quarta-feira, 28 de abril de 2021

CINCO NOVOS CURSOS MEUS GRATUITOS

                                                                                                                             Carlos Nougué

Omar Mansour já anunciou que disponibilizará cursos seus, o que esperamos com ansiedade. Mas em breve também Marcel e eu disponibilizaremos gratuitamente, na plataforma de cursos Estudos Tomistas, cinco novos cursos meus. São os seguintes:

1) A Cristandade Medieval;

2) As Três Revoluções;

3) Catolicismo e Ciências Modernas;

4) Como Ler Santo Tomás;

5) Os Filósofos Modernos e o Declínio da Cristandade.

Depois virão outros e outras coisas. Lembro, porém, que já há na plataforma outros cursos gratuitos meus, além dos pagos:

https://estudostomistas.eadplataforma.com/

sábado, 24 de abril de 2021

O GRANDE RESET

                                                                                                                     Carlos Nougué

 O que deveriam fazer nos dias de hoje e como sempre os católicos que têm alguma influência pública? Proclamar e proclamar que só se daria um verdadeiro reset se o mundo (ou parte importante dele) se pusesse sob o reinado social de Cristo. Se no entanto ficam a discutir um esdrúxulo reset inventado nas obscuras oficinas de Klaus Schwab, por um lado, e do QAnon, por outro, prestam um desserviço à fé -- até porque a pandemia fez retroceder o globalismo: crise econômica aguda, aumento do protecionismo econômico das nações, interrupção da imigração islâmica, confinamento dos cidadãos em territórios nacionais e das famílias em seus lares, e grave confronto entre EUA-Europa e Rússia-China. Além do mais, e por fim, entenda-se de uma vez por todas que a revolução, em todas as suas faces, já está mais que vitoriosa, razão por que não tem necessidade de nada oculto senão quanto aos embates entre as próprias nações revolucionárias. Repito o que já disse em outros lugares: Deixemos de brincar de detetive, e cumpramos o nosso papel.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

O espírito liberal no meio católico na atual pandemia - Prof. Carlos Nougué

A MÃO PESADA DE DEUS

                                                                                                Carlos Nougué

 Os que hoje ainda negam a gravidade imensa da atual pandemia fazem-no por dois motivos. Primeiro, porque não têm o olhar da fé (ainda que se digam catolicíssimos...) para ver que a atual pandemia é um flagelo de Deus em punição da apostasia geral das nações (e na Igreja) e de suas legislações anticristãs e contranatura. Segundo, porque seguem algum guru ou santarrão liberal-conservador e/ou perenialista, cujo sucesso (tão efêmero) depende de manter vivo o espantalho do comunismo: todos os males do mundo advém do comunismo, como se a maioria das nações revolucionárias de hoje não fosse liberal e marcusiana ou sado-libertina. Com efeito, crer que Biden é comunista é crer em conto de fadas. Mas é que o liberal-conservadorismo, católico ou não, não quer reconhecer que todos os males se reduzem não ao comunismo, mas ao demônio, ao mundo e à carne. Ou seja, o segundo motivo reduz-se ao primeiro. E o que há de mais ridículo que católicos, clérigos ou leigos, se tornem paladinos da rebeldiazinha liberal contra máscaras, lockdowns e vacinas? Deixam de cumprir seu papel, que é o de clamar que ou as nações se porão sob o reinado de Cristo, ou serão sempre carniça para demônios. É a lição do Apocalipse de São João, que, porém, infelizmente, tantos católicos -- em geral os mesmos que negam a gravidade da pandemia -- não querem ler senão superficialmente, para continuar a anunciar o fim dos tempos próximo (oh!), a crer na necessidade de estocar alimentos, de comprar certas velas, etc. -- e a brandir o espantalho do comunismo (e o elogio do capitalismo). A conclusão é inescapável: o flagelo justiceiro de Deus não é só a dura pandemia, mas o endurecimento dos corações, tal qual Ele fez ao faraó do livro do Êxodo, o qual via mas não cria. 

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/04/22/india-registra-recorde-de-casos-de-covid-quase-315-mil-em-um-dia.ghtml?fbclid=IwAR2l0lwIvIrZV0T97KfVxOEXnXQINBHSq0_pKK1U9DBqr9xfmSzUh3MdzYQ

sexta-feira, 9 de abril de 2021

A OBEDIÊNCIA DEVIDA PELO CATÓLICO ÀS AUTORIDADES CIVIS: A VOZ DO MAGISTÉRIO AUTÊNTICO DA IGREJA

Com efeito, escreve o Papa Gregório XVI na Encíclica Mirari vos:

“Condenação da rebeldia contra as autoridades

13. Mas, tendo sido divulgadas, em escritos que correm por todas as partes, certas doutrinas que lançam por terra a fidelidade e a submissão que se devem aos príncipes, com o que se alenta o fogo da rebelião, deve-se vigiar atentamente para que os povos, enganados, não se afastem do caminho do bem. Saibam todos que, como disse o apóstolo, toda autoridade vem de Deus e todas as que existem foram ordenadas por Deus. Aquele, pois, que resiste à autoridade resiste à ordem de Deus e se condena a si mesmo (Rom 13, 2). Portanto, os que com torpes maquinações de rebelião se subtraem à fidelidade que devem aos príncipes, querendo tirar-lhes a autoridade que possuem, ouçam como contra eles clamam todos os direitos divinos e humanos. 14. Não era este, certamente, o proceder dos primeiros cristãos, os quais, para obviar a tão grave falta, ainda que em meio das terríveis perseguições suscitadas contra eles, se distinguiram por seu zelo em obedecer aos imperadores e em lutar pela integridade do império, como provaram quer no pronto cumprimento de quanto lhes era ordenado (sempre que não se opusesse à sua fé de cristãos), quer vertendo seu sangue nas batalhas, pelejando contra os inimigos do império. Os soldados cristãos, diz Santo Agostinho, serviram fielmente aos imperadores infiéis, mas, quando se tratava da causa de Cristo, outro imperador não reconheceram que o dos céus. Distinguiam o Senhor eterno do senhor temporal; e, não obstante, pelo primeiro obedeciam ao segundo (In Ps. 124. n. 7).”

