segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Charles Maurras, um novo Aristóteles?

                                                                                                                             Carlos Nougué

Acabo de ler outro artigo excelente de Dardo Juan Calderón, filho do historiador Rubén Calderón Bouchet e irmão do teólogo Padre Álvaro Calderón: Ad charisma tuendum (et Ad hierarchia annihilare)”, no site Adelante la fe. Deve pois ser um “mal” de família o domínio da boa doutrina.

Não posso porém deixar de ruminar sobre certa alusão que faz Dardo Calderón, neste artigo, a Charles Maurras: “Que a organização hierárquica é uma necessidade natural em qualquer tipo de sociedade, temo-lo suficientemente aprendido monotonamente em magistérios de evidente inteligência natural, desde os gregos até Maurras, mas é, ademais, a pedra angular da fundação da Igreja feita pelo mesmo Cristo”. Não há, evidentemente, nenhum erro no escrito; de fato sustentaram isso tanto os gregos como Charles Maurras. Conhecendo todavia que não é raro no próprio meio tradicionalista – do qual creio fazer parte – certo apego a Charles Maurras e sua doutrina, movi-me a escrever, aqui, novamente sobre este político francês.

Sobre ele já disse o essencial em “Quanto a Charles Maurras quem tem razão?” (In Estudos Tomistas – opúsculos II). Resumo-o: de fato, quanto ao fundo, mereciam Maurras e sua Action Française, pelas razões aduzidas no referido opúsculo, a condenação que lhes infligiu Pio XI; quanto no entanto à oportunidade de tal condenação, pelas razões também aduzidas no mesmo lugar, parece ter incorrido em certa imprudência Pio XI (supondo eu com o Padre Álvaro Calderón, na Candeia, que tal condenação não tenha participado da infalibilidade). Mas o que quero dizer aqui é que, se, como os gregos, Charles Maurras de fato defendia a organização social hierárquica, pô-lo como que em pé de igualdade com os gregos não deixa de encerrar dificuldades. Explico-me.

Os gregos que mais e melhor trataram, expressamente, da organização política da sociedade foram sem dúvida Platão e Aristóteles. Mas há uma diferença radical entre eles e Maurras, ou seja, quanto ao fim da pólis (ou república, ou nação, ou sociedade, ou estado, como se queira). Maurras era ateu, e, se defendia o papel da Igreja na sociedade, fazia-o por razões equivocadas. Em certa linha de continuidade com os condenados tradicionalistas do século XIX (De Maistre, De Bonald, e outros), Maurras considerava importante a Igreja não pelo que ela é em si mesma – sociedade perfeita de instituição divina cujo fim imediato é batizar e assimilar as nações para, fim último, conduzir seus cidadãos à beatitude ou vida eterna –, mas por ela ter conquistado ao longo da história autoridade moral sobre os povos e, pois, por ser capaz de fazer que estes se mantenham dentro dos marcos da sanidade política natural. Pois bem, poderia parecer que também este fosse o fim político de Platão e de Aristóteles, até porque é o que comumente se diz. Mas este dizer com respeito aos dois gigantes gregos é produto justamente de tradicionalismos como os de De Maistre e de Maurras. Com efeito, o fim que Platão e Aristóteles atribuíam à pólis era de algum modo religioso. Tal atribuição era mais imperfeita em Platão, especialmente pela mescla de influências órficas de que padecia sua doutrina. Ainda assim, era inequívoca: a república havia de ser de modo tal que permitisse aos cidadãos a anamnese e a contemplação das Ideias, ou antes, da Ideia do Uno/Bem – talvez o verdadeiro Deus supremo do Ateniense (simplifico a coisa, que é bem mais complexa). Por outra parte, contudo, dentro dos marcos possíveis a um pagão, tal atribuição era muito mais perfeita em Aristóteles: a pólis ou sociedade havia de ser de modo tal que permitisse a seus cidadãos a vida feliz, a bío theōrētikós, a vida contemplativa, em que se tratava não só de conhecer a Deus mas de imitar sua mesma vida. É o que em teologia se chama “beatitude imperfeitíssima” (a “beatitude imperfeita” é a de quem, nesta vida, tem a fé, enquanto a “beatitude perfeita e verdadeira” é a da glória, a da visão intelectual face a face de Deus, a da vida eterna).

Mas Charles Maurras, como ateu ou agnóstico, jamais poderia sequer conceber tal fim para a pólis. Neste sentido, era pior que os mesmos tradicionalistas do século XIX. Estes, conquanto ignorassem completamente a doutrina da realeza social de Cristo, segundo a qual as nações estão para a Igreja assim como o corpo está para a alma, razão por que devem compor com esta algo uno, conquanto pois ignorassem isto, ao menos não eram ateus e ao menos externamente defendiam o caráter divino da Igreja e seu fim sobrenatural (não quanto às nações, mas, como bons liberais que eram no fundo, só quanto aos indivíduos, com essa espécie de esquizofrenia doutrinal de que desde Dante vieram crescentemente padecendo os teólogos e os filósofos cristãos). Mas, insista-se, Maurras nem isto, o que por si já era razão suficiente para a condenação de Pio XI, uma vez que na Action Française de Maurras não poucos católicos se mesclavam promiscuamente com ateus e sua doutrina, de fundo em verdade positivista. Como o papa que escreveu a carta magna da Cristandade, a Quas primas, onde se lê que Cristo tem sobre todas as nações, incluídas as não cristãs, poder executivo, legislativo e judiciário, como tal papa não veria com preocupação paternal tal promiscuidade?

Por todo o dito, portanto, não me parece conveniente citar Charles Maurras junto a Platão e a Aristóteles sem pelo menos as devidas ressalvas. O leitor médio, ao ler algo como “desde os gregos até Maurras” sem, repita-se, ao menos as devidas ressalvas, não deixará de igualá-los de algum modo, e isto é mau, porque ajuda a perpetuar o engano que cometiam e cometem os bons católicos que consideram a doutrina política de Maurras boa ao menos do ângulo natural.

Mas – parece haver ainda lugar para objeção – não o seria de fato? Não, não o seria, porque tal divisão dos fins políticos em fim natural e fim sobrenatural é o próprio cerne do liberalismo político cristão. Com efeito, o fim último das sociedades ou nações não é outro que o mesmo fim último da Igreja: a salvação dos homens. Naturalmente, estado e Igreja tem, cada um, sua jurisdição própria. Quanto ao fim último, todavia, não há distinção entre eles. Cabe ao estado, como fim imediato seu, fazer seus cidadãos viver virtuosamente. Como porém dizem São Gelásio papa, Inocêncio III, Santo Tomás, Bonifácio VIII, João XXII, Leão XIII, o Cardeal Pie de Poitiers, São Pio X, Pio XI, et alii, os homens não devem viver virtuosamente – como cria a maioria dos filósofos pagãos – por viver virtuosamente, mas viver virtuosamente para um dia alcançar a vida eterna e desfrutar da visão beatífica de Deus. Sendo assim, o fim último dos estados ou nações não pode ser senão o mesmo fim último da Igreja, razão por que os estados devem ordenar-se essencialmente, como a seu pastor, à Igreja, que não só tem este fim último mas o tem por delegação e mandato de Cristo mesmo – ainda que quanto à jurisdição tal ordenação seja apenas indireta (“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”). Em outras palavras, insista-se ainda, compete à Igreja evangelizar as nações para que seus cidadãos alcancem a vida eterna, e compete às nações deixar-se evangelizar pela Igreja, formar com ela algo uno, e, atuando em seu campo próprio, fazer virtuosos a seus cidadãos.

Parece todavia haver ainda espaço para objeção: Não seria então o fazer os cidadãos virtuosos o fim natural dos estados? Absolutamente não. Este é o fim imediato próprio dos estados, mas não seu fim último, porque a virtude de que se fala aqui é a virtude que conduz à salvação. De que adiantaria fazer virtuosos os cidadãos sem que isso os ajudasse a alcançar a vida eterna? (Além do mais, dadas as sequelas do pecado original, ninguém pode ser naturalmente virtuoso sem a graça – o que deveria ser sabido de todos os católicos, não?) As leis dos estados devem visar à formação dos cidadãos segundo sobretudo as virtudes cristãs, ou seja, segundo a tripla virtude teologal. Objeta-se ainda, no entanto: Quer dizer então que os cristãos não devem desenvolver as virtudes naturais? Objeção típica de um liberal católico. Responda-se: assim como a graça faz a natureza ordenar-se e conformar-se a ela no justo, e como a fé faz a razão ordenar-se a ela na teologia, assim também as virtudes teologais, sem destruir as virtudes naturais, as assimila reconformando-as. Grande diferença, com efeito, há entre comer moderadamente em prol da saúde e do corpo, por um lado, e, por outro lado, mortificar o corpo com os devidos jejuns em prol da beatitude eterna. De que vale salvar a vida se se perde a alma? Deus não nos fez para que vivêssemos naturalmente bem; fez-nos para que vivêssemos sobrenaturalmente na glória, o que supõe que nesta vida tomemos nossa cruz e imitemos a Cristo. Já algo exasperado, contudo, insiste retoricamente o nosso liberal cristão: Como porém pode dar-se na prática tal ordenação essencial dos estados à Igreja? Responde-se ainda: com a sociedade tendo por fundamento o matrimônio cristão ou sacramental, por arcabouço uma legislação fulcralmente cristã, e por cúpula e ato social máximo a santa Missa. Foi assim que essencialmente se teceu a cristandade na Idade Média. Quase tudo o mais é de certo modo acidental.

