quarta-feira, 28 de julho de 2021

Dom Viganò versus Dom Lefebvre: Doutrinas Inconciliáveis

                                                                                                                              Carlos Nougué 

O quadro que verão abaixo não é originalmente meu; foi-me enviado por um amigo. Fiz-lhe acréscimos e precisões que julguei necessários, com a autorização de seu autor. Pois bem, neste quadro se abstraem de todo quaisquer aspectos que não se atenham estritamente à visão dos dois eclesiásticos quanto à (mal chamada) “Igreja conciliar”. A “Igreja conciliar”, ou seja, a que nasceu no CVII, é a Igreja mesma, com seu papa e sua hierarquia, que não o são só materialmente, como querem alguns sedevacantistas; também o são formalmente, razão por que qualquer papa “conciliar” pode, por exemplo, mudar as leis que regulam a eleição do próximo papa. É seu o ius eligendi, e ele o transmite ao colégio eleitoral. Sucede no entanto que a “Igreja conciliar”, como o digo e redigo em Do Papa Herético e no curso online “A Atual Crise na Igreja”, renunciou ela mesma à sua autoridade doutrinal, a seu carisma da indefectível assistência do Espírito Santo, e o transferiu, de modo perfeitamente demoliberal, ao Povo de Deus, dotado por si mesmo, segundo ela, de infalível sensus fidei por assistência direta do mesmo Espírito Santo, restando para o magistério da Igreja o papel de como mediador de mesa de debates infindáveis. Daí que os fiéis não lhe devamos dócil acatamento; daí que, enquanto magistério liberal, possa incorrer em desvio da fé, e o faz muitas vezes em ordem à religião do homem vitoriosa no CVII; e daí que tampouco suas leis litúrgicas, suas canonizações, etc., participem da infalibilidade, justamente porque ao católico liberal repugna o dogma e a certeza. Mas atenção: se por ação do mesmo Espírito Santo um papa conciliar renegar seu liberalismo e, por exemplo, definir ou propuser alguma doutrina, fá-lo-á como magistério autêntico infalível ou certo, e a ele lhe deveremos então dócil acatamento. O carisma da infalível verdade, nenhum papa enquanto papa o perde, assim como, mutatis mutandis, se continua sacerdote até no inferno. – Feitos contudo tais esclarecimentos prévios, dou-lhes o referido quadro comparativo das posições de D. Viganò e de D. Lefebvre, muito ilustrativo da diferença que há entre os dois: a diferença entre o catolicismo tradicional (perdoe-se-me a redundância), o de D. Lefebvre, e um catolicismo liberal-conservador que quer combater certos efeitos sem atacar sua causa, o de D. Viganò.

 

DOM VIGANÒ

DOM LEFEBVRE

A “Deep Church (Igreja profunda ou obscura)” de Francisco não é a Igreja “oficial”.

A “Igreja conciliar” é a Igreja “oficial”.

A Igreja “oficial” é a Igreja Ca-tólica.

A Igreja “oficial” é a Igreja Católica cuja hierarquia se des-viou da fé e fundou a religião do homem.

A “Deep Church” começou no CVII, mas permaneceu oculta, crescendo nas sombras.

A “Igreja conciliar” começou no CVII e, imediatamente após o término do Concílio, pôs a Igreja a serviço da religião do homem.

A “Deep Church” só se manifestou plenamente no pontificado de Francisco, através de um golpe de estado contra Bento XVI.

A “Igreja conciliar” tem uma sequência essencialmente lógica e coesa de papas até o Papa Fran-cisco.

O problema da “Deep Church” é essencialmente político [no senti-do corrente e vulgar de “polí-tica”].

O problema da “Igreja conciliar” é essencialmente teológico-religio-so, mas com graves implicações sociopolíticas: a negação do rei-nado social de Cristo.

Francisco é o primeiro papa da “Deep Church”; e Bento XVI ainda é o papa da Igreja “oficial”.

Desde Paulo VI, todos os papas seguiram conscientemente o pro-jeto de demolição da religião de Deus para substituí-la pela religi-ão do homem. [Mas, como diz Francisco mesmo, “motus in fine velocior” – no final o movimento se faz mais veloz.]

A perseguição contra a Igreja Ca-tólica só começa com a “Igreja bergogliana”.

A perseguição aos defensores da religião de Deus começa ime-diatamente após o fim do CVII.

   

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Observações sobre a influência do ocultismo no discurso católico tradicional (parte 4 de oito partes)

 Alistair McFadden

 Tradução

Danilo Rehem

 

Parte IV:

Cabala para católicos?

“Católicos hebreus” e seu cardeal

 

Quando tomei conhecimento da influência crescente da Cabala no discurso católico tradicional, contatei um estimado padre-teólogo franciscano em boa posição com a Igreja, a quem conheço pessoalmente e em cujo julgamento nesses assuntos confio implicitamente. Perguntei-lhe francamente se a Cabala poderia ter alguma aplicação legítima na teologia católica ortodoxa. Sua resposta foi estranhamente contundente: "Não, não tem". Na verdade, como eu leria mais tarde na Enciclopédia Católica, “várias de suas doutrinas lembram as de Pitágoras, Platão, Aristóteles, os neoplatônicos de Alexandria, os panteístas orientais ou egípcios e os gnósticos dos primeiros tempos cristãos. Suas especulações sobre a natureza de Deus e a relação com o universo diferem materialmente dos ensinamentos da Revelação.”

Deve-se notar neste ponto, para evitar dúvidas, que a impossibilidade radical de conciliação da Cabala com o Depósito da Fé não é de forma alguma um preconceito dos tradicionalistas católicos judeofóbicos, como até mesmo estudiosos católicos filo-semitas reconheceram o fato. O Dr. John Lamont, da Australian Catholic University, por exemplo, ao escrever o que de outra forma seria um tratamento extremamente simpático do Judaísmo (intitulado "Por que os judeus não são os inimigos da Igreja") para a corrente principal da Homiletic & Pastoral Review, interpola uma importante qualificação : “Deve ser mencionado que a Cabala ... não é compatível com o monoteísmo.” Não somente incompatível com o Cristianismo, mas até com o monoteísmo!

É difícil quantificar com precisão até que ponto os Cabalistas estão ganhando força no meio da Tradição Católica, mas talvez possamos avaliar algum sentido considerando o caso da Association of Hebrew Catholics (AHC), um apostolado leigo anteriormente sediado na Diocese de Lansing dos Estados Unidos e ostentando cerca de dez mil membros em todo o mundo, cuja missão declarada é “preservar a identidade e a herança dos judeus dentro da Igreja ..., ajudar todos os católicos a compreender as raízes judaicas da fé católica e servir a todas as pessoas em sua jornada espiritual, tanto dentro quanto fora da Igreja Católica. ” A AHC se esforça para atingir esses objetivos conectando seus membros geograficamente difusos a fim de facilitar, entre outras coisas, as “Havurot” (no plural; “Havurah” no singular) – associações locais informais dos chamados “hebreus católicos” que se reúnem regularmente para socializar, orar e estudar. Um exemplo de atividades típicas de Havurah é fornecido no site do AHC:

 

“Do Bnei Miriam Havurah, Tasmânia, Austrália…

“Nossas atividades Havurah incluem uma celebração semanal da refeição tradicional do Sabbath judaico. Acendemos as luzes usando as orações tradicionais e, em seguida, fazemos a oração católica da noite no escritório. Nós recitamos o Salmo Judaico para o dia e então cantamos o L’cha dodi (Venha, minha amada) em honra de Nossa Senhora a Rainha do Sabbath. Também cantamos a canção para dar as boas-vindas aos anjos e rezar outras orações do Siddur antes de recitar o Kidush. Após a refeição, recitamos o Birkat Mazon (Graça). Durante a refeição, conversamos ou compartilhamos algum aspecto da vida judaica da Torá. Em outras ocasiões, também estudamos os ensinamentos do [Cabalista] Rebe Nachman ou o Zohar ou outros escritos judaicos à luz de nossa fé católica. Também participamos de certos eventos com a comunidade judaica ortodoxa local em Hobart.” 

