quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

AINDA SOBRE SE SE DEVE IR A QUALQUER MISSA TRIDENTINA


Carlos Nougué

Algumas (algumas!) vozes tradicionalistas criticam-me o ter dito que se pode e se deve ir a qualquer missa tridentina, como o faço eu mesmo. Pois reafirmo a posição. Uma coisa é alertar do perigo de que em sermões dessas missas padres modernistas destilem entre os fiéis doutrinas errôneas; e não cesso de mostrar as doutrinas nefastas que foram vitoriosas no CVII, como o podem confirmar todos os que me leem diariamente ou leem meus livros ou veem meus vídeos. Mas quem disse que não existia tal coisa antes do concílio? Não havia então padres modernistas a destilar suas más doutrinas nos sermões? Estava proibido assistir a missas de um Bea, de um Bugnini, de um Rahner? Ora, a missa tridentina é POR SI uma lição da mais perfeita teologia; e por isso mesmo é que os modernistas a substituíram pela missa nova, esse veneno POR SI tão perigoso para a fé. Deve-se até dizer que um bom sermão numa missa nova não a salva; pois deve dizer-se também que um mau sermão é incapaz de perder uma missa tridentina. Não deixa de ser perigosíssimo, e há que constantemente alertar disso os fiéis; mas, repita-se, não perde uma missa tridentina.
Depois, senhores, uma simples questão de bom senso. Quantos são os padres tradicionalistas? São capazes de celebrar a missa tridentina a todos os fiéis que desejam assistir a ela? NEM DE LONGE. Consequência: se só se deve assistir a missas tridentinas de padres tradicionalistas, então que os católicos que não sejam atendidos por estes padres continuem a assistir a missa nova! Isto é, sim, uma sorte de neodonatismo, e não contribui nem minimamente para ajudar os fiéis a (re)encontrar a tradição.
E por fim: Dom Lefebvre disse algo contrário ao que digo? Antes de tudo, deve-se ver em que contexto o fez. Depois, diga-se que, se tenho a Dom Lefebvre por referência ótima ou primeira quanto à crise da Igreja, isso não quer dizer que ele fosse inerrante -- o que deveria ser óbvio para todos.

Observação: o que disse da missa nova não diz respeito à sua validade ou invalidade, que estudarei no livro Da Missa Nova.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

OS DOCUMENTOS CONCILIARES CONTÉM DESVIOS DA FÉ, SIM!


Carlos Nougué


Não é incomum entre os próprios tradicionalistas (como Michael Davies) afirmar que os documentos do Vaticano II não contêm “heresias formais”, mas antes ambiguidades ou, nas palavras de D. Marcel Lefebvre, “bombas-relógio”. É que, segundo tais tradicionalistas, o Espírito Santo não permitiria que um concílio aprovasse “heresias formais”. Pois bem, no livro Do Papa Herético mostro tanto o equívoco do conceito de “heresia formal” quanto o fato de que esses documentos contêm, sim, não só bombas-relógio, mas efetivos desvios da fé (o argumento quanto à ação do Espírito esquece o fato de que o CVII e o magistério ligado a ele devem reduzir-se praticamente a magistério privado, ou seja, na maioria das vezes não se trata sequer de magistério meramente autêntico). É o caso do Decreto Ad Gentes, com suas heréticas “sementes do verbo”, e é o caso também, entre muitos outros, do “Decreto sobre o Ecumenismo”. Lê-se neste, com efeito: “Ao compararem as doutrinas, não esqueçam que há uma ordem ou uma 'hierarquia’ das verdades na doutrina católica, dado que é diversa sua conexão com o fundamento da fé cristã”. É evidente a intenção: que a Imaculada Concepção de Maria ou sua Assunção, por exemplo, não sirvam de pedra de tropeço para o ecumenismo com os protestantes. Mas, afinal, quem sou eu para dizer que tal passagem implica desvio da fé? Não sou eu quem o diz, mas Pio XI em Mortalium animos: “De modo algum é lícito estabelecer aquela diferença entre as verdades da fé que chamam fundamentais e não fundamentais, como gostam de dizer agora, das quais as primeiras deveriam ser aceitas por todos, e as segundas, ao contrário, poderiam deixar-se ao livre-arbítrio dos fiéis; pois a virtude da fé tem sua causa formal na autoridade de Deus revelador, que não admite nenhuma distinção desta sorte”. -- É que de fato, como o diz o Pe. Calderón, os documentos conciliares têm três notas principais: confusão, conexão (entre si), e proscrição, ou seja, sua doutrina já fora condenada pelos papas anteriores.

