditei ver no CDB a mesma política. Eis no entanto que há poucos meses descobri, tristemente, que não era esta a política do CDB, mas a de não entrar nunca em confronto com OdC. Em verdade, descobri que eu não era mais que uma fachada tradicionalista para o CDB e a LCR, capaz de atrair muita gente, desde porém que não se tocasse o ninho de vespas das relações cordiais entre CDB-LCR, Anistia e OdC.
6) Para que se veja a justeza do que digo, sou forçado a dar a cronologia dos eventos que me fizeram cair enfim as escamas dos olhos.
a) Há uns meses, o Padre Sérgio Muniz e dois importantes dirigentes do CDB começaram a criticar Italo Marsili pelo tratamento prostibular que aplicara a um suposto paciente seu pedófilo. Nunca entendi muito bem por que os três passaram a criticá-lo publicamente e tão duramente, porque, pensava, OdC muito provavelmente reagirá em defesa de Italo. Continuo sem entendê-lo.
b) A reação do sofista psiquiátrico foi dura, bem ao estilo da seita olavética, e vi os três que haviam começado a criticá-lo esmorecer. Era uma humilhação. Entrei na briga com Italo para defender os três e o CDB. Travou-se então este diálogo escrito entre um desses dois dirigentes do CDB e mim:
Eu: “Mas exatamente por isto é que tomei a frente da coisa: para aliviar o CDB. Fique tranquilo. Sou casca-grossa, velho comuna... Um abraço grato e saudoso”.
Ele: “kkkk. o sr estará em nossa história, mestre”.
Pouco depois, o outro dirigente do CDB escreveu num comentário de meu perfil do FB: “O senhor está nos mostrando o que é a verdadeira testosterona (a católica)”.
c) Mas eis que uns seguidores de Italo e de OdC começaram a detratar-me, pasmem! pelo fato de eu ter cuidado durante um ano de uma cadela de OdC!... (Eu fora editor de OdC durante dois anos antes de minha conversão.) Não me fiz rogar: escrevi um post no FB chamando-os “um imbecil coletivo”. – Hoje, os dirigentes do CDB dizem que com este post fui eu quem começou a briga com OdC; que o provoquei eu. Certamente quereriam que eu pusesse o rabo entre as pernas como eles têm feito diante de fundas humilhações públicas que OdC, Italo Marsili, Silvio Grimaldo, Mauro Ventura et caterva lhes vêm infligindo (não as mostro aqui; mas, se o negarem, fá-lo-ei em outra publicação). Ademais, ainda que tenha sido esta a razão do que se verá a seguir, que erro ou pecado há em criticar um herege e gnóstico? Ou talvez o haja, segundo as cordiais relações entre CDB-LCR, Anistia e OdC...
d) Como era de esperar, OdC passou a atacar-me – e eu a reagir. Não me é preciso recapitular os muitos passos desta contenda. Mas devo mostrar, ainda, os dois últimos diálogos entre mim e o mesmo dirigente do CDB que dissera que eu entraria para a história deste. O primeiro:
Ele: “Mestre. Avalia se é necessário estender essa briga [com OdC]. Pense mais um pouco”.
Eu: “É guerra, meu amigo, sem passo atrás. Não sou cão para pôr o rabo entre as pernas. Ele é que começou. Agora vou com tudo. E quem quiser apoiar-me que o faça. Quem não quiser que não o faça. Já me acostumei com os XXXs da vida. Acho que vou mostrar a meu filho um ato de covardia? Quer que ele veja seu pai enxovalhado sem reagir? Por favor, XXX. Repense-o você”.
[Note-se que eu não disse que o CDB e a Liga não precisavam apoiar-me, como querem seus dirigentes vender agora ao público. Acho que aprenderam bem de OdC o uso da estimulação contraditória.]
Ele: “Está bem. Desculpa”.
O segundo diálogo deu-se depois de o mesmo dirigente do CDB, justamente um dos que começara a guerra com Italo, ter dito que a guerra que então se travava era um show de vaidades. Perguntei-lhe:
“Você me inclui no show de vaidades?”
Respondeu-me:
“Eu não acompanhei seus posts. [...] Eu caí diversas vezes em vaidade. Não quero pagar esse preço no tribunal divino”.