segunda-feira, 5 de abril de 2021

A NECESSIDADE DA GRAÇA PARA UMA BOA VIDA DE ESTUDOS E DE ESCRITA

                                                                                                                     Carlos Nougué 

Santo Tomás, na “Suma Teológica”, diz que em princípio alguém pode ser moralista sem ter uma vida moral. E está corretíssimo. Mas há que acrescentar a isso outras coisas ditas pelo mesmo Santo ao longo de sua vasta obra. Sobretudo, que, tendo o pecado original afetado de modo profundo a capacidade de operação de nossas potências – e a operação é o último grau de perfeição do ente –, o fato é que sem o auxílio da graça um moralista que não tenha vida moral não poderá alcançar maiores alturas na ciência ética, de modo que contribua para sua ampliação. Veja-se o caso de S. Tomás, que foi cinzelado especialmente por Deus para, isento de toda tentação, escrever as maiores obras de que o espírito humano já foi capaz. Mas alma tão beneficiada não poderia deixar de ser mística no sentido preciso de estar em união perpétua com Deus, o que, se sem dúvida se deve à graça, supõe por outro lado méritos devidos ao bom uso do livre-arbítrio sem os quais S. Tomás não teria crescido na amizade com Deus. Nada disto quer dizer, todavia, que a obra de S. Tomás seja mística no sentido em que o são as obras de um S. João da Cruz. A do Dr. Angélico é teológico-sagrada em sentido estrito, ainda que possa dizer-se mística em sentido lato; mas, por ser teológico-sagrada em sentido estrito, supõe da parte de seu autor considerável esforço de estudo próprio, e estudo no sentido corrente. O que sucede é que suas conclusões que tangenciam o místico podem dizer-se em palavras perfeitamente humanas e cristalinas, com o que se negam, assim, os exageros “místicos” ou gnósticos ou modernistas que hoje infestam de tantos modos a Igreja – ao passo que as obras de um S. João da Cruz não raro se vazam em metáforas (ou analogias de proporção imprópria), porque, com efeito, S. João da Cruz não quer concluir ao modo teológico-sagrado, o que supõe o silogismo demonstrativo, mas expor na medida do possível uma experiência sobrenatural. E tanto é verdade o que digo, que o mesmo S. Tomás, após ter tido, ao que parece – e como Moisés e S. Paulo –, um vislumbre da essência de Deus, já não quis escrever, porque para ele escrever significava fazê-lo por silogismos demonstrativos. – Como quer que seja, de todo o dito aqui fiquemos com o seguinte: ninguém será grande metafísico nem muito menos bom teólogo sem o auxílio da graça, sem vida de oração, e sem estar em amizade com Deus. Se se nega isto, nega-se ipso facto que nossa natureza esteja decaída por causa do pecado original. Mas, hão de objetar, Aristóteles e Platão eram pagãos e no entanto eram grandes metafísicos... Ao que se deve responder: Crê-se que o Espírito Santo deixou de agir em almas como a de Platão e a de Aristóteles? crê-se que estes não receberam graças atuais para ser o que foram? Neste caso, crê-se mal.

domingo, 28 de março de 2021

IDEOLOGIA E CONSPIRACIONISMO – E A NEGAÇÃO DO EVIDENTE

                                                                                                      Carlos Nougué

A ideologia cega seus aderentes até para o que é evidente. Por exemplo, os comunistas, ante o fracasso universal de seu sistema, atribuem tal fracasso ao “socialismo real”, não ao “ideal”. Os liberais, por seu lado, negam-se a ver que sua “liberdade de expressão” é uma quimera, mesmo ante o fato de que têm de tirar a liberdade de expressão a quem é contra ela ou, se não forem demasiado estúpidos (coisa difícil), aos mesmos comunistas, que só se valem dela na democracia liberal para depois bani-la na ditadura do proletariado. – Mas os atuais conspiracionistas de direita, incluindo tantos católicos, também negam o evidente. Seu guru nacional continua a negar a gravidade da atual epidemia – a serviço de quem ou de que está esse homem? O fato, todavia, é que ele faz escola. Ouvi um católico bolsolavete negar que a covid-19 tivesse caído drasticamente em Israel graças à vacinação maciça. Por quê? Segundo ele, porque não se pode confiar em judeu!... Não é porém sua mesma corrente a que louva não só os EUA, mas Israel? Deve ser uma nova subcorrente: o sionismo antissemita... – Em verdade, tal conspiracionismo pode reduzir-se facilmente à ideologia e suas estupidezes.

Observação. Senhores católicos tradicional-conspiracionistas: as conspirações contra a Igreja Católica, tão intensas do século XVIII ao XX, terminaram. Por que o digo? Pelo simples fato de que tais conspirações já foram vitoriosas e seus agentes estão no poder em todo o mundo, em plena luz do dia, com a aquiescência de ninguém menos que a atual hierarquia da Igreja. Deixem de brincar de detetive e cumpram o que deveria ser sua ação precípua: propagar a doutrina da realeza de Cristo.


 

sexta-feira, 5 de março de 2021

O Cardeal Caetano sustenta a mesma tese que S. Tomás e o magistério autêntico e infalível da Igreja com respeito às relações entre o poder espiritual e o poder temporal

                                                                                                                         Carlos Nougué

Ao comentar a passagem da Suma Teológica em que S. Tomás faz a analogia entre os dois poderes temporal e espiritual na igreja e o corpo e a alma no homem (II-II, q. 60, a. 6, ad 3), anota o Cardeal Caetano com sua costumeira clareza: “A alma preside ao corpo segundo uma tripla ordem de causalidade: segundo a causalidade eficiente, porque é a causa dos movimentos corporais do animal; segundo a causa formal, porque é a forma do corpo; segundo a causa final, porque o corpo é para a alma. Dá-se o mesmo, proporcionalmente, no poder espiritual com respeito ao poder secular: o poder que dispõe as coisas espirituais tem função de forma com respeito ao que dispõe as coisas seculares; estas estão ordenadas como a seu fim às coisas espirituais e eternas; e, como o fim mais alto corresponde ao agente mais elevado, pertence ao poder espiritual o mover e dirigir o poder temporal, e tudo aquilo que está sob seu domínio, para o fim supremo espiritual”.

