quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A MARAVILHOSA DEMONSTRAÇÃO TOMISTA DA IMORTALIDADE DA ALMA HUMANA


Na Suma contra os Gentios, S. Tomás, argumentando contra os filósofos (Alexandre de Afrodísias, Avicena, Averróis...) que da necessidade das verdades eternas chegavam a uma suposta eternidade (e unicidade) do próprio intelecto humano, escreve: “Por isso não se pode concluir que a alma seja eterna, mas tão somente que as verdades que o intelecto conhece se fundam em algo eterno. Fundam-se, com efeito, na mesma verdade primeira como causa universal que contém toda a verdade”. Mas daí mesmo decorre o argumento metafísico para a imortalidade da alma humana, que tende para Deus, a primeira verdade, como para seu fim último: “Com respeito a este eterno, a alma humana não está como substância para a forma, mas como coisa para o próprio fim: a verdade é efetivamente o bem e o fim do intelecto. Mas do fim podemos arguir a duração da coisa, assim como de seu início podemos arguir a causa agente: com efeito, o que está ordenado a um fim eterno há de ser capaz de duração perpétua. Por isso, da eternidade das verdades inteligíveis pode provar-se a imortalidade da alma, ainda que não sua eternidade” (II, 84 praeterea).

Esta é só mais uma mostra da superioridade do tomismo sobre todas as demais doutrinas. Todas, diante dele, se mostram minúsculas, enquanto todos os que se negam a aceitá-lo se mostram ou soberbos ou dotados de poucas luzes. Não por nada, portanto, o magistério da Igreja fez sua também a metafísica tomista (especialmente mediante as 24 Teses): inspirou-o também nisto o próprio Espírito Santo.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

AINDA SOBRE A EXPRESSÃO “FILOSOFIA PERENE” E O ESPÍRITO DE SEITA


Carlos Nougué

Não me deixa de impressionar o radical espírito de seita que passou a imperar entre os católicos sobretudo a partir da segunda metade do século XX. Naturalmente, filhos do pecado que somos desde Adão, tal espírito sempre houve. Exemplos não faltam: o dos seculares contra os mendicantes na querela das universidades no século XIII; o que se deu a partir do século XVI entre os dominicanos e os jesuítas, os quais, sob pretexto da disputa sobre a predestinação, passaram a repugnar-se mutuamente enquanto ordens; etc. Mas o que caracteriza o sectarismo moderno entre os católicos é que já não se dá em torno de interesses, digamos, “gremiais”; mas em torno de líderes, de “gurus” – e agora praticamente sem pretextos doutrinais (que, apesar de tudo, nunca haviam deixado de motivar de algum modo). É o que constato uma vez mais, e uma vez mais impressionado, em torno agora da expressão “filosofia perene”. Dou os dados da querela.
Alguns tenazes combatentes da heresia gnóstica andaram exagerando, e filiaram um professor que usa a expressão “filosofia perene”, quase por esse só fato, à variante gnóstica do perenialismo. Tentei mostrar que tal filiação é injustificada se nos atemos a essa só expressão. É que com efeito, antes talvez de seu uso pelos perenialistas, já os neotomistas a usavam, em especial no tempo que mediou entre Leão XIII e Pio XII – e em alguns casos com o beneplácito e o eco dos próprios papas. É o caso do grande tomista francês Édouard Hugon, o autorizado comentador das 24 Teses Tomistas encomendadas por S. Pio X e aprovadas e publicadas por Bento XV. – Até aí, aplausos para mim... Bastou-me todavia dizer que a expressão “filosofia perene” é imprecisa para merecer já não aplausos, mas indignadas exclamações: “O professor que a usa tem vasta obra e é homem de grande santidade!!”... É o argumento sectário em torno de um líder. Está-se longe de discutir o mérito doutrinal da questão. Eu poderia responder em primeiro lugar que, se cada um escolhe o santo que mais lhe apraz, a santidade não há de ser privilégio de um, nem funda inerrância doutrinal (conquanto não haja santidade se se incorre em qualquer heresia, por pequena que seja). Poderia responder em segundo lugar que minha obra já é mais vasta que a do referido professor – mas quem disse que vastidão é sinônimo de qualidade? E poderia responder em terceiro lugar como o farei agora, ou seja, entrando (ainda que algo sumariamente) no mérito doutrinal da questão, o único que em verdade deveria interessar em casos como este.

Praticamente desde a morte de Santo Tomás o tomismo veio sofrendo, para usar uma expressão do Pe. Cornelio Fabro, uma sequência cada vez mais grave de inflexões (ou desvios). A perda da distinção, fundamental, entre “ser” e “existência”; a entronização pelo Cardeal Caetano da analogia de proporcionalidade em lugar da analogia de atribuição; o entendimento literal e equivocado de João de Santo Tomás das expressões aristotélico-tomistas “lógica formal” e “lógica material” (como explico detidamente na Escola Tomista); a negação a partir de Vitória da ordenação essencial do poder temporal ao poder espiritual (a qual viria dar no “humanismo integral” de Maritain); etc. Mas o tomismo terminou de ser marginalizado após a revolução francesa, e foi preciso esperar Leão XIII e sua encíclica Aeterni Patris para que renascesse – sob o nome genérico de “neotomismo”. Os papas seguintes, até Pio XII, não fizeram senão reafirmar que o tomismo é a única doutrina que a Igreja fez sua, o que possibilitou o surgimento de uma impressionante plêiade de novos tomistas a tratar problemas novos e a tentar resgatar o espírito original da obra do mestre. Mas, como deveria ser óbvio, depois de tantos séculos de inflexões e de marginalização, não era possível que o tomismo renascesse imaculado. Para um quadro da questão, vejam-se dois artigos meus: “Ainda os descaminhos filosóficos do neotomismo: os primeiros princípios e a teodiceia” (https://www.estudostomistas.com.br/2017/01/ainda-os-descaminhos-filosoficos-do.html) e “Quem é o maior tomista do século XX-XXI” (https://www.estudostomistas.com.br/2019/12/quem-e-o-maior-tomista-do-seculo-xx-xxi.html). Sucede todavia que a expressão “filosofia perene” é parte deste problema.

