quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Se se contradizem quanto ao matrimônio civil os catecismos de São Pio X


Carlos Nougué

1) Antes de tudo, insista-se em todo o dito em Sobre o “Catecismo Maior” de São Pio X (cuja  leitura recomendo para o bom entendimento deste artigo), especialmente quanto a que o Catecismo de São Pio X em verdade são dois: o Catecismo Maior, e o Catecismo de 1912; e quanto a que, insatisfeito com o primeiro, o santo Papa mandou que se empreendesse o segundo.
2) Ora, outra vez parece haver contradição entre os dois catecismos, agora quanto ao chamado “matrimônio civil”. Com efeito, diz o Catecismo Maior

851. Deve fazer-se também o contrato civil? Deve fazer-se também o contrato civil, porque, embora não seja ele Sacramento, serve, no entanto, para garantir aos casados e a seus filhos os efeitos civis da sociedade conjugal; eis por que, em regra geral, a autoridade eclesiástica não permite o casamento religioso quando não se cumprem as formalidades prescritas pela autoridade civil”.

Mas diz o Catecismo de 1912:

411. Os esposos católicos podem também realizar o Matrimônio civil? Os esposos católicos não podem realizar o Matrimônio civil antes nem após o Matrimônio religioso: porque, se se atrevem a fazê-lo, mesmo com a intenção de celebrar em seguida o Matrimônio religioso, são considerados pela Igreja pecadores públicos”.*

3) Pois bem, mostra-se uma vez mais a insuficiência ou imprecisão do primeiro catecismo, e a suficiência – ainda que breve – do segundo (sem que haja propriamente contradição entre os dois), pelas razões seguintes.
a. A Igreja (até, uma vez mais, ao Vaticano II) sempre reagira à instituição do matrimônio civil e, em regra geral e em princípio, seguiu o expresso no Catecismo de 1912.
b. Mas o dito neste catecismo quanto ao matrimônio civil constitui um princípio geral, que ainda devia passar pelo crivo da prudência eclesiástica. Com efeito, como me disse um sábio sacerdote, onde o direito secular não reconhecia a existência do matrimônio ou a filiação sem o matrimônio civil dos pais,** então a Igreja ou autorizou ou até obrigou (como no caso chileno) a celebração deste matrimônio, que, todavia, repita-se, não é sacramento de modo algum. E, se o fez, não o fez senão para evitar que leis seculares perturbassem a estabilidade do matrimônio sacramental quanto aos efeitos civis deste contrato.
c. No Brasil de hoje, contudo, como em muitos outros países, onde qualquer união pode beneficiar-se dos efeitos das leis civis do matrimônio, este é praticamente desnecessário, com o que melhor se pode cumprir o princípio enunciado no Catecismo de 1912.




* 411. Gli sposi cattolici possono anche compiere il Matrimonio civile? Gli sposi cattolici non possono compiere il Matrimonio civile nè prima nè dopo il Matrimonio religioso: che se lo osassero anche con l'intenzione di celebrare in appresso il Matrimonio religioso sono dalla Chiesa considerati pubblici peccatori.”
** Ao contrário do que se dava na Itália de então, como se lê no mesmo Catecismo de 1912: “408. Come si contrae il Matrimonio? Il matrimonio si contrae esprimendo il mutuo consenso davanti al parroco, o un sacerdote suo delegato, ed almeno a due testimoni. // 409. Il Matrimonio celebrato in questa forma consegue in Italia anche gli effetti civili? Il Matrimonio celebrato in questa forma consegue in Italia anche gli effetti civili, perché lo Stato Italiano riconosce tali effetti al Sacramento del Matrimonio. // 410. Il Matrimonio così celebrato come consegue in Italia anche gli effetti civili? Il Matrimonio così celebrato consegue in Italia anche gli effetti civili, mediante la sua regolare trascrizione nei registri dello stato civile, fatta a richiesta del parroco.”

Pacotes promocionais de cursos online de Carlos Nougué


A partir de 10 de novembro de 2016, oferecer-se-ão três pacotes promocionais de cursos de Carlos Nougué.

1) São quatro os cursos:
• um no valor de R$ 300,00:
• e três no valor de R$ 180,00 cada um:

2) E são os seguintes os pacotes promocionais:

Pacote 1
Por uma Filosofia Tomista +
• os outros três cursos =
de R$ 840,00 por R$ 588,00 (ou seja, 30% de desconto).
Observação. Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante 60 meses a contar da data de inscrição.