Pergunte-se, pois: Como é possível que alguém se arvore a tomista e ao mesmo tempo, defendendo o CVII, negue a doutrina da subordinação essencial do poder temporal ao espiritual que este concílio iniquamente rechaçou ao destronar a Cristo? É difícil não concluir que quem o faz age com malícia, fingindo não ver a incompatibilidade radical, também quanto a isto, entre S. Tomás e o CVII.




quarta-feira, 3 de março de 2021

O MAIOR DOS FÍSICOS É TAMBÉM O PADRE ÁLVARO CALDERÓN

                                                                                                                     Carlos Nougué

Para ilustrá-lo, leia-se esta passagem de seu mais recente livro, El orden sobrenatural: “As coisas naturais caracterizam-se, da maneira mais geral, pela corporeidade, que poderia definir-se por duas propriedades principais, a magnitude, quantidade contínua, que provém da matéria, com suas formas e figuras características de cada coisa; e a massa, qualidade passível, que provém da forma, com sua distribuição de densidade característica na quantidade de cada coisa. A massa pode definir-se como o vigor da corporeidade da substância natural [!!!!!!]; e, assim como é a primeira qualidade fundamental das coisas naturais, funda o primeiro apetite natural, a saber, a gravidade. A gravidade é potência passiva, e pode definir-se como o apetite dos corpos por incorporar os corpos próximos [!!!!!!!]. Se for [só] por isso, a massa tende a concentrar a quantidade e fazer de [todo] o universo corporal uma [só] bolinha; se nosso corpo mantém sua figura humana, é porque as forças eletromagnéticas a mantêm ‘na linha’ (e as forças nucleares mantêm ‘na linha’ as [forças] eletromagnéticas para que não nos dispersem em poeira de prótons)”.

É do P. Calderón o prêmio “Nobel” de Física outorgado pela Verdade; e, se Deus quiser, teremos ainda este ano a publicação de seu Curso de Física como tomo III de La naturaleza y sus causas. Sejamos-lhe sempre muito agradecidos.




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

UM SÓ EXEMPLINHO PARA OS QUE DESCREEM DE QUE A DOUTRINA DE S. TOMÁS PROGREDIU

                                                                                                                         Carlos Nougué

1) No Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, o jovem Tomás escrevia: “Portanto, deve dizer-se, com outros, que o nome ‘verbo’, por virtude do vocábulo, pode tomar-se personaliter e essentialiter [pessoalmente e essencialmente]”.

2) Em De veritate, um Tomás recém-entrado na vida intelectual adulta já escrevia: “Se ‘verbo’ se toma propriamente no divino, não se diz senão personaliter; se, em contrapartida, se toma comumente [ou em geral], pode dizer-se também essentialiter”.

3) Mas na Suma Teológica o S. Tomás mais maduro é taxativo: “O nome ‘Verbo’ no divino, se se toma propriamente, é nome pessoal e nullo modo essentiale [de modo algum essencial]”.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O MAIOR DOS TOMISTAS

                                                                                                                                                                                                                                         Carlos Nougué

1) A história do tomismo, a partir da morte mesma de S. Tomás de Aquino, é uma história de sítio: desde a condenação de várias teses de S. Tomás pelo bispo de Paris Étienne Tempier até as adúlteras tentativas atuais de domesticar o tomismo fazendo-o amancebar-se com doutrinas espúrias e de todo alheias a ele, são sete séculos de resistência da parte de multidão de tomistas. Mas há que reconhecer que, pelo fato mesmo de o tomismo estar de mistura nas universidades com o scotismo, com o nominalismo, com o cartesianismo, com o kantismo, com o hegelianismo, com o existencialismo, quase nenhum dos grandes tomistas se mostrou infenso a alguma influência deformante de tais doutrinas. Não se veja nesta afirmação, todavia, um como zelo amargo de minha parte. Ao contrário, reconheço nesses homens verdadeiros heróis, cujo esforço teorético, muitas vezes inaudito, manteve acesa a chama da única doutrina filosófico-teológica que a Igreja fez sua (como o disseram João XXII, Bento XIII, Leão XIII, S. Pio X, Bento XV, Pio XI, Pio XII...). Uma coisa porém é reconhecê-lo; outra, muito diferente, calar suas insuficiências em nome de uma reverência que nada tem que fazer no campo da ciência.

Observação: só falarei aqui dos tomistas mais importantes e que, ademais, conheço, sem nem de longe, obviamente, ter a pretensão de esgotar o assunto.

2) E a primeira e mais clamorosa falha dos grandes tomistas foi uma compreensível mas tão indevida reverência por Santo Tomás, que os impediu de ver que a doutrina do nosso Doutor progrediu. Com efeito, tanto no campo ontológico como, sobretudo, no gnosiológico, uma coisa é o Santo Tomás de Do Ente e da Essência, do De veritate, dos Comentários a Boécio, do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, etc., e outra é o Santo Tomás das Questões Disputadas sobre a Alma, do Comentário ao Liber de causis, das duas Sumas, do Compêndio de Teologia, do opúsculo Das Substâncias Separadas, etc. Entenda-se: não é que a doutrina de S. Tomás maduro ou sênior já não estivesse em germe na de S. Tomás jovem ou júnior. Estava-o, mas ao modo como um adulto bem formado está já presente nos desarmônicos membros de um adolescente. Pois bem, tal “desarmonia” tem um nome: a sombra de Avicena. S. Tomás foi pupilo de um grande avicenista, S. Alberto Magno, e, ademais, todo o ambiente universitário de então estava grandemente impregnado de avicenismo, quando não de averroísmo (lembre-se aliás que S. Tomás passou de chamar a Averróis “o Comentador [de Aristóteles]” a chamar-lhe, em A Unidade do Intelecto contra os Averroístas, “o Corruptor [de Aristóteles]”). Permaneceu-lhe essa sombra mais de uma década; mas S. Tomás livrou-se de todo dela, salvo pelo eventual uso de terminologia não tomista (antes avicenista ou até boeciana) em prol da compreensão de sua doutrina por parte de seus ouvintes e leitores de então. – Mas quem entre os tomistas foi capaz de assinalar vigorosa e taxativamente tal progressão doutrinal em S. Tomás? Quem foi capaz de mostrar que se não se reconhece tal progressão o tomismo fica indefeso ante a investida de doutrinas forâneas? O Mestre auxiliar de Tomás por antonomásia, o Cardeal Caetano? Este que vos escreve? Não. Foi o Padre Álvaro Calderón, sete séculos depois da morte de S. Tomás.             