Quem sabe um dia Deus me dará a graça de entender isto? Enquanto isso, porém, prossigamos.
e) Depois, passei a sofrer ataques de dupla frente: OdC e seus sequazes, por um lado, e CDB-LCR, por outro. Para a maioria dos dirigentes destes, o que eu estava fazendo, ao enfrentar o herege OdC, era imprudente! “Primeiro precisamos ser fortes para depois enfrentá-lo”, diziam e dizem; é como se os primeiros cristãos dissessem: “Primeiro precisamos ser fortes para depois enfrentar os judeus”. Creio que Santo Estêvão não o aprovaria. Mas o pior ainda estava por vir: alguns dirigentes do CDB-LCR passaram a dizer que não estavam preparados ainda para o confronto, e que seria preciso primeiro estudar bem o perenialismo para enfim lançar-se a criticar OdC. Haja sofisma, ou melhor, haja covardia travestida de sofisma! Se alguém, como OdC, diz – como de fato o faz – que a religião é um “conto de fadas”, de que precisa mais um católico para afastar-se dele? Se esse mesmo OdC diz – como de fato o faz – que Cristo não veio trazer-nos nenhuma doutrina (nem moral!), de que precisa mais um católico para denunciá-lo? Nem de meditação, nem de estudo, nem de conselho. Mas parece que pelas veias de muitos líderes católicos atuais corre sangue de barata.
f) Estou para terminar este texto, tão aborrecido para mim como certamente para todos. Mas antes preciso ainda tecer algumas considerações.
a) Não vou parar a luta contra OdC e sua seita gnóstica disfarçada de católica. Mas o vou fazer sobretudo em livros, etc. Quero vê-los refutar-me. Vou sair do terreno deles, ou seja, o das futricas de FB, e forçá-los a lutar em terreno onde são de todo ineptos: o da fé, o da doutrina, o da verdadeira filosofia. Chutar comunista morto é fácil. Venham arrostar-me a mim.  
b) Rompo formalmente toda e qualquer relação, incluindo a editorial, com o CDB-LCR. Isto me afetará financeiramente; perco público comprador de livros. Mas não vou agir como eles, que, como me disse alguém indignado, agem assim “porque não querem perder os contatos” – o grand monde do conservadorismo donatista-olavético. – Como porém não sou sectário, sempre que o CDB e a LCR fizerem algo de efetivamente bom pelo catolicismo, ou lançarem um livro de real importância, divulgá-lo-ei sem nenhuma hesitação.
c) Por fim, acusei-me mais acima duas vezes de “ingenuidade beata e beócia”. Mas devo ser tão duro comigo? Em parte sim, mas em parte não: porque a Liga Cristo Rei não é composta somente de timoratos. É com um coração vibrante que vejo quatro centros da LCR enfrentar virilmente, com toda a hombridade, não só a seita nefasta de OdC, mas os restantes centros da mesma Liga. São eles: o Centro São Pedro de Verona (Maceió), o Instituto Leão Magno (São Paulo), o Instituto Jackson de Figueiredo (Aracaju) e o Centro Cultural Ávila (Belém). Que prossigam, ainda que minoritariamente.
d) Mas não os lidero, nem os vou liderar, apesar das falsas acusações de que são dirigidos por mim (é que quem só sabe viver sob o tacão de um guru não consegue imaginar outra coisa). Meu ato de rompimento é solitário. Já vai longe o tempo de minha estada nesta terra. Peço a Deus que me deixe completar a educação de meu filho, a gravação das 250 aulas da Escola Tomista, e os muitos livros que estou escrevendo (alguns com atraso por causa de meu péssimo estado de saúde, pelo que, aliás, peço outra vez desculpas). Mas o fato é que vivo hoje numa bolha; já nem posso sair de casa; e não é difícil de imaginar que me encontro em constante preparação para a morte. Não posso pois dar-me agora ao luxo de fazer o que nunca quis: liderar nada. Os referidos quatro centros têm todo o meu apoio; mas deles não espero senão que continuem viris.
Que tudo seja para maior glória de Deus – e viva Cristo Rei!  