SE É VERDADE QUE A REFORMA LITÚRGICA TRAIU A "CONSTITUIÇÃO SOBRE A SAGRADA LITURGIA" DO CVII

Carlos Nougué

Pio VI condenou esta "definição" do sínodo jansenista de Pistoia: "Depois da consagração, Cristo encontra-se verdadeira, real e substancialmente presente sob as aparências de pão e de vinho e toda a substância do pão e do vinho desapareceu, e permanecem só as aparências". Por que a condenou, se parece tão ortodoxa? Por ter omitido o termo "transubstanciação", que fora usado por Trento para definir o modo da presença eucarística de Cristo. Pois tal omissão se repetiu na Constituição sobre a Sagrada Liturgia do CVII.
Ademais, na Mediator Dei Pio XII define a Liturgia pondo que é FUNDAMENTALMENTE um ato de culto tributado por Cristo, como cabeça da Igreja, ao Pai celestial (enquanto os fiéis o tributam a Cristo e, por meio deste, ao Pai celestial). Mas na Constituição sobre a Sagrada Liturgia do CVII o centro da Liturgia se desloca perceptivelmente para a participação dos fiéis, que na Mediator Dei se considerava importante, sim, mas não essencial (razão por que segue sendo ato de culto perfeito a missa privada, sem a presença de fiéis).
E muito mais, que tratarei no livro Da Missa Nova. Mas já é possível ir vendo que a reforma litúrgica que deu nascimento à missa nova não traiu o documento conciliar quanto ao essencial. Outro assunto é como é possível que um mesmo homem, Paulo VI, tenha escrito em 1965 a ortodoxa Mysterium Fidei e tenha aprovado uma reforma litúrgica que chegou a suprimir da forma da consagração do vinho a própria expressão "mysterium fidei". No referido livro mostrarei que comportamentos como este, aparentemente esquizoides, são porém o característico da própria "hermenêutica da continuidade" (cujos expoentes, além de Paulo VI, foram João Paulo II e Bento XVI).




Escreveu Monsenhor Gaume no século XIX:


“Arrancando-se-lhe a máscara, pergunte-se à Revolução: ‘Quem és tu?’, e ela dirá: ‘Eu não sou o que pensam. Muitos falam de mim e poucos me conhecem. Não sou o carbonarismo, nem o motim, nem a troca da monarquia pela república, nem a substituição de uma monarquia por outra, nem a perturbação momentânea da ordem pública. Eu não sou os latidos dos jacobinos, nem os furores de Montaigne, nem a guerrilha, nem a pilhagem, nem o incêndio, nem a reforma agrária, nem a guilhotina, nem as execuções. Não sou Marat, nem Robespierre, nem Babeuf, nem Mazzini, nem Kassuth. Esses homens são filhos meus, mas não eu. Essas coisas são obras minhas, mas não eu. Esses homens e essas coisas são passageiros, mas eu sou permanente. Eu sou o ódio a toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem e em que ele não seja ao mesmo tempo rei e deus. Sou a proclamação dos direitos do homem sem respeito pelos direitos de Deus. Sou Deus destronado e o homem posto em seu lugar. Eis por que me chamo Revolução, eis por que me chamo Subversão”.