Pacote 2
A Existência de Deus e a Criação do Mundo – segundo S. Tomás de Aquino +
• O Melhor Regime Político segundo S. Tomás (e o atual momento político) +
• História da Música Erudita Ocidental (litúrgica e profana) =
de R$ 540,00 por R$ 405,00 (ou seja, 25% de desconto).
Observação. Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante 36 meses a contar da data de inscrição.

Pacote 3
• Por uma Filosofia Tomista +
• O Melhor Regime Político segundo S. Tomás (e o atual momento político) =
de R$ 480,00 por R$ 384,00 (ou seja, 20% de desconto).
Observação. Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante 36 meses a contar da data de inscrição.
  
Desconto adicional. Terão desconto adicional (de cerca de 6,61%) os que pagarem à vista, por boleto, qualquer dos pacotes. 

Para quaisquer esclarecimentos ou para pedidos de outros pacotes, escreva-se a Marcel Barboza:
     cursos@carlosnougue.com.br

Data de início do novo curso de Carlos Nougué: “História da Música Erudita Ocidental (litúrgica e profana)”


História da Música Erudita Ocidental
(litúrgica e profana)

Curso on-line de 24 horas ministrado por 
Carlos Nougué

[Curso já ministrado presencialmente e fundado
em nosso livro Das Artes do Belo, por publicar.]


“A música não tem por fim senão louvar a Deus e recrear a alma
(dentro de justos limites). Quando se perde isso de vista, já não pode haver
verdadeira música, e não restarão senão barulhos e gritos infernais.”
Joahnn Sebastian Bach


[Comunicado 1]


ABERTURA DAS INSCRIÇÕES PARA O CURSO
E INÍCIO DESTE

1) Em 10 de novembro de 2016, abrir-se-ão as inscrições para o curso online História da Música Erudita Ocidental (religiosa e profana), de 18 horas, divididas em 12 aulas de cerca de uma hora e meia cada uma.
2) As inscrições far-se-ão em nosso site:

VALOR E FORMAS DE PAGAMENTO

1) Valor total:
a) ou R$ 180,00 em até 6 parcelas sem juros no cartão de crédito;
b) ou R$ 165,30 por pagamento à vista mediante débito on-line ou boleto bancário.
Observação. O pagamento se fará, em nosso próprio site, mediante o PagSeguro.
2) Ao pagarem, os alunos-subscritores receberão automaticamente uma senha de acesso aos vídeos-aula e à bibliografia.

INÍCIO E DURAÇÃO DO CURSO 

1) O curso terá início no mesmo dia 10 de novembro próximo.
2) Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante um ano a contar da data de inscrição.