3) Mas, se se trata da Lógica, quem deve dizer-se o maior dos tomistas? O Cardeal Caetano e sua negação da principalidade da analogia de atribuição intrínseca? João de S. Tomás e sua crença em que fosse do Mestre Tomás o longo e confuso opúsculo Summa totius Logicae Aristotelis, uma das causas pelas quais o mesmo João de Santo Tomás fundou toda uma longa escola (que culmina em Jacques Maritain) fundada, por sua vez, no triste imbroglio quanto à distinção entre lógica formal e lógica material? – Não. Na Lógica, o maior dos tomistas, sobretudo por seu De Analogia, é o P. Santiago Ramírez O.P., vindo logo depois o P. Calderón pela impressionante Introdução à Lógica de seus Umbrales de la Filosofía.

4) E quanto à Física? Reina absoluto o P. Álvaro Calderón, pelos dois tomos de La naturaleza y sus causas e pelo esotérico Curso de Física (ou melhor, de Cosmologia), que, Deo gratias, parece se publicará este ano como o terceiro tomo de La naturaleza... É verdade que La naturaleza... segue de perto o tratado físico de João de S. Tomás; mas, sem negá-lo, ultrapassa-o grandemente, além de que é o P. Calderón o primeiro tomista a assimilar perfeitamente as ciências modernas sem concordismo fácil. “Só” isto.

5) Se se trata porém da Política, qual será o maior dos tomistas? Aqui, é preciso falar antes da multidão de corruptores da doutrina política tomista (a da maturidade, a exposta, por exemplo, em Do Reino e na Suma Teológica, doutrina que em verdade é a mesma do magistério infalível da Igreja quanto à realeza de Cristo). A decadência começa com o nominalismo disfarçado de tomismo de Francisco de Vitoria e prossegue com Francisco Suárez, o introdutor nas escolas católicas de uma noção análoga à da vontade geral de Jean-Jacques Rousseau; para culminar, no século XX, numa sucessão de deformações mais ou menos graves, presentes no Cardeal Billot, em Louis Lachance, em Santiago Ramírez, no Cardeal Ottaviani e, sobretudo, em Jacques Maritain, o verdadeiro fautor do destronamento de Cristo no CVII. A tal sucessiva e longa débâcle não escaparam senão, imperfeitamente, S. Roberto Belarmino (que porém não era tomista) e, mais perfeitamente, o Cardeal Pie de Poitiers e o leigo Jean Ousset – e, muito à frente de todos, o nosso Padre Calderón, com Prometeu: a Religião do Homem e El Reino de Dios (e outros que ainda virão, se Deus quiser).

6) Quanto à tentativa geral de retornar a um tomismo mais puro, destacaram-se, já após Leão XIII, os padres Hugon, Gardeil e Fabro; mas nem sequer puderam divisar a perfeição com que o faria o P. Calderón ao longo de todas as suas obras (e trata-se de retorno, insista-se, a Santo Tomás sênior). Registre-se no entanto que aqui também há que destacar o P. Santiago Ramírez, cujo tropeço maior, como assinalado acima, foi na Política.

7) Mas, depois da Política, é na Psicologia e na Metafísica (as quais em prol da facilidade aqui misturo) que se há de falar de maior superioridade do P. Álvaro Calderón com respeito a todos os outros grandes tomistas. Por partes.

a) Antes de tudo, só o P. Calderón e poucos mais, depois de S. Tomás, não cederam de modo algum à tentação de dividir a Metafísica em partes subjetivas. Com efeito, os neotomistas tomaram de Leibniz, ainda que só de certo modo, a chamada “Teodiceia”, mediante a qual Leibniz pretendia conciliar Deus e o mal no mundo. Mas o que encontrou não é nada tomista, e Tomás de Aquino respondera-lhe previamente a ele de modo cabal em sua vasta obra. Sucede todavia que ao menos quase todos os neotomistas dividem a Metafísica em Ontologia e em Teodiceia, com o que se infringe a unidade simpliciter da Metafísica: esta, como a Teologia Sagrada, não tem partes subjetivas. É verdade também, infelizmente, que desde séculos anteriores alguns doutores e teólogos católicos passaram a dar à Teologia Sagrada partes subjetivas: Teologia Dogmática, Teologia Moral, etc. Mas a coisa agravou-se no âmbito do neotomismo.

b) Em várias obras, diz Garrigou-Lagrange O.P. que o “princípio de identidade” é o primeiro dos primeiros princípios; e ele certamente não foi o primeiro a dizê-lo. Por outro lado, em sua A Essência do Tomismo, Manser O.P. põe o “princípio da razão suficiente” entre os primeiros princípios. Mas nada disso é de Aristóteles nem de Tomás de Aquino: ambas as coisas são de Leibniz. Não que por serem de Leibniz sejam erradas; mas o fato é que também nisso errou Leibniz. O “princípio de identidade” (“todo ser é o que é”) responde ao matematicismo cartesiano-leibniziano, e corresponde à famosa e vácua fórmula 1 = 1 ou, algebricamente, A = A. Aí está um modo de ser profundo sem dizer absolutamente nada. Quanto porém ao “princípio da razão suficiente” (“nada existe sem razão suficiente”), responde ao idealismo de Leibniz: Deus conhecia todos os mundos possíveis, mas, como por sua sabedoria não podia agir sem razão suficiente, de todos os mundos possíveis só fez o melhor. É o chamado “otimismo” leibniziano. Mas Tomás de Aquino demonstra na Suma Teológica que Deus poderia ter criado outro e melhor mundo, ainda que nenhum mundo que Deus criasse pudesse ser inconveniente.