Entre suas dificuldades, com efeito, está o confundir a filosofia e a teologia sagrada. Em sentido estrito, a filosofia perene seria a aristotélica, com contributos platônicos e neoplatônicos. Mas não seria a tomista? É que Santo Tomás deixou uma teologia sagrada perfeitamente sistematizada; ao passo que sua filosofia ele nunca a sistematizou. Deixou a tarefa para seus discípulos. Mas a infiltração indevida entre uma e outra disciplina gerou alguns dos mais graves erros entre o neotomismo (como mostro nos dois artigos acima referidos). Para superá-lo, seria então preciso falar de uma filosofia perene (a aristotélica), que porém nunca saiu da infância quanto à metafísica, e de uma teologia sagrada perene, que alcançou a plena maturidade com Tomás de Aquino; para que a filosofia perene atinja também sua maturidade, é necessário terminar o trabalho de sistematização da filosofia tomista iniciado pelo Pe. Calderón (trabalho de que, em minha escala, me julgo partícipe).

Ou seja, o melhor é não usar a expressão, até para distinguir-se mais cabalmente do perenialismo. Ademais, eu finalmente terminei de ler a obra do referido professor em que ele usa a expressão “filosofia perene”; e, conquanto siga afirmando que ela não tem traços de perenialismo, não são pequenas algumas de minhas divergências com ela (em especial no campo da política, mas também quanto a Hugo de São Vítor, cujos méritos e insuficiências metodológicos trato com certo detalhe no livro Da Arte do Belo). Mas deixo este assunto para outro escrito e termino este escrito, não sem antes conclamar a todos a que deixem de lado o espírito sectário e sua necessidade de “gurus”. A obra teorética dos homens vale o que vale doutrinalmente. E estou tão convicto disso, que digo: meus livros e cursos, mais que falarem por mim, sou eu.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O PERENIALISMO E A EXISTÊNCIA DE DEUS


Carlos Nougué

1) Diga-se antes de tudo que para o perenialismo, como para ao menos boa parte das seitas gnósticas, o Deus criador (ou, segundo sua terminologia, o Demiurgo) não é a divindade máxima; é-o o Não Manifestado (cf. Frithjof Schuon, “A Unidade Transcendente das Religiões”).
2) Naturalmente, não se espere coerência lógica de tão perversa doutrina. E, com efeito, dizem os perenialistas que não há prova racional da existência de Deus, e que não o conhecemos (ou seja, os iluminados gnósticos) senão por experiência direta. Então não raro não deixam claro se estão falando do Demiurgo ou do Não Manifestado. Como quer que seja, porém, cometem com tal “experiência direta” uma heresia condenada várias vezes pelo magistério da Igreja (Vaticano I, 24 Teses Tomistas, etc.).
3) Como todavia querem passar-se por católicos, diante das definições do magistério da Igreja segundo as quais pode demonstrar-se a existência de Deus os perenialistas recorrem às suas "refinadas" artes de berliques e berloques: afirmam que o magistério só disse que se pode demonstrar a existência de Deus, não que já foi demonstrada. É de indignar a desfaçatez. Não só o Vaticano I se funda, em sua definição, em palavras de São Paulo que são como uma prova da existência de Deus ainda que não em forma de silogismo (cf. Carlos Nougué, “Defesa da Terceira Via de Santo Tomás”: https://www.estudostomistas.com.br/…/defesa-da-terceira-via…), como Bento XV aprovou entre as 24 Teses Tomistas justamente as vias de S. Tomás para demonstrar a existência de Deus.
4) Por fim, titânicos e prometeicos como são, os perenialistas recorrem a uma sorte de kantismo para negar as demonstrações da existência de Deus. Mas já refutei cabalmente a crítica kantiana destas demonstrações (cf. “Crítica da crítica kantiana das provas da existência de Deus”: https://www.estudostomistas.com.br/search?q=kantiana).
Observação: para quem queira conhecer a posição estritamente tomista sobre a existência de Deus e a criação do mundo, posição sobre a qual se funda o magistério da Igreja, indico aqui esta palestra minha: https://youtu.be/2FdmSU-qcXw.


Defesa da terceira via de Santo Tomás


Carlos Nougué

I. Apresentaram-se-nos as seguintes objeções à terceira das cinco vias com que Tomás de Aquino demonstra que Deus é.
O “argumento da contingência” ou “argumento cosmológico” (segundo a terminologia kantiana), ou seja, a terceira via de Santo Tomás, tem valor meramente provável. Até porque o definido pelo Concílio Vaticano I[1] – “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas; porque ‘o invisível dele, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornou-se visível’ (Rom. 1, 20)” – afirma meramente que a prova da “existência” de Deus pode ser dada, não que já o foi.
• Ora, o “argumento da contingência” é uma prova apenas do ponto de vista estritamente lógico ou lógico-formal, mas não do ponto de vista real ou material-substantivo, porque parte do mero conceito de contingência e não das coisas efetivamente criadas, como pede o definido pelo Vaticano I.
• Ademais, não se tem nenhuma garantia de que o ente necessário que a prova descobre seja Deus, e não outra coisa.