Creio que, no limites de um opúsculo como este, seja suficiente o posto para mostrar o perigo que constitui o mostrar Charles Maurras em pé de igualdade com Platão e Aristóteles, e sua doutrina como assimilável para os católicos. Quanto ao doutrinal, Pio XI teve total razão em sua condenação de Maurras e da Action Française, ainda que talvez tenha falhado quanto à sua oportunidade. Com efeito, Maurras era então um mal menor que as correntes republicanas, socialistas e comunistas; e, como dizia coisas que também diz a doutrina católica, com sua condenação não poucos acabaram por negar essas mesmas coisas e aderir às correntes que terminariam por conduzir a Igreja ao CVII. Nenhum mal menor, contudo, deixa de ser um mal; podemos até tolerá-lo, à falta de um verdadeiro bem; mas é-nos absolutamente vedado apoiar qualquer mal, maior ou menor, e misturar-nos com ele.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

A democracia moderna é uma religião


https://medium.com/@ltjunior/a-democracia-moderna-%C3%A9-uma-religi%C3%A3o-por-maxence-hecquard-3858c325f93b

domingo, 7 de agosto de 2022

"Contra a hermenêutica da continuidade em Dignitatis Humanae", por Dom Bernard Tissier de Mallerais, FSSPX (tradução de Witor Blechior)


https://medium.com/@witorbelchior/contra-a-hermen%C3%AAutica-da-continuidade-em-dignitatis-humanae-dom-bernard-tissier-de-mallerais-19b99c372b94?fbclid=IwAR3YLuhpNa52SzkNVi7XBCjaOhtUKGa4vFYqbYNT49xz14699xC9-6JRuhM



terça-feira, 2 de agosto de 2022

A perseguição dos progressistas aos católicos tradicionais no decorrer do CVII

 Frei Mario Agustín Pinto, O.P.

(Publicado na revista VERBO, setembro de 1964, nº 44/45.)

Tradução: Urlan Salgado de Barros 

Dizia São Jerônimo, aludindo à singular difusão que em seu momento alcançara a heresia do arianismo, que um dia o mundo despertou vendo com espanto que era ariano. Pois bem, algo análogo pode dizer-se em nossos dias com respeito a essa nova forma de erro que genericamente leva o nome de progressismo católico.

O progressismo, com efeito, infiltrou-se em todos os âmbitos da Igreja, mas de modo principal nos seus centros mais vitais, ou seja, nos seminários, nas casas de formação do clero secular e regular, nas Universidades, academias e institutos católicos, em todos aqueles lugares, enfim, onde se formam as mentes daqueles que estão destinados a ser os dirigentes e mentores do povo cristão. É um processo semelhante àquele que oferecera, no começo deste século, o modernismo, com o qual, por outro lado, se apresenta em continuidade perfeita, e contra o qual reagiria com sobrenatural fortaleza São Pio X. Infiltra-se como um veneno sutil que dissolve as mentes dos homens e as estruturas sociais nas fileiras dos leigos, do clero, do episcopado, determinando atitudes, iniciativas, proposições, decisões, que provocam a angústia das almas fiéis e a desorientação e confusão no povo crente, que acaba por não saber afinal o que pensar nem o que fazer, pois vê que se questionam práticas, certezas, costumes que supunha, fundadamente, imutáveis.

Aos que, desde trinta anos atrás, vínhamos acompanhando com atenção e angústia este processo, a situação a que chegamos não pode certamente surpreender. É a conclusão lógica dos erros do liberalismo, do modernismo, do maritainismo, do personalismo, que se combinaram e se resolveram no erro global do progressismo. Mas a grande massa dos fiéis católicos não possuía elementos suficientes para suspeitar o que se vinha incubando no seio da Igreja, pois até pouco tempo atrás as novas ideias se manifestavam rodeadas de precauções e cautelas, ante o temor da autoridade eclesiástica, e principalmente da Congregação do Santo Ofício, cuja necessária função moderadora e vigilante fez dela objeto de ataques tenazes e insensatos. Mas eis que, de repente, parece que todas essas inibições desapareceram, como se todas as comportas fossem abertas. Por isso o mundo católico pôde despertar um dia vendo, com assombro, que estava circundado, infiltrado, penetrado pela maré imparável e sempre crescente das novas correntes progressistas.

Ante esta situação, em verdade dramática, é necessário, hoje mais que nunca, que os espíritos que souberam conservar sua lucidez intelectual, e seguem aderindo firmemente à integral doutrina da Igreja – os tão censurados “integristas” das campanhas difamatórias do progressismo –, deem seu testemunho da verdade, para contribuir para dissipar, na medida de suas forças, tão universal confusão. Assim fizemos entre nós, os teólogos argentinos, que desde muito tempo atrás se vêm assinalando por sua intrépida constância na luta contra os erros que conduziram gradualmente até a atual crise progressista. Por tudo isso, recomendamos vivamente os estudos recentemente publicados que projetam vivíssima luz sobre o fundamento, a raiz e as múltiplas implicações dos erros que vínhamos comentando. Um deles é o R. P. Alberto Vieyra, O.P., que em seu opúsculo “O erro do progressismo” (“El error del progresismo”), assinala agudamente com fundamento filosófico este erro, o deslocamento que nele se produz no sujeito mesmo da moralidade sob influxo da instância personalista e existencialista da filosofia contemporânea, radicalmente oposta à filosofia cristã tradicional das essências eternas e imutáveis. O outro é um folheto que contém conferências do R. P. Julio Meinvielle, “Em torno do progressismo cristão” (“En torno al progresismo cristiano”). Já no ano de 1960, em um número da Revista Estudios Teológicos y Filosóficos, que adquiriu nestes momentos de crise renovada atualidade, o R. P. Julio Meinvielle, tomando como ponto de partida o problema dos sacerdotes operários (obreros), investiga, com sua habitual sagacidade, a raiz teológica mais profunda do progressismo católico, e a descobre na concepção de um cristianismo “reencarnado”, quer dizer, na tentativa audaz de implantar uma sorte de “novo cristianismo”, que completa e aperfeiçoa a “nova cristandade” de Maritain, e que não deixa de evocar a memória do abade Joaquim de Fiori, que pretendeu pregar na Idade Média um novo Evangelho, o “Evangelho eterno”, como ele dizia, e a quem refutou Santo Tomás com razões contundentes (cf. Summa Theol. I-II, 106, 4). Em suas conferências recentemente publicadas, o P. Meinvielle completou aquela aguda análise à luz dos novos e surpreendentes desenvolvimentos que alcançaram aquele erro.

Cremos sinceramente que todo aquele que lê estes estudos com espírito justo e sem preconceito, com sincero amor à verdade, encontrará neles todos os elementos necessários para formar um juízo ortodoxo e exato acerca destes erros perniciosos, que determinam, para onde o infortúnio vem impor-se, a turbação dos espíritos, o relaxamento da moral, a destruição do conceito de autoridade e da disciplina eclesiástica, a mais triste e lamentável subversão. Aqui mesmo na Argentina exemplos recentes, que não vem ao caso enumerar por serem bastante conhecidos, vêm a confirmar, com meridiana claridade, nossa asserção.

Não se nos oculta a sorte reservada a quem na hora atual se atreve a desmascarar e denunciar estes erros. Os progressistas, com efeito, declararam uma guerra sem quartel a todos aqueles que permanecem imutáveis na defesa da doutrina católica, tradicional e integral. Contam eles com quase todos os meios de publicidade, e gozam do favor e da ajuda dos inimigos ocultos e abertos da Igreja. Por isso não vacilaram em desencadear campanhas de difamação e desprestígio que chegam até aos mais altos níveis da Igreja: Cardeais, Superiores de Ordens e Congregações, eminentes teólogos romanos. Assim o assinalou com palavras de fato comovedoras a revista francesa Itinéraries, dirigida pelo grande polemista católico Jean Madiran, assessorada pelo R. P. Thomas Calmel, O.P., querido condiscípulo e irmão, por cuja luta heroica travada em circunstâncias singularmente difíceis lhe fazemos chegar nossa homenagem de cordial solidariedade e admiração. Lemos, com efeito, no número 69 de Itinéraires, numa crônica romana assinada por “Peregrinus”, estas palavras de angústia, que mostram até onde vai essa audácia agressiva do movimento progressista, em sua campanha contra o “integrismo”, ou seja, contra os defensores da doutrina católica integral, sem mutilações que a desvirtuem em seu conteúdo essencial. Diz Itinéraires:

“A desqualificação arbitrária das pessoas pelos reflexos condicionados do anti-integrismo é um processo de autodestruição da Igreja. Se esta fosse uma sociedade somente humana, não poderia sobreviver. O ‘integrista’ é aquele a quem não se fala; já não é um irmão, nem sequer um irmão inimigo; não é um adversário humano; é o equivalente a um cão sarnento que se espanta com um pontapé. Ele é desprezado em silêncio ou insultado com a maior grosseria. Ele é considerado capaz de tudo e ainda mais baixo na escala dos entes do que criminosos endurecidos, que recebem pelo menos algumas funções nas prisões. Pode fazer qualquer coisa, exceto levar em conta sua existência e sua opinião. Basta que se tenha lançado a qualificação de ‘integrista’ com alguma insistência no universo do rumor organizado para que, praticamente, nem sequer se examine se essa qualificação é fundada, e em que medida e em que sentido. É de si global e definitiva, como a declaração de que um indivíduo está contaminado com lepra; já não cabe para ele nenhum contato com os homens sãos. Entretanto, a uma parte cada vez maior em número de clérigos e leigos que integram a Igreja é posto este rótulo pestífero. É ‘a guerra psicológica’ transplantada para o seio da Igreja”.