c) Quanto à distinção real entre essentia e esse (ou actus essendi, ato de ser), distinção que é o gonzo em torno do qual gira o tomismo, a maioria dos tomistas a defende expressamente, mas quase nunca convenientemente. Por quê? Porque confundem de algum modo ser ou ato de ser e existência ou ato de existir, com o que põem a perder de algum modo a distinção. Foi o P. Cornelio Fabro o campeão de um retorno mais perfeito ao gonzo do tomismo. Mas tampouco o fez perfeitamente, porque, com efeito, não deixa de incorrer em entitatismo, ou seja, o atribuir aos princípios de um composto a entitatividade deste, além de tentar engessar a doutrina com um rigor terminológico exacerbado. – De modo que também quanto a este ponto capital é o P. Calderón quem leva a palma: sobretudo em seu mais recente livro, El orden sobrenatural, o nosso sacerdote alcança a perfeita penetração da mente do Mestre Tomás.

d) Quanto ademais ao verbo mental  (a terminologia é dos tomistas, incluindo o P. Calderón, conquanto eu prefira chamá-lo verbo cordial, como insisto nas aulas da Escola Tomista), os tomistas dividem-se em dois extremos: o essencialismo de um Fabro ou de um Tonquédec (esta brecha para um indébito acordo com a epoché husserliana, tal como tentado por Edith Stein e pelos ecléticos tomistas de Navarra) e o existencialismo de um Maritain ou de um Gilson (e, ao cabo, também de Fabro, que aliás terminou sua carreira como um perfeito existencialista ao modo de Kierkegaard com uma boa pitada de voluntarismo scotista). Mas é outra vez o P. Calderón quem resgata a verdadeira doutrina do Mestre Tomás maduro, como se vê em seu mais recente livro.

e) Se se trata contudo da conversio ad phantasmata (a conversão ou retorno aos fantasmas) – ponto fulcral da Psicologia tomista –, efetivamente não conheço ninguém que sequer se aproxime do P. Calderón. É verdade que o P. Fabro e o Ferrariense (Francesco Silvestri) já haviam avançado bastante neste ponto; mas não haviam deixado de ficar a meio caminho. Leia-se El orden sobrenatural do P. Calderón, e saber-se-á por que o digo.

f) Quanto, por fim, ao “constitutivo formal” da essência divina, temos de um lado o tomismo autêntico (Capreolo, Báñez, Ledesma, Del Prado, Garrigou-Lagrange, Álvaro Calderón...) e de outro o tomismo espúrio (João de S. Tomás, os Salmanticenses, Billuart, Gonet...).

8) Se porém agora damos um salto para a Teologia Sagrada e para o espinhoso tema da predestinação, confesso que a doutrina de nenhum dos tomistas que li (e li muitos) foi capaz de agradar-me suficientemente, razão por que ainda fico com minha mesma exposição sobre o assunto em “Se Se Deve Rezar pela Salvação do Mundo” (in Do Papa Herético e outros opúsculos), que pretendo seja de todo fiel ao Santo Tomás da Suma Teológica. Veja-se, no entanto, que o P. Calderón nunca escreveu sobre isto.

Observação: aliás, por falar em mim, quanto à Arte do Belo, quanto à Gramática e quanto à questão do papa herético, minha referência sou eu mesmo; assim como creio que acabarei por ter como referências meu Comentário ao Apocalipse e minhas Questões Metafísicas... Se assim não fosse, por que afinal haveria de escrever livros?

9) Quer dizer então, Carlos Nougué, que o senhor não tem nenhuma divergência com o P. Álvaro Calderón? Tenho. Cito duas: a ordem em que se devem estudar as partes potenciais da Lógica (como o assinalo em “A Ordem das Disciplinas”, in Estudos Tomistas – Opúsculos II), e o caráter preciso da primeira operação do espírito (razão por que escrevi “Das Duas Primeiras Operações do Intelecto: uma Crítica a Maritain e a Outros Tomistas [incluindo o P. Calderón]”, in Do Papa Herético e outros opúsculos). Assinale-se todavia que, em seu mais recente livro, parece que o P. Calderón já não incorre, quanto à referida primeira operação, na deficiência que encontro nos Umbrales de la Filosofía.

10) Mas que são essas bagatelas diante do oceano de acertos do P. Álvaro Calderón? E não deixa de assombrar-me ver tantos narizes torcidos quando digo que o P. Calderón é meu grande mestre (depois de Tomás de Aquino, claro) e sobretudo que é o maior dos tomistas. Sua contemporaneidade o impediria? Mas tampouco deixa de assombrar-me, ou antes, horrorizar-me, que a obra do P. Calderón seja amplamente desconhecida no mesmo mundo hispânico e só tenha começado a traduzir-se ao português (do Brasil), mas não ao inglês, ao francês, ao alemão, ao italiano... Para mim, isso é uma sorte de “mistério de iniquidade.

Observação: quem sabe, no entanto, se o isolamento do Padre em seu amado Seminário de La Reja não é justamente uma das precondições para a grandeza e pureza de sua obra?

11) Muitos contudo hão de perguntar-se: Quem é esse Carlos Nougué para dizer tudo isso que acabamos de ler? Resposta simplicíssima: Sou este mesmo que vos escreve.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

QUE DEVE DIZER O TOMISMO DA DOUTRINA CENTRAL DE XAVIER ZUBIRI?

                                                                                                                         Carlos Nougué

Xavier Zubiri, condenado em vida por modernista e cuja obra conheço muito bem por tê-la traduzido quase toda, tem por doutrina central que a inteligência humana é “senciente” (ou, como preferem outros, “sentinte”), isto é, conhece concomitante e sinteticamente de modo sensitivo e racional, sendo o homem um “animal de realidades”. Como responder tomisticamente a isto? Ao modo essencialista de um Fabro ou de um Tonquédec (essa brecha para um indébito acordo com a epoché husserliana), ou ao modo existencialista de um Gilson ou de um Maritain (e, ao cabo, também de um Fabro)? Ou ao modo entitatista, modo esse quase geral entre os tomistas? De maneira alguma: fazê-lo é acabar por dar razão a Zubiri, porque, com efeito, Zubiri toca em cheio e dolorosamente um nervo sensível do tomismo, o que vem de Santo Tomás jovem e aviceniano para alcançar de algum modo, insista-se, a quase totalidade dos tomistas. A maneira como se deve responder a Zubiri quanto a isto é de todo outra, e supõe o resgate e o aprofundamento de Santo Tomás maduro (o das Questões Disputadas sobre a Alma, da Suma Teológica, etc.), coisa que, sejamos justos, já começou a fazer o mesmo Fabro em Percepção e Pensamento (ainda que algo contraditoriamente e em forma, digamos, de “insight”). Mas é o que pretendo mostrar e fazer o mais cabalmente possível em uma de minhas futuras Questões Metafísicas: “Santo Tomás e/ou Xavier Zubiri? – Do Sentido ao Verbo Cordial”.