Entre 2002 e 2004, The Hebrew Catholic, o boletim oficial trimestral da AHC, publicou em três edições um ensaio, "The Eucharist and the Jewish Mystical Tradition",[1] em que o autor, membro principal da AHC e ativista Athol Bloomer, postula que “O estudo da tradição mística judaica [isto é, a Cabala] à luz da Eucaristia é ... essencial no futuro desenvolvimento de uma espiritualidade hebraica católica que enriqueceria toda a Igreja”. Para Bloomer, “uma das coisas importantes para o movimento hebraico católico é desenvolver uma autêntica teologia e espiritualidade hebraico-católica centrada na eucarística. Se seremos apenas católicos helenísticos romanos gentios que por acaso já foram judeus, acho que deveríamos simplesmente fechar a porta e admitir que o regime de assimilação triunfou.” Seu ensaio foi posteriormente republicado no site da AHC, onde hoje pode ser lido.[2]

Também estão disponíveis através do site do AHC – presumivelmente com o objetivo de promover essa “teologia e espiritualidade hebraica católica autêntica” – textos como The Book of Understanding, do “estudioso escriturístico e rabínico” Michael Anthony, que o falecido Rabino Joseph H. Ehrenkranz recomenda como "uma obra enciclopédica que nos permite subir a Escada do Entendimento ... À medida que [o autor] apresenta cada degrau da escada, ele invoca as Sagradas Escrituras, o Midrash e outros textos rabínicos, o Talmude Babilônico e de Jerusalém, o Zohar, além de comentários da tradição cristã e judaica.” Confesso que não li esta obra, mas se é uma leitura adequada para a edificação dos católicos, então como é que um rabino judeu ortodoxo – um adepto de uma religião completamente diferente (e falsa) – pode descrevê-lo como sendo "em essência um livro-texto da vida, uma grande contribuição para aqueles que buscam um estilo de vida baseado na fé fundamental levando ao entendimento ”?

Em 2006, dois anos após a publicação final de “The Eucharist and the Jewish Mystical Tradition”, publicada no The Hebrew Catholic, o AHC transferiu sua sede para a Arquidiocese de St. Louis, dos Estados Unidos, onde o arcebispo em exercício provou ser um anfitrião muito complacente. Em uma carta a David Moss, presidente da AHC, ele escreveu:

 

“Em primeiro lugar, permita-me expressar minha estima pelo apostolado da Associação dos Católicos Hebraicos. A missão da vossa associação responde, da forma mais adequada, ao desejo da Igreja de respeitar plenamente a vocação e a herança distintas dos israelitas na Igreja Católica. A Igreja Católica Romana conhece e valoriza a parte particular e privilegiada da economia da salvação, atribuída por Deus Pai ao povo de Israel ...

“A sede da Association of Hebrew Catholics é muito bem-vinda para mudar sua sede na Arquidiocese de Saint Louis. Além disso, se houver algo que eu possa fazer para ajudá-lo a estabelecer a sede da Associação na Arquidiocese, me avise, por favor. Instruí minha equipe a dar-lhe toda a ajuda possível na localização de um local adequado para a sede e seus aposentos pessoais.”

O mesmo arcebispo – agora emérito – atualmente faz parte do conselho consultivo da AHC. Ele não é outro senão o Cardeal Raymond Leo Burke, o suposto porta-estandarte da Tradição na hierarquia católica!

Talvez Sua Eminência desconheça as inclinações cabalísticas da AHC. Talvez o Dr. Taylor Marshall, outro decano do movimento católico tradicional, também não soubesse quando discursou em uma conferência da AHC em 2010, e depois escreveu em seu blog popular: “Tive um momento maravilhoso e espero participar novamente no futuro”. Não posso falar por nenhum deles, é claro, embora suspeite que o Dr. Marshall – que mais tarde provocaria a ira dos católicos liberais ao se manifestar contra a prática "judaizante" dos cristãos que celebram a Sêder de Pessach, que a AHC encoraja ativamente – realmente era inconsciente. Por outro lado, o Cardeal Burke participou de pelo menos um desses Sêders organizados pela AHC, que o Dr. Marshall argumenta convincentemente (citando Santo Tomás de Aquino e o Concílio de Florença) ser um pecado mortal objetivo para um católico participar. Como explicar isso?

Foi uma surpresa para mim que o Cardeal Burke, por quem sempre tive o maior respeito e admiração, não só deixasse de censurar uma organização sob sua jurisdição que se propõe a “enriquecer toda a Igreja” com uma espiritualidade gnóstico-cabalística, mas escolheria endossar e até mesmo se associar pessoalmente a ela. Posso estar mostrando minha ingenuidade leiga aqui, mas teria pensado que qualquer prelado católico que pretendesse ser fiel à Tradição iria necessariamente defender essa tradição em sua totalidade, incluindo o decreto de 1887 do Papa Leão XIII proibindo os vários textos da Cabala (entre outros), que diz, em parte:

 

“Nosso Santo Senhor Papa Clemente VIII em sua Constituição contra os escritos ímpios e livros Judaicos, publicados em Roma no ano de 1592 de Nosso Senhor ... declarou e desejou expressamente e especialmente que os ímpios livros talmúdicos, cabalísticos e outros nefastos dos judeus sejam inteiramente condenados e que eles devem permanecer sempre condenados e proibidos, e que sua Constituição sobre esses livros deve ser observada perpétua e inviolavelmente.” 

Talvez Sua Eminência tenha a gentileza de esclarecer sua posição sobre o assunto? 

(Continua na Parte V: Neoplatonismo Renascentista e a Tradição Hermética [tradução no prelo].) 

Notas finais:

[1] Parte I (edição nº 77, verão-outono de 2002); Parte II (edição nº 78, Inverno-Primavera de 2003); Parte III (edição nº 80, verão de 2004) [PDF indisponível].

[2] Parte I; Parte II; Parte III.

sábado, 24 de julho de 2021

A Penetração do Liberal-conservadorismo na Tradição Católica (Segunda Parte de Três)

                                                                                                                                        Carlos Nougué

 

SEGUNDA PARTE

 Nota prévia: na primeira parte desta série, eu disse que responderia na segunda a certo escrito de OdC. Mas foi mero pretexto para mostrar o que é o liberal-conservadorismo, ideologia que OdC abraça e de que é um dos principais expoentes no Brasil. Nem por isso, contudo, deixo de responder de fato àquele escrito; faço-o, abaixo, no apêndice desta segunda parte. 