“Esta ‘guerra psicológica’” – acrescenta o mesmo autor – “se desenrolava até há pouco tempo nas zonas periféricas do corpo eclesiástico, no âmbito das paróquias, da organização da Ação Católica, dos Vicariatos Gerais das dioceses, às vezes também no âmbito de tal ou qual conferência episcopal. Mas agora foi levada até o centro mesmo da Igreja. E agora Cardeais da cúria, Superiores de Ordens Religiosas, teólogos romanos vêm a ser pessoalmente destroçados pela máquina infernal. Alguns deles conhecem já por experiência própria a escuridão da solidão e do desprezo, a tentação do desespero, a desorientação da alma, provocada em suas vítimas por essa guerra psicológica organizada pelo anti-integrismo. Experimentam o que experimentaram antes que eles, sem que eles o soubessem, talvez sem que o tivessem cabalmente compreendido, tantos leigos e clérigos humildes de última fila. Agora eles, por sua vez, estão sós, com seu coração rasgado, sós com seu amor reusado e depreciado, sós com suas lágrimas e orações. Sós com Jesus e sua Santíssima Mãe, no umbral do primeiro dos mistérios dolorosos.

“Que todos aqueles que de um extremo ao outro da Cristandade sobreviveram à prova, que pela graça de Deus suportaram sem ser definitivamente destruídos, que todos aqueles que estão atualmente submersos nela e tateiam no escuro, que todos se unam em oração e no Santo Sacrifício da Missa, todos os que hoje em dia, em Roma, se tornaram alvo, por sua vez, do massacre; alvo desta atroz guerra psicológica de anti-integrismo, que arruína arbitrariamente sua reputação, que rompe ou confunde suas amizades mais antigas, que destroça em suas mãos o bem que poderiam fazer, e que leva suas devastações até o mais íntimo de sua alma. Com eles, por sua intenção, para que se sintam confortados, consolados, fortalecidos, recitemos os mistérios dolorosos do Santíssimo Rosário”.

E nós, por nosso lado, que compreendemos cabalmente toda a dolorosa verdade destas palavras, com íntima adesão às figuras eminentes, aos campeões da fé que atravessam hoje esta prova, para que se possa conhecer melhor a raiz venenosa e profunda, que explica a razão de ser e a íntima coesão de todas essas ideias, atitudes e doutrinas que estão semeando a confusão em nossas filas, recomendamos vivamente os estudos libertadores e esclarecedores do P. García Vieyra e do P. Julio Meinvielle. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Podcast "O Milenarismo", com o Prof. Carlos Nougué


Sobre a apostasia das nações e o consecutivo processo de decomposição destas

                                                                                                                         Pedro Valeriano

                                                                                                              Fonte: aqui

Nota prévia: Este opúsculo se funda na palestra A apostasia do mundo [1] do tomista Carlos Nougué. Algo do que aqui está foi transcrito; mas em geral não se trata de uma transcrição. Conquanto eu tenha querido permanecer fiel ao pensamento do autor da palestra, a maior parte do texto é de minha própria lavra, razão por que não é possível dizer que Nougué concordaria integralmente com o que aqui se escreve.

É ocioso acrescentar que recomendo efusivamente a audição da referida palestra.

Proêmio

1. Uma nação apóstata é uma nação que abandonou a religião cristã. Em nossos dias, todas as nações são apóstatas; recaíram no estado cadavérico daquelas nações anteriores a Cristo que não recebiam de Deus a ajuda para que pudessem alcançar seu fim. Desde o ocaso da Idade Média tem havido uma progressiva apostasia das nações; mas é a partir do século XVIII, com o amadurecimento da ideologia liberal [2], que a coisa começa a se dar mais gravemente. Rebentos deste liberalismo são a ideologia socialista no século XIX, e mais recentemente, no século XX, a ideologia sado-libertina; contudo, grande parte dos intelectuais católicos insiste em que atualmente estamos sob a ameaça do comunismo [3], opinião que nos últimos meses tem deixado perceber claramente o pé que tem no delírio.

É útil, portanto, examinar a coisa não pelo ângulo esquemático — e, a meu ver, problemático — das “três revoluções” (protestantismo, liberalismo e comunismo); mas pelo ângulo da apostasia das nações [4].

2. Para tal, parece conveniente fazer, ainda que de maneira breve e sumária, uma exposição cronológica de alguns dos eventos históricos mais importantes que foram aprofundando pouco a pouco a apostasia das nações. A primeira parte, pois, abordará o início dessa apostasia e seus desdobramentos até ao século XVI. E na segunda parte veremos a continuação e o agravamento da marcha dessa mesma apostasia, do século XVII a nossos dias; será dada, todavia, em ambas as partes, maior ênfase às filosofias que subjazem a tais eventos históricos.

3. Eis que, no entanto, uma primeira dificuldade insinua estorvar-me a empresa: pôr-se contra a opinião segundo a qual o mundo está hoje sob a ameaça do comunismo é contestar uma opinião dominante nos meios intelectuais católicos ao redor do mundo [5]. Será procedimento sensato? A princípio não parece que seja; contudo, não se pode querer — ao contrário do que pensavam alguns tradicionalistas — encontrar infalivelmente no consentimento a justificação de uma doutrina; e, para dizer com franqueza, em nossos dias a unanimidade que têm as opiniões me parece ser, antes de tudo, indício de sua falsidade.

Artigo I
Da Cristandade medieval à apostasia dos séculos XV e XVI
§ I
Sobre a insubordinação da realeza e da burguesia

4. Desde Constantino, que promoveu o cristianismo à legalidade, até à ofensa do Rei Filipe IV, também chamado “Filipe, o Belo” (1268-1314), feita ao Papa Bonifácio VIII (1230-1303), aconteceu o que jamais voltaria a acontecer: as cidades eram parte da Igreja. Isto é o que se chama “Cristandade” [6]. A verdadeira doutrina da realeza social de Jesus Cristo implica que, assim como os cristãos somos parte da Igreja a título de pessoas físicas, assim também as nações, a título de pessoas morais, devem ser parte dela. Não é que tais reinos, repúblicas, etc. fossem apenas a favor a Igreja: elas eram efetivamente membros dela.

É verdade que no âmbito das Cristandades havia conflitos, assim como entre o corpo e a alma; porém, como ensina Santo Tomás, assim como o corpo é submisso à alma, assim também o poder civil deve ordenar-se ao poder eclesiástico [7].

Antes de tudo, cumpre dizer que a correta compreensão dessa analogia só pode dar-se à luz da doutrina aristotélica da potência e do ato, os quais, na ordem da essência das criaturas corporais, nomeiam-se “matéria” e “forma” e correspondem, nelas, ao corpo e à alma; princípios distintos realmente, que, no entanto, constituem uma realidade única: o corpo é matéria e instrumento da alma, ao passo que a alma é a forma que vivifica e move o corpo. Ademais, corpo e alma, dado que não são senão uma única substância, ordenam-se a um único e mesmo fim, quer dizer, ao fim último do homem; a analogia tomista implicará, portanto, que Igreja e cidade não são duas sociedades perfeitas (exceto quanto ao aspecto jurídico, de que não falarei por ora), senão que são dois coprincípios incapazes de existir separadamente enquanto realidades completas, os quais, assim como ocorre entre a alma e o corpo, constituem uma única realidade, qual seja, a Igreja. Assim como o corpo que perde a alma torna-se um cadáver e não um bruto perfeito com sensibilidade, assim também o poder temporal que não esteja vivificado pelo poder espiritual da Igreja não constitui uma sociedade natural, mas, como diz o Pe. Calderón, constitui um cadáver de cidade; carniça para demônios, segundo a expressão de Carlos Nougué. Quando, porém, há reta ordenação, Igreja e estado concorrem para tão somente um fim: a salvação das almas.

5. Por volta do século XIV, duas classes sociais começam a revoltar-se. Primeiro, revoltou-se a burguesia. A burguesia é uma classe social que surgiu, sobretudo, graças a dois fatores: a prosperidade financeira da Cristandade do século XIII, e a formação das cidades ou burgos. Essa classe insurgiu-se contra a ordenação do poder civil ao poder eclesiástico, porque tal ordenação implica a obrigação de vender as mercadorias segundo a doutrina do preço justo, bem como implica a proibição da usura (a não ser em casos especialíssimos).

Segundo, revoltaram-se os reis. Estes não aceitavam as imposições morais da Igreja — como acontecera, por exemplo, com Henrique VIII (1491-1547) —, e tinham o desejo de espoliar os bens dela — como foi o caso de Filipe, o Belo. “Os reis da terra sublevaram-se, e os príncipes coligaram-se contra o Senhor e contra o seu Cristo” (Sl II, 2).