   P.S.: Não poderia deixar de agradecer aqui, penhoradamente, o apoio que sempre me prestou a Sociedade da Santíssima Virgem Maria, de Montes Claros (MG); e, para fazê-lo, nada melhor que repetir uma vez mais seu brado: Maria sempre!

segunda-feira, 9 de março de 2020

O CAMINHO PARA A SABEDORIA


Carlos Nougué

A André Abdelnor Sampaio

1) Todos os homens conhecem, mas só alguns sabem: são os filósofos. Ora, talvez eu tenha capacidade ou pendor para ser filósofo, o que se vê por minhas mesmas interrogações acerca da realidade. Lembre-se que o menino Tomás de Aquino perguntou um dia: “Que é Deus?”
b) A realidade já me fala, a mim enquanto homem, e a mim enquanto possível filósofo. Se assim não fosse, minhas ideias antecederiam o conhecimento que tenho das coisas – o que é absurdo. Ter tal certeza, a de que é a realidade a que antes me fala a mim, chama-se realismo.
c) Ademais, assim como o jovem Tomás de Aquino logo constatou que gerações e gerações de filósofos anteriores a ele já haviam feito interrogações acerca da realidade semelhantes às que ele fazia desde menino, assim também eu, como todo e qualquer possível filósofo realista, logo verei que não poderei senão alçar-me sobre ombros de gigantes.
d) E logo perceberei, em meu pendor filosófico realista, que alguns deram respostas mais adequadas e mais realistas às comuns interrogações filosóficas – e passarei a preferi-los. Mas não me será difícil constatar que a filosofia por antonomásia é a aristotélica, a que se poderão juntar contribuições especialmente platônicas ou, antes, neoplatônicas.
e) Não obstante, logo verei também que no aristotelismo, se se lançaram solidamente os alicerces da sabedoria – ou seja, a Lógica –, a cúpula porém da mesma sabedoria filosófica – a Metafísica – permaneceu ainda na infância.
f) O próximo e derradeiro passo não é árduo: terei de aderir à doutrina metafísica de Santo Tomás de Aquino, ou seja, à sua síntese ordenada à Teologia Sagrada, na qual ressalta, sim, o aristotelismo, mas corrigido, aprimorado, completado e elevado às alturas com a doutrina da distinção real entre ser e essência e da distinção entre ente por essência e ente por participação. O tomismo é o ápice da sabedoria.
g) Em outras palavras: não serei eclético nem inventarei uma nova doutrina, senão que seguirei a Santo Tomás em espírito e – sempre que possível – em letra, tentando aplicar sua doutrina a campos ou a aspectos da realidade em que o mesmo Santo Tomás não o fez. (E, naturalmente, poderei até aperfeiçoá-lo e corrigi-lo no que dele se possa aperfeiçoar ou corrigir – sempre, porém, mediante conclusões diretas do núcleo de sua mesma doutrina.) E tal adesão decorre, em última instância, da humildade radical do realismo: não havemos de dar as costas a um ápice.
    h) Se, todavia, além de ter pendor filosófico, sou católico, serei radicalmente dócil ao magistério da Igreja, cujas definições infalíveis, certas ou prováveis são sempre assistidas pelo Espírito Santo. O mesmo magistério, todavia, fez sua não só a teologia de Santo Tomás, mas, mediante as chamadas “24 Teses Tomistas”, sua filosofia – e em especial sua metafísica. Sendo assim, terei aderido ao tomismo não só segundo a razão, mas por docilidade ao magistério da Igreja. Qualquer outra adesão não se poderá pois dizer condizente com a razão nem com a fé.     

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A MARAVILHOSA DEMONSTRAÇÃO TOMISTA DA IMORTALIDADE DA ALMA HUMANA


Na Suma contra os Gentios, S. Tomás, argumentando contra os filósofos (Alexandre de Afrodísias, Avicena, Averróis...) que da necessidade das verdades eternas chegavam a uma suposta eternidade (e unicidade) do próprio intelecto humano, escreve: “Por isso não se pode concluir que a alma seja eterna, mas tão somente que as verdades que o intelecto conhece se fundam em algo eterno. Fundam-se, com efeito, na mesma verdade primeira como causa universal que contém toda a verdade”. Mas daí mesmo decorre o argumento metafísico para a imortalidade da alma humana, que tende para Deus, a primeira verdade, como para seu fim último: “Com respeito a este eterno, a alma humana não está como substância para a forma, mas como coisa para o próprio fim: a verdade é efetivamente o bem e o fim do intelecto. Mas do fim podemos arguir a duração da coisa, assim como de seu início podemos arguir a causa agente: com efeito, o que está ordenado a um fim eterno há de ser capaz de duração perpétua. Por isso, da eternidade das verdades inteligíveis pode provar-se a imortalidade da alma, ainda que não sua eternidade” (II, 84 praeterea).

Esta é só mais uma mostra da superioridade do tomismo sobre todas as demais doutrinas. Todas, diante dele, se mostram minúsculas, enquanto todos os que se negam a aceitá-lo se mostram ou soberbos ou dotados de poucas luzes. Não por nada, portanto, o magistério da Igreja fez sua também a metafísica tomista (especialmente mediante as 24 Teses): inspirou-o também nisto o próprio Espírito Santo.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

AINDA SOBRE A EXPRESSÃO “FILOSOFIA PERENE” E O ESPÍRITO DE SEITA


Carlos Nougué

Não me deixa de impressionar o radical espírito de seita que passou a imperar entre os católicos sobretudo a partir da segunda metade do século XX. Naturalmente, filhos do pecado que somos desde Adão, tal espírito sempre houve. Exemplos não faltam: o dos seculares contra os mendicantes na querela das universidades no século XIII; o que se deu a partir do século XVI entre os dominicanos e os jesuítas, os quais, sob pretexto da disputa sobre a predestinação, passaram a repugnar-se mutuamente enquanto ordens; etc. Mas o que caracteriza o sectarismo moderno entre os católicos é que já não se dá em torno de interesses, digamos, “gremiais”; mas em torno de líderes, de “gurus” – e agora praticamente sem pretextos doutrinais (que, apesar de tudo, nunca haviam deixado de motivar de algum modo). É o que constato uma vez mais, e uma vez mais impressionado, em torno agora da expressão “filosofia perene”. Dou os dados da querela.
Alguns tenazes combatentes da heresia gnóstica andaram exagerando, e filiaram um professor que usa a expressão “filosofia perene”, quase por esse só fato, à variante gnóstica do perenialismo. Tentei mostrar que tal filiação é injustificada se nos atemos a essa só expressão. É que com efeito, antes talvez de seu uso pelos perenialistas, já os neotomistas a usavam, em especial no tempo que mediou entre Leão XIII e Pio XII – e em alguns casos com o beneplácito e o eco dos próprios papas. É o caso do grande tomista francês Édouard Hugon, o autorizado comentador das 24 Teses Tomistas encomendadas por S. Pio X e aprovadas e publicadas por Bento XV. – Até aí, aplausos para mim... Bastou-me todavia dizer que a expressão “filosofia perene” é imprecisa para merecer já não aplausos, mas indignadas exclamações: “O professor que a usa tem vasta obra e é homem de grande santidade!!”... É o argumento sectário em torno de um líder. Está-se longe de discutir o mérito doutrinal da questão. Eu poderia responder em primeiro lugar que, se cada um escolhe o santo que mais lhe apraz, a santidade não há de ser privilégio de um, nem funda inerrância doutrinal (conquanto não haja santidade se se incorre em qualquer heresia, por pequena que seja). Poderia responder em segundo lugar que minha obra já é mais vasta que a do referido professor – mas quem disse que vastidão é sinônimo de qualidade? E poderia responder em terceiro lugar como o farei agora, ou seja, entrando (ainda que algo sumariamente) no mérito doutrinal da questão, o único que em verdade deveria interessar em casos como este.