* * * 

I) O liberal-conservadorismo não é senão a forma atual do velho girondinismo da Revolução Francesa. Nesta, os girondinos, que ocupavam o lado direito do parlamento revolucionário, opunham-se aos jacobinos, enquanto estes queriam radicalizar mais e mais a revolução e eles, os girondinos, pretendiam conservar algo, um verniz, digamos, do ancien régime. O girondinismo produziria, na Europa, algum filósofo e político de envergadura algo maior, como Edmund Burke, que, a par de uma crítica parcialmente acertada à Revolução Francesa, não fez mais que conservar o essencial da “girondina” revolução inglesa e, ademais, inventar a terrível partidocracia que assola até hoje boa parte do mundo. E assim é o liberal-conservadorismo atual, o de OdC, de Steve Bannon, de Trump, de Bolsonaro: mostram-se em princípio contrários ao aborto e à ideologia de gênero (mas não ao divórcio, nem ao sexo livre, nem aos pecados contranatura), sem deixar todavia de defender a liberdade de expressão, de imprensa e de religião – ou seja, a liberdade tanto para o bem como para o mal –, o sufrágio universal, o sistema partidário, alguma forma de tripartição do poder, o livre mercado e a livre usura, tudo o que não passa de uma forma de inverter o que sempre disseram Platão, Aristóteles, o magistério autêntico da Igreja: em vez de que o indivíduo seja para a sociedade, a sociedade é que é para o indivíduo. É o individualismo burguês, nascido nos já distantes séculos XII e XIII, e fundamento de toda forma de liberalismo.

Observação: os católicos liberal-conservadores costumam invocar Pio XII para negar críticas como a feita acima. Para responder a eles, basta-me traduzir um trecho luminoso do Padre Álvaro Calderón: “Há uma frase difícil que, diante dos totalitarismos do século XX, Pio XII repetiu muitas vezes: ‘A sociedade é para as pessoas, e não as pessoas para a sociedade’. Há duas maneiras de entendê-la bem, e uma de entendê-la mal. Entende-se melhor se se refere aos sujeitos, entende-se menos bem se se refere à pura utilidade, entende-se mal se se refere aos fins. 1º Referida aos sujeitos. O totalitarismo vê a sociedade como um Moloch pessoal para o qual as pessoas individuais não são mais que riquezas exteriores para gastar. A frase então se entende bem: ‘A sociedade é um bem que tem como sujeito as pessoas, e não são as pessoas bens que tenham como sujeito (hipóstase) a sociedade’. 2º Referida à utilidade. O totalitarismo vê nas pessoas simples instrumentos úteis para uma sociedade hipostasiada. A frase, então, entende-se bem na segunda metade, porque ‘as pessoas não são bens úteis para a sociedade’, uma vez que são os sujeitos que devem gozar desse bem comum. Mas se poderia entender mal na primeira metade, porque a simetria da frase leva a entender que ‘a sociedade é um bem útil para as pessoas’, o que é totalmente errado. Esta primeira parte há que entendê-la sempre da primeira maneira. A frase, então, entende-se bem se seus dois membros não se põem em simetria de contraposição, mas a modo de consequência: ‘A sociedade é para as pessoas como para seus sujeitos, e [em consequência] as pessoas não são bens úteis para a sociedade’. 3º Referida aos fins. Os personalistas [como os liberal-conservadores, ou antes, como os liberais em geral] reagem ao totalitarismo de maneira totalmente errada, e supõem um ordem de fins: ‘A sociedade é uma coisa [bem útil] subordinada ao bem supremo das pessoas [digníssimas em si mesmas por sua liberdade]’, ainda que as pessoas não cheguem a valer nada sem participar nos bens que só existem em sociedade. Parece claro (não o dizemos por papolatria pré-conciliar) que Pio XII tinha em mente a segunda maneira de pensar. Diz por exemplo em um discurso de 13 de setembro de 1952: ‘É preciso notar que o homem, em seu ser pessoal, não está subordinado, afinal de contas, à utilidade da sociedade, senão que, ao contrário, a comunidade é para o homem’ (não diz ‘é útil ao homem’). Mas reconhecemos que a retórica simetria dos conceitos é bastante incômoda” (Prometeu – a Religião do Homem, p. 28, nota).      

II) Mas os girondinos de hoje, ou seja, repita-se, a direita liberal-conservadora, têm por inimigo principal não os jacobinos de hoje, ou seja, os liberal-liberais (corrente atualmente inexpressiva), mas rebentos seus, o moribundo comunismo (ou marxismo) e o vitorioso sadolibertinismo (ou marcusianismo) – que, todavia, o liberal-conservadorismo insiste em identificar com o marxismo, pela simples razão de que, como o mesmo liberal-conservadorismo, o marcusianismo é antes de tudo individualista, enquanto o comunismo é coletivista e totalitário. É o espantalho sem o qual os católicos liberal-conservadores não poderiam brandir a condenação do comunismo pela Igreja esquecendo a condenação – pela mesma Igreja – de toda forma de liberalismo e do capitalismo (para isto, cf. a seção “Política teológica” de meu livro Estudos Tomistas – Opúsculos II).

III) Nada obstante, o girondinismo atual ou liberal-conservadorismo tem de próprio as duas seguintes notas.

• É comandado ideologicamente por gnósticos perenialistas (Steve Bannon, OdC, et alii), os quais têm seus parceiros católicos. É o caso de duas destacadas personagens do clero: Dom Carlo Maria Viganò (vide seu elogio dos EUA e de Trump como o “obstáculo” que impede o advento do Anticristo; sua tese da “Deep Church”, segundo a qual Francisco não é fruto próprio do CVII, mas de uma “Igreja” subterrânea de esquerda que alcançou enfim o papado; sua participação em um ato pró-Trump que foi como uma cópia direitista e em ponto menor do encontro de Assis; etc.); e o Cardeal Raymond Burke, que é membro de um grupo hebreu-cristão de fundo cabalista (vide Alistair McFadden, “Observations on the Influence of the Occult in Traditional Catholic Discourse”, algumas de cujas partes Danilo Rehem já traduziu e eu publiquei neste mesmo espaço). – É verdade que entre aqueles gnósticos perenialistas e seus parceiros católicos há diferenças quanto ao divórcio, ao sexo livre e aos pecados contranatura, tudo o que aqueles defendem discretamente ou toleram, enquanto estes o condenam. Estas diferenças, porém, são não raro caladas pelos católicos liberal-conservadores em prol de sua unidade com aqueles. 

Observação: tem ademais seu braço “científico”, um de cujos expoentes é o também perenialista Wolfgang Smith; e sua expressão política: Trump, Bolsonaro, Marine Le Pen (cujo pai era um célebre perenialista), Guillermo Lasso (do Opus Dei), et alii, mais ou menos próximos do comando ideológico gnóstico.

Por comandado centralmente por gnósticos, o atual liberal-conservadorismo é profundamente irracional e negador do evidente: o homem não foi à Lua; talvez a Terra seja plana; Newton não era verdadeiro cientista, mas um alquimista gnóstico (ou seja, os atuais gnósticos são capazes de “atirar no próprio pé” desde que com isso consigam atacar a razão, negando em Newton não o que ele tem de mau – o mecanicismo –, mas o que tem de bom – uma matemática magnífica, que o ajudou a consolidar verdadeiras descobertas, ainda que tal matemática esteja, sim, à espera do devido preenchimento conceptual); a noção einsteiniana de curvatura do espaço-tempo é um absurdo, pontifica OdC sem sequer se dar ao trabalho de dizer por quê e sem reconhecer, como devido, que a curvatura do espaço (não do tempo, claro) é uma hipótese plausível para o caso da aproximação gravitacional dos corpos celestes; a negação da pandemia de covid-19, negação cujo fim é unicamente culpar a China e seus supostos aliados ocidentais pelo espalhamento do novo coronavírus  (o que, ainda que seja verdade, absolutamente não é razão para negar o fato da pandemia), com consequências dramáticas nos EUA, no Brasil, etc.; a acusação de que o uso de máscara contra a contaminação da covid-19 é uma invenção dos globalistas para tirar a individualidade das pessoas, transformando-as em massa de manobra sua; a acusação de que as vacinas anticovid-19 imprimem nos que as tomam a marca da Besta apocalíptica, além de que está feita para simplesmente matar as pessoas...