sábado, 20 de fevereiro de 2021

O CORÃO E A SUNA – OBSCURIDADES E INCONGRUÊNCIAS*

                                                                                                                 Carlos Nougué

Se há pouco mais de dois mil anos o cristianismo nascia, humildemente, numa manjedoura, seguindo-se a tal nascimento uma paixão e morte de cruz que redimiria o gênero humano e, depois, séculos de martírios que regariam  o solo do Império Romano para que dele brotasse a cristandade, há pouco menos de mil e quatrocentos anos o islã começava a impor sua sanha de conquista guerreira sob uma lei sangrenta, sanha que não só perdura até hoje mas cresce, num ambiente mundial de tintas apocalípticas. E uma das primeiras razões de tão grande diferença podemos encontrá-la, por signo invertido, nas próprias origens do islã.

Com efeito, apesar de maquiada de mil maneiras, é extrema a pobreza das fontes que nos dariam ciência dessas origens. Não há documento que nos faça remontar à fundação do islã, e o que primeiramente podemos saber deste é de época muito posterior a Maomé – tudo sempre submetido a manipulações e adulterações. E isto com respeito também à mesma vida de seu fundador. Mas os próprios muçulmanos usam para conhecê-las o Corão e a tradição islâmica, os quais, todavia, pela falta de coerência daquele e pela carência de historicidade desta, são demasiado duvidosos – para dizer o menos.

Em razão de tudo isso, muitas das conclusões a respeito do islã a que chegam estudiosos modernos e imparciais não podem ser mais que hipóteses. Mas, em contrapartida, e em primeiro lugar, a estrutura geral do Corão – que, insista-se, para os muçulmanos é um livro revelado – já parece suficientemente clara.

“Corão” (Qoran) significa ‘lecionário’ ou ‘recitação’, ou seja, trata-se de livro para ser recitado religiosamente. Para os muçulmanos ortodoxos, é incriado, ou melhor, é uma reprodução do paradigma ou protótipo da religião divina guardado no céu desde a eternidade; e, ademais, vazado que é no idioma árabe, é não só fonética e graficamente idêntico ao original celeste mas, de algum modo, coeterno a ele. Tanto é assim, que o Corão teria sido ditado a Maomé diretamente pelo Arcanjo Gabriel durante dezenas de anos, para que depois seu profeta pudesse repeti-lo aos discípulos e estes o memorizassem. 

Após a morte de Maomé, no entanto, o califa Otmã (cerca de 579-656) mandou que se recolhessem todas as partes do texto, escritas em diversos materiais, e se queimassem, sendo seus donos condenados à morte. Não foi porém a única destruição: outras se seguiriam, como a empreendida sob o califado de Abu Bakr (em 665). Resultado: hoje não resta quase nenhum documento anterior ao século IX. Mas, segundo a mesma tradição muçulmana, a transcrição final do Corão empreendeu-a Abd al-Malik (685-705), unificando a ortografia e procedendo a correções que esquivassem omissões e confusões patentes; e só no século X é que se adotou um sistema consonântico unificado, com o que se limitava a sete o número de interpretações possíveis. – Mas acompanhemos mais de perto o texto do Corão que conhecemos.

Para confirmar seu caráter revelado, o Corão vale-se da história de uma viagem noturna. Certa noite, e por inspiração divina, Maomé deixou Meca tendo por guia o Arcanjo Gabriel. Montado num cavalo, Buraq, viajou pelo ar até Jerusalém e aterrissou no Monte do Templo, onde viu a Abraão, a Moisés, a Jesus e a outros profetas que, postos atrás dele, oravam com ele. Diante de dois cálices ali surgidos, um cheio de vinho e o outro de leite, o novo profeta escolheu o segundo, escolha aprovada pelo arcanjo. Em seguida, de um salto poderoso que deixou uma marca impressa na Rocha e ajudado por anjos, Maomé subiu de céu em céu até o sétimo e último, o mais próximo de Deus, que lhe deu as orações (cinco) que os muçulmanos deveriam rezar todo dia. Foi ali que Maomé estudou o Corão celeste; mas esqueceu-o antes de ir-se dali. Desceu e voltou a cavalo (alado) a Meca, onde anunciou a chegada iminente de uma caravana que ele mesmo sobrevoara. Como ela de fato chegou, mostrou-se assim a veracidade de sua subida aos céus e de sua visão de Deus.

Sem que ele tivesse esquecido o Corão celeste, não se explicariam dois elementos do Corão terreno: a existência do Livro ao lado de Deus, e o ter sido ditado pelo arcanjo. Quem o disse? Os próprios califas. Ademais, a subida do profeta aos céus tinha de fazer-se em Jerusalém, lugar sagrado, onde o islã deitaria raízes mediante conquista. Estava selada a vinculação do Maomé com o templo; e a mesquita de Al-Aqsa construir-se-ia noventa anos despois sobre a mesma rocha de que ascendera ao céu o novo profeta. O Monte do Templo converteu-se, assim, no segundo lugar mais sagrado do islamismo. – Mas aprofundemo-nos ainda no Corão.

Hannah Zacharias (pseudônimo do Padre Théry) e o Padre Bertuel, discípulo seu, identificaram muitos elementos judaicos no Corão. O Padre Gallez, por seu turno, voltando a investigar o assunto, deu uma solução que a muitos especialistas parece a mais provável: o essencial da doutrina do Corão foi tomado da doutrina da seita dos judeu-nazarenos, a qual mesclava as esperanças terrenas de Israel e a religião cristã. Conheceram e combateram seitas como esta os Padres da Igreja; mas, ao que tudo indica, a dos judeu-nazarenos sobreviveu muito tempo às demais e procurou aliar-se a árabes que viviam na Síria para tentar levar a efeito seu intento messiânico.