EMENTA DO CURSO

I. Fundamentos teóricos: a essência e o fim da Música, uma das artes do belo; fundamentos da teoria musical.
II. Os gêneros da Música:
1. Litúrgico;
2. Profano, que se subdivide em
a. Profano religioso;
b. Profano em sentido estrito.
III. Marcos da música litúrgica:
1. Canto ambrosiano (ou milanês);
2. Canto velho-romano;
3. Canto beneventiano;
4. Canto moçárabe;
5. Canto gregoriano;
6. Canto polifônico palestriniano.
 Compositores que serão tratados:
• Giovanni Pierluigi da Palestrina; Tomás Luis de Victoria; Gregorio Allegri.
IV. Marcos da música profana:
1. Origem.
2. A música profana medieval.
3. A música profana humanista e renascentista (do século XIV ao XVII).
 Compositores que serão tratados:
 Guillaume de Machaut; John Dunstable; Guillaume de Dufay; Johannes Ockeghem; Josquin Desprez; Jacob Obrecht; John Taverner; Thomas Tallis; Orlandus Lassus; William Byrd; Giovanni Gabrieli; Carlo Gesualdo; Jan Pieterszoon Sweelinck.
4. A música barroca (do século XVII ao XVIII).
 Compositores que serão tratados:
 Claudio Monteverdi; Orlando Gibbons; Girolamo Frescobaldi; Jean-Baptiste Lully; Dietrich Buxtehude; Marc-Antoine Charpentier; Johann Pachelbel; Arcangelo Corelli; Henry Purcell; François Couperin; Alessandro Marcello; Tomaso Giovanni Albinoni; Antonio Vivaldi; Georg Philipp Telemann; Jean Philippe Rameau; Georg Friedrich Haendel; Johann Sebastian Bach. 
5. A música clássica (do século XVIII a inícios do XIX).
 Compositores que serão tratados:
• Christoph Willibald Gluck; Carl Phillip Emanuel Bach; Franz Joseph Haydn; Wolfgang Amadeus Mozart; Ludwig van Beethoven.
6. A música romântica (do século XIX a meados do XX).
 Compositores deste período que serão tratados:
 Nicolò Paganini; Franz Schubert; Hector Berlioz; Felix Mendelssohn; Frédéric Chopin; Robert Schumann; Franz Liszt; Richard Wagner; César Auguste Franck; Anton Bruckner; Johannes Brahms; Piotr Ilich Tchaikovsky; Antonín Dvórak; Charles Marie Widor; Gabriel Fauré; Gustav Mahler; Claude Debussy; Jean Sibelius; Sergei Rachmaninoff; Franz Schmidt; Richard Wetz.
7. A música moderna ou atonal (século XX-XXI).
8. A música moderna tonal.
 Compositores que serão tratados:
 Philip Glass; Arvo Pärt.
• O caso de Prokofiev e de Shostakovich.
Apêndice: A Orquestra Moderna.
Observação 1: em cada aula se darão links para a audição ou assistência de peças dos diversos compositores tratados, além de indicações discográficas e técnicas (em PDF). Tanto aquelas peças como estas indicações estarão publicadas também em nossa página A Boa Música (www.aboamusica.com.br).
Observação 2: os alunos poderão sempre escrever ao professor suas dúvidas ou perguntas; e as respostas do professor ficarão disponíveis a todos os alunos.

CURRÍCULO DE CARLOS NOUGUÉ

I. Dados pessoais:
Nome: Carlos (Augusto Ancêde) Nougué;
Nacionalidade: brasileira;
Idade: 64 anos.
II. Qualificações profissionais:
1) Professor de Filosofia, de Teologia e de Estética por diversos lugares;
2) Professor de Tradução e de Língua Portuguesa em nível de pós-graduação;
3) Tradutor de Filosofia, de Teologia e de Literatura (do latim, do francês, etc.);
4) Lexicógrafo.
III. Autor dos seguintes livros:
• Suma Gramatical da Língua Portuguesa – Gramática Geral e Avançada (São Paulo, É Realizações, 2015, 608 pp.);
• Estudos Tomistas – Opúsculos (Formosa, Edições Santo Tomás, 2016, 192 pp.);
• Comentário à Isagoge de Porfírio (Formosa, Edições Santo Tomás; por lançar-se ainda em 2016);
• Das Artes do Belo (São Paulo, É Realizações; por lançar-se);
• A Necessidade da Física Geral Aristotélica (São Paulo, É Realizações; por lançar-se como estudo introdutório da tradução do Comentário de Santo Tomás à Física de Aristóteles).
• etc.
IV. Outros cursos on-line ministrados por Carlos Nougué:
V. Responsável pelas seguintes páginas web:
• Estudos Tomistas (www.estudostomistas.com.br);
• A Boa Música (www.aboamusica.com.br).

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Uma iniciativa conjunta
Central de Cursos Contemplatio
Associação Cultural Santo Tomás

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

As Minorias Revolucionárias

Tradição, Tradição católica e falsa tradição


Paolo Pasqualucci

Sumário:
1. A noção de tradição.
2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.
3. Definição da Tradição católica.
4. A Tradição católica não contém nada de secreto, ela não é esotérica.
5. A noção esotérica da tradição é irracional e falsa.
5a. A inversão do significado da Cruz por René Guénon.

Em geral, todos consideram bem conhecido o sentido da palavra “tradição”. Nós, todavia, julgamos importante defini-lo corretamente. É o que faremos neste artigo.