1. É a seguinte a resposta à primeira objeção.
a) As cinco vias de Santo Tomás são demonstrativas, não prováveis. Para entendê-lo, deve começar-se por mostrar a diferença entre silogismo demonstrativo e silogismo provável. Com efeito, o silogismo demonstrativo (estudado por Aristóteles nos Analíticos Posteriores) e o silogismo dialético ou provável (estudado por Aristóteles nos Tópicos) também diferem em que o primeiro não pode ser circular, enquanto o segundo pode sê-lo. É que o silogismo dialético procede precisamente ex probabilibus (de prováveis, de proposições prováveis), ou seja, do que é mais manifesto ou para os sábios ou para muitos. Sucede, no entanto, que uma mesma coisa pode ser mais ou menos manifesta quanto a diversas razões e quanto a diversos homens, razão por que nada proíbe, repita-se, que o silogismo dialético se faça circularmente. O silogismo demonstrativo, porém, faz-se ex notioribus simpliciter (de absolutamente notórios, de proposições absolutamente notórias), razão por que não pode haver demonstração circular.
Dubium. As causas são mais notórias ou manifestas que seus efeitos. Como dito, porém, as cinco vias de Santo Tomás são demonstrações quia, isto é, do efeito que é a criação (manifesto quod nos) para a causa que é Deus, que de si é notória simpliciter. Parece, assim, que ou a argumentação quia – e pois as cinco vias tomistas – não é demonstrativa, mas provável; ou pode haver demonstração circular.
Solutio. Quanto a que não possa haver demonstração circular, baste o dito. Quanto porém a que a argumentação quia seja de fato demonstrativa e não provável, diga-se o seguinte. Em primeiro lugar, na demonstração quia se parte do manifesto não segundo mais e menos quanto a diversas razões e quanto a diversos homens, mas do manifesto quanto a uma mesma razão e quanto a todos os homens. Assim nas cinco vias de Santo Tomás: é notório quanto a todos que algumas coisas se movem e que são movidas por outras; que as coisas se fazem ou se geram e que são feitas ou geradas por outras; que nas coisas algumas são somente possíveis; que as coisas têm qualidades segundo mais e menos; que, enfim, coisas não inteligentes se ordenam a um fim. Mas o silogismo provável pode partir de coisas mais ou menos manifestas quanto a diversas razões e quanto a diversos homens (enquanto, como se acaba de ver, as coisas de que partem as demonstrações quia, como as cinco vias tomistas, são manifestas quanto ao mesmo e quanto a todos). Logo, a argumentação quia não se identifica com o silogismo provável ou dialético, e a demonstração quia é, com o perdão da redundância, demonstrativa. – Mas, em segundo lugar, o que se demonstra é duplo. 1) Antes de tudo, com efeito, a ciência é um saber, ou seja, um conhecimento do necessário por suas causas, e alcança-se a ciência justamente pela demonstração. Mas da demonstração pela causa – ou seja, a demonstração propter quid, a que vai, insista-se, da causa para o efeito, e que é a propriamente científica – diz-se por isso mesmo não só que parte do necessário, mas que é do necessário. Em outras palavras, a demonstração propter quid parte de princípios necessários para alcançar uma conclusão necessária, ou seja, o demonstrado simpliciter, porque, com efeito, como os princípios são a causa da conclusão, e hão de ser evidentes e necessários por si,[2] então por eles a conclusão também será necessária.[3] 2) Depois, no entanto, se a demonstração quia não é a propriamente científica, como o é a demonstração propter quid, a argumentação quia não se identifica, porém, como dito, com o silogismo provável ou dialético e é verdadeira demonstração, enquanto conclui na existência da causa a partir do efeito (causa que pode ser eficiente ou final, material ou formal). – Quanto ainda, todavia, à diferença entre a demonstração quia e a demonstração propter quid, reside ademais em que, ao contrário do que se dá nesta, naquela a necessidade se diz tão somente quanto a que a causa existe ou é, mas não quanto a quod quid est (ou seja, à quididade).[4]
b) Sem dúvida, o definido pelo Vaticano I não diz expressamente que já se provou que Deus é. Mas definiu-o fundado explicitamente nas palavras de São Paulo “o invisível dele [de Deus], depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornou-se visível”; e tais palavras são justamente uma como argumentação quia, ou seja, não por modo de silogismo. Ademais, é justamente nelas que se pode encontrar a fonte primeira das cinco vias de Santo Tomás de Aquino.
2. É a seguinte, ademais, a resposta à segunda.
a) Antes de tudo, não se vê por onde se diz que a terceira via “parte do mero conceito de contingência e não das coisas efetivamente criadas”. Com efeito, parte não do “conceito de contingência”, mas de que nas coisas que vemos (e que são criadas) algumas são meramente possíveis, ou seja, um dia deixarão de ser. E isto é evidentíssimo, e não se nos peça que provemos o evidente: é evidente que é evidente. Somente as doutrinas “filosóficas” mais estultas, como o subjetivismo ou o idealismo mais radicais, o poderiam negar.
b) Depois, não há prova estritamente lógica ou “lógico-formal” no sentido tomado pela objeção. Naturalmente, como se vê pelo tratado dos predicáveis,[5] podem fazer-se demonstrações no âmbito dos entes lógicos de razão ou universais de segunda intenção (gênero, espécie, diferença, próprio, acidente – enquanto tais). Mas os universais de segunda intenção têm fundamento in re, ainda que remoto (enquanto os de primeira intenção o têm próximo). Ademais, como diz o Padre Calderón em Tratado de la demostración – Lógica de la terceira operación del intelecto (não publicado), “toda consequência lógica se funda em alguma causalidade real; porque, para que um silogismo seja válido, alguma das premissas deve ser universal (de dois particulares nada se segue), quer dizer, necessária, e não pode dar-se nada necessário que não tenha um fundamento real. Os silogismos são científicos ou são aplicação da ciência ao particular: não há possibilidade de discurso silogístico sem referência à ciência, isto é, ao universal. Que sentido pode ter uma lógica ‘formal’ esquecida das essências?” – Por fim, “contingência” não é universal de segunda intenção, mas conceito de acidente na categoria qualidade.