Observação: os liberal-conservadores fingem não ver ou, irracionais que são, de fato não conseguem ver que a pandemia, seja qual for sua origem, é um duríssimo golpe nas pretensões globalistas (encerramento das populações em seus territórios nacionais e das famílias em seus lares, crise econômica, crescente protecionismo econômico das diversas nações, ressurgimento da guerra-fria), e que os globalistas não promoveram lockdowns, uso de máscara e aplicação maciça de vacinas feitas rapidamente senão porque queriam salvar seu mesmo projeto globalista. Ademais, como bons individualistas que são, os liberal-conservadores (incluindo seus tristes parceiros católicos) “esquecem” que o indivíduo incapaz de sacrificar-se por sua pátria é uma pessoa não virtuosa,* e que, assim como em tempo de guerra os cidadãos-soldados hão de estar dispostos a morrer para defender sua nação, assim também os cidadãos devem sacrificar-se em tempos de pandemia pela mesma razão – e vacinar-se por isso, ainda que haja algum risco de efeito nocivo em algumas pessoas. Como porém a desonestidade é parte intrínseca do liberal-conservadorismo (sobretudo quando dirigido pela irracionalidade gnóstico-perenialista), seus líderes fingem não ver que os efeitos nocivos das vacinas anticovid-19 não se dão senão em uma ínfima porcentagem das pessoas; que de fato estas vacinas são capazes de vencer, ao menos temporariamente, o vírus; e que, assim que a situação está sob controle, os diversos governos que impuseram lockdowns e o uso da máscara suspendem tais imposições (Austrália, Israel, Inglaterra, EUA, etc.). Tudo isso do liberal-conservadorismo é profundamente repugnante, e não faz senão promover a volta da esquerda ao poder em vários países. Como porém são irracionais, nem sequer diante disto os liberal-conservadores são capazes de retroceder e de tomar uma caminho mais razoável: quando, à beira do abismo, não se pode senão dar um passo atrás, os liberal-conservadores dão um decidido passo à frente. Não foi o que vimos nos EUA com a derrota de Trump?   

IV) Meu fim, porém, ao escrever esta série não é senão mostrar a triste penetração do liberal-conservadorismo na tradição católica, o que se fará em sua terceira e última parte. Esta segunda parte, portanto, como a primeira, só a escrevi para que à terceira não faltassem pressupostos e fundamentos e ela não se perdesse em multidão de considerações de caráter preambular. Creio, pois, que o escrito nesta segunda parte seja suficiente para a finalidade da série, e encerro-a aqui, deixando-lhes porém também o referido apêndice sobre certo escrito de OdC.

                                               Apêndice

Escreveu OdC com toda a sua brilhante potência “retórica”: “Intelectuais católicos de boa cepa tomista sempre existiram no Brasil. Por que não conseguiram abalar – nem aliás arranhar – a hegemonia cultural comunista?”

Respondo. Este tão brilhante escritozinho oculta, todavia, uma grosseira falácia: o tomismo é mau porque nenhum tomista consegue mudar o mundo. Mostre-se o inteiro silogismo falacioso, uma sorte de sorites:

Todo bom filósofo é capaz de mudar o mundo.

Mas nenhum tomista jamais foi capaz de mudar o mundo.

Logo, nenhum tomista é bom filósofo.

Mas toda doutrina que não tenha nenhum seguidor capaz de mudar o mundo é má.

Logo, o tomismo é, ele mesmo, mau.

• Em que reside este sofisma como em seu princípio? A premissa maior “todo bom filósofo é capaz de mudar o mundo” não é propriamente princípio de uma falácia; é tão somente falsa. Com efeito, absolutamente não é verdade que todo bom filósofo é capaz de mudar o mundo: não o pôde Sócrates, que ao tentá-lo foi condenado à morte; não o pôde Platão em Siracusa; não o pôde Aristóteles, que acabou perseguido pelo mesmo Alexandre, o Grande de quem fora tutor; não o pôde Cícero, que acabou decapitado por um sicário de Augusto. Aliás, é de dizer antes que nenhum bom filósofo é capaz de mudar o mundo. Mas o mais importante é mostrar que a filosofia mais propriamente dita não tem por fim mudar o mundo: seu fim é saber e com isso superar uma ignorância. Com efeito, a filosofia ou ciência é o conhecimento certo, perfeito e atual do necessário por suas causas; e tal conhecimento se dá totalmente na alma do filósofo, sem redundar para a realidade extramental. É fato que há partes da filosofia que se dizem ciências práticas, entre as quais a Política. Mas não só nenhuma destas partes deve dizer-se filosofia ou ciência em sentido estrito, senão que, se alguma destas mesmas partes tem algum poder de contribuir para mudar o mundo, não o é senão por meio de outros que os mesmos filósofos enquanto filósofos. Por exemplo: se a política tomista fosse capaz de contribuir para mudar a sociedade, não o seria por Tomás de Aquino nem por nenhum outro tomista enquanto filósofo; mas por alguém que, além de conhecedor da doutrina política tomista, tivesse a prudência política necessária para aplicar convenientemente à sociedade esta doutrina. Ora, para que alguém seja bom filósofo, absolutamente não se requer prudência  justamente porque a filosofia é antes de tudo e em sentido estrito especulativa, e porque até suas mesmas partes práticas só são práticas ex suppositione.

• O sofisma olaviano começa na segunda parte do sorites. Com efeito, ao silogismo “todo tomista é mau filósofo; mas toda doutrina que não tenha nenhum seguidor capaz de mudar o mundo é má; logo, o tomismo é, ele mesmo, mau”, a este silogismo simplesmente falta um termo. Com efeito, todo silogismo bem construído contém um termo maior, um termo menor, e um termo médio, que está para a demonstração como a causa para seu efeito. Ora, há três figuras possíveis de silogismo. A primeira figura é aquela em que o termo médio (M) é o sujeito (S) da premissa maior e o predicado (P) da premissa menor; a segunda figura (ou figura média) é aquela em que o termo médio (M) é o predicado (P) de ambas; e a terceira figura é aquela em que o termo médio (M) é o sujeito (S) de ambas. Exemplos das três figuras: (1ª.) todo vivente (M) se alimenta; mas todo vegetal é vivente (M); logo, todo vegetal se alimenta; (2ª.) todo invejoso é cruel (M); ora, nenhum santo é cruel (M); portanto, nenhum santo é invejoso; (3ª.) todo centauro (M) é homem-caval0; mas todo centauro (M) é um ente fabuloso; portanto, algum ente fabuloso é homem-cavalo. Pois bem, procure-se na falácia olaviana se algum termo médio se encontra ou como sujeito da premissa maior e como predicado da menor; ou como predicado de ambas; ou como sujeito de ambas. Não, não se encontra nenhum, porque simplesmente não há aí termo médio. Mas onde não há termo médio não há demonstração, justo porque, como dito, o termo médio funciona no silogismo como a causa da conclusão, e demonstrar é alcançar na conclusão conhecimento certo, perfeito e atual do necessário por suas causas. Logo, todo silogismo mal construído como este, e que por isso mesmo não demonstra nada, é uma falácia ou sofisma.