Em resposta a essa revolta dos reis, o Papa Bonifácio VIII escreveu a bula Unam Sanctam [8], onde expõe a doutrina infalível [9] segundo a qual a Igreja tem dois gládios ou espadas: 1) a espada espiritual, manejada pela própria Igreja; e 2) a espada temporal, manejada pelos reis, mas sob o império da própria Igreja.

6. Os problemas gerados por aquelas duas classes rebeldes, que se uniram contra seu inimigo em comum, a Igreja, e também contra a aristocracia com seus privilégios, foram se aprofundando. Neste contexto de declínio da Cristandade surge o humanismo, que é mais formalmente uma apostasia. Surge também a heresia protestante, que agravou imensamente o problema [10]. Observe-se igualmente que, em função de tudo isso, a época é marcada por uma grande decadência moral; mas diga-se de passagem que a efêmera Cristandade barroca, também chamada “Christianitas minor”, dos reis católicos Isabel (1491-1504) e Fernando (1452-1516) e dos imperadores Carlos V (1500-1558) e Filipe II (1527-1598), conseguiu em parte escapar à apostasia.

§ II
Sobre algumas doutrinas políticas da época

7. É ocioso acrescentar que tal rebelião contra o primado do poder espiritual deu-se também no âmbito estritamente doutrinário. Vejamo-lo brevemente.

Para Santo Tomás, como se disse, os reis devem ser submissos à autoridade eclesiástica; mas houve, pouco tempo depois da morte do Angélico, quem o contestasse.

O primeiro parece ter sido João de Paris O.P. (1270?-1306), também chamado “João Quidort” (ou seja, “João que dorme”), que, antecipando o raciocinar ideológico, imanentiza a Jerusalém Celeste em seu De regia potestate (publicado, provavelmente, em meados de 1303). Não se trata mais de um reino transcendente: Quidort concebe uma cidade perfeita no interior da história. O que estava por trás desta drástica reorientação teórica talvez seja impossível de descobrir; mas registre-se que, quando do conflito entre Filipe, o Belo, e Bonifácio VIII, João Quidort tomou partido do primeiro.

Outro nome importante quanto ao desvio da reta doutrina política é o nome de Dante Alighieri (1265-1321). Em seu De monarchia (publicado, segundo alguns, em 1313), sustenta que o homem tem dois fins últimos realmente distintos, um nesta vida e outro na eternidade; donde decorre uma profunda cisão entre o poder temporal e o poder espiritual, de modo que o temporal seja dotado de plena autonomia. É verdade que, no mesmo livro, Dante tenta harmonizar as duas ordens, lançando mão da tese antropológica do homo medium; debalde, porque tal artifício não obstou a que seu livro fosse queimado em praça pública por ordem do Cardeal Bertrando del Poggetto, em 1329, nem que fosse para o Index [11].

Infelizmente, esta corrente humanista não morreu com Dante: a escolástica barroca afirmará o mesmo que o florentino, mas por vias teóricas mais sofisticadas. Não entrarei na questão.

Como se vê, é irônico que este estranho período histórico que é o Renascimento tenha recebido esse nome, porque foi esta mesma Renascença que lançou as bases filosóficas para a morte, por assim dizer, da cidade; bases sobre as quais, algum tempo depois, uma insidiosa maçonaria de pedreiros livres erguerá parte do edifício da apostasia das nações.

Artigo II
A apostasia se agrava: a era do liberalismo
§ I
Sobre a Maçonaria

8. Por volta do século XVII a aliança com os reis apóstatas, porque demasiado onerosa, não convinha mais à burguesia. As monarquias absolutistas [12] — ligadas ainda, porém muito precariamente, à Igreja — custavam muito aos burgueses, não só financeiramente, mas também moralmente, porque a moral da burguesia era fruto da influência do humanismo renascentista. Então a burguesia revoltou-se contra as monarquias absolutas e contra a frágil união entre estas e a Igreja: formalizam-se as aspirações à separação total entre o trono e o altar.

9. É nesse contexto histórico que surge a Franco-maçonaria. Tudo o que envolve sua origem é misterioso. Segundo alguns, deu-se em 1717; mas é uma opinião discutível, porque o que aconteceu nessa data foi tão somente a união de duas lojas maçônicas, o que naturalmente nos leva a crer que a Maçonaria é mais antiga. Seja como for, não deve ser muito mais antiga que isso. Há quem diga que foi fundada, entre os ingleses — o que é muito natural, por causa da apostasia de Henrique VIII —, por dois pastores protestantes: James Anderson (1679-1793) e John Theophilus Desaguliers (1683-1744). Era o ponto de encontro da filosofia iluminista, das pretensões de uma religião civil, e dos planos ocultos para derrubar este aliado incômodo que eram as monarquias absolutistas; por isso mesmo é que era uma sociedade secreta, conquanto ela mesma normalmente se recuse a admitir que o seja. Desmentem-no seus mesmos regulamentos, que impõem punições (às vezes, bastante severas) aos membros que violem os juramentos pelos quais se comprometeram a manter segredo e observar as demais regras maçônicas. A Maçonaria, estruturada hierarquicamente em 33 graus, em verdade é uma superposição de sociedades secretas, em que os membros de graus inferiores nada sabem do que acontece entre os membros de graus superiores. Os três últimos graus são chamados “graus sublimes”, e nada se sabe a respeito do que há acima do 33º. Se, pelo menos entre os membros dos graus mais avançados, a Maçonaria é estritamente satanista, é difícil saber. De qualquer maneira, o mal sempre se reduz, em última instância, ao demônio.

Abram-se parênteses para uma ressalva: ao estudar sociedades secretas como a Maçonaria, expomo-nos sempre ao perigo de falsamente atribuir ao mal a conexidade, a ordem, a determinação e a unidade dos quais só o bem é dono. Assim procediam, por exemplo, os maniqueus; também assim o sorrateiro tradicionalismo oitocentista que, romântico que era, costumava falar sobre certa “Unidade” (o que, por sinal, dará origem a um funesto esoterismo, de que tratarei em outro opúsculo). Numa palavra, o estudo assíduo de sociedades secretas e coisas que tais conduz, de modo praticamente inevitável, ao vício do conspiracionismo. Fechem-se parênteses.

Não se pode questionar a existência da Maçonaria. Os documentos comprobatórios são inúmeros, e diga-se de passagem que já em 1738, o Papa Clemente XII (1652-1740), em sua constituição apostólica In eminenti, condenou a Franco-maçonaria (e a essa condenação se seguirão outras várias). Que a Maçonaria, em geral, tenha tido papel importante nas revoluções principais, também não se pode negar; mas o fato é que, hoje, ela tem um papel residual. Conquanto não pareça ter deixado de existir, de um lado, uma avant-loge, ou seja, uma Maçonaria de fachada, convidativa, aberta, e do outro lado, uma arrière-loge, mais furtiva, guardiã dos “grandes segredos”, etc., etc., hoje o maçonismo é algo pitoresco, não se pode falar propriamente em conspirações maçônicas [13].

A Maçonaria, a despeito de sua divisão em três grandes ramos distintos (o rito escocês, o rito inglês e o rito francês), parece ter possuído outrora unidade doutrinal: o naturalismo, o racionalismo, o enciclopedismo. Em suma, era liberal; e esse liberalismo, a partir do século XIX, terá penetração cada vez maior na sociedade, graças à revolução francesa de 1789 — a revolução liberal por excelência.

§ II
Sobre a ideologia liberal

10. A influência da ideologia liberal, reinante no contexto dessa revolução, é enorme; mas ainda seria preciso algum tempo para que a Maçonaria triunfasse definitivamente. Além das resistências católicas ainda existentes [14], a Maçonaria em geral tinha de enfrentar a oposição de seu filho rebelde, o marxismo; todavia, todas essas resistências foram caindo uma a uma: com o Concílio Vaticano II, com o fim da União Soviética — e com o chamado “Maio de 68”, a primeira revolução concreta marcusiana ou sado-libertina, de que tratarei mais adiante. Hoje a Maçonaria já não precisa viver na clandestinidade, porque ela conseguiu o que queria. Não há mais conspiração maçônica anticristã, toda essa história caducou. Não é necessário que a Maçonaria conspire contra a Igreja, porque a maior parte da hierarquia católica já aderiu, de algum modo, à ideologia. O que pode haver são conspirações no interior de nações revolucionárias, ou entre diferentes nações revolucionárias, ou entre os diferentes ramos da Maçonaria, etc.; mas o fato é que não há mais necessidade para a Maçonaria de se manter na clandestinidade. Pelo contrário, os resistentes é que terão de viver (e em muitas partes do mundo já o fazem) na clandestinidade; porque, apesar da grande probabilidade de o reino do Anticristo dar-se, principalmente, pela sedução, é provável que também haja violência [15].

11. Pois bem, já se disse aqui o que é uma ideologia e o que é uma revolução, e também já se deu uma palavra a respeito de suas relações (cf. nota 2).

