domingo, 10 de maio de 2020

A capa de meu novo e quinto livro


Eis a capa de meu novo e quinto livro (608 páginas), que será disponibilizado gratuitamente (no formato de PDF e no de ePub) até a sexta-feira próxima. Para poder baixá-lo, será necessário apenas preencher um brevíssimo formulário (nome e e-mail, creio). É um presente de quarentena.


sábado, 25 de abril de 2020

ANTES COM A VERDADE DO QUE MAL ACOMPANHADO


Carlos Nougué

Há uma movimentação entre católicos (incluindo tradicionalistas, uma vergonha) para que o substituto de Moro seja um católico. Ah! de fato devemos estar no fim dos tempos... Como um católico vai compor um governo junto com maçons, liberais, gnósticos? Uma coisa é julgar que dado governo dessa estirpe seja um mal menor que outro. Outra coisa é participar dele – o que implica anuência, concordância programática. Um mal menor não deixa de ser um mal. Podemos votar nele, assim como se amputa uma mão gangrenada para salvar o corpo. Mas não podemos aderir à gangrena! Um governo que não se ponha sob a realeza de Cristo é um cadáver de governo, por efeito do mesmo pecado original. Pode até fazer algumas coisas boas – o que até agora, ademais, o governo Bolsonaro quase não fez: especializou-se em trapalhadas e arrogância –, e podemos nós apoiar tais coisas. Mas a autoridade ou se funda na verdade (como aliás o próprio étimo da palavra o indica) ou terá o que chamo jurisdição precária. E a verdade é Cristo mesmo, que disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida, tanto, digo, para os indivíduos como para as sociedades. Como dizia o Cardeal Pie de Poitiers, “para os povos como para os indivíduos, para as sociedades modernas como para as sociedades antigas, para as repúblicas como para as monarquias, não há sob o céu outro nome dado aos homens em que eles possam ser salvos além do nome de Jesus Cristo”. Portanto, católicos, sejamos católicos e andemos de braço dado com a Verdade, ainda que sós.

Observação: e não me venham falar da ameaça de volta da esquerda. Se isto acontecer, terá sido culpa unicamente de uma direita dirigida por um aloprado (do qual falarei num próximo artigo). Ademais, creem mesmo que um ministro da Justiça católico vai salvar o governo Bolsonaro do naufrágio? Assim será: se tal católico se fizer ministro, afundará junto com esse governo inepto, que foi incapaz até agora até de lutar frontalmente contra a ideologia de gênero (talvez a bandeira principal da campanha de Bolsonaro). Deixemos de hipocrisia – ou de estupidez.


domingo, 5 de abril de 2020

JEJUM AOS DOMINGOS?


Carlos Nougué

1) Antes de tudo, sugiro-lhes, católicos, que não se deixem levar por discussões com respeito às quais não tenham certeza advinda do magistério da Igreja. Nesta Quaresma, há muito mais que fazer.
2) S. Agostinho punha-se contra o jejum aos domingos (e não só contra o jejum, mas contra orar de joelhos! coisa que todos hoje fazemos): “Jejuar em dia de domingo é grande escândalo”, escreve, em 396, a Casulano (Carta 36, 27).
3) Mas S. Tomás admitia o jejum aos domingos, como se lê em seu sermão sobre os Dez Mandamentos: nestes dias, diz ele, “secundo corpus nostrum affligere, et hoc ieiunando: Rom. XII, 1: obsecro vos per misericordiam Dei, ut exhibeatis membra vestra hostiam viventem Deo, sanctam”.
4) A divergência quanto a isto entre os dois maiores doutores da Igreja indica uma divisão mais vasta, entre os cristãos em geral, ao menos até o século XIII.
5) O Concílio de Braga, no século VI, decretara: “If anyone does not truly honor the birthday of Christ according to the flesh, but pretends that he honors (it), fasting on the very day and on the Lord’s Day, because, like Cerdon, Marcion, Manichaeus, and Priscillian, he does not believe that Christ was born in the nature of man, let him be anathema”. Ou seja, anátema seja ao que fizer jejum aos domingos com intenção não reta, ou seja, com a intenção dos hereges Marcião, Prisciliano, maniqueus, etc., descrita no texto. Mas não se proíbe o jejum aos domingos.
6) Por fim, o cânon 1252, parágrafo 4, do Código Canônico de 1917 (muito mais rigoroso que o do pós-CVII) reza: “Cessa a lei da abstinência, ou da abstinência e do jejum, ou do jejum só, nos domingos ou festas de preceito, excetuadas as festas que caiam na Quaresma [...]; cessa também a dita lei no Sábado Santo depois do meio-dia”. Ou seja, cessa nesses dias a lei que OBRIGA o jejum e/ou a abstinência, mas NÃO SE PROÍBEM estes.
7) Em outras palavras, não é pecado jejuar nos domingos em geral, com o que se reduz a disputa sobre a matéria a uma questão de conveniência segundo costumes locais ou pendores individuais.
8) Mas pergunto: quem é Bolsonaro para dirigir-me religiosamente em qualquer ato? Pecador público até agora impenitente (que mude!), nem de longe tem autoridade religiosa sobre mim nem sobre nenhum católico. Os “católicos” que dizem que ele a tem são da seita direitista bolsonaro-olavética (ela mesma herética). Ademais, tenho certeza de que nossos sacrifícios, jejuns e abstinências durante toda esta tão especial Quaresma, marcada pela pandemia, já são de nossa parte oferecimento bastante a Deus pelos pecados públicos que O levaram a infligir-nos este duro flagelo.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

SANTO TOMÁS DE AQUINO: "MEU DEUS, NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM" -- ORAÇÃO


[Tradução: Gederson Falcometa]

Meu Deus, não te esqueças de mim,
quando eu me esqueço de ti.
Não me abandones, Senhor,
quando eu te abandono.
Não te distancies de mim,
quando eu me distancio de ti.
Chama-me se fujo de ti,
seduz-me se te resisto,
levanta-me se caio.
Dá-me, Senhor, Deus meu,
um coração vigilante
que nenhum vão pensamento leve para longe de ti,
um coração reto
que nenhuma intenção perversa possa desviar,
um coração firme
que resista com coragem a toda adversidade,
um coração livre
que nenhuma paixão torpe possa vencer.
Concede-me, peço-te, uma vontade que te busque,
uma sabedoria que te encontre,
uma vida que te agrade,
uma perseverança que te espere com confiança,
e uma confiança que ao fim chegue a possuir-te.
[Amém.]