Há que reconhecer, no entanto, que OdC em verdade não queria demonstrar nada com seu sofisma, e isso por duas razões. Primeira: OdC, como bom perenialista e modernista que é, não acredita na razão (e, contra a falácia do mesmo OdC segundo a qual ou se é perenialista ou se é modernista, leia-se o livro Sob a Máscara – as Polêmicas de Orlando Fedeli e Fernando Schlithler contra Olavo de Carvalho, do mesmo Fernando Schlithler, que simplesmente a destrói; além de que logo se lançará outro livro que aprofundará o trabalho de Schlithler também quanto a isto). Em verdade, neste sofisma OdC, ao reduzir o “mudar o mundo” a “vencer o comunismo”, não tem outro fim que o fim principal de sua “filosofia”: louvar-se a si mesmo como o maior dos filósofos, aquele único que foi capaz não só de arranhar, mas de desmantelar o comunismo. Sua “filosofia” é o que com todo o direito podemos chamar “a messiânica filosofia de mim mesmo – ou como reduzir a realidade a chão para meus altos pés”. Pobre egolátrico, e, mais ainda, pobres de seus seguidores, que, estes sim, se veem reduzidos a chão para os pés de OdC: logo logo a realidade os virá esmagar a todos com todo o seu dramático peso.

Observação última: qualquer semelhança entre o cartesianismo, o baconianismo, o rousseaunianismo e o marxismo, por um lado, e, por outro, a doutrina olaviana de que a boa filosofia há de ter por fim mudar o mundo não é mera coincidência. Descartes e Francis Bacon queriam que o homem subjugasse a natureza; Rousseau, que a vontade geral subjugasse a lei de Deus; Marx, que o proletariado conduzisse a humanidade a seu paraíso (terrestre); e OdC, que não só o comunismo seja derrotado, mas se imponha à sociedade o indivíduo enquanto indivíduo – ou, mais precisamente, o indivíduo enquanto divino. É a gnose perenialista, que – contra o que diz sua verborragia – OdC nunca abandonou, apenas mitigou (como o provam os referidos livros). Mas, se bem se observa, o fim de todos os “filósofos” citados acima supõe que, para eles, os homens sejam de algum modo divinos, sem o que lhes seria impossível idear projetos prometeicos e messiânicos de tal envergadura. E é precisamente por tal suposição e por tal fim que podem unir-se em OdC (como em Steve Bannon, et alii) – sem conflito algum – gnose perenialista e liberal-conservadorismo, que não é senão outra forma do liberalismo rousseauniano (o que é mostrado e demonstrado pelo excepcional novo livro de Daniel C. Scherer, A Metafísica da Revolução – Pressupostos do Liberalismo, cuja campanha de financiamento coletivo começará dentro de poucos dias).  



* “Cada bocado [de comida] do homem temperado é comido pelo bem da Pátria, pela glória de Deus e no Espírito Santo. Se não, não é verdadeiramente um bocado virtuoso” (Padre Álvaro Calderón, El Reino de Dios, p. 100, n. 3).

quarta-feira, 21 de julho de 2021

O Perigo Imenso do Tradicionalismo Crítico

                                                                                                                     Carlos Nougué

 Notas prévias:

A expressão “tradicionalismo crítico” é do P. Calderón, que aprofunda seu sentido sobretudo na segunda edição de seu A Candeia Debaixo do Alqueire. Crendo embora que não vou contra o que diz com esta expressão o sacerdote argentino, o fato é que a uso algo livremente e mais extensamente: “tradicionalismo crítico”, defino-o, é aquele que em nome da tradição se considera capaz e no direito de julgar de algum modo o magistério autêntico da Igreja.

• De modo algum me move aqui nenhuma animosidade contra os tradicionalistas críticos de que falarei. Muito pelo contrário: sobretudo neste momento em que os católicos tradicionais devem cerrar fileiras contra o inaudito ataque de Francisco à missa de sempre, move-me tão somente o desejo de alertá-los, porque, com efeito, como buscarei mostrar aqui, ao fim e ao cabo o tradicionalismo crítico acaba por convergir com o neomodernismo vitorioso no CVII. Lembremo-nos de que este, sob capa de certa hermenêutica da continuidade, não faz senão julgar e negar o magistério autêntico da Igreja. 

                                                       * * *

I) Magistério autêntico da Igreja é aquele em que o Papa sozinho ou em comunhão com os bispos fala “em pessoa de Cristo”, o que lhe é suficiente para alcançar em algum grau a assistência do Espírito Santo e, portanto, para tornar sua declaração ou provável, ou certa, ou infalível (para aprofundá-lo, leia-se meu livro Do Papa Herético ou faça-se meu curso online gratuito “A Atual Crise na Igreja”). Recorde-se o dito por Pio XII na Humani generis (DS 3885): “Não se deve pensar que o que se expõe nas encíclicas não exige de si assentimento, pelo fato de nelas os Pontífices não exercerem o supremo poder de seu magistério [o da infalibilidade]; dado que estas coisas são ensinadas pelo magistério ordinário, ao qual também se aplica o ‘quem vos ouve, a Mim me ouve’”. Em outras palavras, o católico deve dócil anuência e acatamento ao magistério autêntico da Igreja, em qualquer grau em que se manifeste. Mas isso é assim porque o que diz o magistério autêntico da Igreja, assistido sempre em algum grau pelo Espírito Santo, são coisas que estão fora do alcance de nossa mera razão. São coisas de algum modo atinentes à fé. Por isso é grande equívoco, e já uma primeira manifestação do tradicionalismo crítico, pensar que se pode usar com respeito a este magistério “o precioso dom da inteligência que nos foi dado por Deus”. Só se pode usar contra o magistério este dom, e ainda assim enquanto ordenado à virtude infusa da fé, se tal magistério não for autêntico.

II) Explique-se (mas mais uma vez remeto, para aprofundamento, a meu livro e a meu curso; neles, como aqui, insista-se, embora siga em geral a doutrina do P. Calderón, expresso-a de maneira própria, que não sei se satisfaria o mesmo Padre). O magistério do Papa pode ser, além de autêntico, privado, quando o Papa fala justamente como doutor privado, em “pessoa própria”, e não “em pessoa de Cristo”. Com o CVII, no entanto, surgiu uma nova modalidade de magistério, chamada “conciliar” (ainda que também englobe o pós-conciliar): nesta modalidade de magistério, já tampouco se fala “em pessoa de Cristo”, mas “em pessoa do Povo de Deus” (como o diz fartamente ele mesmo, o magistério conciliar), em ordem a destronar a Cristo na sociedade e na Igreja e dar lugar a uma religião humanista e demoliberal. Daí, muito por exemplo, a missa com o sacerdote voltado para a assembleia e a substituição de seu caráter sacrifical, satisfatório e propiciatório por um caráter memorial e convivial. – Mas tal magistério “em pessoa do Povo de Deus” se reduz, de certo modo, a magistério privado, razão por que, como este, não é assistido pelo Espírito Santo. Ora, o que não é assistido em nenhum grau pelo Espírito Santo é sujeito a erro e pois a desvio da fé, pelo que se pode usar com respeito a este magistério “o precioso dom da inteligência [ordenado à fé] que nos foi dado por Deus”. Com efeito, nem o magistério privado em sentido estrito nem o magistério demoliberal exigem do católico dócil anuência e acatamento (ainda que, dependendo do caso, possa convir maior ou menor reverência).