Dê-se um passo além, no sentido de buscarmos o que seja a ideologia liberal. A ideologia liberal pode definir-se: religião política que, fundada numa falsa concepção de “liberdade”, busca, mediante revolução, o paraíso terrestre da democracia democratista. Elucidem-se-lhe um pouco as partículas: 1) trata-se de uma religião política ou ideologia porque, dotada de certo imanentismo ou mundanismo, ou seja, de uma crença segundo a qual a salvação se encontra no mundo (daí o afã de uma ação intramundana, a revolução), e 2) propugnando uma concepção (equivocada) de “liberdade”, que atribui ao homem liberdade para fazer indiferentemente isto ou aquilo, escolher o bem ou o mal indiferentemente, sem nenhuma medida divina, eterna, supratemporal, supraespacial [16], 3) busca, por meio de certo processo, súbito ou não, contrário ao bem político-social, ou seja, por meio de uma revolução, busca um como paraíso terrestre ao modo milenarista, o qual paraíso consiste numa sociedade em que se aplica aquela falsa noção de liberdade, bem como aquilo que dela decorre, através de uma forma de governo projetada para tal, a democracia liberal, ou melhor, a democracia democratista.

12. A revolução francesa 1789 é a revolução liberal por antonomásia, o arquétipo das revoluções, e foi por causa dela que o liberalismo triunfou em grande parte do mundo. É no âmbito dessa revolução que surge a famosa tríade, “liberdade, igualdade e fraternidade”, a trilogia mágica, como a chamou Orlando Fedeli certa vez. No âmbito dessa revolução, a quantidade de sangue derramado por causa dessas três palavras é espantosa. Abominabilíssimos crimes se cometeram, e, segundo alguns autores, o número de pessoas assassinadas pelos liberais está na casa do milhão [17]. A realidade provou cabalmente que o paraíso terrestre do liberalismo era impossível, a despeito dos inumeráveis esforços dos revolucionários.

Ali, muito por exemplo, tentou-se estabelecer a igualdade de direitos políticos, de modo que todos pudessem votar e concorrer a cargos públicos; contudo, o que se observou é que quem tinha maior fortuna sempre vencia, porque conseguia fazer maior propaganda. Surgirão, então, nomes como o de Pierre-Gaspard Chaumette (1763-1794) — que, mais tarde, será condenado à guilhotina —, para quem a igualdade política seria irrealizável se não houvesse igualdade econômica e social. Começa a hipertrofiar-se o segundo membro da tríade liberal: a igualdade. A tudo isso acrescentem-se os graves problemas causados pelo liberalismo econômico, etc., e ter-se-á tudo preparado para que a obra de Karl Marx (1818-1883) aprofunde a apostasia das nações.

§ III
Sobre a ideologia marxista

13. O marxismo, por sua vez, se eu quisesse usar uma fórmula — algo sumária e descritiva, é verdade — semelhante à que foi usada com o liberalismo, assim se definiria: religião política que busca, mediante revolução, o paraíso terrestre do comunismo ou sociedade sem classes. Contudo, “o marxismo não foi concebido como pura teoria, mas como um plano de ação revolucionária” [18], de modo que “[o] marxismo se define menos por suas teses específicas — tantas vezes e tão amplamente modificadas — que pela ação a que ele induz seus partidários” [19]. Tendo em vistas essas observações, tentemos defini-lo um pouco mais perfeitamente, dando maior ênfase a este aspecto prático, e tentando, por conseguinte, encerrar nesta definição todos os elementos essenciais à realização prática do marxismo (cf. nota 3) no comunismo soviético, que, como se verá, deu-se através da revolução comunista por excelência, qual seja, a revolução russa de 1917. A definição, pois:

“[F]ilosofia materialista de vida que advoga o estabelecimento de uma ditadura do proletariado em todos os países do mundo mediante revolução violenta ou por quaisquer meios que possam ser considerados necessários em ordem a finalmente alcançar e preservar uma sociedade sem classes, na qual não haverá propriedade privada, e na qual toda propriedade será concedida à comunidade como um todo, e todo trabalho e atividades humanas [serão] organizados para o benefício comum por um grupo centralizado de representantes dos trabalhadores.” [20]

Destrincemos-lhe um pouco alguns elementos: 1) trata-se de uma como filosofia de vida porque, pretendendo ir além de uma doutrina econômica, o marxismo — ideológico que é — implica questões acerca da história, da política, da metafísica, da religião, etc., e quer “refazer o homem”, o qual, sujeito a uma constante luta entre classes, uma luta entre exploradores e explorados — e a história não seria senão a história dessa luta —, teria passado finalmente a dividir-se, por conta da industrialização, entre a classe dos burgueses e a dos proletários, entre a classe dos donos dos meios de produção e a classe dos que não têm senão sua própria força de trabalho, 2) a qual classe, ainda graças à industrialização, se encontraria em plenas condições de subjulgar a primeira, e de exterminá-la como pudesse, 3) dando origem ao paraíso terrestre da sociedade sem classes ou comunista.

É preciso dizer que “Karl Marx era, antes de tudo, um ateísta” [21], “o marxismo é uma como coroação ateística do joaquimismo” [22]. Conceda-se que, em vistas de uma filosofia tão decididamente ateia como é o marxismo, talvez haja certa dificuldade em fazê-la remontar ao gnosticismo joaquimita; no entanto, não é impossível que este ateísmo de Marx tenha algo de romântico e, por paradoxal que possa soar, de religioso [23]. Há ainda quem fale do satanismo em Karl Marx. Por conta da brevidade a que me obriga este opúsculo, infelizmente não posso aprofundar o assunto; todavia, é útil observar que o ateísmo em geral é indispensável para as revoluções. Sem o ateísmo, como disse Carlos Nougué, é difícil que marchem. Aí talvez se encontre, diga-se de passagem, a explicação profunda para a tão encarniçada luta em defesa do evolucionismo em nossos dias: no interior do pensamento ideológico, o evolucionismo prova cientificamente, incontestavelmente, inabalavelmente que Deus não existe.

14. Como já se disse, a principal revolução marxista foi a revolução russa de 1917. Segundo Marx, o levante do proletariado só deveria ocorrer depois de um longo período de preparação divido em três estágios: primeiro, a completa suplantação, pelo capitalismo, de todos os resquícios da economia feudal; em seguida, uma prolongada ascensão da burguesia, e, consequentemente, uma crescente degeneração da classe proletária; somente então é que esta última classe se rebelaria. Dito de outro modo, era impossível que a revolução se desse no contexto de um país que não fosse completamente desenvolvido economicamente. No entanto, os bolcheviques, sob o comando de Lenin (1870-1924), eram de outro parecer: num país pouco industrializado como era a Rússia de 1917, tomaram o poder por um processo extremamente violento.

Novamente, assim como se deu com os liberais em 1789, os fatos históricos contestam a especulação ideológica. Por onde fica manifesto que o marxismo, assim como o liberalismo, é religião política: como na fábula de Esopo, o mau pode mudar de aparência, mas não muda de hábitos.

15. É preciso dar, ainda, uma palavra sobre o marxismo, para que se possa entender o que virá depois. Ele, o marxismo, na prática não deixou de conservar, algo deformadamente, alguns pontos básicos da lei natural. Dê-se um exemplo, dentre os vários que poderiam dar-se. Quando ainda vivia Stalin, na década de 1950, Palmiro Togliatti (secretário do Partido Comunista Italiano; 1893-1964) e Enrico Berlinguer (secretário da Federação da Juventude Comunista Italiana; 1922-1984) apresentaram Santa Maria Goretti, mártir da pureza (!), à juventude comunista italiana como modelo de virtude (cívica) — coisa que jamais, de modo algum, passaria pela mente dos revolucionários libertinos de nossos dias, sobre os quais falarei mais adiante.

Alguns autores além de Marx e de Engels (1820-1895), talvez por causa da maleabilidade e da plasticidade do referencial marxista de que falou Daniel Scherer, ainda podem incluir-se no âmbito de um marxismo ortodoxo: Lenin, Hilferding (1877-1941), Luxemburgo (1871-1919)... todavia, outros, como Horkheimer (1895-1973), Marcuse (1898-1979), Reich (1897-1957) e Adorno (1903-1969), conquanto se pretendam em alguma medida continuadores de Marx, já não estão no âmbito do marxismo propriamente dito. O historiador marxista inglês Perry Anderson, por exemplo, os põe sob o que chama “marxismo ocidental” [24], e sustenta que este último grupo de autores (ou seja, Marcuse, Adorno e muitos outros) não é marxista.

É que a União Soviética, realização prática da ideologia marxista, decepcionou, como era de se esperar, alguns intelectuais inicialmente marxistas, justamente porque ela estava aquém do ideal de radicalidade revolucionário-emancipatória destes. O comunismo soviético os desiludiu. Passarão, então, a buscar novos caminhos para além do comunismo, graças, ressalte-se, ao próprio comunismo soviético: estava feito, a Rússia espalhara seus erros.

§ IV
Sobre a ideologia marcusiana ou sado-libertina

16. Sob o nome “marcusianismo” ou “sado-libertinismo” coloco, por comodidade, diversos autores revolucionários — por vezes algo díspares em alguns pontos — de cuja doutrina grande parte do mundo se fez caudatária: pessoas comuns, artistas, empresas, nações inteiras com suas leis, etc. São os autores da chamada “teoria crítica”. A escola desses autores também é chamada por alguns “escola de Frankfurt” [25].