MEU RITMO E DISCIPLINA DE TRABALHO E DE ESTUDO

Carlos Nougué

Um aluno da “Escola Tomista” pediu-me que lhe descrevesse o que se diz no título acima, e que o tornasse público, porque talvez pudesse ajudar a muitos. Não é fácil atender-lhe o pedido. Mas o tentarei, como abaixo.
1) Diga-se antes de tudo que o ritmo e a disciplina de trabalho e de estudo são, estritamente, individuais e dependentes de singularidades psicossomáticas e de condições relativas ao estado próprio (laico, ou religioso, ou sacerdotal). Portanto, o que escreverei não é de imitar, e sobretudo não se deve imitar se isto implica subtração aos deveres de estado próprio ou aos deveres religiosos. Que o que vem a seguir sirva apenas de estímulo e de certo norte.
2) Comecei a estudar o platonismo, o aristotelismo, o agostinismo, o tomismo aos 45 anos, mas aos 48 se me tornaram péssimas as condições para tal: devia traduzir e escrever dicionários durante cerca de 16 horas diárias para sustentar o tratamento contra o câncer de minha primeira esposa. Dois anos depois ela faleceria, e eu voltaria aos estudos.
3) Então fui progressivamente aumentando o tempo de estudos, que passou a ter uma média diária de sete horas. Note-se porém que desde então já não tenho televisão, desprezo os noticiários políticos, e apenas uma vez por semana tento dar uma olhada geral nas notícias, com leitura meramente oblíqua. (Ademais, não ponho uma gota de álcool na boca, razão por que, segundo Chesterton, não devem confiar em mim...) E desde então deixei o estudo para a noite/madrugada, ao final da qual passei a escutar durante uma hora mais ou menos música clássica ou ver um filme de qualidade. Mas note-se outra vez: sempre fui de dormir muito pouco: quatro, cinco horas sempre, desde criança, me foram bastantes.
4) Aos 52 voltei a casar-me, e voltei a um ritmo intenso de traduções e de escrita de dicionários, com o que tive de diminuir consideravelmente o tempo de estudos. Mas logo Deus me dadivaria uma bela surpresa: passei a dar aulas numa pós-graduação de Tradução e de Língua Portuguesa que só me ocupavam três dias (quase inteiros) na semana e me permitiram abandonar pouco a pouco a tradução e os dicionários. Voltei a mergulhar intensamente nos estudos, e comecei a suportar, nos dias em que não dava aula, cerca de dez horas de estudo, sempre com o reconforto posterior da boa música ou do bom cinema (da boa literatura já me ocupara até os 45 anos).
Observação: obviamente, há o imprescindível tempo reservado a sacramentos e orações, sempre ineludíveis, e, em meu caso, ao convívio familiar.
5) Como contudo nada dura para sempre nesta vida, fechou-se 10 anos depois a pós-graduação em que dava aula, problema que, se de início foi um baque, logo depois se superou. É que eu já estudara suficientemente, e na devida ordem das disciplinas, para dar cursos online de tomismo. Comecei com “Por uma Filosofia Tomista”, a que se seguiram outros. E continuava com meu ritmo de dez horas de estudos diários, com o refresco posterior da boa música, etc.
6) Não tardou todavia a que me julgasse capaz de escrever livros, e lancei meus dois primeiros: a Suma Gramatical da Língua Portuguesa (que me propicia um bom rendimento) e Opúsculos Tomistas (esgotado e sem previsão de reedição). Mas então diminuiu o tempo de estudo: passei a escrever durante dez horas diárias meus livros, e os estudos caíram para cerca de quatro horas diárias.
7) O próximo passo foi fundar a “Escola Tomista”, que é desde então meu principal ganha-pão e me permitiu escrever dois outros livros: Do Papa Herético e outros opúsculos e, o mais importante até hoje, Da Arte do Belo, sempre com a mesma relação horária entre escrita e estudos. A “Escola Tomista” me toma no máximo três horas semanais.
8) Como no entanto esta vida é um vale de lágrimas, fiquei muito doente no início do ano passado (sobretudo por um enfisema devido aos muitos cigarros que fumei até os 54 anos, e a uma dolorosa doença neurológica que tem algo de hereditária). No ano passado não consegui terminar de escrever nenhum novo livro, conquanto nunca tivesse parado de estudar seis, sete, oito horas nem de gravar as aulas da “Escola Tomista”, mesmo doente.
9) Este ano -- quando farei 68 anos -- estou melhor, e, conquanto tenha agora de lutar contra os efeitos colaterais de multidão de remédios -- sobretudo a sonolência --, pretendo lançar ao menos quatro livros (incluindo a atrasadíssima “Suma Retórica”, perdão). Se Deus quiser.
Observação final: não é difícil ver que aprendi algo com o mestre Tomás de Aquino: a busca da verdade, os estudos para tal, os livros escritos para tal são também um louvor a Deus. Viver para isto – junto sempre, é claro, dos sacramentos e das orações e dos deveres de estado, os quais vêm antes de tudo – é também honrar o nosso Criador, além de à nossa mesma natureza. Com efeito, diz Tomás de Aquino no proêmio de seu “Das Substâncias Separadas” que não por estar impossibilitado de comparecer ao ofício solene de louvor aos Anjos ele deixaria passar em branco o tempo de sua devoção: compensaria sua ausência no ofício escrevendo sobre eles (“Quia sacris Angelorum solemniis interesse non possumus, non debet nobis devotionis tempus transire in vacuum; sed quod psallendi officio subtrahitur, scribendi studio compensetur”).