Praticamente desde a morte de Santo Tomás o tomismo veio sofrendo, para usar uma expressão do Pe. Cornelio Fabro, uma sequência cada vez mais grave de inflexões (ou desvios). A perda da distinção, fundamental, entre “ser” e “existência”; a entronização pelo Cardeal Caetano da analogia de proporcionalidade em lugar da analogia de atribuição; o entendimento literal e equivocado de João de Santo Tomás das expressões aristotélico-tomistas “lógica formal” e “lógica material” (como explico detidamente na Escola Tomista); a negação a partir de Vitória da ordenação essencial do poder temporal ao poder espiritual (a qual viria dar no “humanismo integral” de Maritain); etc. Mas o tomismo terminou de ser marginalizado após a revolução francesa, e foi preciso esperar Leão XIII e sua encíclica Aeterni Patris para que renascesse – sob o nome genérico de “neotomismo”. Os papas seguintes, até Pio XII, não fizeram senão reafirmar que o tomismo é a única doutrina que a Igreja fez sua, o que possibilitou o surgimento de uma impressionante plêiade de novos tomistas a tratar problemas novos e a tentar resgatar o espírito original da obra do mestre. Mas, como deveria ser óbvio, depois de tantos séculos de inflexões e de marginalização, não era possível que o tomismo renascesse imaculado. Para um quadro da questão, vejam-se dois artigos meus: “Ainda os descaminhos filosóficos do neotomismo: os primeiros princípios e a teodiceia” (https://www.estudostomistas.com.br/2017/01/ainda-os-descaminhos-filosoficos-do.html) e “Quem é o maior tomista do século XX-XXI” (https://www.estudostomistas.com.br/2019/12/quem-e-o-maior-tomista-do-seculo-xx-xxi.html). Sucede todavia que a expressão “filosofia perene” é parte deste problema.

Entre suas dificuldades, com efeito, está o confundir a filosofia e a teologia sagrada. Em sentido estrito, a filosofia perene seria a aristotélica, com contributos platônicos e neoplatônicos. Mas não seria a tomista? É que Santo Tomás deixou uma teologia sagrada perfeitamente sistematizada; ao passo que sua filosofia ele nunca a sistematizou. Deixou a tarefa para seus discípulos. Mas a infiltração indevida entre uma e outra disciplina gerou alguns dos mais graves erros entre o neotomismo (como mostro nos dois artigos acima referidos). Para superá-lo, seria então preciso falar de uma filosofia perene (a aristotélica), que porém nunca saiu da infância quanto à metafísica, e de uma teologia sagrada perene, que alcançou a plena maturidade com Tomás de Aquino; para que a filosofia perene atinja também sua maturidade, é necessário terminar o trabalho de sistematização da filosofia tomista iniciado pelo Pe. Calderón (trabalho de que, em minha escala, me julgo partícipe).

Ou seja, o melhor é não usar a expressão, até para distinguir-se mais cabalmente do perenialismo. Ademais, eu finalmente terminei de ler a obra do referido professor em que ele usa a expressão “filosofia perene”; e, conquanto siga afirmando que ela não tem traços de perenialismo, não são pequenas algumas de minhas divergências com ela (em especial no campo da política, mas também quanto a Hugo de São Vítor, cujos méritos e insuficiências metodológicos trato com certo detalhe no livro Da Arte do Belo). Mas deixo este assunto para outro escrito e termino este escrito, não sem antes conclamar a todos a que deixem de lado o espírito sectário e sua necessidade de “gurus”. A obra teorética dos homens vale o que vale doutrinalmente. E estou tão convicto disso, que digo: meus livros e cursos, mais que falarem por mim, sou eu.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O PERENIALISMO E A EXISTÊNCIA DE DEUS