quinta-feira, 12 de março de 2020

ADEUS A UMA ILUSÃO – MEU ROMPIMENTO FORMAL COM O CENTRO DOM BOSCO E COM A LIGA CRISTO REI


Carlos Nougué

Nota prévia 1. Peço-lhes desde já imenso perdão pela extensão e pela aridez das linhas que se seguirão. Como porém todo o caso que culmina na decisão minha que se lê no título deste texto envolve muita desinformação, duplicidade e inverdade, e como nos últimos três anos minha atividade católica pública esteve muito identificada com o CDB e com a LCR, vejo-me obrigado a escrevê-las assim. Mas tentarei que seja minha última palavra sobre o assunto. Quero virar esta página definitivamente, e só voltarei ao tema se se disserem falsidades graves acerca de mim. Não se pense que me tenho em alta conta; meu ofício não é ter razão, e sou um pecador como outro qualquer. Mas tenho coisas que defender: um magistério tomista, uma produção livresca filosófica, e antes de tudo uma família, onde meu filho de 15 anos jamais verá seu pai encolher-se como uma donzela diante de nenhuma cara feia – nem, muito menos, de hereges.
Nota prévia 2. O que relatarei aqui tem muita semelhança com algo que vivi entre 2009 e 2011. Não vou tocar este caso neste texto, e não o farei nunca se deixarem de aguilhoar-me com indiretas. Se todavia continuarem a fazê-lo, ver-se-á perfilar por minhas palavras uma figura horrenda, mesclada de inveja, de traição e de covardia.