1. A noção de tradição.

Antes de tudo, a ideia de tradição compreende a de certos valores transmitidos e preservados ao longo de gerações. Transmitidos e preservados, ou seja, ensinados e apresentados como valores a se respeitar, visto que constituem o fundamento inalterável de uma determinada concepção de mundo e, consequentemente, do modo de viver de uma sociedade — compreendida globalmente enquanto povo. Com efeito, a tradição se materializa nos costumes. A ideia de tradição está, portanto, ligada à de valor e costume. Não há aqui lugar para uma definição subjetiva do que é o valor: o valor preservado pela Tradição é precisamente aquele que se impõe pelo fato de fundar essa mesma tradição e de pertencer-lhe, a despeito do que pensam os indivíduos, que devem reconhecê-la e obedecer a ela.
Os valores expressos na tradição constituem a verdade da própria tradição. São compreendidos como dignos de pertencer à tradição porque são verdadeiros, porque se considera que nesses valores estão expressas verdades. Verdades de caráter religioso e moral, ou apenas religioso, ou apenas moral, ou moral e político, ou apenas político, ou enfim, provindo apenas dos costumes: uma verdade que é, seja o que for, objetiva, que pertence à coisa enquanto tal, independentemente do fluxo e refluxo de opiniões e acontecimentos.
A verdade que se compreende nos valores da tradição equivale à conformidade desses valores com a ideia de justiça: os valores da tradição são justos, esta é a sua verdade; e é justo observá-los e conservá-los.
A tradição é, portanto, um sistema coerente de princípios e comportamentos que constituem as normas, escritas ou não, das quais o indivíduo não pode se afastar no plano dos costumes ou das leis. Quando ligada a uma instituição ou a uma nação, a Tradição aparece com um componente épico: atos gloriosos e empresas memoráveis — batalhas, guerras.
Assim compreendida, encontramos a tradição em todos os campos da atividade humana, no sentido de que cada um deles forja sempre uma tradição a se respeitar. Até mesmo os criminosos possuem uma tradição em seus atos delituosos, de modo que podemos falar de tradições boas ou más. As tradições más, que são de um tipo diverso, ou as que estão completamente ultrapassadas, devem evidentemente ser combatidas e eliminadas, e não ser observadas, enquanto isso for possível.

2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.

O historicismo


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Sexo masculino e sexo feminino


Carlos Nougué

1) Ao falarmos de homem e não deste ou daquele homem, ao falarmos de cão e não deste ou daquele cão, ao falarmos de gato e não deste ou daquele gato, falamos da essência (naturalmente universal), respectivamente, de todos os indivíduos humanos, de todos os indivíduos caninos, de todos os indivíduos “gatunos”. O indivíduo enquanto indivíduo não tem essência; enquanto é tal, enquanto é indivíduo, tem apenas uma quididade: diferença numérica.
2) A definição de homem é: substância, vivente, animal/sensível, racional, embora seja suficiente e conveniente defini-lo pelo gênero próximo (animal) e pela diferença específica (racional): animal racional. – A definição é sempre a definição da essência.
3) Mas ser masculino ou feminino não é parte da definição da essência, senão que se vincula a um acidente. Deve ver-se, pois, que tipo de acidente.
a) Antes de tudo, é um acidente material, ou seja, está entre os acidentes que derivam da matéria.
b) Os acidentes materiais, todavia, também se dividem (e seguirei de perto aqui o opúsculo – um dos primeiros escritos de S. Tomás – De ente et essentia, c. VI, § 4).
• Alguns acidentes seguem a matéria segundo a ordem que ela tem a uma forma especial, tal como se dá com o sexo masculino e o sexo feminino nos animais. Sem dúvida a diversidade entre os dois sexos assenta na matéria, mas segundo a ordem referida, razão por que, quando desaparece a forma animal, tais acidentes (sexo masculino e sexo feminino) não se mantêm (a não ser de maneira equívoca, assim como só equivocamente uma mão decepada pode dizer-se mão).
• Outros acidentes, porém, seguem a matéria segundo sua ordem a uma forma genérica. Por isso, ainda que tenha desaparecido a forma especial, estes acidentes ainda se mantêm na matéria. É o que se dá, por exemplo, com a cor da pele, que, por provir da combinação de elementos materiais e não da constituição da alma, se mantém (por um tempo, é óbvio) depois da morte.
4) Naturalmente, os dois sexos não são passíveis de mudança. Não equivalem a acidentes como ser alto ou baixo, estar pálido ou bronzeado, etc. Há porém outro tipo de acidentes – os chamados acidentes próprios, ou propriedades – que não podem não dar-se nos indivíduos  de determinada espécie, ou, se não se dão em determinado indivíduo, sentimos que falta algo para que se dê nele a perfeição específica. Pois bem, ter sexo (ser sexuado) é acidente próprio da espécie homem, mas o é de tal modo, que não pode dar-se senão dividindo-se em masculino e em feminino, exatamente porque o fim de ter sexo é a procriação da espécie. E esta divisão em masculino e feminino é tal, pela própria natureza humana, que não são alteráveis ou intercambiáveis. – Mas atenção: nem sempre é assim entre os animais, e há peixes que mudam de sexo, como o peixe-palhaço; entre esta espécie, o macho só o é por tempo limitado. É parte de sua enteléquia crescer e tornar-se fêmea. E, ao que parece, cerca de 10% das espécies de peixes mudam de sexo uma vez na vida, passando de macho a fêmea ou vice-versa.
5) Mas é assim entre os peixes, e não é assim nos animais superiores, nem no homem, porque assim está inscrito em seus respectivos genes, responderá a Biologia, e porque assim determinam suas respectivas formas substanciais, dirá a Física Geral – respostas que, longe de contradizer-se uma à outra, se completam, mas com uma diferença: a primeira é subalternada à segunda.