A teoria crítica (por oposição à chamada “teoria tradicional”) foi inaugurada por Horkheimer na década de 1930. De maneira bastante simplificada, ela propugna uma postura de suspeita permanente, e, consequentemente, de constante reformulação ou readequação de “modelos críticos”, e ordena-se à “emancipação da sociedade”; portanto, se em dado momento certa teoria não se presta a esse fim, cumpre que mude. O diagnóstico horkheimeriano da década de 1930 terá três notas básicas: 1) o descrédito, fundado nos escritos do também frankfurtiano Pollock (1894-1970), quanto às análises marxianas acerca das tendências autodestrutivas do capitalismo; 2) observação do fato de que o proletariado, segundo estudos de Erich Fromm, não estava em processo de constante empobrecimento, como queria Marx; pelo contrário, as condições de vida da classe operária haviam de tal modo mudado, que já não era mais possível falar em duas classes, uma absolutamente pobre e outra absolutamente rica, cada uma com seu peso absolutamente determinado no processo econômico; ademais deste aspecto econômico, ainda segundo Fromm, a consideração do aspecto social de mudança da classe operária, que se deve à presença de vigorosos mecanismos psicossociais de dominação; e 3) a desconfiança acerca da capacidade de resistência por parte do proletariado, fundada em estudos sobre a ascensão do nazismo e do fascismo, segundo os quais estudos a classe proletária não só não poderia resistir devido à repressão que sofreria dos nazistas e dos fascistas, mas também devido ao fato de que, paralelamente à ascensão destes últimos, desenvolveram-se sobremaneira a indústria de entretenimento, a propaganda e os meios de comunicação.

Essas três notas fundamentais, que em geral orientarão a atividade do Instituto de Pesquisa Social (que era o centro de pesquisa dos frankfurtianos, dirigido durante muitos anos por Horkheimer), permitem entrever a necessidade de uma profunda revisão do marxismo, que os teóricos críticos realizarão efetivamente alguns anos depois. Permitem entrever igualmente certa prioridade da teoria em detrimento da prática: estando a ação revolucionária obstaculizada em diversos sentidos, não resta senão fazer uma crítica puramente teórica.

17. Marcuse é talvez o principal teórico crítico. É dele o remate. Para entendê-lo, esbocem-se brevemente as linhas gerais de seu pensamento [26].

Herbert Marcuse foi aluno de Husserl e de Heidegger. Sob a orientação deste último, elaborou, em sua tese de docência, um estudo sobre os fundamentos da teoria da historicidade em Hegel (pesquisa que o conduziu à leitura de Marx). Marcuse sempre conservará, a seu modo, alguma influência de Heidegger em seu pensamento. Proporá, muito por exemplo, uma singular leitura do Dasein heideggeriano (ou seja, do sujeito enquanto ser-no-mundo), articulando essa noção com o hegelianismo e com o marxismo: a subjetividade inserta na realidade social enquanto tal. Tal articulação — que o levará, por indicação de Husserl, a filiar-se ao Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt — permite que Marcuse enfatize a categoria da negatividade no interior da dialética hegeliana. É que o sistema de Hegel, para Marcuse, ao fechar-se no espírito absoluto, negligencia o “trabalho inventivo da negatividade” que o mesmo Hegel propôs, causando certo embaraço da mobilidade da razão dialética: em Marcuse, a história não é algo dado, senão que é um vir-a-ser. Se evitar o enfrentamento da mobilidade implica inércia e resignação, assumi-lo implicará empreender pacientemente o trabalho não conformista do negativo. Na direção deste pensamento, Marcuse, num de seus livros mais importantes, Eros e civilização (1955), procede a uma associação entre Marx e Sigmund Freud (1856-1939). Ali, Marcuse sustenta que as categorias psicanalíticas, no âmbito da “sociedade industrial avançada”, tornaram-se categorias políticas, devido à problematização da separação entre o privado e o público. Esta reinterpretação da psicanálise freudiana, reducionista para alguns, permite que Marcuse identifique na sociedade industrial avançada um fenômeno de redução da individualidade e de transformação dos membros dessa sociedade em “átomos sociais”; donde Marcuse ter procurado entender a falência do trabalho do negativo nessa sociedade pelo caminho de uma “construção da subjetividade”. Decorrem daí as investigações empreendidas em seu livro mais conhecido, O homem unidimensional (1964), em que propõe que a classe proletária — devido à sua adesão às crenças do sistema capitalista, e, por conseguinte, devido ao fato de que sua subjetividade se encontra destituída da liberdade e do poder de crítica — perdera seu potencial revolucionário; mas Marcuse é insofismavelmente um utopista, e isso o leva a buscar a revolução em outro lugar, em alguma classe que não esteja no interior do sistema, mas às margens dele.

Os outros frankfurtianos são mais cépticos. Adorno, por exemplo, se oporá aos estudantes revolucionários de 1968 (dos quais falarei mais adiante), chegando a chamar a polícia contra eles em certa ocasião. Naturalmente, um retrocesso à revolução que então marchava. Em correspondência com Marcuse, este lhe reprovou o pôr-se contra os estudantes. Não era mais possível a revolução via proletariado, e nisso concordavam; todavia, um cepticismo inerte como o de Adorno não era de adotar-se; ora, Marcuse, como todo ideólogo, busca um paraíso terrestre, e este só pode dar-se mediante revolução. Quem será o novo proletariado, ou seja, a nova classe revolucionária? Digamos, de maneira simplificada, que Marcuse a tenha encontrado naquilo a que chamo, com Carlos Nougué, “classes morais” (por oposição às classes econômicas de Marx [27]) de algum modo marginalizadas: negros, mulheres, homossexuais, índios, talvez vegetais, etc.

18. Mas isso tudo é apenas um rearranjo dos meios. Ainda busca Marcuse o mesmo fim que buscava Marx, ou seja, a sociedade sem classes ou comunismo? Definitivamente não. O fim da revolução marcusiana é outro; Marcuse, no entanto, é obscuro quanto a isso, não se expressa claramente [28]. Alguns aceitam que, para ele, o fim da revolução seja a sociedade não repressiva (e tal nos parece a interpretação mais plausível). Explique-se. Marcuse, que procede a uma como psicanálise da sociedade, não deixa de prescrever-lhe o remédio: a liberação dos instintos sexuais. Este xarope imundo desencadeará, segundo Marcuse, um paraíso terrestre caracterizado por uma nova relação entre a razão e os instintos. É exatamente por isso que também a chamo “revolução sado-libertina”, seguindo os passos de Carlos Nougué. Parece manifesto que o marcusianismo é religião política.

19. Tentemos dar-lhe contornos mais nítidos, mas com a seguinte ressalva: definir essa ideologia, tal como eu estava fazendo com as outras, é tarefa demasiado árdua. O erro é por natureza obscuro, e as obras dos muitos ideólogos a que por comodidade chamo “marcusianos”, não são exceção a essa obscuridade; pelo contrário, encarnam-lhe ainda mais perfeitamente o espírito. Pois bem: o marcusianismo é uma mescla, globalizante e intrinsecamente capitalista, de radicalização do liberalismo no campo moral e de alguns meios operativos do marxismo. A partícula “globalizante” parece clara [29]; quanto a que seja “intrinsecamente capitalista”, ilustra-o o fato de que a larga maioria dos grandes capitalistas seja partidária dessa ideologia (Bill Gates, por exemplo [30]); as demais partículas parecem explicar-se com o que já se disse acerca do pensamento de Marcuse.

20. Como dito, Marcuse não é o único filosofista responsável pela ideologia triunfante. Isso quer dizer que o sado-libertinismo, tal como se apresenta hoje, não é completamente fiel ao pensamento de Marcuse. Novas gerações de teóricos críticos se sucedem umas às outras, e, a seu modo, a principal religião política de nossos dias amadurece, e se enriquece em vários sentidos. Assim, surgem, na complexa urdidura da intelectualidade marcusiana atual, obras tão divergentes — e, paradoxalmente, tão convergentes — como a de um Jürgen Habermas (1929-), de um Axel Honneth (1949-), de um Michel Foucault (1926-1984).

21. A principal revolução marcusiana foi a revolução francesa de 1968, por vezes chamada “Maio de 68”. Essa revolução teve grande importância na inoculação do veneno marcusiano no mundo (embora o próprio Marcuse se tenha recusado a dar-lhe o estatuto de revolução; para ele, a revolta dos estudantes não era senão o prelúdio de uma revolução). Imediatamente sentiram seus efeitos, por exemplo, o México, a Inglaterra, a Espanha, o Japão... Se o marcusianismo é, como o chamou Daniel Scherer, “o paroxismo mesmo do liberalismo” [31], é curioso observar que a principal revolução marcusiana tenha ocorrido na França, a mesma França que abrigou a principal revolução liberal. É que a tentação liberal foi a tentação francesa, como disse o Pe. Calderón.

A revolução de 1968 pode parecer marxista à primeira vista; mas não foi uma revolução marxista. O próprio Partido Comunista Francês se opôs aos estudantes revolucionários. A palavra de ordem já não era mais “Abaixo ao capitalismo, e viva a ditadura do proletariado”, senão que era “É proibido proibir” e “A imaginação no poder”.

É precisamente nesta época que a música rock se populariza muitíssimo, e que a boa arte cinematográfica é suplantada no âmbito “técnico” pela new hollywood nos Estados Unidos e pela nouvelle vague no resto do mundo. As artes sempre têm sua parte nas revoluções.