1) Converti-me aos 49 anos (tenho hoje 68) após uma vida de ateísmo e de revolução; e converti-me já em ambiente tradicionalista. A partir de certa altura, ademais, passei a fazer parte do movimento tradicionalista conhecido por Resistência.
2) Há cerca de três anos e meio, no entanto (e perdoem-me qualquer imprecisão cronológica), conheci o CDB e afastei-me da Resistência (sem animosidade, creio) porque ela não via nos rapazes do CDB o que eu julgava ver: no bojo da crise deflagrada na Igreja pelo pontificado de Francisco, a evolução desses rapazes para a doutrina da realeza de Cristo e para um conhecimento cada vez maior das raízes dessa mesma crise. De início, é verdade, deparei com um clima muito influído pelo olavismo, além, é claro, de uma mistura indigesta de correntes católicas não raro antagônicas. Mas como não ter esperanças, se, semanas depois de uma queda de braços com um jovem astrólogo (por sinal, um jovem de ouro), veio agradecer-me ele: tinha até confessado a um padre o pecado da astrologia? Como não tê-la, se se formava a Liga Cristo Rei, se se começava a defender aí o estado católico, se me deixavam campo aberto para tratar a crise da Igreja, se progressivamente mais e mais jovens aderiam ao rito tridentino, etc.? Nunca, em nenhum momento, nem nas aulas no CDB nem nas palestras dos fóruns da LCR, eu deixei jamais de expor a mesma doutrina que sempre expus desde minha conversão. – Além disso, afeiçoei-me a alguns rapazes como a filhos, além de que, já gravemente doente há três anos e meio, sempre recebi generosa e caridosa ajuda deles e do CDB em geral (por exemplo, o CDB arcou com todas as despesas do funeral de minha irmã, após o qual eu teria a primeira de cinco internações no ano passado). A gratidão que lhes tenho irá comigo após a morte como vincos na alma.
3) Mas eis que há uns dois anos minha esperança cambaleou pela primeira vez. Um dos principais dirigentes do CDB me escreveu um dia: “Professor, acho que devemos parar de falar um pouco do estado cristão. O Olavo vai reagir, etc., etc.” Eu, na hora, meio atordoado, disse que sim. Mas exatamente na manhã seguinte lhe escrevi: “Se quiserem vocês parar de falar do estado cristão, façam-no. Eu continuarei a fazê-lo, e que me ataque Olavo”. – Foi por então que percebi a grande influência que Antônio Donato, o responsável pelo grupo Anistia (que coordena, ao que parece, a resistência nacional ao aborto, etc.), exercia sobre alguns dos principais membros do CDB. Ora, já escrevi no FB que por seu livro A Educação segundo a Filosofia Perene não se pode ver em Donato um gnóstico ou perenialista; mas deve ver-se, sim, um modernista conservador, o que se pode provar sobretudo pelo capítulo de seu livro atinente à política: puro Jacques Maritain, o corruptor do tomismo no século XX. Como quer que seja, contudo, é inegável que do Anistia fazem parte muitos e não desprezíveis olavetes, e que a postura geral do Anistia com respeito a Olavo de Carvalho e sua seita é pelo menos de cordialidade. As coisas começavam a juntar-se em minha mente, e não faltava confirmação por parte de algumas pessoas. Como porém algum tempo depois o CDB voltou a falar em estado cristão, minha beata e beócia ingenuidade fez-me cegar outra vez.
4) Mergulhei mais e mais no CDB e na LCR, que passaram a ser o centro de minha vida católica pública. Sucede no entanto que no primeiro semestre do ano passado me chegou ao conhecimento que o ministro Ernesto Araújo, gnóstico perenialista assumido, palestraria no III Fórum da LCR. Opus-me (com outros), mas a resposta da parte do CDB era sempre a mesma: Nossos mestres (Antônio Donato, Leonardo Penitente, Dom Justino...), além de personalidades como o Dr. Ricardo Dip e Miguel Ayuso, não veem óbice nenhum na participação do ministro. Disse então ao CDB que não palestraria eu no Fórum. Após porém muitos e-mails, telefonemas e reuniões, acabei por ceder, até porque se me fez a promessa de que eu poderia palestrar imediatamente após o ministro e dizer, pois, o que eu quisesse acerca do perenialismo, etc. Quis a fortuna que o ministro não pudesse comparecer ao encontro.
5) No III Fórum da Liga Cristo Rei, minha ingenuidade beata e beócia cegou-me ainda mais. Realmente, afigurava-se-me que a Liga como um todo progredia firmemente para posições católicas tradicionais e consequentes. Lembre-se, aliás, que pouco antes do Fórum pude gravar para o CDB a primeira aula da série “Raízes da Crise na Santa Igreja”, na qual resumi a doutrina de meu livro Do Papa Herético (cf. https://www.youtube.com/watch?v=M1fGx3uJhfw&t=202s). – Quanto a OdC, desde 2011, depois de desafiá-lo a um debate para desagravar a honra de um amigo (desafio de que ele correu em meio a mentiras e xingamentos), eu houvera por bem criticar sempre suas heresias gnóstico-modernistas sem todavia citá-lo nominalmente (estando sempre preparado, no entanto, para o confronto público se ele me atacasse nominalmente), e acreditei ver no CDB a mesma política. Eis no entanto que há poucos meses descobri, tristemente, que não era esta a política do CDB, mas a de não entrar nunca em confronto com OdC. Em verdade, descobri que eu não era mais que uma fachada tradicionalista para o CDB e a LCR, capaz de atrair muita gente, desde porém que não se tocasse o ninho de vespas das relações cordiais entre CDB-LCR, Anistia e OdC.
6) Para que se veja a justeza do que digo, sou forçado a dar a cronologia dos eventos que me fizeram cair enfim as escamas dos olhos.
a) Há uns meses, o Padre Sérgio Muniz e dois importantes dirigentes do CDB começaram a criticar Italo Marsili pelo tratamento prostibular que aplicara a um suposto paciente seu pedófilo. Nunca entendi muito bem por que os três passaram a criticá-lo publicamente e tão duramente, porque, pensava, OdC muito provavelmente reagirá em defesa de Italo. Continuo sem entendê-lo.
b) A reação do sofista psiquiátrico foi dura, bem ao estilo da seita olavética, e vi os três que haviam começado a criticá-lo esmorecer. Era uma humilhação. Entrei na briga com Italo para defender os três e o CDB. Travou-se então este diálogo escrito entre um desses dois dirigentes do CDB e mim:
Eu: “Mas exatamente por isto é que tomei a frente da coisa: para aliviar o CDB. Fique tranquilo. Sou casca-grossa, velho comuna... Um abraço grato e saudoso”.
Ele: “kkkk. o sr estará em nossa história, mestre”.
Pouco depois, o outro dirigente do CDB escreveu num comentário de meu perfil do FB: “O senhor está nos mostrando o que é a verdadeira testosterona (a católica)”.
c) Mas eis que uns seguidores de Italo e de OdC começaram a detratar-me, pasmem! pelo fato de eu ter cuidado durante um ano de uma cadela de OdC!... (Eu fora editor de OdC durante dois anos antes de minha conversão.) Não me fiz rogar: escrevi um post no FB chamando-os “um imbecil coletivo”. – Hoje, os dirigentes do CDB dizem que com este post fui eu quem começou a briga com OdC; que o provoquei eu. Certamente quereriam que eu pusesse o rabo entre as pernas como eles têm feito diante de fundas humilhações públicas que OdC, Italo Marsili, Silvio Grimaldo, Mauro Ventura et caterva lhes vêm infligindo (não as mostro aqui; mas, se o negarem, fá-lo-ei em outra publicação). Ademais, ainda que tenha sido esta a razão do que se verá a seguir, que erro ou pecado há em criticar um herege e gnóstico? Ou talvez o haja, segundo as cordiais relações entre CDB-LCR, Anistia e OdC...
d) Como era de esperar, OdC passou a atacar-me – e eu a reagir. Não me é preciso recapitular os muitos passos desta contenda. Mas devo mostrar, ainda, os dois últimos diálogos entre mim e o mesmo dirigente do CDB que dissera que eu entraria para a história deste. O primeiro:
Ele: “Mestre. Avalia se é necessário estender essa briga [com OdC]. Pense mais um pouco”.
Eu: “É guerra, meu amigo, sem passo atrás. Não sou cão para pôr o rabo entre as pernas. Ele é que começou. Agora vou com tudo. E quem quiser apoiar-me que o faça. Quem não quiser que não o faça. Já me acostumei com os XXXs da vida. Acho que vou mostrar a meu filho um ato de covardia? Quer que ele veja seu pai enxovalhado sem reagir? Por favor, XXX. Repense-o você”.
[Note-se que eu não disse que o CDB e a Liga não precisavam apoiar-me, como querem seus dirigentes vender agora ao público. Acho que aprenderam bem de OdC o uso da estimulação contraditória.]
Ele: “Está bem. Desculpa”.
O segundo diálogo deu-se depois de o mesmo dirigente do CDB, justamente um dos que começara a guerra com Italo, ter dito que a guerra que então se travava era um show de vaidades. Perguntei-lhe:
“Você me inclui no show de vaidades?”
Respondeu-me:
“Eu não acompanhei seus posts. [...] Eu caí diversas vezes em vaidade. Não quero pagar esse preço no tribunal divino”.
Quem sabe um dia Deus me dará a graça de entender isto? Enquanto isso, porém, prossigamos.
e) Depois, passei a sofrer ataques de dupla frente: OdC e seus sequazes, por um lado, e CDB-LCR, por outro. Para a maioria dos dirigentes destes, o que eu estava fazendo, ao enfrentar o herege OdC, era imprudente! “Primeiro precisamos ser fortes para depois enfrentá-lo”, diziam e dizem; é como se os primeiros cristãos dissessem: “Primeiro precisamos ser fortes para depois enfrentar os judeus”. Creio que Santo Estêvão não o aprovaria. Mas o pior ainda estava por vir: alguns dirigentes do CDB-LCR passaram a dizer que não estavam preparados ainda para o confronto, e que seria preciso primeiro estudar bem o perenialismo para enfim lançar-se a criticar OdC. Haja sofisma, ou melhor, haja covardia travestida de sofisma! Se alguém, como OdC, diz – como de fato o faz – que a religião é um “conto de fadas”, de que precisa mais um católico para afastar-se dele? Se esse mesmo OdC diz – como de fato o faz – que Cristo não veio trazer-nos nenhuma doutrina (nem moral!), de que precisa mais um católico para denunciá-lo? Nem de meditação, nem de estudo, nem de conselho. Mas parece que pelas veias de muitos líderes católicos atuais corre sangue de barata.
f) Estou para terminar este texto, tão aborrecido para mim como certamente para todos. Mas antes preciso ainda tecer algumas considerações.
a) Não vou parar a luta contra OdC e sua seita gnóstica disfarçada de católica. Mas o vou fazer sobretudo em livros, etc. Quero vê-los refutar-me. Vou sair do terreno deles, ou seja, o das futricas de FB, e forçá-los a lutar em terreno onde são de todo ineptos: o da fé, o da doutrina, o da verdadeira filosofia. Chutar comunista morto é fácil. Venham arrostar-me a mim.  
b) Rompo formalmente toda e qualquer relação, incluindo a editorial, com o CDB-LCR. Isto me afetará financeiramente; perco público comprador de livros. Mas não vou agir como eles, que, como me disse alguém indignado, agem assim “porque não querem perder os contatos” – o grand monde do conservadorismo donatista-olavético. – Como porém não sou sectário, sempre que o CDB e a LCR fizerem algo de efetivamente bom pelo catolicismo, ou lançarem um livro de real importância, divulgá-lo-ei sem nenhuma hesitação.
c) Por fim, acusei-me mais acima duas vezes de “ingenuidade beata e beócia”. Mas devo ser tão duro comigo? Em parte sim, mas em parte não: porque a Liga Cristo Rei não é composta somente de timoratos. É com um coração vibrante que vejo quatro centros da LCR enfrentar virilmente, com toda a hombridade, não só a seita nefasta de OdC, mas os restantes centros da mesma Liga. São eles: o Centro São Pedro de Verona (Maceió), o Instituto Leão Magno (São Paulo), o Instituto Jackson de Figueiredo (Aracaju) e o Centro Cultural Ávila (Belém). Que prossigam, ainda que minoritariamente.
d) Mas não os lidero, nem os vou liderar, apesar das falsas acusações de que são dirigidos por mim (é que quem só sabe viver sob o tacão de um guru não consegue imaginar outra coisa). Meu ato de rompimento é solitário. Já vai longe o tempo de minha estada nesta terra. Peço a Deus que me deixe completar a educação de meu filho, a gravação das 250 aulas da Escola Tomista, e os muitos livros que estou escrevendo (alguns com atraso por causa de meu péssimo estado de saúde, pelo que, aliás, peço outra vez desculpas). Mas o fato é que vivo hoje numa bolha; já nem posso sair de casa; e não é difícil de imaginar que me encontro em constante preparação para a morte. Não posso pois dar-me agora ao luxo de fazer o que nunca quis: liderar nada. Os referidos quatro centros têm todo o meu apoio; mas deles não espero senão que continuem viris.
Que tudo seja para maior glória de Deus – e viva Cristo Rei!  