Observação. Resta dizer uma palavra sobre o hermafroditismo, que sem dúvida alguma se deve a um defeito da parte da matéria: em termos médico-biológicos, deve-se a um problema teratológico, a uma má-formação embrionária. Há três tipos de hermafroditismo: o hermafroditismo verdadeiro, o pseudo-hermafroditismo masculino e o pseudo-hermafroditismo feminino; e naturalmente é o primeiro o mais assombroso. Como quer que seja, todavia, ao considerarmos o hermafroditismo, incluímo-lo entre aqueles defeitos que fazem pensar que falta algo – no caso, a nítida separação entre os sexos – para a perfeição da natureza. – Não se conclua daí, no entanto, que nos hermafroditas esteja ausente a natureza da espécie ou a alma humana; apenas padecem eles precisamente, repita-se, de uma falta ou defeito (< lat. defectus, us, “falta, diminuição” < particípio passado defectum, do verbo deficĕre, “faltar”).

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Evolucionismo 04 - ¿Es posible un "evolucionismo" cristiano?


Evolucionismo 03 - La Cosmovisión Evolucionista


Evolucionismo 02 - Análisis Crítico de la Teoría Evolucionista


Evolucionismo 01 - El Origen de la Vida (Dr. Raúl Osvaldo Leguizamón)


El Dr. Raúl Osvaldo Leguizamón es médico, egresado de la Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Ha realizado su especialidad de Anatomía Patológica en las Universidades de Emory y Minnesota, EE.UU. También cursó estudios avanzados de Patología en la Universidad Juntendo, de Tokio, Japón. Durante 22 años se desempeñó como anatomopatólogo del Hospital San Roque, de la ciudad de Córdoba, Argentina, donde fue miembro de la Comisión de Bioética. Ha sido docente en la cátedra de Patología, Histología y Biología Celular de dicha Universidad y profesor de preparatoria en las asignaturas de Biología y Química. Desde hace muchos años se ha dedicado al estudio de la teoría de la evolución, sobre la cual ha escrito cinco libros: Y el mono se convirtió en hombre, La ciencia contra la fe, En torno al origen de la vida, Fósiles polémicos y Breve análisis crítico de la teoría de la evolución biológica, publicados en México y en Argentina, y numerosos artículos en diversas publicaciones de su país. También ha impartido conferencias y cursos sobre el tema. Actualmente, y desde el año 2003, se desempeña como profesor-investigador en el Centro de Estudios Humanísticos y en el Departamento de Filosofía y Ciencia de la Universidad Autónoma de Guadalajara. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A Imortalidade da Alma Humana

Errata: a certa altura do vídeo, falo de Górgias, diálogo platônico. Trata-se em verdade do diálogo platônico Críton (cf. Lições de Sócrates).