O texto-base para a elaboração do Corão teria sido, portanto, certo catecismo judeu-nazareno, escrito em árabe para converter os árabes à seita e envolvê-los em seu objetivo: a reconstrução do templo de Jerusalém e a disseminação de um culto puro e capaz de alcançar o retorno do Messias e seu reinado de mil anos – o milênio que teria sido anunciado no Apocalipse e em que, por influência de Papias (um discípulo de São João), creram muitos Padres. E teria sido tal catecismo justamente o que Maomé pregou para atrair seus próprios concidadãos à mesma seita, que ele conhecera por sua primeira esposa. E do que se acaba de dizer há muitos elementos que parecem probantes.

Antes de tudo, os abundantes empréstimos que o Corão tomou da tradição judaica ou da, digamos, judaico-cristã. Com efeito, muitas leis islâmicas foram tomadas da lei judaica e do Talmud, enquanto vários versos do Livro provêm ou do Segundo Targum Sheni  (27.17-44)1, ou do Testamento de Abraão (87.19), ou do Targum de Jerusalém (5.30-31), ou do Midrash Rabba (21-51-71; 29.16-17; 37.97-98) – ou seja, de obras da literatura rabínica. Além disso – o que aponta para as seitas judaico-cristãs –, cerca de 25% do texto do Corão foi extraído de certos livros apócrifos, como o Evangelho do Pseudo-Mateus, ou o Evangelho de Santiago Menor, ou o Evangelho de Tomé, ou a História da Natividade de Maria e da Infância do Salvador, ou o Livro dos Jubileus.

Mas após a morte do novo profeta e após tomarem Jerusalém segundo o plano mesmo da seita, sucessores de Maomé teriam concluído que seus desígnios não passavam de fantasia e decidiram modificar o Livro, tarefa nada fácil, obviamente, sobretudo se se leva em conta que também as autoridades civis e religiosas tentavam ajustar o texto a suas próprias necessidades. Dessa multidão de interesses é que resultam as numerosas destruições e correções que havia de sofrer o Corão. Como todavia isso não poderia continuar indefinidamente, o texto corânico alcançou sua forma, digamos, final – ou seja, com variações locais ou devidas às diferentes tendências islâmicas (os xiitas, por exemplo, acusam os sunitas de ter adulterado o Livro) – pelo século IX.

Não é porém difícil concluir que tantas manipulações e alterações foram causa de muitas incoerências e obscuridades no Corão, e foi para tentar eliminá-las que se tomaram no século XI algumas decisões que continuam em vigor até hoje: a afirmação do dogma do Corão incriado; a doutrina do ab-rogado e do derrogado: quanto mais tardia seja a revelação de uma sura, maior será seu valor (e pois mais imperiosas suas determinações), de modo que, em caso de contradição, a sura mais recente substitui a contraditória; e o fim das tentativas de reflexão ou de interpretação quanto à religião, ficando assim proibido todo novo estudo crítico do Corão. Ademais, sempre está presente a tradição para explicar alguma obscuridade que já não se poderia sanar com a alteração do texto. – Como não pensar: que diferença entre a labilidade do Corão e a perenidade da Bíblia! Mas prossigamos.

Com efeito, a segunda fonte tanto doutrinal como disciplinar do islã é a chamada Suna do Profeta, ou seja, a ‘prática habitual ou regra de comportamento’ (e é daí que vem a palavra “sunismo”, que nomeia hoje o principal ramo do islamismo – cerca de 85% dele –, contra os 10% do xiismo). E de fato o mesmo Corão chama a Maomé o “modelo mais excelente”: acredita-se que ele tenha decretado normas religiosas e morais mediante seu exemplo e suas palavras ou até seu silêncio. Por isso há três classes de Sunas: a verbal, a ativa e a tácita. E é tal a importância dessa tradição, que se tornou aforismo corrente que “a Suna pode prescindir do Corão, mas o Corão não pode prescindir da Suna”. Para comprová-lo, basta referir que muitas leis estabelecidas pela Suna não se acham, todavia, no Corão, como é o caso do apedrejamento de adúlteras. Entendamo-lo.

Morto Maomé, o Corão mostrou-se insuficiente para organizar a comunidade muçulmana. Com efeito, é grande a sua obscuridade. Teve-se por isso de recorrer a exemplos do Profeta referidos por testemunhas confiáveis, ou seja, aqueles que tinham convivido com ele. Mas entre tais testemunhas ou companheiros (do Profeta) também estão seus descendentes ou sucessores que teriam recebido toda essa tradição daqueles. Ambos os grupos constituem a casta dos salafi, à qual os salafitas – o grupo mais conservador dentro do sunismo – dizem pertencer.

Ademais, muitos sahabi teriam recompilado os ensinamentos transmitidos ao longo do primeiro século da Hégira (a era maometana, cujo início se assinala pela fuga de Maomé de Meca para Medina no ano de 622). O hadith (ou hádice ou hadiz: ‘novidade’) é a disciplina nascida precisamente para organizar todo esse material e compõe-se de duas partes: o isnad e o matn. Enquanto o primeiro fornece a relação de autoridades e de guardiães pelos quais o hadith alcançou o último transmissor, o segundo é o texto mesmo que deve reproduzir-se fielmente.

O problema é que não existe só um hadith, proveniente de Maomé e de seus companheiros. Sobretudo no período dos califados, a forma do hadith serviu para que se criasse uma tradição adaptada a várias necessidades, ou seja, justificar uma prática da Suna, ou elaborar uma Suna ainda inexistente, ou corrigir uma tendência de pensamento, etc. Tanto os califados como os ulemás (teólogos ou sábios) produziram hádices segundo sua conveniência – e desenfreadamente. Imitá-los-iam as muitas seitas dissidentes. Desse modo, cada partido ou seita ou corrente de pensamento possuía a tradição mais acorde com sua própria doutrina. Para que se tenha uma ideia da coisa, diga-se que no século IX Bukhari recolheu 300.000 hádices e decretou que 200.000 eram apócrifos – conservando tão somente 8.000...