Carlos Nougué

1) Diga-se antes de tudo que para o perenialismo, como para ao menos boa parte das seitas gnósticas, o Deus criador (ou, segundo sua terminologia, o Demiurgo) não é a divindade máxima; é-o o Não Manifestado (cf. Frithjof Schuon, “A Unidade Transcendente das Religiões”).
2) Naturalmente, não se espere coerência lógica de tão perversa doutrina. E, com efeito, dizem os perenialistas que não há prova racional da existência de Deus, e que não o conhecemos (ou seja, os iluminados gnósticos) senão por experiência direta. Então não raro não deixam claro se estão falando do Demiurgo ou do Não Manifestado. Como quer que seja, porém, cometem com tal “experiência direta” uma heresia condenada várias vezes pelo magistério da Igreja (Vaticano I, 24 Teses Tomistas, etc.).
3) Como todavia querem passar-se por católicos, diante das definições do magistério da Igreja segundo as quais pode demonstrar-se a existência de Deus os perenialistas recorrem às suas "refinadas" artes de berliques e berloques: afirmam que o magistério só disse que se pode demonstrar a existência de Deus, não que já foi demonstrada. É de indignar a desfaçatez. Não só o Vaticano I se funda, em sua definição, em palavras de São Paulo que são como uma prova da existência de Deus ainda que não em forma de silogismo (cf. Carlos Nougué, “Defesa da Terceira Via de Santo Tomás”: https://www.estudostomistas.com.br/…/defesa-da-terceira-via…), como Bento XV aprovou entre as 24 Teses Tomistas justamente as vias de S. Tomás para demonstrar a existência de Deus.
4) Por fim, titânicos e prometeicos como são, os perenialistas recorrem a uma sorte de kantismo para negar as demonstrações da existência de Deus. Mas já refutei cabalmente a crítica kantiana destas demonstrações (cf. “Crítica da crítica kantiana das provas da existência de Deus”: https://www.estudostomistas.com.br/search?q=kantiana).
Observação: para quem queira conhecer a posição estritamente tomista sobre a existência de Deus e a criação do mundo, posição sobre a qual se funda o magistério da Igreja, indico aqui esta palestra minha: https://youtu.be/2FdmSU-qcXw.


Defesa da terceira via de Santo Tomás


Carlos Nougué

I. Apresentaram-se-nos as seguintes objeções à terceira das cinco vias com que Tomás de Aquino demonstra que Deus é.
O “argumento da contingência” ou “argumento cosmológico” (segundo a terminologia kantiana), ou seja, a terceira via de Santo Tomás, tem valor meramente provável. Até porque o definido pelo Concílio Vaticano I[1] – “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas; porque ‘o invisível dele, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornou-se visível’ (Rom. 1, 20)” – afirma meramente que a prova da “existência” de Deus pode ser dada, não que já o foi.
• Ora, o “argumento da contingência” é uma prova apenas do ponto de vista estritamente lógico ou lógico-formal, mas não do ponto de vista real ou material-substantivo, porque parte do mero conceito de contingência e não das coisas efetivamente criadas, como pede o definido pelo Vaticano I.
• Ademais, não se tem nenhuma garantia de que o ente necessário que a prova descobre seja Deus, e não outra coisa.