Lições de Sócrates


Carlos Nougué

É melhor sofrer uma injustiça
que cometê-la.”
Sócrates

Sócrates é o albor da grande ciência, aquela que prosseguirá de algum modo com Platão e sua “segunda navegação”, cujo porto é o suprassensível, e que se consolidará grandemente com a doutrina de Aristóteles, a filosofia por antonomásia.
E gostaria de mostrar aqui algumas das mais importantes lições que nos legou Sócrates, não só com sua doutrina, mas com sua vida — doutrina e vida que, afinal, se entrelaçam tão intimamente, que chega a ser difícil dissociá-las. Servir-nos-ão tais lições em diversos âmbitos, do filosófico ao da prhónēsis ou prudentia, mesmo do ângulo católico. Vejamo-las, pois, ainda que brevemente, ao modo de apontamentos.   
1) Em tudo e de tudo, como dirá Aristóteles, buscava Sócrates a definição, e esta é uma das vertentes metódicas que desembocarão, na Idade Média, na disputatio escolástica, cujo aperfeiçoamento final se dará com Santo Tomás de Aquino. Com efeito, como já se vê nos primeiros e “aporéticos” diálogos platônicos (Êutifron, Íon, Lísis, Cármides e os dois Hípias),[1] Sócrates não dava trégua ao intelecto em sua busca — já propriamente científica — de resolver todos os argumentos ou objeções possíveis contra o correto entendimento e definição de algo.[2] E, de fato, a confutação e a maiêutica socráticas são a profícua semente que, após germinar no método científico de Aristóteles, florescerá abundante e vigorosamente nas muitas quaestiones disputatae do Aquinate (De veritate, De potentia, De anima, De malo, De virtutibus, De spiritualibus creaturis, De unione Verbi), em suas quaestiones de quolibet, em sua Suma Teológica.
2) Antecipando o que se dirá na República de Platão acerca da democracia — e, não nos enganemos, a democracia ateniense tinha muito que ver com a moderna democracia liberal –, fustiga diversas vezes Sócrates o fundamento daquele regime, com o qual a sofística formava algo uno.[3] (E não se dará algo semelhante nos dias de hoje? O que é a ciência hoje, em especial as mal chamadas ciências humanas, senão o reino do relativismo — o reino da sofística — a serviço da democracia liberal, que, porém, sob o manto de governo da maioria, não passa de uma partidocracia a serviço de uma omnipoderosa plutocracia?) Veja-se, a título de exemplo, o seguinte trecho do diálogo platônico Laques, na parte respeitante à educação dos filhos de Lisímaco e de Melésias:

Sócrates — Por quê, Lisímaco? Vais aceitar o que a maioria de nós aprovar?
Lisímaco — Mas o que se poderia fazer, Sócrates?
Sócrates — Por acaso tu, Melésias, agirias de igual modo? E, se houvesse uma reunião para decidir sobre a preparação ginástica de teu filho, sobre em que ele deve exercitar-se, levarias em conta a maioria de nós ou aquele que fosse precisamente formado e preparado por um bom professor de ginástica?
Melésias — A este, logicamente, Sócrates.
Sócrates — Levá-lo-ias mais em conta que a nós quatro?
Melésias — Provavelmente.
Sócrates — Suponho, então, que o que se há de julgar bem deve julgar-se segundo a ciência, e não segundo a maioria.”

3) O socrático “só sei que nada sei” pode traduzir-se, como o diz reiteradamente o mesmo Sócrates, no aparente paradoxo de que só é verdadeiramente sábio aquele que se sabe não sábio. Como, porém, resolver de modo preciso este aparente paradoxo? Duplamente. Em primeiro: o não saber socrático é verdadeiro saber diante do falso saber sofístico, porque destrói o monólogo de efeito dos sofistas e abre campo para a disputa propriamente científica.[4] Em segundo: só é sábio aquele que se sabe não sábio diante do deus e que, por isso mesmo, segue os desígnios dele sem vacilar, mesmo em face da morte. Esta segunda resolução — em que se é tentado a ver uma sorte de “tipo remoto de Cristo e de seus mártires — não a alcança a maioria dos comentadores de Sócrates. E, se assim é, fiquemos aqui, porém, apenas com sua mostração mais cabal. Com efeito, não há como negá-lo após ler os últimos parágrafos daquele mesmo e comovente diálogo Críton, nos quais Sócrates, tentando convencer a este seu amigo de que ele não deve fugir para escapar à morte injusta decretada pelo tribunal de Atenas, imagina que as leis lhe dirigem as seguintes palavras:

