sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Perfeito e atualíssimo: o liberalismo dos negadores de pandemias

Em seu sempre indispensável O Liberalismo é Pecado (de 1884), o Pe. Félix Sardà y Salvani traça um retrato admirável da negação liberal das pandemias. Parece tê-lo escrito para os dias atuais. Leiamo-lo todos, se queremos curar-nos da infecção do liberalismo também nisto. 

«Os nossos leitores, sem dúvida, terão observado que a primeira preocupação que se nota nos tempos de epidemia é sempre a de pretender que não existe tal epidemia. Não há memória, nas diferentes [pandemias] que nos afligiram no século atual, ou nos séculos passados, de que nem uma só vez tenha deixado de apresentar-se este fenômeno. A enfermidade já devorou no silêncio grande número de vítimas quando se começa a reconhecer que existe, dizimando a população. As participações oficiais são, algumas vezes, as mais entusiastas propaladoras da mentira; e deram-se casos em que por parte da autoridade se chegou a impor penas aos que afirmassem que o contágio era verdade. Análogo é o que acontece na ordem moral de que estamos tratando. Depois de cinquenta anos, ou mais, de viver em pleno Liberalismo, ouvimos pessoas respeitabilíssimas perguntar com assombro e candidez: “Quê! Tomais a sério isto de Liberalismo? Não serão, porventura, exagerações apenas do rancor político? Não seria melhor omitir esta palavra que nos divide e irrita?” Tristíssimo sinal quando a infecção está de tal sorte na atmosfera que, pelo hábito, já não a sente a maior parte dos que a respiram!

Há, pois, Liberalismo, caro leitor; e disto não duvides nunca.»

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Nelson Rodrigues católico tradicionalista?

                                                                                                                     Carlos Nougué 

É o que se lê e ouve por aí.  E, com efeito, Nelson Rodrigues chegou a elogiar Dom Lefebvre. Mas em verdade não o fez senão para contrapô-lo a Dom Helder Câmara e todo o “catolicismo marxista”, porque anticomunista de fato Nelson Rodrigues foi. Como todavia chamar, já nem se diga católico tradicionalista, mas católico pura e simplesmente a quem disse coisas como a que se lê na imagem abaixo ou como esta: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)”? Ou a quem teve numerosos romances e peças teatrais interditados pela censura, o mais das vezes a pedido da Igreja, por atentado à moral?

Veja-se uma relação parcial dessas obras censuradas e muitos de seus “edificantes” títulos, tão “edificantes” como seu conteúdo: A mulher sem pecado, Álbum de família, Bonitinha mas ordinária, Vestido de noiva, Anjo negro, Senhora dos Afogados, Vinde ensaboar vossos pecados, Valsa nº 6, A falecida, Perdoa-me por me traíres, Viúva, porém honesta, Boca de Ouro, Toda nudez será castigada.

Mais: foram suas peças uma das principais molas e inspirações da maré montante da pornografia no cinema brasileiro a partir do próprio regime militar. Ademais, mesmo depois de sua “conversão” ao tradicionalismo católico, jamais Nelson Rodrigues foi capaz de fazer a mínima autocrítica com respeito a estas obras suas.

Mas dirão seus defensores... católicos: Em suas peças Nelson Rodrigues apenas espelha com realismo a realidade do pecado, “a vida como ela é”. Já lhes respondeu porém Pio XII, falando do cinema: “Uma coisa é conhecer os males, procurando dar-lhes explicação na filosofia e na Religião; outra é fazer deles objeto de espetáculo e diversão. Ora, acontece que dar forma artística ao mal, descrever-lhe a eficácia e o desenvolvimento, os caminhos claros ou tortuosos com os conflitos que gera ou através dos quais caminha, tem para muitos uma atração quase irresistível” (“Alocução de 28 de outubro de 1955 aos representantes do mundo cinematográfico”).

Você, católico que quer contribuir para a salvação de seus filhos, teria ânimo para dar-lhes a ler tais obras de Nelson Rodrigues? ou ao menos temeria o julgamento de Deus por isto? ou ainda se poria a si mesmo em ocasião de pecado lendo ou vendo tais peças?




quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Novo curso gratuito de Carlos Nougué (irá ao ar dentro de cerca de dois meses)

HUGO DE SÃO VÍTOR E SUA DOUTRINA

Ementa:

1) Vida e obra, e seu lugar na escolástica

2) Se é verdade que Santo Tomás o tinha por mestre

3) Seu método educativo

4) Sua divisão e ordem das disciplinas (ainda caudatária do estoicismo)

5) Sua doutrina dos sacramentos (refutada por Santo Tomás)

6) Sua doutrina da beatitude (dita por Santo Tomás ou herética [de um ângulo] ou ao menos temerária [de outro], e dita estranha por São Boaventura)

7) Por que Hugo de São Vítor é tão louvado hoje em dia por certos pensadores católicos

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Há tempo de calar e tempo de falar