III) Não é difícil, a partir de todo o dito, entender que o magistério autêntico da Igreja é a regra próxima da fé, enquanto a Escritura e a tradição são sua regra remota. Em outras palavras, não só o magistério autêntico da Igreja é quem determina a interpretação correta da Escritura e o que é verdadeiramente tradicional ou não, senão que está de certo modo acima da mesma fé e da mesma tradição, porque o que regra é de certo modo superior ao que por ele é regrado. Se pois se entende perfeitamente isto, ver-se-á o absurdo da doutrina tradicionalista crítica extrema que Roberto de Mattei sustenta em seu livro Apologia da Tradição. Leiam-se passagens suas, a que responderei uma a uma.

a) “A afirmação segundo a qual o Magistério da Igreja constitui ‘regula fidei [regra da fé]’, e, por conseguinte, um lugar teológico, não é em si mesma errônea, se ele for entendido como o poder exercido pela Igreja docente, em continuidade com a Tradição, de que a própria Igreja é a guardiã. Mas os que repetem que o Magistério é a suprema ‘regula fidei’, porque ‘interpreta’ a Tradição, evitam enfrentar o problema colocado pela existência de eventuais conflitos, reais ou aparentes, entre a Tradição e a pregação eclesiástica ‘atual’, ou Magistério ‘vivo’.”

RESPOSTA. Por partes.

• Isto de “lugar teológico”, se se trata da doutrina de Cano, requer alguma revisão crítica. Mas deixo-o aqui de lado.

• Quem repete que o magistério da Igreja é a suprema regula fidei não são uns teólogos por aí, mas o mesmo magistério da Igreja – e o faz de modo infalível, por exemplo, no Concílio de Trento e no Concílio Vaticano I. E isto se funda na própria instituição de Pedro como a rocha sobre a qual Cristo fundou sua Igreja. Ao fazê-lo, outorgou ipso facto a Pedro e seus sucessores o carisma da infalível verdade, fundado na prometida e indefectível assistência do Espírito Santo – se e quando Pedro falasse “em pessoa de Cristo” (assim como, mutatis mutandis, o sacerdote tem o carisma de consagrar o pão e o vinho – mas só o atualiza se o quiser fazer). Logo, negá-lo como o faz De Mattei ao menos tangencia o herético. – Ademais, veja-se a falta que faz a devida compreensão do caráter do magistério: De Mattei vê possíveis conflitos entre magistério autêntico e magistério autêntico, o que, se se desse de fato, faria falaz a promessa de Cristo a Pedro... O que há, e que De Mattei não sabe expressar, são conflitos entre o magistério autêntico da Igreja e o magistério conciliar ou “em pessoa do Povo de Deus” (ou então entre o magistério autêntico e algum magistério privado em sentido estrito: foi o que três concílios creram ter-se dado no caso do Papa Honório I, coisa todavia que ainda merece discussão e aprofundamento).

Observação: em outra altura de seu livro, De Mattei brande um suposto conflito entre o Concílio de Constança e Pio XII. Mas a resposta a este argumento dá-a o P. Calderón na Candeia... (e repito-a em Do Papa Herético).

• “Em ordem decrescente de importância, escreve ainda De Mattei, primeiro vem a Tradição, depois a Igreja e, em seguida, o Magistério, que é um poder que a Igreja exerce para perpetuar a Tradição.”

RESPOSTA. Esta “pérola” ecoa, pura e simplesmente, duas heresias. Primeira, a dos que negam a infalibilidade do Papa. Segunda, de certo modo a do mesmo CVII, segundo o qual o Espírito Santo dota de infalibilidade antes de tudo o conjunto da Igreja, razão por que o magistério fala agora “em pessoa do Povo de Deus”. Com isso se invertem o caráter docente do magistério e o caráter discente do “povo de Deus”, e se vai contra a autoridade infalível de Trento e do Vaticano I, e de Gelásio I, Inocêncio III, Gregório Magno, Bonifácio VIII, João XXII, Paulo IV, Leão XIII, Pio X, Pio XI, Pio XII – além de ir contra os principais doutores da Igreja, em especial o Doutor Comum (= Geral), Santo Tomás de Aquino. – Perdoa de certo modo a De Mattei o fato de ele, como o diz ele mesmo, ser antes historiador que teólogo. Mas então não deveria “dar palpite” em Teologia.

• Por fim (embora pudesse estender-me muito), comete De Mattei algo que nem sequer um historiador pode cometer: um sofisma, uma falácia. Com efeito, o nosso italiano diz pouco mais ou menos em certa altura de seu livro (cito-o de memória) que o próprio termo “magistério (da Igreja)” só começou a usar-se no século XIX, ou seja, em torno do Concílio Vaticano I. Antes de tudo, porém, esquece De Mattei que o magistério autêntico, especialmente quando infalível, pode perfeitamente criar termos novos, até porque está assistido pelo Espírito Santo. Mas, depois, eis a falácia: uma doutrina não é válida quando se expressa em termos novos, não tradicionais... É como se não importasse se a doutrina já existisse ou não sob outros termos. E no entanto o que o Vaticano I chamou com toda a propriedade “magistério” é o que haviam dito, sem nomeá-lo assim, Trento, e Gelásio I, Inocêncio III, Gregório Magno, Bonifácio VIII, João XXII, Paulo IV, e Santo Agostinho, Santo Tomás, Santo Inácio, São Belarmino, S. Afonso... Na famosa frase “Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica” (Contra epistulam Manichaei quam vocant fundamenti, 5, 6 [PL 42, 176]), Santo Agostinho chama “Igreja Católica” ao que hoje chamamos “magistério da Igreja” – e nem de passagem se refere à tradição. “Ubi Petrus, ibi Ecclesia”, ou seja, onde está Pedro, aí está a Igreja (Santo Ambrósio, Expositio in Ps., xl, § 30), e não o inverso (“ubi Ecclesia, ibi Petrus”) – suposto sempre, insista-se e insista-se, que Pedro, fundamento e cabeça participantes, fale em pessoa de Cristo, fundamento e cabeça participados.

IV) Ademais, de modo semelhante a De Mattei, ainda que não tão radicalmente como ele, criticam alguns padres tradicionalistas encíclicas como Providentissimus Deus, de Leão XIII, e Humani generis e Divino afflante Spiritu, de Pio XII, porque, segundo eles, favorecem a exegese modernista da Escritura. Mas isto implica, ainda, o considerar-se capaz e no direito de julgar um magistério assistido pelo Espírito Santo. Que tais encíclicas contenham alguma expressão de que puderam valer-se os modernistas, isso se pode discutir. Mas negar a certeza assistida destes documentos tangencia o blasfematório. (Aliás, o próprio P. Calderón, no referido livro, critica um confrade seu de FSSPX justamente por certo tradicionalismo crítico. Mas parece que, graças a Deus, se entenderam.) 