“– Antes, Sócrates, dá-nos crédito a nós [as leis], que te formamos, e não tenhas em mais conta teus filhos nem tua vida nem nenhuma outra coisa do que ao justo, para que, quando chegares ao Hades [o mundo dos mortos], exponhas em teu favor todas estas razões diante dos que governam ali. Com efeito, nem aqui te parece a ti, nem a nenhum dos teus, que o fazer isso seja melhor nem mais justo nem mais pio, nem melhor quando chegares ali. Pois bem, se te vais agora [ou seja, se escapas agora da prisão], vais condenado injustamente não por nós, as leis, mas pelos homens. Mas, se te evadires tão ineptamente, devolvendo injustiça por injustiça e mal por mal, violando os acordos e os pactos feitos conosco [as leis] e fazendo mal aos que menos convém, a ti mesmo, a teus amigos, à pátria e a nós [as leis], irritar-nos-emos contigo enquanto viveres, e ali, no Hades, as leis nossas irmãs não te receberão com boa disposição, sabendo que na medida de tuas forças tentaste destruir-nos. Procura que Críton não te persuada mais que nós a fazer o que diz [ou seja, a fugir].”

Prossegue Sócrates:

“– Fica bem ciente, meu querido amigo Críton, de que é isto o que eu creio ouvir [da parte do deus], [...] e o eco mesmo destas palavras retumba em mim e faz com que eu não possa ouvir outras. Fica ciente de que é isto o que eu penso agora e de que, se falares contrariamente a isto, falarás em vão. No entanto, se crês que podes conseguir algo [ou seja, para convencer-me a fugir], fala.”

Responde Críton:

“– Não tenho nada que dizer, Sócrates.”

E conclui Sócrates, encerrando o diálogo:

“– Eia, pois, Críton, ajamos neste sentido, dado que por aí nos guia o deus [ou seja, caminhe eu para a morte segundo o desígnio do deus e responda, assim, com um ato de justiça a uma condenação injusta].”[5]

Não por nada é Sócrates quem dá, um pouco como reflexo distante do Noûs de Anaxágoras, a primeira prova mais consistente de que Deus é.

____________
[1] Ou seja, entre os primeiros diálogos platônicos, não são “aporéticos” o Críton e, a meu ver, o Protágoras. (Quanto à Apologia de Sócrates, só impropriamente se pode classificar entre os diálogos.) Ademais, por aporéticos que sejam, não o são em um sentido preciso: o mostrar que a sofística não é um verdadeiro saber nem conduz à sōphrosýnē (“sensatez” ou, segundo Demócrito, o Platão do Crátilo e Aristóteles, “moderação”, aquilo que se opõe a akolasía ou desenfreio, descomedimento).
[2] Com efeito, diz Sócrates a Laques, no diálogo homônimo, “o bom caçador deve prosseguir a perseguição e não deixá-la”, referindo-se precisamente à busca da definição. Usará Platão metáfora semelhante em diversos outros lugares, como, por exemplo, Lísis, 218 c, e República, IV, 432 b.
[3] Um aluno perguntou-me, certa feita, como podia a sofística ser algo uno com a democracia ateniense se, de fato, grande parte dos sofistas não era daquela pólis. Ora, antes de tudo, Protágoras — propriamente o fundador da sofística — foi um dos principais ideólogos da democracia “ilustrada” de Péricles. Ademais, mesmo quando estrangeiros, só em Atenas podiam os sofistas exercer plenamente sua atividade. Veja-se, para tal, a passagem do diálogo Hípias Maior (283 a-284 c) em que este sofista da Élide reconhece que os homens de Lacedemônia (Esparta) não lhe entregam os filhos para que os eduque nem, pois, lhe dão dinheiro. Diga-se algo semelhante de Górgias, que era de Leontinos, e dos demais sofistas não atenienses.
[4] O diálogo socrático (e pois o platônico) nada tem que ver com o diálogo relativista ou ecumenista moderno, justamente porque aquele, como ciência, visava à verdade, enquanto este já parte da negação mesma da verdade. Como já se disse, o diálogo socrático é método de grande mestre.
[5] A distinção aristotélica entre ato de justiça e ato justo, e pois entre ato de injustiça e ato injusto, é de fulcro socrático.