   P.S.: Não poderia deixar de agradecer aqui, penhoradamente, o apoio que sempre me prestou a Sociedade da Santíssima Virgem Maria, de Montes Claros (MG); e, para fazê-lo, nada melhor que repetir uma vez mais seu brado: Maria sempre!

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A MARAVILHOSA DEMONSTRAÇÃO TOMISTA DA IMORTALIDADE DA ALMA HUMANA


Na Suma contra os Gentios, S. Tomás, argumentando contra os filósofos (Alexandre de Afrodísias, Avicena, Averróis...) que da necessidade das verdades eternas chegavam a uma suposta eternidade (e unicidade) do próprio intelecto humano, escreve: “Por isso não se pode concluir que a alma seja eterna, mas tão somente que as verdades que o intelecto conhece se fundam em algo eterno. Fundam-se, com efeito, na mesma verdade primeira como causa universal que contém toda a verdade”. Mas daí mesmo decorre o argumento metafísico para a imortalidade da alma humana, que tende para Deus, a primeira verdade, como para seu fim último: “Com respeito a este eterno, a alma humana não está como substância para a forma, mas como coisa para o próprio fim: a verdade é efetivamente o bem e o fim do intelecto. Mas do fim podemos arguir a duração da coisa, assim como de seu início podemos arguir a causa agente: com efeito, o que está ordenado a um fim eterno há de ser capaz de duração perpétua. Por isso, da eternidade das verdades inteligíveis pode provar-se a imortalidade da alma, ainda que não sua eternidade” (II, 84 praeterea).

Esta é só mais uma mostra da superioridade do tomismo sobre todas as demais doutrinas. Todas, diante dele, se mostram minúsculas, enquanto todos os que se negam a aceitá-lo se mostram ou soberbos ou dotados de poucas luzes. Não por nada, portanto, o magistério da Igreja fez sua também a metafísica tomista (especialmente mediante as 24 Teses): inspirou-o também nisto o próprio Espírito Santo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O PERENIALISMO E A EXISTÊNCIA DE DEUS


Carlos Nougué

1) Diga-se antes de tudo que para o perenialismo, como para ao menos boa parte das seitas gnósticas, o Deus criador (ou, segundo sua terminologia, o Demiurgo) não é a divindade máxima; é-o o Não Manifestado (cf. Frithjof Schuon, “A Unidade Transcendente das Religiões”).
2) Naturalmente, não se espere coerência lógica de tão perversa doutrina. E, com efeito, dizem os perenialistas que não há prova racional da existência de Deus, e que não o conhecemos (ou seja, os iluminados gnósticos) senão por experiência direta. Então não raro não deixam claro se estão falando do Demiurgo ou do Não Manifestado. Como quer que seja, porém, cometem com tal “experiência direta” uma heresia condenada várias vezes pelo magistério da Igreja (Vaticano I, 24 Teses Tomistas, etc.).
3) Como todavia querem passar-se por católicos, diante das definições do magistério da Igreja segundo as quais pode demonstrar-se a existência de Deus os perenialistas recorrem às suas "refinadas" artes de berliques e berloques: afirmam que o magistério só disse que se pode demonstrar a existência de Deus, não que já foi demonstrada. É de indignar a desfaçatez. Não só o Vaticano I se funda, em sua definição, em palavras de São Paulo que são como uma prova da existência de Deus ainda que não em forma de silogismo (cf. Carlos Nougué, “Defesa da Terceira Via de Santo Tomás”: https://www.estudostomistas.com.br/…/defesa-da-terceira-via…), como Bento XV aprovou entre as 24 Teses Tomistas justamente as vias de S. Tomás para demonstrar a existência de Deus.
4) Por fim, titânicos e prometeicos como são, os perenialistas recorrem a uma sorte de kantismo para negar as demonstrações da existência de Deus. Mas já refutei cabalmente a crítica kantiana destas demonstrações (cf. “Crítica da crítica kantiana das provas da existência de Deus”: https://www.estudostomistas.com.br/search?q=kantiana).
Observação: para quem queira conhecer a posição estritamente tomista sobre a existência de Deus e a criação do mundo, posição sobre a qual se funda o magistério da Igreja, indico aqui esta palestra minha: https://youtu.be/2FdmSU-qcXw.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Análise do artigo de Olavo de Carvalho publicado na revista Verbum, números 1 e 2, julho e novembro de 2016