2. E é a seguinte, por fim, a resposta à terceira.
Se não é Deus o ente de si e simpliciter necessário, não se pode saber o que o será. – Outra coisa – podemos dá-lo à objeção – é que por esta via, como pelas outras quatro, não se alcance como Deus é. Justamente, porém, as cinco vias não buscam alcançá-lo, mas antes que Deus é. Como Deus (não) é, Tomás de Aquino deixa-o para as questões restantes da parte I da Suma Teológica. É que o próprio do sábio é ordenar, e é da ordem das coisas que a questão an sit (se é) anteceda à questão quomodo sit (como é). Naturalmente, não se dá questão an sit se se trata de ente manifesto aos sentidos. Mas Deus não é manifesto aos sentidos (além de não poder ser conhecido por essência nesta vida). A conclusão impõe-se.[6]
Dubium. Se, todavia, como se mostrou, as objeções apresentadas não procedem, resta porém uma última dificuldade. Com efeito, a frase da terceira via “é preciso haver algo necessário nas coisas”, explica-a assim uma nota da tradução da Suma Teológica publicada pelas Edições Loyola:[7] “Nesta demonstração, que como as quatro outras é muito reduzida, Santo Tomás prefere passar dos seres corruptíveis, cuja contingência é manifesta, aos entes incorruptíveis – os puros espíritos, também os astros”. Mas não parece convir com as cinco vias, que partem, como dito, do sensível, o recurso a entes não sensíveis. Ademais, já se sabe desde Galileu que os astros não são incorruptíveis. Logo, parece inválida a terceira via tomista.
Solutio. Segundo o mesmo caráter de demonstração quia das cinco vias, nenhuma delas poderia partir de entes não sensíveis. Mas a terceira via parte de entes sensíveis, como as outras quatro; e em momento algum refere as substâncias separadas ou os corpos celestes.[8] Diz apenas, em sua concisão, “que é preciso que algo seja necessário nas coisas”. E, se parece supor aqui os corpos celestes, que segundo sua natureza incorruptível não poderiam deixar de ser e se contraporiam assim ao entes possíveis, que podem ser ou não ser,[9] a via porém não se vê invalidada pelo fato de ter caducado tal doutrina a respeito dos corpos celestes. Antes de tudo, porque as substâncias separadas são incorruptíveis segundo sua natureza e estão entre as coisas, entre as criaturas. Depois, no entanto, porque não é somente segundo uma natureza incorruptível que alguma coisa pode dizer-se necessária. Explique-se. De duas maneiras gerais se diz que algo é necessário: ou por si mesmo, ou por alguma causa.[10] Como porém necessário por si não pode ser senão Deus (ou algo divino), se nas coisas que vemos há algo necessário, não será senão por alguma causa. E, com efeito, como diz Santo Tomás, “causa é aquilo ao qual por necessidade se segue outro”.[11] Mas o necessário per causam pode sê-lo simpliciter ou secundum quid; e assim é necessário simpliciter aquilo cuja necessidade depende de uma causa anterior, enquanto é necessário secundum quid aquilo cuja necessidade depende do que é posterior no ser.[12] Pois bem, que haja tal necessário simpliciter ou absolute “se patenteia do necessário que depende da matéria. Que o animal, com efeito, seja corruptível é necessário absolutamente: segue-se, com efeito, de que o animal seja composto de contrários. Similarmente, também o que tem da causa formal [sua] necessidade é necessário absolutamente; assim como o homem ser racional, ou o triângulo ter três ângulos iguais a dois retos, o que se reduz à definição do triângulo. E, similarmente, o que tem da causa eficiente [sua] necessidade é necessário absolutamente; assim como é necessário haver alternância de noite e de dia pelo movimento do sol”.[13] Quanto ao necessário secundum quid ou ex suppositione, depende da causa final, que, se é posterior no ser, é porém anterior na intenção do agente. Sua necessidade, com efeito, provém do fim, e da forma enquanto é o fim da geração.[14] Aprofunda-o e ilustra-o o Padre Calderón:[15] “Nos entes naturais, tanto minerais como vegetais e animais, podemos às vezes descobrir que sua existência e natureza cumpre um serviço em ordem ao maior bem do mundo. Este serviço, difícil de determinar na maioria dos casos, se segue com necessidade absoluta da natureza da coisa. Podemos também descobrir que a natureza de cada coisa responde com necessidade absoluta à disposição de suas partes e ao processo de sua geração. Esta investigação e a comparação com os processos artificiais nos permitem descobrir a finalidade nos processos naturais, achando então a necessidade hipotética [ex suppositione] dos elementos materiais e dos processos de geração, que se ordenam à forma e natureza destas coisas como a seu fim. E, por sua vez, podemos, ao menos em alguns casos, demonstrar a necessidade hipotética da existência de entes de tal natureza em razão do serviço que prestam à ordem do mundo, que é sua finalidade última”. – Pois bem, é provável que Santo Tomás tenha intencionado exprimir com a referida frase ao menos também o que se acaba de dizer, o que se pode ver expondo a via da seguinte maneira: “A terceira via é tomada do possível e do necessário, e é a seguinte. Encontramos coisas que podem ser e não ser, pois, se as vemos gerar-se e corromper-se, é porque podem ser e não ser. Ora, é impossível que coisas que são assim sejam sempre, porque o que pode não ser não é em algum momento. Se, pois, todas as coisas podem não ser, houve um momento em que nada era. Ora, se isso fosse verdadeiro, nada seria agora, porque o que não é não começa a ser senão pelo que é; se, portanto, nenhum ente tivesse sido, teria sido impossível que algo começasse a ser, e por isso mesmo nada seria, o que patentemente é falso. Nos entes, portanto, há de haver algum ou algo de algum modo necessário; e diz-se necessário o que não pode ser de outra maneira. Ora, tudo o que é necessário ou tem a causa de sua necessidade em outro, ou não. Ademais, não é possível proceder ao infinito nas coisas necessárias que têm uma causa para sua necessidade, assim como tampouco nas causas eficientes, como se provou. Logo, é necessário admitir algo que seja necessário per se, que não encontre em outro a causa de sua necessidade, mas seja a causa da necessidade para os outros, e é a este algo que todos chamam Deus”.