Santo Ambrósio e São Jerônimo, ao comentarem o versículo do Eclesiastes em que se diz: “Há tempo de calar e tempo de falar”, confirmam-no, e dizem que esta é a causa por que o primeiro mandamento de Pitágoras a seus discípulos era o de não falar durante cinco anos, para que com o longo silêncio se esquecessem do mal que sabiam, e ouvindo-o a ele aprendessem o que depois haviam de falar – e desse modo saíssem mestres. E conclui São Jerônimo: “Aprendamos também nós primeiro a calar para que depois saibamos falar; guardemos silêncio por algum tempo; andemos com os olhos nos que se assinalam nesta ciência para imitá-los; façamo-nos primeiro discípulos, para que depois de muito silêncio possamos ser mestres”.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Que Hugo de São Vítor tenha sido mestre de Santo Tomás é um blefe

                                                                                                                     Carlos Nougué

 Por razões que não consigo alcançar, Antonio Donato faz crer a muitos que Hugo de São Vítor foi mestre de Santo Tomás. Mas isto é um blefe, e custa-me crer que um homem ilustrado como Donato não o saiba. Mestre físico de Tomás foi Santo Alberto Magno. Doutrinalmente falando, seus mestres efetivos foram: em sua fase júnior, Aristóteles, Santo Agostinho, Boécio e Avicena; e, em sua fase sênior, Aristóteles, Santo Agostinho, Platão (ou antes o neoplatonismo) e São João Damasceno. Falando propriamente, todavia, antes que mestres seus, todos esses gigantes foram elementos de sua síntese incalculavelmente superior a todos eles juntos. Era tal sua superioridade, que ainda na Suma Teológica Tomás teve de usar linguagem não tomista para expressar a absoluta novidade de sua doutrina, sem o que não teria encontrado audiência e talvez nem sequer tivesse podido ensinar nas faculdades de Teologia. – Voltando porém a Hugo de São Vítor, para comprovar o que digo, basta ver o minguado número de vezes que Santo Tomás o cita na Suma Teológica (contra o grandíssimo número de vezes que cita Santo Agostinho, Aristóteles, Platão, São João Damasceno), e ainda assim, em parte desse minguado número de vezes, só o cita (explícita ou implicitamente) para refutar sua doutrina sobre os sacramentos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A interpretação de Romanos 11, 11-12 que tenho como a mais provável

                                                                                                                             Carlos Nougué

 Lemos em Romanos 11, 11-12: “Digo, pois: porventura tropeçaram eles [os judeus] de modo que caíssem [para sempre]? Não, certamente. Mas por seu delito veio a salvação para os gentios, para incitá-los à emulação. Ora, se seu delito foi a riqueza do mundo, e sua redução a riqueza dos gentios, quanto mais [não o será] sua plenitude?” E S. Tomás, entre as interpretações destas palavras de S. Paulo que ele considera admissíveis, põe a seguinte, que tenho como a mais provável: [...] os que enganados pelo Anticristo tiverem caído totalmente serão, após a conversão dos judeus, restituídos em seu primeiro fervor. E ainda, assim como, após a queda dos judeus, os gentios se reconciliariam com suas antigas inimizades, assim também, após a conversão dos judeus, sendo então iminente o fim do mundo, se dará a ressurreição geral, e por ela os homens, de mortos que estavam, voltarão à vida imortal” [destaque meu] (Super Epistolam B. Pauli ad Romanos lectura, caput 11, lectio 2). Para as razões por que a considero a mais provável, vide Se se deve rezar pela salvação do mundo, artigo 3, in Do Papa Herético e outros opúsculos, p. 360-367.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

COM A VARIANTE ÔMICRON, PROSSEGUE O CASTIGO DIVINO

                                                                                                                     Carlos Nougué

Sempre a Igreja, seus santos e seus doutores disseram que as pestes e as catástrofes naturais são castigos de Deus pelos pecados dos homens. E a pandemia de covid-19, obviamente, também o é; apesar de não poucos católicos – e alguns do melhores – preferirem brincar de Sherlock Holmes para descobrir conspirações dos globalistas (como se precisasse de conspirações uma revolução já tão vitoriosa). Não querem ou não conseguem ver que os revolucionários hegemônicos dos dias de hoje – os marcusiano-globalistas, ou sadolibertinos – estão tontos diante da pandemia, que afeta gravemente seus interesses: crise econômica global com inflação galopante no campo da alimentação e no da energia, tambores de guerra mundial, protecionismo crescente, lockdowns que obrigam os cidadãos a encerrar-se em seus territórios nacionais e as famílias em seus lares (que coisa mais antiglobalista pode haver que isso!?), etc. Naturalmente, as grandes farmacêuticas lucram com a venda de bilhões de doses de vacinas; mas isso é assim mesmo no capitalismo, haja vista quanto lucraram a indústria siderúrgica e a bélica nas duas guerras mundiais (e pode haver algo mais antiglobalista que guerras globais?!).

Pois bem, como dito, prossegue o castigo divino que é a atual pandemia, e é castigo longo e lento: a gripe espanhola era mais letal que a covid-19 mas seu vírus era menos mutante que o desta (só no Brasil já há cerca de 40 variantes), razão por que a devastação causada por ela foi relativamente mais breve que a da pandemia de covid-19. Além disso, como todos os castigos divinos, a atual pandemia traz imensos bens. Por exemplo: ao que parece, não vai haver carnaval de rua este ano ao menos em algumas das grandes cidades. O demônio deve de estar contorcendo-se de ódio impotente.