22. Naturalmente, tudo isso soava como heresia para os marxistas de estrita observância. Bykhovskii (1898-1980), por exemplo, critica duramente Marcuse: “A doutrina antimarxista de Marcuse é impotente, porque ela é falsa. Sua ‘dialética negativa’ com sua concepção metafísica da negação não tem nada em comum com a verdadeira dialética” [32]. Estamos longe do socialismo científico de Marx. É que o Karl Marx no qual se baseou a escola de Frankfurt para a criação de sua teoria crítica é o jovem Marx dos Manuscritos econômico-filosóficos, descobertos na década de 1930. O marxista Althusser (1918-1990), em defesa de um marxismo mais “científico” (em detrimento do marxismo mais “filosófico”, mais “humanista” dos frankfurtianos), sustenta que esses escritos marxianos de juventude não deveriam ser levados em conta; no entanto, como se disse, é precisamente deles que se valerão os antimarxistas de Frankfurt.

À guisa de conclusão

23. É preciso saber contra quem se luta. Conta-se que na Batalha de Crécy (1346), uma tática nova adotada pelos ingleses foi o motivo da derrota de seus oponentes franceses. Os ingleses formaram um quadrado, e, protegidos por seus archeiros e por suas bombardas de fogo (que pela primeira vez apareciam na guerra), deixaram avançar a cavalaria francesa. Quando a tiveram ao alcance, disparam as bombardas e fizeram cair sobre os assaltantes uma chuva de setas. Os franceses, fatigados pela marcha e estarrecidos pelo fragor da artilharia, rapidamente se desordenaram e voltaram sobre sua própria infantaria, esmagando-a brutalmente — enquanto os cutileiros ingleses caíam sobre os homens derrubados, massacrando-os sem clemência.

Este despretensioso opúsculo, que ora se conclui — e que não tem feição acabada e, obviamente, não se pretende definitivo sobre nada —, se escreve com o fim de ajudar a desfazer alguma confusão que grassa em ambientes católicos, a saber, a confusão quanto ao comunismo.

Não me parece que esta identidade que se faz entre o marxismo e o marcusianismo seja o ponto central do problema; antes, seu ponto central parece ser certa tendência ao milenarismo e ao esquematismo que dele decorre. A verdade consiste em que a inteligência se adeque à realidade. Proceder em sentido oposto é próprio da ideologia, que, por sua vez, é de origem milenarista. A realidade, tal como se apresenta hoje, parece indicar claramente que o comunismo não é uma ameaça. Parece claramente indicar, ademais, que revolução triunfou três vezes, com o liberalismo, com o socialismo, e hoje com o sado-libertinismo. “O gafanhoto comeu o que tinha ficado da lagarta, e o brugo comeu o que tinha ficado do gafanhoto, e a ferrugem comeu o que tinha ficado do brugo” (Jl I, 4).


[1] À qual remete o seguinte linkhttps://www.youtube.com/watch?v=0XgdJ-eln00.

[2] Tomo a palavra “ideologia” no mesmo sentido em que Eric Voegelin (1901-1985) o faz, ou seja, no sentido preciso de uma religião política. (Note-se que é somente isso que tomo de Voegelin, porque em geral sua obra padece graves defeitos.) As ideologias são certas doutrinas que visam a substituir-se, mediante alguma revolução, à verdadeira religião sem, contudo, alçar-se do político; por isso mesmo não são senão contrafações da religião verdadeira. Voegelin as faz remontar à heresia milenarista de Joaquim de Fiore (1135-1202). Sobre o assunto, cf. Carlos Nougué, O que é a ideologia em Estudos tomistas – Opúsculos II, Formosa, Edições Santo Tomás, 2020, pp. 273-280; Carlos Nougué, Prefácio em Dom Geraldo de Proença Sigaud, Catecismo anticomunista, Belo Horizonte, Edições Cristo Rei, 2018; e Daniel C. Scherer, A raiz antitomista da modernidade filosófica, Formosa, Edições Santo Tomás, 2018, p. 256.

Registre-se que com a palavra “revolução” quero significar “um processo, longo ou mais ou menos súbito, que vai contra o bem da pólis, o bem político-social” (Carlos Nougué, Aula 8 – As três revoluções principais no curso gratuito Não nos percamos, disponível em https://cursos.estudostomistas.org/curso/nao-nos-percamos/). Nesse sentido, não se pode entender a heresia de Lutero como uma revolução, porque, conquanto tenha gerado desastrosas consequências políticas, é patente que tinha caráter, antes de tudo, religioso.

Note-se, ainda, que não se faz neste trabalho aquela sorte de mistificação das revoluções, como é de uso entre os tradicionalistas do século XIX. O que aqui se tenta fazer é dar ao assunto, na medida em que mo permitem os limites deste opúsculo, um tratamento racional.

[3] Convém observar que, rigorosamente falando, “comunismo” não é sinônimo de “marxismo”. O marxismo é uma doutrina, e o comunismo como geralmente o concebemos é sua realização prática.

[4] Note-se que o assunto principal da palestra de Carlos Nougué não é a confusão entre marxismo e marcusianismo; mas quanto a este opúsculo, sim, o é.

[5] O sucesso dessa opinião entre os católicos se deve, em parte, à influência da atual direita liberal-conservadora; mas o liberal-conservadorismo é absolutamente incompatível com o cristianismo. Direita e esquerda são parte da mesma gangorra revolucionária, como disse Carlos Nougué (em A infernal gangorra esquerda/direita, disponível em https://www.estudostomistas.com.br/2021/08/a-infernal-gangorra-direitaesquerda.html, 2021). Sobre o assunto, cf. também Carlos Nougué, A penetração do liberal-conservadorismo na tradição católica (em três partes), disponível em https://www.estudostomistas.com.br/, 2021; Orlando Fedeli, Direitas & esquerdas, disponível em http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/direitas/, 1986; e Alistair McFadden, Observations on the influence of the occult in traditional catholic discourse (em oito partes), disponível em https://justacatholic.medium.com/observations-on-the-influence-of-the-occult-in-traditional-catholic-discourse-2d798e5ba51c, 2021.

[6] Atualmente se tem usado a palavra “Cristandade” de maneira demasiado solta. Estritamente falando, na história só houve três Cristandades: a romana, a medieval e a barroca. Para aprofundar este ponto, cf. Carlos Nougué, Aula 3 – O estado cristão no curso gratuito Não nos percamos, disponível em https://cursos.estudostomistas.org/curso/nao-nos-percamos/.

[7] Cf. II-II, q. 60, a. 6, ad. 3. Para aprofundar o assunto, cf. Carlos Nougué, Da realeza de CristoCorte e costura humanista e pólis em ordem a Deus em Estudos tomistas – Opúsculos II, Formosa, Edições Santo Tomás, 2020, pp. 231-240, pp. 241-260, pp. 267-272; Carlos Nougué, Nem islamismo nem fascismo, disponível em https://www.estudostomistas.com.br/2021/08/nem-islamismo-nem-fascismo.html, 2021; Carlos Nougué, Programa de estudos sobre o reinado social de Cristo (em três partes), disponível em https://www.estudostomistas.com.br/, 2021; e Daniel C. Scherer, A raiz antitomista da modernidade filosófica, Formosa, Edições Santo Tomás, 2018, pp. 93-98.

[8] Que pode ser lida integralmente, em tradução inédita, neste site. Eis o linkhttps://doisgladios.blogspot.com/2021/06/bula-unam-sanctam-de-bonifacio-viii_12.html.

[9] Segundo Carlos Nougué, a bula Unam Sanctam, documento solene, tem inequívoco caráter extraordinário infalível. Cf. Carlos Nougué, Programa de estudos sobre o reinado social de Cristo (II): os documentos do Magistério da Igreja, com alguns comentários, disponível em https://www.estudostomistas.com.br/2021/01/programa-de-estudos-sobre-o-reinado_3.html, 2021.

[10] Quanto a este conturbado período da história, cf. Daniel C. Scherer, A raiz antitomista da modernidade filosófica, Formosa, Edições Santo Tomás, 2018, pp. 164-171. Cumpre ainda observar que, contrariamente ao que comumente se diz, não foi Lutero o causador do fim da Cristandade: ele “não é senão um dos elos, ainda que muito importante, da cadeia histórica da apostasia das nações” (Carlos Nougué, Foi Lutero o causador do fim da Cristandade?, disponível em https://www.estudostomistas.com.br/2020/12/foi-lutero-o-causador-do-fim-da.html, 2020).

[11] Diga-se, ademais, que a inclusão do De monarchia no Index implicaria, de certo modo, a condenação de sua Divina comédia, onde defende a mesma doutrina (cf., muito por exemplo, Purgatório, XVI, vv. 106-108): ao contrário do que na encíclica Sicut universitatis disse o Papa Inocêncio III, para quem a Igreja e o estado são, respectivamente, como o sol e a lua, Dante põe que são como dois sóis. Em outro lugar (Inferno, XIX, vv. 115-118), Dante censura Constantino por ter unido a ordem temporal à espiritual, ou seja, o censura por ter fundado a Cristandade. Mais ainda: a mesma Comédia tem fortes notas de gnosticismo, do qual Dante se mostra inegavelmente adepto em seu Il convivio. Pois bem, este é quem alguns teimosamente consideram o maior poeta da Cristandade: um gnóstico anticlerical.