[1] Constituição Dogmática sobre a Fé Católica, cap. 2 (“Da Revelação”); Denzinger, 1785.
[2] Cf. Tomás de Aquino, In V Metaph., lect. 6, n. 838-839.
[3] “Os princípios são necessários por si mesmos porque são algo de certo modo divino, pois se dão na mente à maneira de um reflexo especular da Verdade primeira, que é Deus (cf. Tomás de Aquino, Summa Theol. I, q. 16, a. 5, ad 1). Mas mostrar isto pertence à Metafísica, única ciência que reflete sobre seus próprios princípios. A necessidade, em contrapartida, da conclusão de uma demonstração per causam ou proter quid, única verdade propriamente científica, é uma necessidade com causa” (Padre Álvaro Calderón, La naturaleza y sus causas, t. I, Buenos Aires, Ediciones Corredentora, 2016, p. 152-153).
[4] Cf. Padre Álvaro Calderón, op. cit., p. 153.
[5] Cf. a Isagoge de Porfírio.
[6] Com efeito, diz Santo Tomás na Suma Teológica (parte I, proêmio da questão 2): “Circa essentiam vero divinam, primo considerandum est an Deus sit; secundo, quomodo sit, vel potius quomodo non sit; tertio considerandum erit de his quae ad operationem ipsius pertinent, scilicet de scientia et de voluntate et potentia”.
[7] 2.ª ed., São Paulo, 2003, p. 167-168.
[8] Obviamente, a doutrina cosmológica segundo a qual os corpos celestes são incorruptíveis e não têm potência senão para o lugar era falha (por falta do devido instrumental) e caducou; mas foi compartilhada universalmente até Galileu, que por sua vez cometeu equívocos tão graves como pôr o sol imóvel no centro do universo.
[9] Segundo porém o dito em seguida na mesma via, se os corpos celestes, por sua natureza incorruptível, seriam necessários, não teriam por si todavia tal necessidade, senão que a teriam causada por outro. Mas por isso mesmo também deveriam dizer-se possíveis ou contingentes. Com efeito, como põe o Padre Álvaro Calderón em La naturaleza y sus causas (t. II, op. cit., p. 90), “a Metafísica conclui que só Deus tem o ser por essência, e que tudo o mais depende d’Ele para existir, razão por que, embora algumas coisas pudessem ter um ser eterno, ingerável e incorruptível, podem todavia ser criadas ou aniquiladas, razão por que podem dizer-se ‘contingentes’ em sentido mais amplo [...]”. 
[10] “[...] aliqua sunt necessária dupliciter. Quaedam quidem quorum altera sit causa necessitatis; quaedam vero quorum nulla sit causa necessitatis; et talia sunt necessaria propter seipsa” (Tomás de Aquino, In V Metaph., lect. 6, n. 839).
[11] Tomás de Aquino, In V Metaph., lect. 6, n. 827.
[12] “Quaerit ergo primo utrum in rebus naturalibus sit necessarium simpliciter, idest absolute, aut necesario ex conditione, sive ex suppositione” (Tomás de Aquino, In II Physic, lec. 15, n. 270).
[13] Tomás de Aquino, In II Physic, lec. 15, n. 270 (“Quaerit ergo primo utrum in rebus naturalibus sit necessarium simpliciter, idest absolute, aut necessarium ex conditione, sive ex suppositione. Ad cuius evidentiam sciendum est, quod necessitas quae dependet ex causis prioribus, est necessitas absoluta, ut patet ex necessario quod dependet ex materia. Animal enim esse corruptibile, est necessarium absolute: consequitur enim ad hoc quod est animal, esse compositum ex contrariis. Similiter etiam quod habet necessitatem ex causa formali, est necessarium absolute; sicut hominem esse rationalem, aut triangulum habere tres angulos aequales duobus rectis, quod reducitur in definitionem trianguli. Et similiter quod habet necessitatem ex causa efficiente, est necessarium absolute; sicut necessarium est esse alternationem noctis et diei propter motum solis. Quod autem habet necessitatem ab eo quod est posterius in esse, est necessarium ex conditione, vel suppositione; ut puta si dicatur, necesse est hoc esse si hoc debeat fieri: et huiusmodi necessitas est ex fine, et ex forma inquantum est finis generationis. Quaerere igitur utrum in rebus naturalibus sit necessarium simpliciter aut ex suppositione, nihil aliud est quam quaerere utrum in rebus naturalibus necessitas inveniatur ex fine, aut ex matéria”).
[14] Cf. Tomás de Aquino, In Metaph., lect. 6, n. 827. – À objeção de que o modo de necessidade dito ex suppositione não é real, mas somente lógico, responde o Padre Calderón (La naturaleza y sus causas, t. I, op. cit., p. 152): “A necessidade hipotética [ex suppositione] tem certa realidade se B não se considera como efeito e consequência de A, mas como fim. Porque, conquanto o fim seja posterior no ser, é porém anterior na intenção, e, como tal, é verdadeira causa. Se na intenção do artífice está que a cadeira seja combustível, fazê-la de madeira então se faz realmente necessário, ainda que evidentemente se trate de um modo distinto de necessidade”.
[15] Ibidem, p. 154. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