Reverendo Pe. Joaquim FBMV
  
1.     O que o autor diz. 

O autor é bastante descritivo e, por vezes, intercala o pensamento de outros autores com o seu, de modo que nem sempre é fácil discernir se está de acordo ou não. Sendo assim, procuraremos ser descritivos e literais nesta primeira parte para, ao procedermos à crítica na segunda parte, só atribuir a ele o que realmente exprimiu como seu.
O professor Olavo de Carvalho começa alinhando-se com a distinção entre os dois universalismos, considerados high e low brow:
“O esclarecimento é este: Não se deve confundir o “universalismo” paródico da Nova Era e da URI com o universalismo high brow da escola dita ‘tradicionalista” ou “perenialista” inspirada em René Guénon, Frithjof Schuon, Ananda K. Coomaraswamy e seus continuadores.
É verdade. São muito diferentes.” (Parte 1, pág. 33)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A "PASCENDI" DE SÃO PIO X


CARTA ENCÍCLICA
PASCENDI DOMINICI GREGIS

DO SUMO PONTÍFICE
PIO X
AOS PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS EM PAZ
E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE
AS DOUTRINAS MODERNISTAS

Veneráveis Irmãos,
saúde e bênção apostólica

INTRODUÇÃO

A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta o de guardar com todo o desvelo o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do gênero humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições, até agora usamos.
E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os fautores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.
Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem.
Pasmem, embora homens de tal casta, que Nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja; não poderá porém, pasmar com razão quem quer que, postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que  meneiam eles o machado.
Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar. E ainda vão mais longe; pois pondo em obra o sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias:  porquanto, fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e sendo ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos. Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera. Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e, confiados em uma consciência falsa, persuadem-se de que é amor de verdade o que não passa de soberba e obstinação. Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los a melhores sentimentos e, para este fim, a princípio os tratamos com brandura, em seguida com severidade e, finalmente, bem a contragosto, servimo-nos de penas públicas.
Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi debalde; pareceram por momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com maior altivez. Poderíamos talvez ainda deixar isto desapercebido se tratasse somente deles; trata-se porém das garantias do nome católico.
Há, pois, mister quebrar o silêncio, que ora seria culpável, para tornar bem conhecidas à Igreja esses homens tão mal disfarçados.
E visto que os modernistas (tal é o nome com que vulgarmente e com razão são chamados) com astuciosíssimo engano costumam apresentar suas doutrinas não coordenadas e juntas como um todo, mas dispersas e como separadas umas das outras, afim de serem tidos por duvidosos e incertos, ao passo que de fato estão firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro exibirmos aqui as mesmas doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam entre si um só corpo, para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os remédios para debelar-lhes os efeitos perniciosos.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

A ESTIMULAÇÃO CONTRADITÓRIA TAL COMO USADA PELOS DEFENSORES DA FALÁCIA DO PROSTÍBULO – OU A SORDIDEZ DA “VERDADE” DE CIRCUNSTÂNCIA

Carlos Nougué

Nota prévia: tentarei ser o mais sucinto possível aqui; mas é impossível tratar este grave assunto em poucas palavras.  