1. É a seguinte a resposta à primeira objeção.
a) As cinco vias de Santo Tomás são demonstrativas, não prováveis. Para entendê-lo, deve começar-se por mostrar a diferença entre silogismo demonstrativo e silogismo provável. Com efeito, o silogismo demonstrativo (estudado por Aristóteles nos Analíticos Posteriores) e o silogismo dialético ou provável (estudado por Aristóteles nos Tópicos) também diferem em que o primeiro não pode ser circular, enquanto o segundo pode sê-lo. É que o silogismo dialético procede precisamente ex probabilibus (de prováveis, de proposições prováveis), ou seja, do que é mais manifesto ou para os sábios ou para muitos. Sucede, no entanto, que uma mesma coisa pode ser mais ou menos manifesta quanto a diversas razões e quanto a diversos homens, razão por que nada proíbe, repita-se, que o silogismo dialético se faça circularmente. O silogismo demonstrativo, porém, faz-se ex notioribus simpliciter (de absolutamente notórios, de proposições absolutamente notórias), razão por que não pode haver demonstração circular.
Dubium. As causas são mais notórias ou manifestas que seus efeitos. Como dito, porém, as cinco vias de Santo Tomás são demonstrações quia, isto é, do efeito que é a criação (manifesto quod nos) para a causa que é Deus, que de si é notória simpliciter. Parece, assim, que ou a argumentação quia – e pois as cinco vias tomistas – não é demonstrativa, mas provável; ou pode haver demonstração circular.
Solutio. Quanto a que não possa haver demonstração circular, baste o dito. Quanto porém a que a argumentação quia seja de fato demonstrativa e não provável, diga-se o seguinte. Em primeiro lugar, na demonstração quia se parte do manifesto não segundo mais e menos quanto a diversas razões e quanto a diversos homens, mas do manifesto quanto a uma mesma razão e quanto a todos os homens. Assim nas cinco vias de Santo Tomás: é notório quanto a todos que algumas coisas se movem e que são movidas por outras; que as coisas se fazem ou se geram e que são feitas ou geradas por outras; que nas coisas algumas são somente possíveis; que as coisas têm qualidades segundo mais e menos; que, enfim, coisas não inteligentes se ordenam a um fim. Mas o silogismo provável pode partir de coisas mais ou menos manifestas quanto a diversas razões e quanto a diversos homens (enquanto, como se acaba de ver, as coisas de que partem as demonstrações quia, como as cinco vias tomistas, são manifestas quanto ao mesmo e quanto a todos). Logo, a argumentação quia não se identifica com o silogismo provável ou dialético, e a demonstração quia é, com o perdão da redundância, demonstrativa. – Mas, em segundo lugar, o que se demonstra é duplo. 1) Antes de tudo, com efeito, a ciência é um saber, ou seja, um conhecimento do necessário por suas causas, e alcança-se a ciência justamente pela demonstração. Mas da demonstração pela causa – ou seja, a demonstração propter quid, a que vai, insista-se, da causa para o efeito, e que é a propriamente científica – diz-se por isso mesmo não só que parte do necessário, mas que é do necessário. Em outras palavras, a demonstração propter quid parte de princípios necessários para alcançar uma conclusão necessária, ou seja, o demonstrado simpliciter, porque, com efeito, como os princípios são a causa da conclusão, e hão de ser evidentes e necessários por si,[2] então por eles a conclusão também será necessária.[3] 2) Depois, no entanto, se a demonstração quia não é a propriamente científica, como o é a demonstração propter quid, a argumentação quia não se identifica, porém, como dito, com o silogismo provável ou dialético e é verdadeira demonstração, enquanto conclui na existência da causa a partir do efeito (causa que pode ser eficiente ou final, material ou formal). – Quanto ainda, todavia, à diferença entre a demonstração quia e a demonstração propter quid, reside ademais em que, ao contrário do que se dá nesta, naquela a necessidade se diz tão somente quanto a que a causa existe ou é, mas não quanto a quod quid est (ou seja, à quididade).[4]
b) Sem dúvida, o definido pelo Vaticano I não diz expressamente que já se provou que Deus é. Mas definiu-o fundado explicitamente nas palavras de São Paulo “o invisível dele [de Deus], depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornou-se visível”; e tais palavras são justamente uma como argumentação quia, ou seja, não por modo de silogismo. Ademais, é justamente nelas que se pode encontrar a fonte primeira das cinco vias de Santo Tomás de Aquino.
2. É a seguinte, ademais, a resposta à segunda.
a) Antes de tudo, não se vê por onde se diz que a terceira via “parte do mero conceito de contingência e não das coisas efetivamente criadas”. Com efeito, parte não do “conceito de contingência”, mas de que nas coisas que vemos (e que são criadas) algumas são meramente possíveis, ou seja, um dia deixarão de ser. E isto é evidentíssimo, e não se nos peça que provemos o evidente: é evidente que é evidente. Somente as doutrinas “filosóficas” mais estultas, como o subjetivismo ou o idealismo mais radicais, o poderiam negar.
b) Depois, não há prova estritamente lógica ou “lógico-formal” no sentido tomado pela objeção. Naturalmente, como se vê pelo tratado dos predicáveis,[5] podem fazer-se demonstrações no âmbito dos entes lógicos de razão ou universais de segunda intenção (gênero, espécie, diferença, próprio, acidente – enquanto tais). Mas os universais de segunda intenção têm fundamento in re, ainda que remoto (enquanto os de primeira intenção o têm próximo). Ademais, como diz o Padre Calderón em Tratado de la demostración – Lógica de la terceira operación del intelecto (não publicado), “toda consequência lógica se funda em alguma causalidade real; porque, para que um silogismo seja válido, alguma das premissas deve ser universal (de dois particulares nada se segue), quer dizer, necessária, e não pode dar-se nada necessário que não tenha um fundamento real. Os silogismos são científicos ou são aplicação da ciência ao particular: não há possibilidade de discurso silogístico sem referência à ciência, isto é, ao universal. Que sentido pode ter uma lógica ‘formal’ esquecida das essências?” – Por fim, “contingência” não é universal de segunda intenção, mas conceito de acidente na categoria qualidade.