UM JESUÍTA VESTIDO DE BRÂMANE – OU DE COMO TORNAR-SE UMA DEMOCRACIA-CRISTÃ


Carlos Nougué

Os modernistas são pescadores de “pérolas”: rebuscam na tradição da Igreja citações isoladas, e deslocam-nas de seu contexto, para justificar seus erros e heresias. É o caso, por exemplo, das nefandas “sementes do Verbo”: tais pescadores sacam algo dito imprecisamente por São Justino mas referente à filosofia grega e aplicam-no à sua heresia de que todas as religiões conduzem de algum modo a Cristo. E com isso enganam almas católicas cheias de boa vontade e boa-fé mas ainda despreparadas filosófica e teologicamente.
É o caso também do que infelizmente vejo hoje no âmbito da Liga Cristo Rei. Alguns de seus mais sinceros e combativos membros andam a repetir que devemos, com respeito à seita gnóstico-direitista atualmente tão poderosa no Brasil, fazer como aquele jesuíta que para converter os hindus se vestia de brâmane. Ou seja, deveríamos fingir que não nos opomos à nefasta doutrina da referida seita para crescer entre ela. É como se os primeiros cristãos, para converter os judeus, continuassem a seguir os ritos judaicos, como de fato alguns queriam (o que porém foi rechaçado então pelo Magistério da Igreja). Ou como se São Francisco, para converter o célebre sultão, participasse da peregrinação a Meca... Mas mostre-se que o caso do jesuíta vestido de brâmane foi isolado, e que certamente foi pescado como “pérola” por alguma mente modernista.
“No início do século XVII”, escreve Peter Burke (“Perdas e ganhos: exilados e expatriados na história do conhecimento na Europa e nas Américas, 1500-2000”, Editora Unesp, 2017, p. 109), “antes de Rogier e Baldaeus, cinco jesuítas atuantes na Índia já ofereciam descrições das ‘cerimônias dos brâmanes’; Giacome Fenicio, Antonio Rubino, Diego Gonçalves, Gonçalo Fernandes e Roberto de Nobili. Talvez se possa explicar seu notável conjunto de relatórios como uma resposta aos resultados decepcionantes da missão jesuítica. Fenicio, por exemplo, escreveu mas não publicou um tratado sobre o que ele chamou de ‘seita’ das Índias Orientais (‘Livro da seita dos índios orientais’). Em tratado publicado no ano de 1616, Gonçalo Fernandes ‘Trancoso’ se referiu à combinação de crenças e rituais como ‘esta máquina do bramanismo’, usando esse nome geral possivelmente pela primeira vez. Os jesuítas escreviam para refutar as doutrinas hindus, e Rubino chegou a qualificar os brâmanes de ‘ministros do diabo’. Por outro lado, o jesuíta italiano [e caso único] Roberto de Nobili os chamou de ‘homens sábios’ (sapientes) e expressou respeito por suas diferentes formas de conhecimento (scientiae), do mesmo modo como respeitava as ideias dos filósofos da Grécia antiga, com quem às vezes os comparava (comparações entre as doutrinas dos brâmanes com as de Pitágoras e seus seguidores foram comuns no século XVII [quando o tomismo estava grandemente marginalizado]).”
Por seu lado, escreveu Sebastião Gonçalves a “Primeira parte da historia dos religiosos da Companhia de Jesus e do que fizeram com a divina graça na conversão dos infieis a nossa sancta fee catholica nos reynos e provincias da India Oriental”, e ali tampouco há nenhum registro de outros jesuítas que se vestissem de brâmane. Ao contrário, Portugal capturou uma cidade, e os jesuítas foram convertendo os hindus.
Sim, meus queridos amigos da Liga, acautelem-se dos “pescadores de pérolas”, esses que tentam vender como prudência o que não passa de pusilanimidade com respeito à fé – e que, em verdade, não passa de certa “prudência da carne”. É a estratégia que levou à perdição os partidos da democracia cristã e as Ações Católicas: descaracterizando-se ou ocultando a radicalidade da fé, unir-se ao inimigo considerado menos mau para crescer em seu próprio meio. O resultado final disso só pode ser a transformação de entidades tão pujantes como a Liga Cristo Rei, cuja progressão foi tão promissora, em organismos burocráticos a contar a quantidade de aderentes não segundo uma conversão cabal, mas enquanto meros números. Rezo e rezo para que a Liga Cristo Rei se afaste de tal caminho e entre finalmente no combate frontal contra todo e qualquer inimigo da verdadeira fé.