O “psicólogo” comunista Ivan Pavlov (1849-1936) mostrou, com acerto, que a estimulação contraditória é o modo mais rápido e eficaz de romper as defesas psicológicas de uma pessoa ou de uma porção de pessoas, reduzindo-as a um estado de credulidade beata em que aceitarão como naturais as ordens mais absurdas e como verdadeiras as opiniões mais contraditórias. E isto sempre foi atribuído pela direita, com acerto também, à esquerda. Mas eis que os direitistas ou conservadores que defendem a falácia do prostíbulo também se têm mostrado habilíssimos nessa “arte”.
1) Antes de tudo, os que operam a estimulação contraditória devem ser previamente respeitados por tais pessoas reduzidas a uma credulidade beata. Como chegam a ter tal respeito, aí está o que varia segundo o caso. O que importa é que, contando com tal respeito não raro intelectual, esses operadores podem anular a capacidade crítica de seus seguidores dizendo-lhes constantemente as “verdades” mais contraditórias entre si, com o que, insista-se, esses seguidores são capazes até de “atirar-se num abismo” por mandato de seus operadores. Ou seja, são tão incapazes de discernir as contradições em que creem quanto são capazes de servir a seus operadores como soldados disciplinados e denodados. Vejamos como isto se vem dando no caso concreto da falácia do prostíbulo.  
2) Antes de tudo, descreva-se a falácia do prostíbulo. Com efeito, dizem por aí que estimular um pedófilo a ir a um prostíbulo é análogo à pena de morte: um mal menor. Sofisma dos mais grosseiros. Um juiz que condena um criminoso à morte não induz ninguém a pecar; enquanto alguém – incluindo qualquer psicoterapeuta ou psiquiatra ou psicólogo – que estimula outro a ir ao prostíbulo o induz a pecar (e mortalmente, ainda que sob a justificativa de que assim se pode curar o enfermo de sua pedofilia). Logo, o juiz tampouco peca; enquanto o estimulador do pedófilo também peca mortalmente.
3) Posto isso, e que, como é evidente, um vício não pode ser curado com outro vício, mas tão somente com a virtude oposta, os defensores de tal falácia mudam de discurso e tática e dizem: Não se trata de curar a pedofilia com a fornicação num prostíbulo. É apenas o uso provisório de um mal menor. Haja ridiculez! Se assim é, se se trata de alguém com tara de matar crianças (isso existe), e como a morte de velhos com os dias contados seria um mal menor que a morte de crianças, que então provisoriamente o tarado use de matar velhos em estado terminal que queiram morrer. Depois se prosseguirá com o tratamento.
4) Exposta pois a ridiculez de tal “argumento”, emitem-se outros muitos, todos igualmente ridículos e contraditórios entre si, mas brandidos como “verdades” de circunstância. Deem-se alguns exemplos.
a) Se alguém lhes contra-argumenta que o ideal em casos assim seria, por exemplo, a castração química, retrucam: Mas o pedófilo em questão nunca praticou nenhum ato pedófilo; trata-se apenas de uma tendência. Mas, se nunca praticou nenhum ato pedófilo, por que mandá-lo então a um prostíbulo?
b) Não é isso, dizem, mudando rapidamente como camaleões. É que o enfermo sofre tanto com essa tendência que é capaz até de matar-se. Ah! que “caritativo”, digo-lhes eu. Impedem assim o suicídio do enfermo e expõem a prostituta a qualquer sanha de um perturbado, tomado de cólera, por exemplo, por sua impotência para concretizar o ato sexual. Mas quem sabe para esses conservadores defensores da falácia do prostíbulo uma prostituta não valha mais que um velho em estado terminal que pede para morrer?...
c) Não desistem, porém, os nossos falaciosos, e alcançando os píncaros da sofística dizem: É que o psiquiatra tal, embora seja católico, não pode atuar ali como católico, mas como psiquiatra! Dizem-nos isso e dão a volta olímpica por sua vitória com argumento tão imbatível... Só se esquecem todavia das palavras de S. Tomás de Aquino (a quem esses sofistas têm até a ousadia de invocar como suporte para sua grosseira falácia): é necessário para a salvação de cada católico professar as verdades de fé na devida hora e lugar, o que não se dá se por omissão da declaração de sua crença o católico deixa de prestar a honra devida a Deus ou deixa de concorrer para a utilidade espiritual do próximo; ou se, ao ser interrogado sobre sua fé, ele se cala, podendo resultar desse silêncio, para o próximo, ou a conclusão de que a fé não é verdadeira, ou a perda dela, ou a desistência de abraçá-la. Como seja, o fato é que não nos basta a adesão interior à verdade divina; é-nos de preceito confessá-la exteriormente pelo menos nas condições indicadas por Santo Tomás. E são de Nosso Senhor mesmo estas inequívocas palavras: “Todo aquele que não me tiver confessado diante dos homens, o Filho do homem tampouco o confessará diante dos anjos de Deus. E aquele que me tiver negado diante dos homens, esse será negado diante dos anjos de Deus” (Luc. 12, 8-9) (cf. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 3, a. 2).
d) E pensam vocês que os nossos sofistas se deram agora por vencidos? Ledo engano. São titânicos em seu erro, há que reconhecê-lo. Agora têm a audácia de dizer-nos: Que poderia fazer neste caso o pobre psiquiatra, se o enfermo nem católico é? Então por isso, digo-lhes eu, por não católico, entregue-se o tarado ao pecado e ao inferno junto com a prostituta! Imagine-se se o enfermo mata a prostituta, busca alguma criança para enfim cometer seu primeiro ato de pedofilia, e depois se mata: tudo o que é muito provável dada a história mesma que nos contam esses sofistas. O resultado? O enfermo e a prostituta herdarão o fogo eterno da geena! Mas quem sabe a nossa multidão de falaciosos psiquiátricos não consideram que, afinal, esse doente não valha mais que uma prostituta e que um velho em estado terminal que pede para morrer?...
e) Cansados? Eu também. Mas é preciso continuar a ouvir os nossos sofistas e seu exército de defensores. Que têm para dizer-nos ainda? Que os que criticam o psiquiatra que mandou um pedófilo a um prostíbulo devem pôr-se no lugar desse pobre profissional, que teve de decidir rapidamente diante de uma pressão incalculável de fatos graves que se precipitavam. Coitado. E digo-lhes eu: Concedo. Todos somos capazes de errar em situações assim. Mas então por que argumentaram tudo o que precede? Por que não admitir um erro em vez de tentar justificá-lo das mais variadas e toscas maneiras? Mais ainda: por que vangloriar-se dele e dar-lhe ampla publicidade como se se tratasse de um grande feito?   
5) Poder-se-iam (uma mesóclise! que horror!), poder-se-iam multiplicar suas variações em torno da mesma falsidade. Mas basta, porque o que importa agora é insistir no fato de que multidão de crentes devotos e afetados de dessiso serve a seus estimuladores como um exército disciplinado, entrando em perfis alheios, ofendendo com palavrões e sarcasmos ferinos os que põem a nu a falácia de seus inspiradores, maculando reputações com inverdades – tal e qual fazem os mesmos sofistas seus diretores de inconsciência.  Qualquer semelhança com o modo de operar da esquerda, tenha-se certeza, não é mera coincidência.
6) Muitos e muitos dos que me leem este texto são capazes de testemunhar que sofreram na própria carne tais ataques, quer dos superiores, quer de seus soldados. Quanto a mim, já decretaram: sou o guru do Centro Dom Bosco, ajo como se fosse um papa ou um inquisidor-geral (que defende o Index, vejam só! e não é que a esquerda tem razão?) ou um chefe de cruzada moralista (e não é que a esquerda tem razão novamente?). Já respondi mais que suficientemente a tais ataques sórdidos (cf. https://www.estudostomistas.com.br/2020/01/se-sou-o-guru-do-centro-dom-bosco.html e https://www.estudostomistas.com.br/2020/02/respostas-detracoes.html) e até já dei uma brevíssima biografia minha (cf. https://www.estudostomistas.com.br/2019/08/quem-sou-eu-uma-brevissima.html), mas espero muitos outros ainda mais graves e sujos. É que, com efeito, nada detém o exército sofístico.
7) Pois bem, querem guerra? Tê-la-ão (ah! essas malditas mesóclises). Parafraseando a Karl Marx (se os conservadores falaciosos têm tanta afinidade com a esquerda em seu modo de operar, por que não posso eu beber uma vezinha na principal fonte desta?), posso dizer que não tenho nada mais a perder que os grilhões desta vida com sua carne corruptível e suas lágrimas. E... não, não, não! Já ia eu cometendo uma dupla injustiça. Esquecia-me culposamente de dizer se os operadores sofísticos creem de fato ou não no que eles mesmos dizem e de expor seu último, seu derradeiro argumento. A resposta à primeira questão – em que afinal eles creem verdadeiramente? – deixo-a para outra oportunidade. Mas, para cumprir com um estrito dever de justiça, dou aqui com toda a fidelidade seu derradeiro argumento:    