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

AS DIVERSAS CORRENTES NA IGREJA ATUAL (III): OS TRADICIONALISMOS


Carlos Nougué

Nota prévia 1: esta série é parte do esboço do livro VII e último da coleção História da Santa Igreja: A Barca e as Tempestades, que se publicará pelo Centro Dom Bosco.
Nota prévia 2: para entender mais perfeitamente esta terceira parte da série, convém ter lido a primeira e a segunda parte suas (links: https://www.estudostomistas.com.br/2019/12/as-diversas-correntes-na-igreja-atual-i.html; e https://www.estudostomistas.com.br/2020/01/as-diversas-correntes-na-igreja-atual.html).

1) O tradicionalismo atual, que não se deve confundir com o tradicionalismo condenado pelo Vaticano I, começou ainda no Vaticano II com a organização do Coetus Internationalis Patrum, formado por vários padres conciliares (ocardeais Giuseppe Siri, Alfredo Ottaviani, Arcadio Maria Larraona Saralegui, Ernesto RuffiniMichael BrowneAntonio BacciBenedetto Aloisi Masella, Francis Spellman Fernando Quiroga y PalaciosJosé María Bueno y Monreal Rufino Jiao Santos; os bispos ou arcebispos Marcel Lefebvre, Casimiro Morcillo González Geraldo de Proença Sigaud, Ermenegildo Florit Thomas Benjamin Cooray, Georges Cabana, Alfredo Silva Santiago Joseph Marie Anthony Cordeiro, Secondino Petronio Lacchio, José Maurício da Rocha, Antônio de Castro Mayer, Luis Carlos Borromeo, Luigi Maria Carli; o abade de Solesmes Jean Prou; além de 250 outros prelados participantes no Concílio). Seria ocioso dizer que este grupo se formou em reação às organizadíssimas correntes progressistas que estavam a dominar, por diversos meios, os trabalhos e as votações na aula conciliar. Mas o Coetus Internationalis Patrum não resistiria ao fim do concílio: o grupo desfez-se em multidão de atitudes diferentes ante o resultado do Vaticano II; e a atitude mais célebre foi a de Dom Marcel Lefebvre, que com o apoio de Dom Antônio de Castro Mayer fundaria a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ordenaria unilateralmente quatro bispos para preservar a fé e o sacerdócio, e seria, com seus quatro bispos e com Dom Antônio, iniquamente excomungado por João Paulo II. Mas a FSSPX tornar-se-ia a coluna da tradição, apesar de encontrar-se fora da jurisdição pela excomunhão de seus bispos, e apesar do fracionamento dos tradicionalistas em muitas correntes, a maioria das quais acabaria por empreender um acordo canônico com as autoridades vaticanas. (Note-se, porém, que Bento XVI suspenderia a excomunhão dos quatro bispos da FSSPX, ainda que sem chegarem as duas partes a um acordo canônico.)
2) Quem leu as duas primeiras partes desta séria nem sequer imaginará que eu possa não ser tradicionalista (ou tradicional, como prefiro, justo pela confusão nominal com os tradicionalistas condenados pelo Vaticano I). As razões encontram-se naquelas mesmas duas primeiras partes. Mas poderia ser muito de esperar que nesta parte eu tratasse antes das divergências e antagonismos entre os grupos tradicionalistas que fundam suas diversas cristalizações, divergências e antagonismos que giram principalmente em torno da licitude ou ilicitude de um acordo canônico com o Vaticano neomodernista. Algo vou dizer disso, sim; não porém centralmente. E, embora até uns quatro anos atrás eu também estivesse grandemente envolvido em tal disputa, hoje, tradicional independente, já não o estou – e pretendo mostrar aqui que o que essencialmente separa os tradicionalistas não é a questão canônica, mas algo que os divide independentemente dos grupos a que pertençam. Trata-se da divisão entre tradicionalismo “dócil” e tradicionalismo crítico. Esta divisão foi proposta primeiramente pelo Pe. Álvaro Calderón, em especial na segunda edição de seu La lámpara bajo el celemín (“A Candeia debaixo do Alqueire”), sem todavia o aspeado “dócil”, de que lanço mão eu mesmo. Adoto sua divisão, mas com desdobramentos por que sou de todo responsável. Digo, ademais, que evitarei nomear conterrâneos meus que ainda estejam vivos.