Observação: não se confunda isso com o voto num candidato menos mau ou menos indigno, como recurso, digamos, de sobrevivência. Segundo São Pio X, devemos fazê-lo sem porém nos descaracterizarmos nunca. A descaracterização não é ato de sobrevivência, mas mergulho no abismo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Análise do artigo de Olavo de Carvalho publicado na revista Verbum, números 1 e 2, julho e novembro de 2016


Reverendo Pe. Joaquim FBMV
  
1.     O que o autor diz. 

O autor é bastante descritivo e, por vezes, intercala o pensamento de outros autores com o seu, de modo que nem sempre é fácil discernir se está de acordo ou não. Sendo assim, procuraremos ser descritivos e literais nesta primeira parte para, ao procedermos à crítica na segunda parte, só atribuir a ele o que realmente exprimiu como seu.
O professor Olavo de Carvalho começa alinhando-se com a distinção entre os dois universalismos, considerados high e low brow:
“O esclarecimento é este: Não se deve confundir o “universalismo” paródico da Nova Era e da URI com o universalismo high brow da escola dita ‘tradicionalista” ou “perenialista” inspirada em René Guénon, Frithjof Schuon, Ananda K. Coomaraswamy e seus continuadores.
É verdade. São muito diferentes.” (Parte 1, pág. 33)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

DEZ RECOMENDAÇÕES AOS LAICOS PARA UMA VIDA DE ESTUDOS

Carlos Nougué

1) Ter vida regular de sacramentos e de orações.
2) Oferecer a Deus os sacrifícios exigidos pela vida de estudos.
3) Ter a Santo Tomás de Aquino por Doutor Comum.
4) Ter um (bom) mestre. O autodidatismo é uma miragem perniciosa.
5) Seguir ao mestre e à ordem dos estudos dada por ele, enquanto não é possível voar com asas próprias.
6) Não ter pressa em alcançar a sabedoria. Isso pode levar 20, 30 anos.
7) Ter o próprio lugar de estudos como uma cela monástica.
8) Fugir das distrações nocivas do mundo, mas não deixar de frequentar a boa arte e a diversão sã em medida razoável. Sem isso se estiola o espírito.
9) Nunca perder a verdadeira humildade, ainda quando já se tenha alcançado um bom grau de sabedoria; nem nunca procurar a glória do mundo.
10) Nunca deixar de cumprir os deveres de estado.

O QUE É SER TOMISTA


Carlos Nougué

Ser tomista é antes de tudo ter a S. Tomás de Aquino por mestre. Mas isso deve entender-se em duplo sentido: primeiro, e principal, segui-lo em espírito e (sempre que possível) em letra; segundo, e secundário ainda que importante, tê-lo quanto ao essencial por modelo de vida. Deixo porém aqui de lado este segundo aspecto. Restrinjo-me ao primeiro.
1) Ser tomista é antes de tudo ser teólogo sagrado (ou ao menos reconhecer a autoridade suprema e última da Teologia Sagrada sobre as demais disciplinas, o que se dá todavia de modo apenas análogo).
2) Depois, é fazer da Filosofia serva da Teologia Sagrada. Mas, para que seja uma serva eficaz, há de tratar-se da filosofia aristotélica tal como completada por S. Tomás e sintetizada com a filosofia platônica tal como corrigida pelo mesmo S. Tomás. Daí decorrem as 24 teses tomistas aprovadas por Bento XV como pastor universal, o que implica dizer que o tomismo, também no filosófico, é a única doutrina que a Igreja fez sua.
3) Mas, ademais, ser tomista é saber dar respostas a tudo o que surgiu depois da morte de S. Tomás, o que implica por vezes superar na mesma doutrina do Mestre o que caducou. Exemplos: hoje o tomista deve professar sem hesitação o dogma da Imaculada Conceição; deve rejeitar as doutrinas aristotélico-tomistas da animação diferida, da incorruptibilidade dos corpos celestes, dos quatro elementos, da geração espontânea; e, em geral, quando possível, deve apropriar-se das descobertas da ciência moderna como base de dados para indução.
4) Por fim, ser tomista é sustentar os seguintes pontos principais.
a) A Teologia Sagrada é a ciência de Deus enquanto Deus e parte de princípios revelados, não alcançáveis pela razão humana por si, o que implica dizer que é subordinada à ciência de Deus e dos bem-aventurados. Destaque-se, no entanto, em primeiro lugar, que é estritamente tomista a doutrina segundo a qual a História humana tem por fim a completação do números dos eleitos e se remata na Jerusalém Celeste definitiva – ou seja, o fim da História humana é transcendente e não imanente, como mostrarei no livro Da História e Sua Ordem a Deus. E, em segundo lugar, que também é estritamente tomista a doutrina segundo a qual a Igreja é o próprio Reino de Deus, ou em estado militante, ou em estado padecente, ou em estado triunfante – o que também é de fé.
b) A Lógica porfiriano-aristotélica é a ciência-arte propedêutica às demais artes e ciências, e é um todo potencial de partes potenciais (Dialética, Retórica e Poética [ou, como creio ter provado no livro Da Arte do Belo], Arte do Belo, que tem sua ciência prática própria, como creio ainda ter demonstrado no mesmo livro).