2. E é a seguinte, por fim, a resposta à terceira.
Se não é Deus o ente de si e simpliciter necessário, não se pode saber o que o será. – Outra coisa – podemos dá-lo à objeção – é que por esta via, como pelas outras quatro, não se alcance como Deus é. Justamente, porém, as cinco vias não buscam alcançá-lo, mas antes que Deus é. Como Deus (não) é, Tomás de Aquino deixa-o para as questões restantes da parte I da Suma Teológica. É que o próprio do sábio é ordenar, e é da ordem das coisas que a questão an sit (se é) anteceda à questão quomodo sit (como é). Naturalmente, não se dá questão an sit se se trata de ente manifesto aos sentidos. Mas Deus não é manifesto aos sentidos (além de não poder ser conhecido por essência nesta vida). A conclusão impõe-se.[6]
Dubium. Se, todavia, como se mostrou, as objeções apresentadas não procedem, resta porém uma última dificuldade. Com efeito, a frase da terceira via “é preciso haver algo necessário nas coisas”, explica-a assim uma nota da tradução da Suma Teológica publicada pelas Edições Loyola:[7] “Nesta demonstração, que como as quatro outras é muito reduzida, Santo Tomás prefere passar dos seres corruptíveis, cuja contingência é manifesta, aos entes incorruptíveis – os puros espíritos, também os astros”. Mas não parece convir com as cinco vias, que partem, como dito, do sensível, o recurso a entes não sensíveis. Ademais, já se sabe desde Galileu que os astros não são incorruptíveis. Logo, parece inválida a terceira via tomista.
Solutio. Segundo o mesmo caráter de demonstração quia das cinco vias, nenhuma delas poderia partir de entes não sensíveis. Mas a terceira via parte de entes sensíveis, como as outras quatro; e em momento algum refere as substâncias separadas ou os corpos celestes.[8] Diz apenas, em sua concisão, “que é preciso que algo seja necessário nas coisas”. E, se parece supor aqui os corpos celestes, que segundo sua natureza incorruptível não poderiam deixar de ser e se contraporiam assim ao entes possíveis, que podem ser ou não ser,[9] a via porém não se vê invalidada pelo fato de ter caducado tal doutrina a respeito dos corpos celestes. Antes de tudo, porque as substâncias separadas são incorruptíveis segundo sua natureza e estão entre as coisas, entre as criaturas. Depois, no entanto, porque não é somente segundo uma natureza incorruptível que alguma coisa pode dizer-se necessária. Explique-se. De duas maneiras gerais se diz que algo é necessário: ou por si mesmo, ou por alguma causa.[10] Como porém necessário por si não pode ser senão Deus (ou algo divino), se nas coisas que vemos há algo necessário, não será senão por alguma causa. E, com efeito, como diz Santo Tomás, “causa é aquilo ao qual por necessidade se segue outro”.[11] Mas o necessário per causam pode sê-lo simpliciter ou secundum quid; e assim é necessário simpliciter aquilo cuja necessidade depende de uma causa anterior, enquanto é necessário secundum quid aquilo cuja necessidade depende do que é posterior no ser.[12] Pois bem, que haja tal necessário simpliciter ou absolute “se patenteia do necessário que depende da matéria. Que o animal, com efeito, seja corruptível é necessário absolutamente: segue-se, com efeito, de que o animal seja composto de contrários. Similarmente, também o que tem da causa formal [sua] necessidade é necessário absolutamente; assim como o homem ser racional, ou o triângulo ter três ângulos iguais a dois retos, o que se reduz à definição do triângulo. E, similarmente, o que tem da causa eficiente [sua] necessidade é necessário absolutamente; assim como é necessário haver alternância de noite e de dia pelo movimento do sol”.[13] Quanto ao necessário secundum quid ou ex suppositione, depende da causa final, que, se é posterior no ser, é porém anterior na intenção do agente. Sua necessidade, com efeito, provém do fim, e da forma enquanto é o fim da geração.[14] Aprofunda-o e ilustra-o o Padre Calderón:[15] “Nos entes naturais, tanto minerais como vegetais e animais, podemos às vezes descobrir que sua existência e natureza cumpre um serviço em ordem ao maior bem do mundo. Este serviço, difícil de determinar na maioria dos casos, se segue com necessidade absoluta da natureza da coisa. Podemos também descobrir que a natureza de cada coisa responde com necessidade absoluta à disposição de suas partes e ao processo de sua geração. Esta investigação e a comparação com os processos artificiais nos permitem descobrir a finalidade nos processos naturais, achando então a necessidade hipotética [ex suppositione] dos elementos materiais e dos processos de geração, que se ordenam à forma e natureza destas coisas como a seu fim. E, por sua vez, podemos, ao menos em alguns casos, demonstrar a necessidade hipotética da existência de entes de tal natureza em razão do serviço que prestam à ordem do mundo, que é sua finalidade última”. – Pois bem, é provável que Santo Tomás tenha intencionado exprimir com a referida frase ao menos também o que se acaba de dizer, o que se pode ver expondo a via da seguinte maneira: “A terceira via é tomada do possível e do necessário, e é a seguinte. Encontramos coisas que podem ser e não ser, pois, se as vemos gerar-se e corromper-se, é porque podem ser e não ser. Ora, é impossível que coisas que são assim sejam sempre, porque o que pode não ser não é em algum momento. Se, pois, todas as coisas podem não ser, houve um momento em que nada era. Ora, se isso fosse verdadeiro, nada seria agora, porque o que não é não começa a ser senão pelo que é; se, portanto, nenhum ente tivesse sido, teria sido impossível que algo começasse a ser, e por isso mesmo nada seria, o que patentemente é falso. Nos entes, portanto, há de haver algum ou algo de algum modo necessário; e diz-se necessário o que não pode ser de outra maneira. Ora, tudo o que é necessário ou tem a causa de sua necessidade em outro, ou não. Ademais, não é possível proceder ao infinito nas coisas necessárias que têm uma causa para sua necessidade, assim como tampouco nas causas eficientes, como se provou. Logo, é necessário admitir algo que seja necessário per se, que não encontre em outro a causa de sua necessidade, mas seja a causa da necessidade para os outros, e é a este algo que todos chamam Deus”.