3) Mas algo ainda prévio: o sedevacantismo. À primeira vista poderia parecer que os sedevacantistas constituem, eles também, um grupo tradicionalista. Não são todavia tradicionalistas. Como já se disse, sua doutrina é uma como vertigem e, como mostro creio que cabalmente no livro Do Papa Herético, implica a enormidade de que a Igreja teria acabado, contra as promessas de Cristo e contra o definido pelo Vaticano I. Não serão, portanto, levados em consideração aqui.
4) O que chamo tradicionalista “dócil” é o que se funda de algum modo, em seu mesmo tradicionalismo, numa ABSOLUTA docilidade ao Magistério da Igreja, e que reconhece a assistência do Espírito Santo não só para as definições infalíveis, mas, em algum grau ou de algum modo, para todos os atos de magistério autêntico. Se se opõe ao chamado magistério conciliar (ou seja, o do Vaticano II e dos papas que o seguem, exceção feita de certo modo, digo eu, aos documentos referidos no item 2a da primeira parte deste estudo, mais uma Mysterium Fidei e uma Humanae vitae de Paulo VI ou uma Ordinatio sacerdotalis de João Paulo II), se se opõe a ele, portanto, é porque ele mesmo rejeita tal assistência, ao depor sua autoridade e seu carisma para subordinar-se a um suposto senso da fé infalível de todo o Povo de Deus por si. O tradicionalismo “dócil” é a posição que se consolidou definitivamente com a referida obra do Pe. Calderón, de que eu mesmo sou caudatário. Mas note-se que, na citada segunda edição de La lámpara..., o Pe. Calderón, que é da FSSPX, arrola entre os tradicionalistas críticos o outro grande teólogo da mesma Fraternidade: o Pe. Gleize. Propõe-lhe ali, no entanto, uma conciliação doutrinal, e parece que tal conciliação se deu, porque, segundo me dizem, a segunda edição de outro livro do Pe. Calderón, Prometeo o la religión del hombre, conta com um texto do mesmo Pe. Gleize. Deo gratias. Isto porém não implica dizer que todos os eclesiásticos da FSSPX comunguem do tradicionalismo “dócil”: conheço alguns que são claramente tradicionalistas críticos, o que se mostra quando, por exemplo, rechaçam ao menos em parte as encíclicas Divino afflante Spiritu e Humani generis, de Pio XII, acusando-as, digamos, de facilitar o avanço do neomodernismo. Dessolidarizam-se delas. E diga-se o mesmo de membros da chamada Resistência, uma cisão mais recente da FSSPX. Também nela se encontram tradicionalistas de ambos os tipos.
5) Mas o tradicionalismo crítico subdivide-se.
a) Há, antes de tudo, tradicionalistas como os referidos no ponto anterior, os quais, por não entender que o conjunto do magistério autêntico é assistido em algum grau pelo Espírito Santo, razão por que seus documentos não podem encerrar erros (quando muito, imprecisões), nem que ao Magistério conciliar não o podemos desobedecer senão porque ele mesmo depôs sua autoridade e carisma, se arvoram em juízes do magistério. É o caso por exemplo, ainda, de um Roberto de Mattei (vide seu livro Apologia da Tradição).