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

AINDA SOBRE SE SE DEVE IR A QUALQUER MISSA TRIDENTINA


Carlos Nougué

Algumas (algumas!) vozes tradicionalistas criticam-me o ter dito que se pode e se deve ir a qualquer missa tridentina, como o faço eu mesmo. Pois reafirmo a posição. Uma coisa é alertar do perigo de que em sermões dessas missas padres modernistas destilem entre os fiéis doutrinas errôneas; e não cesso de mostrar as doutrinas nefastas que foram vitoriosas no CVII, como o podem confirmar todos os que me leem diariamente ou leem meus livros ou veem meus vídeos. Mas quem disse que não existia tal coisa antes do concílio? Não havia então padres modernistas a destilar suas más doutrinas nos sermões? Estava proibido assistir a missas de um Bea, de um Bugnini, de um Rahner? Ora, a missa tridentina é POR SI uma lição da mais perfeita teologia; e por isso mesmo é que os modernistas a substituíram pela missa nova, esse veneno POR SI tão perigoso para a fé. Deve-se até dizer que um bom sermão numa missa nova não a salva; pois deve dizer-se também que um mau sermão é incapaz de perder uma missa tridentina. Não deixa de ser perigosíssimo, e há que constantemente alertar disso os fiéis; mas, repita-se, não perde uma missa tridentina.
Depois, senhores, uma simples questão de bom senso. Quantos são os padres tradicionalistas? São capazes de celebrar a missa tridentina a todos os fiéis que desejam assistir a ela? NEM DE LONGE. Consequência: se só se deve assistir a missas tridentinas de padres tradicionalistas, então que os católicos que não sejam atendidos por estes padres continuem a assistir a missa nova! Isto é, sim, uma sorte de neodonatismo, e não contribui nem minimamente para ajudar os fiéis a (re)encontrar a tradição.
E por fim: Dom Lefebvre disse algo contrário ao que digo? Antes de tudo, deve-se ver em que contexto o fez. Depois, diga-se que, se tenho a Dom Lefebvre por referência ótima ou primeira quanto à crise da Igreja, isso não quer dizer que ele fosse inerrante -- o que deveria ser óbvio para todos.

Observação: o que disse da missa nova não diz respeito à sua validade ou invalidade, que estudarei no livro Da Missa Nova.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

OS DOCUMENTOS CONCILIARES CONTÉM DESVIOS DA FÉ, SIM!


Carlos Nougué


Não é incomum entre os próprios tradicionalistas (como Michael Davies) afirmar que os documentos do Vaticano II não contêm “heresias formais”, mas antes ambiguidades ou, nas palavras de D. Marcel Lefebvre, “bombas-relógio”. É que, segundo tais tradicionalistas, o Espírito Santo não permitiria que um concílio aprovasse “heresias formais”. Pois bem, no livro Do Papa Herético mostro tanto o equívoco do conceito de “heresia formal” quanto o fato de que esses documentos contêm, sim, não só bombas-relógio, mas efetivos desvios da fé (o argumento quanto à ação do Espírito esquece o fato de que o CVII e o magistério ligado a ele devem reduzir-se praticamente a magistério privado, ou seja, na maioria das vezes não se trata sequer de magistério meramente autêntico). É o caso do Decreto Ad Gentes, com suas heréticas “sementes do verbo”, e é o caso também, entre muitos outros, do “Decreto sobre o Ecumenismo”. Lê-se neste, com efeito: “Ao compararem as doutrinas, não esqueçam que há uma ordem ou uma 'hierarquia’ das verdades na doutrina católica, dado que é diversa sua conexão com o fundamento da fé cristã”. É evidente a intenção: que a Imaculada Concepção de Maria ou sua Assunção, por exemplo, não sirvam de pedra de tropeço para o ecumenismo com os protestantes. Mas, afinal, quem sou eu para dizer que tal passagem implica desvio da fé? Não sou eu quem o diz, mas Pio XI em Mortalium animos: “De modo algum é lícito estabelecer aquela diferença entre as verdades da fé que chamam fundamentais e não fundamentais, como gostam de dizer agora, das quais as primeiras deveriam ser aceitas por todos, e as segundas, ao contrário, poderiam deixar-se ao livre-arbítrio dos fiéis; pois a virtude da fé tem sua causa formal na autoridade de Deus revelador, que não admite nenhuma distinção desta sorte”. -- É que de fato, como o diz o Pe. Calderón, os documentos conciliares têm três notas principais: confusão, conexão (entre si), e proscrição, ou seja, sua doutrina já fora condenada pelos papas anteriores.

SE É VERDADE QUE A REFORMA LITÚRGICA TRAIU A "CONSTITUIÇÃO SOBRE A SAGRADA LITURGIA" DO CVII

Carlos Nougué

Pio VI condenou esta "definição" do sínodo jansenista de Pistoia: "Depois da consagração, Cristo encontra-se verdadeira, real e substancialmente presente sob as aparências de pão e de vinho e toda a substância do pão e do vinho desapareceu, e permanecem só as aparências". Por que a condenou, se parece tão ortodoxa? Por ter omitido o termo "transubstanciação", que fora usado por Trento para definir o modo da presença eucarística de Cristo. Pois tal omissão se repetiu na Constituição sobre a Sagrada Liturgia do CVII.
Ademais, na Mediator Dei Pio XII define a Liturgia pondo que é FUNDAMENTALMENTE um ato de culto tributado por Cristo, como cabeça da Igreja, ao Pai celestial (enquanto os fiéis o tributam a Cristo e, por meio deste, ao Pai celestial). Mas na Constituição sobre a Sagrada Liturgia do CVII o centro da Liturgia se desloca perceptivelmente para a participação dos fiéis, que na Mediator Dei se considerava importante, sim, mas não essencial (razão por que segue sendo ato de culto perfeito a missa privada, sem a presença de fiéis).
E muito mais, que tratarei no livro Da Missa Nova. Mas já é possível ir vendo que a reforma litúrgica que deu nascimento à missa nova não traiu o documento conciliar quanto ao essencial. Outro assunto é como é possível que um mesmo homem, Paulo VI, tenha escrito em 1965 a ortodoxa Mysterium Fidei e tenha aprovado uma reforma litúrgica que chegou a suprimir da forma da consagração do vinho a própria expressão "mysterium fidei". No referido livro mostrarei que comportamentos como este, aparentemente esquizoides, são porém o característico da própria "hermenêutica da continuidade" (cujos expoentes, além de Paulo VI, foram João Paulo II e Bento XVI).