Conclusão: espero ter conseguido deixar clara a intenção deste escrito: mostrar ao conjunto dos tradicionalistas que eu posso alcançar e que (o que já é muito mais difícil...) me queiram ler os grandes perigos do tradicionalismo crítico, no qual muitas vezes incorremos sem ter perfeita ciência disso. De nada serve criticar o magistério conciliar se caímos em seu mesmo erro fundamental: o descrédito do magistério autêntico da Igreja enquanto assistido em algum grau pelo Espírito Santo. Certo é que o próprio nome “tradicionalismo” pode levar ao equívoco de antepor a tradição ao magistério; e até pode considerar-se que o mesmo movimento tradicionalista criado no bojo do CVII e em reação a ele já partiu desta premissa falsa em muitas de suas mentes (mas não assim na de D. Lefebvre, como o mostra muito claramente o P. Calderón no final de seu livro). Se contudo estamos devidamente cientes da premissa verdadeira, não há razão para temer o nome, que já é, ele mesmo, tradicional. Podemos combater perfeitamente a religião do homem instalada na Igreja pelo CVII sem cair em indocilidade com respeito ao magistério autêntico da Igreja, sem o qual não haveria razão para crer não só na Escritura, mas na própria tradição.      

domingo, 18 de julho de 2021

UM EXEMPLO DE RESISTÊNCIA CATÓLICA: A PRINCESA PALLAVICINI

 Um artigo de Roberto de Mattei

Tradução: Danilo Rehem

Revisão: João Medeiros

 

Há quarenta anos, ocorreu um acontecimento histórico: a conferência realizada em 06 de junho de 1977 por Dom Marcel Lefebvre no Palazzo Pallavicini em Roma sobre o tema "A Igreja depois do Concílio". Acho que é útil relembrar esse evento com base nas notas e documentos que mantenho. O Arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (1970) foi suspenso a divinis em 22 de julho do mesmo ano, após as ordenações sacerdotais de 29 de junho de 1976.

No entanto, entre os católicos preocupados, havia fortes dúvidas sobre a legitimidade canônica dessa disposição e, acima de tudo, não entendiam a atitude de Paulo VI, que parecia querer reservar suas censuras apenas para aqueles que professavam buscar permanecer fiéis à Tradição da Igreja. Nesse clima de desorientação, em abril de 1977, a Princesa Elvina Pallavicini (1914-2004) decidiu convidar Dom Lefebvre em seu palácio no Quirinale, para ouvir o seu raciocínio.

A Princesa Pallavicini tinha 63 anos e, desde 1940, era viúva do Príncipe Guglielmo Pallavicini de Bernis, que morreu em sua primeira missão de guerra. Ela viveu em uma cadeira de rodas por muitos anos devido à paralisia progressiva, mas era uma mulher de temperamento indomável. Em torno dela estava um pequeno grupo de amigos e conselheiros, incluindo o Marquês Roberto Malvezzi Campeggi (1907-1979), Coronel da Guarda Nobre Papal na época de sua dissolução (1970) e o Marquês Luigi Coda Nunziante di San Ferdinando (1930-2015), ex-comandante da Marinha Italiana. Divulgada em maio, a notícia da conferência não causou preocupação inicialmente no Vaticano.

Paulo VI acreditava que seria fácil convencer a princesa a desistir de seus planos e confiou a tarefa a um colaborador próximo seu, "Dom Sergio" Pignedoli (1910-1980), a quem fez cardeal em 1973. O cardeal telefonou à princesa com tom afetuoso, indagando antes de tudo sobre sua enfermidade. “Fico satisfeita” – observou com ironia Elvina Pallavicini – “deste vosso interesse depois de tanto tempo de silêncio”. Depois de quase uma hora de amabilidades, a pergunta do cardeal finalmente chegou: "Sei que receberá Dom Lefebvre. Mas será uma conferência pública ou privada?" "Em minha casa, só pode ser privado" respondeu a princesa. O cardeal então se aventurou: “Não seria sensato adiar? O Arcebispo Lefebvre fez o Santo Padre sofrer tanto que ele ficou muito triste com esta iniciativa...”. Mas a resposta de Dona Elvina deixou em choque o Cardeal Pignedoli: “Eminência, em minha casa acredito que posso receber quem desejo receber.”

Diante dessa resistência inesperada, o Vaticano recorreu ao Príncipe Aspreno Colonna (1916-1987), que ainda ocupava, ad personam, o cargo de assistente do trono papal. Quando o chefe da casa histórica pediu para ser recebido, a princesa avisou que ela estava ocupada. O Príncipe Colonna pediu uma audiência no dia seguinte ao mesmo tempo, mas a resposta da nobre foi a mesma. Enquanto o príncipe desistiu de bom grado, a Secretaria de Estado já pensava em novas iniciativas. Ele pediu uma audiência com Dom Andrea Lanza Cordero di Montezemolo, que havia sido sagrado arcebispo e nomeado núncio em Papua-Nova Guiné.

O prelado era filho do Coronel Giuseppe Cordero Lanza di Montezemolo (1901-1944), chefe da resistência monárquica em Roma, executado pelos alemães no massacre de Fosse Ardeatine. Durante a ocupação alemã, a jovem Princesa Elvina colaborou com ele, ganhando uma medalha de bronze por bravura militar. Eu também participei da entrevista, mas minha presença incomodou muito o futuro cardeal, que em vão apelou à memória de seu pai para evitar a próxima conferência. O núncio foi lembrado de que era precisamente a resistência de muitos soldados ao nacional-socialismo, [que sabiam] que às vezes era necessário desobedecer às ordens injustas dos superiores para respeitar os ditames da própria consciência.

A Secretaria de Estado deu o golpe final, dirigindo-se ao Rei da Itália exilado em Cascais, Umberto II. O Marquês Falcone Lucifero, ministro da Casa Real, telefonou à princesa para informá-la de que o Soberano estava implorando para que ela adiasse a conferência. “Estou maravilhada como Sua Majestade deixa-se intimidar pela Secretaria de Estado, depois de tudo o que o Vaticano tem feito contra a monarquia”, respondeu ela com firmeza, reiterando que a conferência seria realizada pontualmente na data fixada. O Marquês Lucifero, velho cavalheiro que era, enviou à princesa um buquê de rosas.

Nesse ponto, o Vaticano decidiu bater forte. Uma verdadeira campanha de ataque psicológico começou nos principais jornais italianos para apresentar a princesa como uma aristocrata teimosa, rodeada por indivíduos nostálgicos por um mundo fadado ao desaparecimento. Em privado, Dona Elvina foi informada de que ela seria excomungada caso a conferência fosse realizada.

No dia 30 de maio, em nota de imprensa à Ansa [principal agência italiana de notícias], a princesa especificou que “sua iniciativa não foi movida por qualquer intenção de desafiar a autoridade eclesiástica, mas sim pelo amor e fidelidade à Santa Igreja e seu Magistério”. “Os contrastes da Igreja conciliar” - acrescenta o comunicado - “infelizmente existem independentemente da pessoa de Dom Lefebvre e na Itália em uma medida não menos profunda, embora menos evidente, do que no resto do mundo católico. Com a conferência de 06 de junho, pretendemos oferecer a Dom Lefebvre a possibilidade de exprimir as suas teses de forma direta e em plena liberdade, precisamente para contribuir ao esclarecimento dos problemas que tanto perturbam e afligem o mundo católico, na certeza de que a paz e a serenidade só podem ser resgatadas por uma unidade redescoberta na verdade.”