b) O segundo grupo de tradicionalistas críticos distingue-se por algo mais complexo. Vão desde a aceitação de alguns documentos do Vaticano II e do magistério conciliar (documentos que estão entre os descritos nos itens 2b e 2c da primeira parte desta série) até a aceitação de todos os documentos do Vaticano II. No primeiro caso encontro (pelo que pude ver de sacerdotes brasileiros seus) o Instituto Bom Pastor, entre outros. No segundo a Administração Apostólica, entre outros, e tradicionalistas isolados como Dietrich von Hildebrand e Michael Davies. Especialmente estes últimos têm de entregar-se a verdadeiros malabarismos mentais para justificar que, sendo de algum modo infalível (em sua opinião) qualquer concílio, não o seria absolutamente qualquer papa (que porém é superior a qualquer concílio, e sem o qual nenhum concílio pode ser infalível). Assim, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II não incorreria em desvio da fé, mas o Papa Paulo VI sim, ao instituir o “Novus Ordo Missae” em 1969.   
Observação: naturalmente, nem sempre a fronteira entre os tradicionalistas críticos das duas subclasses descritas em 5b é perfeitamente nítida.
6) Mas o fato é que há na hierarquia da Igreja alguns pouquíssimos tradicionalistas (antes críticos), e outros que parecem marchar para a tradição. Este é o caso de Dom Athanasius Schneider e do arcebispo Carlo Maria Viganò, que hoje parecem ir além, por exemplo, da Administração Apostólica em sua crítica ao Vaticano II e a alguns de seus documentos. Esperemos porém para ver se essa marcha se firma definitivamente, e em direção a quê: se ao tradicionalismo “dócil” ou a algum modo de tradicionalismo crítico.
7) Uma última palavra. Definitivamente a FSSPX e a Resistência não são cismáticas, e devem dizer-se antes vítimas da iniquidade do neomodernismo vitorioso no Vaticano II. Minha crítica a elas é antes de ordem prática. Se é verdade que, como vítimas que são, ou seja, enquanto iniquamente despojadas de jurisdição, têm de manter-se em atitude de espera (ou seja, de que os católicos que descobrem a tradição vão até elas), isso porém não justifica que desconheçam a existência, por exemplo, de movimentos como a Liga Cristo Rei a ponto de NUNCA os referirem em seus sites, boletins, etc. A Liga Cristo Rei é um movimento essencialmente laico, ao contrário dos grupos tradicionalistas, que são essencialmente eclesiásticos, razão por que pode atuar de modo muito distinto de como o fazem tais grupos. Mas ninguém pode ser cego a ponto de não ver o progresso crescente da Liga Cristo Rei em direção à tradição nem o bem imenso que está fazendo a multidão de almas e à Igreja mesma. Ainda que considerem haja diferenças doutrinais com a Liga, que custaria a tais grupos tradicionalistas divulgar e apoiar o que considerassem bom na atuação dela? Esta postura de desconhecer o que não vem de si é o que gera, especialmente em alguns fiéis tradicionalistas, a soberba farisaica, a falta de paciência caritativa e a detração ou maledicência com respeito a católicos dignos de todo o respeito, como os da Liga Cristo Rei. Sou testemunha de seus progressos intelectuais, de sua sede de tradição e de missa tridentina, de sua busca de santidade, de sua piedosa vida de oração, de sua caridade à flor da pele, de sua absoluta ausência de detração dos grupos tradicionalistas, etc. Sem a devida correspondência.  
Observação: diga-se, no entanto, que também o IBP brasileiro (com a Associação Montfort) desconhece a Liga, ou antes, diferentemente da FSSPX e da Resistência, tem para com ela uma atitude de franca oposição. Mas cuidemo-nos de generalizações abusivas: não nego em princípio que sacerdotes ou bispos ou fiéis de tais grupos possam pensar de modo distinto com respeito a movimentos como a Liga Cristo Rei.