Escreveu Monsenhor Gaume no século XIX:


“Arrancando-se-lhe a máscara, pergunte-se à Revolução: ‘Quem és tu?’, e ela dirá: ‘Eu não sou o que pensam. Muitos falam de mim e poucos me conhecem. Não sou o carbonarismo, nem o motim, nem a troca da monarquia pela república, nem a substituição de uma monarquia por outra, nem a perturbação momentânea da ordem pública. Eu não sou os latidos dos jacobinos, nem os furores de Montaigne, nem a guerrilha, nem a pilhagem, nem o incêndio, nem a reforma agrária, nem a guilhotina, nem as execuções. Não sou Marat, nem Robespierre, nem Babeuf, nem Mazzini, nem Kassuth. Esses homens são filhos meus, mas não eu. Essas coisas são obras minhas, mas não eu. Esses homens e essas coisas são passageiros, mas eu sou permanente. Eu sou o ódio a toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem e em que ele não seja ao mesmo tempo rei e deus. Sou a proclamação dos direitos do homem sem respeito pelos direitos de Deus. Sou Deus destronado e o homem posto em seu lugar. Eis por que me chamo Revolução, eis por que me chamo Subversão”.




MEU RITMO E DISCIPLINA DE TRABALHO E DE ESTUDO

Carlos Nougué

Um aluno da “Escola Tomista” pediu-me que lhe descrevesse o que se diz no título acima, e que o tornasse público, porque talvez pudesse ajudar a muitos. Não é fácil atender-lhe o pedido. Mas o tentarei, como abaixo.
1) Diga-se antes de tudo que o ritmo e a disciplina de trabalho e de estudo são, estritamente, individuais e dependentes de singularidades psicossomáticas e de condições relativas ao estado próprio (laico, ou religioso, ou sacerdotal). Portanto, o que escreverei não é de imitar, e sobretudo não se deve imitar se isto implica subtração aos deveres de estado próprio ou aos deveres religiosos. Que o que vem a seguir sirva apenas de estímulo e de certo norte.
2) Comecei a estudar o platonismo, o aristotelismo, o agostinismo, o tomismo aos 45 anos, mas aos 48 se me tornaram péssimas as condições para tal: devia traduzir e escrever dicionários durante cerca de 16 horas diárias para sustentar o tratamento contra o câncer de minha primeira esposa. Dois anos depois ela faleceria, e eu voltaria aos estudos.
3) Então fui progressivamente aumentando o tempo de estudos, que passou a ter uma média diária de sete horas. Note-se porém que desde então já não tenho televisão, desprezo os noticiários políticos, e apenas uma vez por semana tento dar uma olhada geral nas notícias, com leitura meramente oblíqua. (Ademais, não ponho uma gota de álcool na boca, razão por que, segundo Chesterton, não devem confiar em mim...) E desde então deixei o estudo para a noite/madrugada, ao final da qual passei a escutar durante uma hora mais ou menos música clássica ou ver um filme de qualidade. Mas note-se outra vez: sempre fui de dormir muito pouco: quatro, cinco horas sempre, desde criança, me foram bastantes.
4) Aos 52 voltei a casar-me, e voltei a um ritmo intenso de traduções e de escrita de dicionários, com o que tive de diminuir consideravelmente o tempo de estudos. Mas logo Deus me dadivaria uma bela surpresa: passei a dar aulas numa pós-graduação de Tradução e de Língua Portuguesa que só me ocupavam três dias (quase inteiros) na semana e me permitiram abandonar pouco a pouco a tradução e os dicionários. Voltei a mergulhar intensamente nos estudos, e comecei a suportar, nos dias em que não dava aula, cerca de dez horas de estudo, sempre com o reconforto posterior da boa música ou do bom cinema (da boa literatura já me ocupara até os 45 anos).
Observação: obviamente, há o imprescindível tempo reservado a sacramentos e orações, sempre ineludíveis, e, em meu caso, ao convívio familiar.
5) Como contudo nada dura para sempre nesta vida, fechou-se 10 anos depois a pós-graduação em que dava aula, problema que, se de início foi um baque, logo depois se superou. É que eu já estudara suficientemente, e na devida ordem das disciplinas, para dar cursos online de tomismo. Comecei com “Por uma Filosofia Tomista”, a que se seguiram outros. E continuava com meu ritmo de dez horas de estudos diários, com o refresco posterior da boa música, etc.
6) Não tardou todavia a que me julgasse capaz de escrever livros, e lancei meus dois primeiros: a Suma Gramatical da Língua Portuguesa (que me propicia um bom rendimento) e Opúsculos Tomistas (esgotado e sem previsão de reedição). Mas então diminuiu o tempo de estudo: passei a escrever durante dez horas diárias meus livros, e os estudos caíram para cerca de quatro horas diárias.
7) O próximo passo foi fundar a “Escola Tomista”, que é desde então meu principal ganha-pão e me permitiu escrever dois outros livros: Do Papa Herético e outros opúsculos e, o mais importante até hoje, Da Arte do Belo, sempre com a mesma relação horária entre escrita e estudos. A “Escola Tomista” me toma no máximo três horas semanais.
8) Como no entanto esta vida é um vale de lágrimas, fiquei muito doente no início do ano passado (sobretudo por um enfisema devido aos muitos cigarros que fumei até os 54 anos, e a uma dolorosa doença neurológica que tem algo de hereditária). No ano passado não consegui terminar de escrever nenhum novo livro, conquanto nunca tivesse parado de estudar seis, sete, oito horas nem de gravar as aulas da “Escola Tomista”, mesmo doente.
9) Este ano -- quando farei 68 anos -- estou melhor, e, conquanto tenha agora de lutar contra os efeitos colaterais de multidão de remédios -- sobretudo a sonolência --, pretendo lançar ao menos quatro livros (incluindo a atrasadíssima “Suma Retórica”, perdão). Se Deus quiser.
Observação final: não é difícil ver que aprendi algo com o mestre Tomás de Aquino: a busca da verdade, os estudos para tal, os livros escritos para tal são também um louvor a Deus. Viver para isto – junto sempre, é claro, dos sacramentos e das orações e dos deveres de estado, os quais vêm antes de tudo – é também honrar o nosso Criador, além de à nossa mesma natureza. Com efeito, diz Tomás de Aquino no proêmio de seu “Das Substâncias Separadas” que não por estar impossibilitado de comparecer ao ofício solene de louvor aos Anjos ele deixaria passar em branco o tempo de sua devoção: compensaria sua ausência no ofício escrevendo sobre eles (“Quia sacris Angelorum solemniis interesse non possumus, non debet nobis devotionis tempus transire in vacuum; sed quod psallendi officio subtrahitur, scribendi studio compensetur”).