[12] Aqui não se emprega o termo “monarquias absolutistas” do mesmo modo que os historiadores liberais e os historiadores marxistas o fazem. Segundo Carlos Nougué, são absolutistas no sentido de que não se submetiam à direção da Igreja, e tinham a pretensão e a prática de elas mesmas dirigirem cesaripapisticamente a Igreja (cf. Carlos Nougué, Aula 12: O espírito burguês e a perversão sexual no curso gratuito Não nos percamos, disponível em https://cursos.estudostomistas.org/curso/nao-nos-percamos/).

[13] Por que insistir em que não haja mais conspirações da Maçonaria? É porque hoje muitos perderam a sensatez embriagados pelo vinho do conspiracionismo. Contra quem conspiraria a Maçonaria? As conspirações, por definição, são sempre ocultas, sigilosas. Ora, não nos parece, por exemplo, que a defesa do aborto se dê de maneira sigilosa; ao contrário, a coisa acontece abertamente. Não se abram os olhos para isso, e o liberal-conservadorismo com seu irracionalismo gnóstico enganará, como de fato tem enganado, a muitos, mediante bobagens sobre “Ocidente cristão”, sobre “ditadura sanitária”, etc.

[14] Conceda-se que a resistência católica contra a ideologia liberal dos maçons era, em certo sentido, um dique fendido. De maneira simplificada: de um lado tem-se abundante número de intelectuais católicos, como Mons. Delassus (1836-1921) et alii, adeptos das doutrinas políticas tradicionalistas de um De Maistre (1753-1821), por exemplo, ou de um Cortés (1809-1853); e do outro lado têm-se os intelectuais católicos, como Jacques Maritain (1882-1973), que deturpavam a doutrina política de Santo Tomás. Nos dois casos, grave desserviço à defesa da verdadeira doutrina da realeza social de Cristo, única doutrina capaz de fazer perfeita resistência a todas as ideologias.

[15] Observe-se que é absolutamente impossível saber quando virá o Anticristo, e a Igreja proibiu expressamente fixar datas quanto a isso.

[16] Trata-se de um erro devido ao fato de que o homem só tem liberdade para fazer o bem, e nunca para fazer o mal. A liberdade não é senão um meio para que se alcance um fim, quer dizer, o fim. Sobre o liberalismo, cf. Daniel C. Scherer, A raiz antitomista da modernidade filosófica, Formosa, Edições Santo Tomás, 2018, pp. 243-297. Acrescentem-se ainda a notável encíclica Libertas praestantissimum, de Leão XIII, e todos os outros documentos da Igreja que tratam do assunto.

[17] Cf. Orlando Fedeli, Reforma agrária, fruto da revolução francesa, disponível em https://www.montfort.org.br/bra/cartas/politica/20040729143206/, 2004. É comum pensar que na Inglaterra tudo isso ocorreu de maneira pacífica; mas é um equívoco. É que os ingleses, ao contrário dos franceses, têm esta tão peculiar “qualidade”, esta espécie de hipocrisia, que os faz parecer moderados quando em verdade estão fazendo o mesmo, ou pior, em relação aos próprios franceses. Reflexo dessa sorte de hipocrisia inglesa são os liberal-conservadores atuais, que consideram os fundamentos especificamente religiosos da civilização cristã sem valor objetivo para os dias de hoje, “mas que gostariam de conservar o brilho exterior dela para manter de pé uma ordem cívica que não poderia passar sem tal” (Pio XII, Discurso à União Internacional das Ligas Femininas Católicas, disponível em https://www.vatican.va/content/pius-xii/fr/speeches/1947/documents/hf_p-xii_spe_19470912_leghe-femm-cattoliche.html, 1947).

[18] Daniel C. Scherer, A raiz antitomista da modernidade filosófica, Formosa, Edições Santo Tomás, 2018, pp. 285-286. Há que notar que a ação revolucionária é uma nota essencial das ideologias; mas cada uma a concebe a seu modo.

[19] Idem, Ibidem, p. 286.

[20] Raymond T. Feely S.J., Just what is communism?, New York, The Paulist Press, 1935, p. 5. Para o tratamento do marxismo e do comunismo, valer-me-ei grandemente deste panfleto do Pe. Feely, de quem, no entanto, discrepo em alguns pontos.

[21] Lúcio Flávio de Vasconcello Naves, Raízes históricas e filosóficas do ateísmo contemporâneo, 2ª edição, Lorena, Cléofas, 2016, p. 145. Note-se que este livro tem o defeito de pôr-se contra a doutrina da subordinação essencial do poder temporal ao poder espiritual.

[22] Carlos Nougué, O que é a ideologia em Estudos tomistas – Opúsculos II, Formosa, Edições Santo Tomás, 2020, p. 277.

[23] Cf. Ronaldo Mota, O ateísmo religioso de Karl Marx, disponível em https://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/ateismo_religioso_km/, s/d.

[24] Termo interessante que, se realmente corresponde à realidade — e, por certo ângulo, parece que corresponde, apesar de não me parecer adequado usar “marxismo” —, muito oportuno, porque faz perceber um aspecto destas doutrinas para os quais não se dá muita atenção: são doutrinas ocidentais (que a quase totalidade do mundo ocidental adotou). Constatação quiçá um pouco desanimadora para a nova direita, que tende a dividir gnosticamente o mundo em “Ocidente” e “Oriente”, e defender o “Ocidente cristão”. Ora, a parte ocidental do planeta definitivamente não é de nações cristãs — chamo-a assim porque, como disse Corção, “ocidente” e “oriente” não são senão entidades cosmográficas que me deixam indiferente (cf. Gustavo Corção, O século do nada, Campinas, Vide Editorial, 2020, p. 353).

[25] Não é um nome muito preciso, porque a teoria crítica não encerra somente a escola de Frankfurt. Foucault (1926-1984), por exemplo, é tido como um teórico crítico por grande parte dos intérpretes, e, no entanto, não foi da escola de Frankfurt. Os intelectuais marcusianos adotam acertadamente esta distinção entre “teoria crítica” e “escola de Frankurt”, mas parece-me que existe algo de pueril nesse procedimento, que talvez não decorra tanto da necessidade da distinção, mas do desejo de diferenciar-se da direita, que normalmente emprega tão só “escola de Frankfurt”.

[26] Aqui, valer-me-ei do (insuspeito) artigo de Joel Birman, Mal-estar e a negatividade: Uma introdução ao pensamento de Marcuse em Physis 8, 1998, pp. 7-14.

[27] Sobre o assunto, cf. Carlos Nougué, Diferenças entre a revolução marxista e a revolução marcusiana em Estudos tomistas – Opúsculos II, Formosa, Edições Santo Tomás, 2020, pp. 289-294; Carlos Nougué, Lições da vitória de Biden, disponível em https://www.estudostomistas.com.br/2020/11/licoes-da-vitoria-de-biden.html, 2020; e Daniel C. Scherer, A raiz antitomista da modernidade filosófica, Formosa, Edições Santo Tomás, 2018, pp. 287-297.

[28] Em verdade, o escrevinhar marcusiano parece calculadamente obscuro, assim como parece acontecer em Hegel: “Raras vezes fácil de entender, a prosa de Marcuse, quando inteligível, tem a graça de um hipopótamo grávido tentando dançar a Dança dos cisnes” (Eliseo Vivas, Marcuse em julgamento, Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1971, p. 221).

[29] Alguém poderia apontar esta nota globalista ou mundialista do marcusianismo como sendo a hipertrofia do terceiro membro daquela tríade maçônica, ou seja, como sendo a hipertrofia da fraternidade; mas seria talvez ceder a um esquematismo fácil. É provável que a coisa seja mais profunda.

[30] Não se está, aqui, a caminhar pelo chão escorregadio do conspiracionismo; dão-se tão somente os fatos. Gates, um dos homens mais ricos do mundo, tem doado desde sempre quantias descomunais de dinheiro a instituições humanitárias (para confirmá-lo, basta uma rápida pesquisa na internet). Mais: Gates e sua esposa Melinda, juntamente com o investidor bilionário Warren Buffett, fundaram em 2010 um movimento chamado “The Giving Pledge” (cf. https://givingpledge.org/), que encoraja outros bilionários a fazer doações filantrópicas. Naturalmente, não é preciso ir além para saber em que consiste tal filantropia. O movimento conquistou muitíssimos nomes (cf. https://givingpledge.org/pledgerlist).

É provável também que a maioria das lojas maçônicas seja hoje adepta do marcusianismo; mas não é novidade que a Maçonaria troque de ideologia. No começo do século XX, por exemplo, muitas lojas brasileiras se tornaram socialistas. Não é impossível, todavia, que algumas lojas tendam ao liberal-conservadorismo, hoje muito ligado, de um lado, ao gnosticismo perenialista ocidentalizante de um Steve Bannon ou de um Olavo de Carvalho, e, do outro, ao gnosticismo perenialista pan-eslavista de Alexandr Dúgin.

[31] Daniel C. Scherer, A raiz antitomista da modernidade filosófica, Formosa, Edições Santo Tomás, 2018, p. 289. Sobre essa relação paroxística entre o marcusianismo e o liberalismo, ver também Carlos Nougué, A infernal gangorra esquerda/direita, disponível em https://www.estudostomistas.com.br/2021/08/a-infernal-gangorra-direitaesquerda.html, 2021.

[32] B. Bykhovskii, Marcusism against marxism: A critique of uncritical criticism em Philosophy and phenomenological research 30, 1969, p. 217.