Em 31 de maio, uma declaração do Príncipe Aspreno Colonna apareceu na primeira página do jornal Il Tempo na qual se lia que “o Patriciado Romano desassocia-se da iniciativa”, deplorando-a como “totalmente inadequada”. O tiro de canhão, porém, foi disparado em 05 de junho pelo Cardeal-vigário de Roma, Dom Ugo Poletti (1914-1997). Com uma dura declaração publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, Dom Poletti atacou a Dom Lefebvre e “seus seguidores aberrantes”, chamando-os de “pequenos prisioneiros nostálgicos das tradições costumeiras”. Também expressou “espanto, e dor de coração, mas reprovação muito firme pela ofensa feita à Fé, à Igreja Católica e à sua Divina Cabeça, Jesus", tendo Dom Lefebvre questionado “verdades fundamentais, especialmente sobre a infalibilidade da Igreja Católica fundada em Pedro e seus sucessores, em matéria de doutrina e moral”.

A resposta veio imediatamente do quartel-general da princesa. “Não é possível compreender como a expressão privada de teses que foram [outrora] de todos os bispos do mundo até poucos anos atrás pode perturbar tanto a segurança de uma autoridade que tem a seu lado a força da continuidade doutrinária e evidências de suas posições.” A princesa declarou: “Sou uma católica apostólica romana mais do que convicta, porque alcancei o verdadeiro significado da Religião através do refinamento do sofrimento físico e moral: não devo nada a ninguém, não tenho honras ou prebendas a defender, e agradeço a Deus para tudo. Dentro dos limites que a Igreja me permite, posso discordar, posso falar, posso agir: devo falar e devo agir. Seria covardia se não o fizesse. Permita-me dizer que em nossa Casa [nobiliárquica, os Pallavacini], mesmo nesta geração, não há espaço para os covardes.”

O fatídico 06 de junho finalmente chegou. A conferência foi estritamente reservada a quatrocentos convidados, com um serviço de segurança assegurado pelos jovens da Alleanza Cattolica, mas foram mais de mil pessoas a lotar as escadas e o jardim do histórico palácio Rospigliosi-Pallavicini, famoso em todo o mundo por sua arte. Dom Lefebvre chegou acompanhado de seu jovem representante em Roma, o padre Emanuele du Chalard. A princesa Pallavicini foi encontrá-lo em uma cadeira de rodas, empurrada por sua dama de companhia Dona Elika Del Drago.

A Princesa Virginia Ruspoli, viúva de Marescotti, um dos dois príncipes heróis da batalha de El Alamein, doou a Dom Lefebvre uma relíquia de São Pio X que lhe foi dada pessoalmente por Pio XII. Embora o Grão-Priorado da Ordem de Malta em Roma tenha expressado "a necessidade imperiosa" de abster-se de participar da conferência, o Príncipe Sforza Ruspoli, o Conde Fabrizio Sarazani e algum outro bravo aristocrata desafiaram as censuras da instituição e estavam na primeira fila, ao lado do Mons. François Ducaud-Bourget (1897-1984), que em 27 de fevereiro liderou em Paris a ocupação da Igreja de Saint-Nicolas du Chardonnet. A Princesa Pallavicini apresentou Dom Lefebvre, que ocupou seu lugar sob o dossel vermelho com o brasão do Papa Clemente IX, Rospigliosi.

O Arcebispo, depois de ter se recolhido em oração, iniciou sua conferência com estas palavras: “Respeito a Santa Sé, respeito Roma. Se estou aqui é porque amo esta Roma católica”. A Roma católica com quem tratava interrompia frequentemente seu discurso com aplausos estrondosos. O salão estava lotado e as multidões aglomeravam-se nas escadas do palácio. O “Concílio do aggiornamento” – explicou Dom Lefebvre – na verdade quer uma nova definição da Igreja. Para ser “aberta” e estar em comunhão com todas as religiões, todas as ideologias, todas as culturas, a Igreja teria que mudar sua própria instituição hierárquica e dividir-se em muitas conferências episcopais nacionais.

Os sacramentos irão insistir na iniciação e na vida comunitária ao invés de afastar-se de Satanás e do pecado. O fio condutor da mudança será o ecumenismo. A prática do espírito missionário desaparecerá. Será enunciado o princípio “todo homem é cristão e não o sabe”, pois está em busca da salvação, seja qual for a religião que pratique. As mudanças litúrgicas e ecumênicas – continuou Dom Lefebvre no silêncio mais recolhido dos presentes – farão com que as vocações religiosas desapareçam e os seminários fiquem desertos. O princípio da “liberdade religiosa” soa ultrajante para a Igreja e para Nosso Senhor Jesus Cristo, porque nada mais é do que “o direito à profissão pública de uma falsa religião sem ser perturbado por nenhuma autoridade humana”.

O Arcebispo Lefebvre discorreu sobre a rendição pós-conciliar ao comunismo [a chamada Ostpolitik], recordando as repetidas audiências da Santa Sé com os líderes comunistas; o acordo de não condenar o comunismo durante o Concílio; o tratamento desdenhoso reservado a mais de 450 bispos que pediram esta condenação. Pelo contrário, o diálogo com o comunismo foi encorajado pela nomeação de bispos pró-marxistas, como Dom Hélder Câmara no Brasil, Dom Silva Henríquez no Chile e Dom Méndez Arceo no México. É um fato – acrescentou Dom Lefebvre para concluir – que numerosos dominicanos e muitos jesuítas que professam heresias abertamente não são condenados e bispos que praticam a intercomunhão, que introduzem falsas religiões em suas dioceses e igrejas, que chegam a abençoar o concubinato, sequer são colocados sob investigação.

Só os católicos fiéis correm o risco de serem expulsos das igrejas, perseguidos, condenados. “Estou suspenso a divinis porque continuo a formar sacerdotes como eram formados antes.” Dirigindo-se a uma audiência comovida por suas palavras, Dom Lefebvre concluiu sua palestra dizendo: “Hoje, o compromisso mais sério de um católico é manter a Fé. Não é lícito obedecer a quem trabalha para reduzi-la ou fazê-la desaparecer. Com o batismo, pedimos Fé à Igreja, porque a Fé nos conduz à vida eterna. Continuaremos a pedir à Igreja por esta Fé até o último suspiro”.

O encontro foi encerrado com o canto do Salve Regina. O vaticanista Benny Lai comentou no La Nazione de 7 de junho: “Quem esperava um tribuno [oficial militar romano] viu-se diante de um homem de atitude serena, também capaz de concluir, antes de convidar os presentes a recitar o Salve Regina, com esta declaração: “Eu não quero formar grupo de nenhum tipo, não quero desobedecer ao Papa, mas ele não tem de me pedir para ser protestante ”.

A conferência foi uma vitória estratégica para aqueles que foram indevidamente definidos como tradicionalistas, porque Dom Marcel Lefebvre conseguiu tornar suas teses conhecidas internacionalmente sem consequências canônicas. Paulo VI morreu um ano depois, em choque com a morte de seu amigo Aldo Moro. O nome do Cardeal Poletti continua ligado à história obscura da nulla osta que concedeu em 10 de março de 1990 para o enterro, na Basílica de Santo Apolinário, do chefe da máfia Magliana, 'Renatino' De Pedis.

A Princesa Pallavicini foi a vencedora do “desafio”. Não somente ela não foi excomungada, mas nos anos seguintes seu palácio tornou-se em ponto de referência para muitos cardeais, bispos e intelectuais católicos. Ela e seus amigos romanos não eram “fantasmas do passado”, como os definiu o Corriere della Sera de 7 de junho de 1977, mas testemunhas da Fé Católica que preparavam o futuro. Quarenta anos depois, a história provou que eles estavam certos.