[1] Constituição Dogmática sobre a Fé Católica, cap. 2 (“Da Revelação”); Denzinger, 1785.
[2] Cf. Tomás de Aquino, In V Metaph., lect. 6, n. 838-839.
[3] “Os princípios são necessários por si mesmos porque são algo de certo modo divino, pois se dão na mente à maneira de um reflexo especular da Verdade primeira, que é Deus (cf. Tomás de Aquino, Summa Theol. I, q. 16, a. 5, ad 1). Mas mostrar isto pertence à Metafísica, única ciência que reflete sobre seus próprios princípios. A necessidade, em contrapartida, da conclusão de uma demonstração per causam ou proter quid, única verdade propriamente científica, é uma necessidade com causa” (Padre Álvaro Calderón, La naturaleza y sus causas, t. I, Buenos Aires, Ediciones Corredentora, 2016, p. 152-153).
[4] Cf. Padre Álvaro Calderón, op. cit., p. 153.
[5] Cf. a Isagoge de Porfírio.
[6] Com efeito, diz Santo Tomás na Suma Teológica (parte I, proêmio da questão 2): “Circa essentiam vero divinam, primo considerandum est an Deus sit; secundo, quomodo sit, vel potius quomodo non sit; tertio considerandum erit de his quae ad operationem ipsius pertinent, scilicet de scientia et de voluntate et potentia”.
[7] 2.ª ed., São Paulo, 2003, p. 167-168.
[8] Obviamente, a doutrina cosmológica segundo a qual os corpos celestes são incorruptíveis e não têm potência senão para o lugar era falha (por falta do devido instrumental) e caducou; mas foi compartilhada universalmente até Galileu, que por sua vez cometeu equívocos tão graves como pôr o sol imóvel no centro do universo.
[9] Segundo porém o dito em seguida na mesma via, se os corpos celestes, por sua natureza incorruptível, seriam necessários, não teriam por si todavia tal necessidade, senão que a teriam causada por outro. Mas por isso mesmo também deveriam dizer-se possíveis ou contingentes. Com efeito, como põe o Padre Álvaro Calderón em La naturaleza y sus causas (t. II, op. cit., p. 90), “a Metafísica conclui que só Deus tem o ser por essência, e que tudo o mais depende d’Ele para existir, razão por que, embora algumas coisas pudessem ter um ser eterno, ingerável e incorruptível, podem todavia ser criadas ou aniquiladas, razão por que podem dizer-se ‘contingentes’ em sentido mais amplo [...]”. 
[10] “[...] aliqua sunt necessária dupliciter. Quaedam quidem quorum altera sit causa necessitatis; quaedam vero quorum nulla sit causa necessitatis; et talia sunt necessaria propter seipsa” (Tomás de Aquino, In V Metaph., lect. 6, n. 839).
[11] Tomás de Aquino, In V Metaph., lect. 6, n. 827.
[12] “Quaerit ergo primo utrum in rebus naturalibus sit necessarium simpliciter, idest absolute, aut necesario ex conditione, sive ex suppositione” (Tomás de Aquino, In II Physic, lec. 15, n. 270).
[13] Tomás de Aquino, In II Physic, lec. 15, n. 270 (“Quaerit ergo primo utrum in rebus naturalibus sit necessarium simpliciter, idest absolute, aut necessarium ex conditione, sive ex suppositione. Ad cuius evidentiam sciendum est, quod necessitas quae dependet ex causis prioribus, est necessitas absoluta, ut patet ex necessario quod dependet ex materia. Animal enim esse corruptibile, est necessarium absolute: consequitur enim ad hoc quod est animal, esse compositum ex contrariis. Similiter etiam quod habet necessitatem ex causa formali, est necessarium absolute; sicut hominem esse rationalem, aut triangulum habere tres angulos aequales duobus rectis, quod reducitur in definitionem trianguli. Et similiter quod habet necessitatem ex causa efficiente, est necessarium absolute; sicut necessarium est esse alternationem noctis et diei propter motum solis. Quod autem habet necessitatem ab eo quod est posterius in esse, est necessarium ex conditione, vel suppositione; ut puta si dicatur, necesse est hoc esse si hoc debeat fieri: et huiusmodi necessitas est ex fine, et ex forma inquantum est finis generationis. Quaerere igitur utrum in rebus naturalibus sit necessarium simpliciter aut ex suppositione, nihil aliud est quam quaerere utrum in rebus naturalibus necessitas inveniatur ex fine, aut ex matéria”).
[14] Cf. Tomás de Aquino, In Metaph., lect. 6, n. 827. – À objeção de que o modo de necessidade dito ex suppositione não é real, mas somente lógico, responde o Padre Calderón (La naturaleza y sus causas, t. I, op. cit., p. 152): “A necessidade hipotética [ex suppositione] tem certa realidade se B não se considera como efeito e consequência de A, mas como fim. Porque, conquanto o fim seja posterior no ser, é porém anterior na intenção, e, como tal, é verdadeira causa. Se na intenção do artífice está que a cadeira seja combustível, fazê-la de madeira então se faz realmente necessário, ainda que evidentemente se trate de um modo distinto de necessidade”.
[15] Ibidem, p. 154.