Observação: Aristóteles e S. Tomás resolveram a querela ou questão dos universais com um realismo estrito: as essências existem de modo particular ou singular nas coisas e de modo universal na mente.

c) A Física Geral aristotélico-tomista, a ciência do ente móvel, é degrau ineludível para alcançar a Metafísica, e é um todo universal de partes subjetivas (Cosmologia, ou ciência do ente móvel segundo o lugar; Química, ou ciência do ente móvel segundo geração e corrupção; Biologia, ou ciência do ente móvel segundo aumento e diminuição; Psicologia, ou ciência do ente móvel segundo alteração).
d) A Ciência Ética é ciência prática e um todo universal-nominal de partes subjetivas (Ética Monástica ou Individual, Econômica ou Familiar-social e Política). Por seu lado, a Prudência (igualmente um todo universal-nominal de partes subjetivas) é arte em sentido latíssimo e não é ciência em sentido nenhum. – Atente-se a que, como a Ética Monástica e a Econômica, a Política tomista é ciência prática subordinada estritamente à Teologia Sagrada, e tem por seu centro que ou as nações se porão sob a realeza de Cristo, ou serão cadáveres de sociedade e pasto de demônios. Negá-lo é deixar de ser por isso mesmo tomista.
e) A Metafísica é a rainha das ciências, ou melhor, é a única ciência – das alcançáveis pela razão humana – em sentido estrito, sendo todas as demais ciências meras partes potenciais suas. É a ciência do ente enquanto ente, e chama-se também Filosofia Primeira e Teologia Filosófica. Mas a metafísica tomista é antes de tudo tomista, um alcançamento sublime do próprio S. Tomás, conquanto, insista-se, se funde também num aristotelismo completado e num platonismo corrigido. Eis seus três principais fundamentos, que ninguém pode negar sem deixar de ser automaticamente tomista.
• A “existência” de Deus é demonstrável por demonstração quia ou pelos efeitos, a partir dos quais, ademais, podemos conhecer analogicamente algo quiditativo d’Ele. Isto, ademais, é de fé, e negá-lo é ao menos tangente ao herético.
• A distinção entre essência e existência é evidente para todos, mas é de razão; ao passo que a distinção entre essência e ser ou ato de ser é evidente só para os sapientíssimos, mas é real.
• Só em Deus não há distinção real nem de razão entre essência e ser, porque Ele é o próprio Ser subsistente por si mesmo. É ente por essência, enquanto todos os demais entes o são por participação.

Observação 1: tudo isto estava implícito na doutrina aristotélica do ato e da potência (e da matéria e da forma, e da unicidade da forma substancial, etc.), bem como, de certo modo, na doutrina platônica da participação; mas o mesmo Aristóteles e o mesmo Platão foram incapazes de alcançá-lo.

Observação 2: o tomista não pretende fundar nenhuma nova filosofia nem se envergonha de ter a S. Tomás por autoridade, porque, como católico e ao contrário do liberal, sabe que a autoridade (verdadeira) aprimora a liberdade, enquanto para o liberal – esse rebelde – a autoridade constrange a liberdade. 

Observação 3: tudo isto é profunda e detidamente explicado na Escola Tomista.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A "PASCENDI" DE SÃO PIO X


CARTA ENCÍCLICA
PASCENDI DOMINICI GREGIS

DO SUMO PONTÍFICE
PIO X
AOS PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS EM PAZ
E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE
AS DOUTRINAS MODERNISTAS

Veneráveis Irmãos,
saúde e bênção apostólica

INTRODUÇÃO

A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta o de guardar com todo o desvelo o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do gênero humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições, até agora usamos.
E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os fautores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.
Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem.
Pasmem, embora homens de tal casta, que Nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja; não poderá porém, pasmar com razão quem quer que, postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que  meneiam eles o machado.
Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar. E ainda vão mais longe; pois pondo em obra o sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias:  porquanto, fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e sendo ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos. Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera. Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e, confiados em uma consciência falsa, persuadem-se de que é amor de verdade o que não passa de soberba e obstinação. Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los a melhores sentimentos e, para este fim, a princípio os tratamos com brandura, em seguida com severidade e, finalmente, bem a contragosto, servimo-nos de penas públicas.
Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi debalde; pareceram por momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com maior altivez. Poderíamos talvez ainda deixar isto desapercebido se tratasse somente deles; trata-se porém das garantias do nome católico.
Há, pois, mister quebrar o silêncio, que ora seria culpável, para tornar bem conhecidas à Igreja esses homens tão mal disfarçados.
E visto que os modernistas (tal é o nome com que vulgarmente e com razão são chamados) com astuciosíssimo engano costumam apresentar suas doutrinas não coordenadas e juntas como um todo, mas dispersas e como separadas umas das outras, afim de serem tidos por duvidosos e incertos, ao passo que de fato estão firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro exibirmos aqui as mesmas doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam entre si um só corpo, para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os remédios para debelar-lhes os efeitos perniciosos.