    (Continua.)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

AS DIVERSAS CORRENTES NA IGREJA ATUAL (II): O PROGRESSISMO


Carlos Nougué

Nota prévia 1: esta série é parte do esboço do livro VII e último da coleção História da Santa Igreja: A Barca e as Tempestades, que se publicará pelo Centro Dom Bosco.
Nota prévia 2: para entender esta segunda parte da série, é preciso ter lido a primeira parte (link: https://www.estudostomistas.com.br/2019/12/as-diversas-correntes-na-igreja-atual-i.html).

1) Estudamos já, na primeira parte desta série, a dialética de cariz hegeliano que saiu vitoriosa no Concílio Vaticano II: segundo ela, o conjunto da Igreja tem um senso da fé infalível por si, o que faz que o Magistério da Igreja deponha a autoridade e o carisma da infalibilidade que Cristo lhe deu em matéria doutrinal. É a dialética do modernismo conservador e sua hermenêutica da continuidade, cujos expoentes foram Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.
2) Mas desde o Concílio Vaticano II atuou a corrente progressista, ou seja, aquela que despreza o primeiro momento da referida dialética (o da tradição da Igreja) e por isso defende posições evidentemente heréticas sem nenhum pudor. Para esta corrente, importaria sobretudo o terceiro momento daquela dialética, a saber, o resultante da consulta à pluralidade de posições teológicas do Povo de Deus. Mas atente-se ao seguinte.
a) Isto de que o Magistério deve seguir um infalível senso da fé do conjunto do Povo de Deus por si (doutrina comum a conservadores e progressistas) é tão falso como dizer que na democracia liberal quem manda é o povo. Com efeito, assim como nesta quem manda de fato são os poderes plutocráticos, partidários e midiáticos, assim também na Igreja iniciada pelo Concílio Vaticano II quem manda são os “peritos”, ou seja, os neoteólogos vitoriosos no Concílio, e a hierarquia que os segue.
b) Depois, em verdade o progressismo evidencia as raízes ocultas do mesmo e mais tímido modernismo conservador, razão por que é de todo lícito recorrer a seu extremismo para explicar a tragédia conciliar. Um exemplo: segundo alguns, a missa nova foi uma traição à Constituição “Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia”, indo além, em suas mudanças, do que pretendera o Concílio, mas o fato é que foram os mesmos os que redigiram o documento conciliar e que empreenderam a reforma litúrgica. Mais ainda: em setembro de 1965 Paulo VI emitiu a Encíclica Mysterium Fidei, uma defesa (ao modo novo, claro, ou seja, sem império suficiente) do caráter sacrifical da missa, o mesmo Paulo VI que depois aprovaria uma missa, a nova, antes memorial que sacrifical, de cuja forma ou fórmula da consagração do vinho se chegou a tirar a própria expressão “myterium fidei”! (Se isso torna por si inválida a missa nova ou não é o que estudarei no livro Da Missa Nova.) Ademais, como mostra Michael Davies em vários passos de sua obra, os conservadores tentavam impedir maiores radicalizações na missa nova, mas, diante de fatos consumados pelos progressistas, acabavam por incorporá-las...
3) Nada disto, é claro, implica dizer que não há diferenças entre modernistas conservadores e progressistas, conquanto não se deva exagerar quanto a elas. Mas o fato é que tanto as há, que vemos hoje desenrolar-se certo conflito entre ratzingerianos (como o Cardeal Sarah ou o Cardeal Müller, por exemplo) e bergoglianos, em torno por exemplo do celibato, dos “dúbia” de Amoris laetitia, do Sínodo da Amazônia, da Pachamama, etc. Não se trata de uma invenção da mídia ou de um jogo de cena. É que pela primeira vez desde o Concílio um progressista se torna papa, o que afeta aquele resquício de apego à tradição que têm os modernistas conservadores. Francisco adere ao mundo de modo muito mais despudorado que seus antecessores.
4) Por outro lado, todavia, em verdade é mais coerente que estes. Diz ele com perfeito e cru realismo: “Também no campo ecumênico o caminho vem de longe, com os passos de meus antecessores. Esse é o caminho da Igreja [pós-conciliar]. Não sou eu. Eu não dei nenhuma aceleração. À medida que seguimos em frente, o caminho parece ir mais rápido, é o ‘motus in fine velocior’”.
5) Cabe porém perguntar ainda duas coisas.
a) Primeira, se é indiferente para a Igreja a luta entre ratzingerianos e bergoglianos. E deve dizer-se que não. Sempre devemos rezar para que as coisas não piorem. Dizer-se indiferente a isto é postura que ao menos tangencia o sedevacantismo. Obviamente, se Sarah se fizesse papa, teríamos certo respiro; e, apesar de ao fim e ao cabo, por seu compromisso com o erro, ter por efeito próprio o esvaziamento da tradição, a hermenêutica da continuidade pode, acidentalmente, ao frear a velocidade da ação do mal, reacender de algum modo na Santa Sé o fogo da caridade verdadeira (Padre Calderón dixit). Ademais, tenhamos certeza de que, dado o caráter monárquico da Igreja, não haverá solução para sua terrível crise atual senão a partir de cima, ou seja, com a conversão de algum papa à tradição por moção do Espírito Santo (como ocorreu com Pio IX).
Observação: o Espírito Santo não deixa de atuar nem sobre os papas problemáticos. É evidente que, quando se tornam papas, os modernistas se fazem mais conservadores em algum grau. Foi o caso claríssimo de Bento XVI, e é até o caso de Francisco, que negou, por certo apego à tradição, a ordenação de mulheres (“Quem quiser ordenar mulheres”, disse, “procure outra religião”), e acaba de excomungar um padre LGBT.
b) Segunda, se na atual hierarquia da Igreja não há nenhum tradicional ou tradicionalista. É o que veremos na próxima parte da série, quando estudarei justamente os “tradicionalismos”.

(Continua.)