 Hoje em dia há cerca de um milhão e meio de hádices, o que constitui tal escândalo que os acadêmicos muçulmanos sempre se deram à tarefa de avaliar seu valor; mas tão só o valor do isnad, nunca o do matn. Este sempre será inquestionável e intocável. E o que proporciona aos crentes o matn dessa multidão de hádices? Proporciona informações sobre como Maomé fazia suas orações e abluções, sobre como comia, sobre como se vestia, sobre como se conduzia em casa; sobre seus pratos favoritos, sobre seus aposentos, sobre suas armas, sobre seus cavalos e seus camelos, sobre sua genealogia, sobre suas virtudes; etc. Além disso, o mestre dá resposta a todas as futuras dificuldades tanto dogmáticas como disciplinares e políticas, além de arrolar todas as cidades e todos os países que seriam conquistados pelas armas islâmicas. Em outras palavras, configura a Suna e completa as tão superficiais prescrições do Corão. Mas, apesar de tanta inverossimilhança dos hádices mesmos e de tantas contradições entre eles, insista-se, a maioria dos intelectuais islâmicos nega-se a rejeitá-los. A minoria que admite a invenção fraudulenta de alguns dos hádices contenta-se, no entanto, com indicar os pontos fracos em seu isnad e o pouco valor das pessoas relacionadas. Mas o fato é que, como diz o islamólogo Louis Massignon em Essai sur les origines du léxique (Paris, Geuthner, 1922, p. 103), se se eliminassem todos os hádices cujo isnad é fraco, “os crentes ficariam unicamente com umas poucas prescrições sobre higiene e cortesia”.

O corolário evidente é que há pouco material básico quanto à vida de Maomé. E, se é verdade que no final do século VIII certos autores muçulmanos compuseram a Sirah ou Vida de Maomé, também o é que há numerosas versões dela, quase todas, ademais, tomadas de algum hadith (uma vez que, como dito, o mesmo Corão fornece pouquíssimos dados sobre a vida do Profeta). Por isso é impossível traçar uma biografia veraz de Maomé. Mas deem-se exemplos disso.

A preexistência da alma de Maomé, um dos principais dogmas da tradição e da Sirah, é de origem platônico-gnóstica. Ademais, a partir de uma frase que Alá teria dito ao Profeta: “Enviamos-lhes uma luz”, desenvolveu-se e aplicou-se a ideia ao mesmo Maomé; seu corpo emitiria raios de luz, o que o faria visível até em meio da mais cerrada escuridão, e não produziria, ele mesmo, sombra. Seria tal seu fulgor, que tornaria opacos o sol e as tochas, afora o fato de que ele poderia ver o que acontecia a suas costas. Diz-se até que tinha um olho físico no meio das costas ou entre os ombros.

Maomé recebeu o nome de Qotam ao nascer, o que se pode saber por alguns dos mesmos hádices. Como contudo o livro de Alá o chamou Ahmed, ou Mahoma (Maomé), a tradição desdenhou qualquer outro nome. E quantos anos tinha Maomé ao morrer? Possivelmente, segundo alguns, nem sequer ele o sabia, assim como em geral não o sabem os beduínos até hoje. Não obstante, a tradição criou uma cronologia na Sirah: sua idade ao morrer varia então entre 60 e 65 anos. Algumas das explicações são demasiado imaginativas, como a que diz: “Cada profeta chega à metade dos anos de seu predecessor; ‘Isa [o nome árabe para Jesus] viveu 125 anos”; logo, Maomé viveu 62 anos e meio...

Os descendentes masculinos de Maomé são um dos tópicos mais destacados da tradição. Ao que tudo indica, Maomé teve um só filho. Com efeito, lê-se no mesmo Corão o sofrimento de Maomé por sua infelicidade paterna, por seu desejo insatisfeito de longa descendência masculina. Desse modo, os irmãos desse filho único tiveram de ser inventados. Tomaram-se por nomes reais os adjetivos tahir (puro) e taiyb (bom) atribuídos aos filhos do Profeta pela piedade popular, dando-se-lhes, ademais, vários pares de gêmeos. Chegou-se assim a um total de doze filhos, oito dos quais homens...

Reza o Corão: “Obedece ao apóstolo quando chama”. Daí que uma série de hádices considere obrigação o interromper qualquer coisa, ainda que seja a oração, para acorrer ao menor sinal de Maomé. Muito mais que isso, porém. Uma mulher desejada pelo Profeta não podia rejeitá-lo. Se fosse casada, e ainda que contra a vontade dela mesma, o marido tinha de dar-lhe libelo de repúdio. Pois disse Alá: “Os crentes hão de preferir o Profeta a si mesmos” (Corão, XXXIII, 6.36).

De todo o dito, decorre patentemente que para reconstruir a história do islã é preciso recorrer a fontes externas a ele. Mais que isso: ao contrário do que se dá no cristianismo, cuja tradição tem por origem a revelação divina, a tradição islâmica é de fonte humana e resulta de imaginação mais ou menos popular, de tentativas mais ou menos eruditas de justificação e até de lutas pelo poder. Não se nega aqui que muitos muçulmanos sejam mais ou menos sinceros. São todos, todavia, como conclui tão corretamente o conjunto de dois artigos em que me fundei aqui, reféns de um complexo sistema doutrinal de autojustificação.

Observação final: uma coisa, porém, há que reconhecer: a íntima vinculação entre o islã e o poder político nos países islâmicos, por problemática que seja e ainda que per accidens, tem muito mais de natural que a insana “sã laicidade” vaticano-segunda, porque, com efeito, mesmo que Deus nos tivesse criado sem ordem ao sobrenatural, o fim último do homem não deixaria de ser Deus mesmo e o conhecimento, o louvor e a glória que lhe devemos individual e socialmente.

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* Fundo-me aqui, antes de tudo, em “Explicación del Islam”, conjunto de dois artigos aparecidos em FSSPX.News em março de 2019. Mas também em Rubén Calderón Bouchet, “El Islam – una ideología religiosa”, opúsculo encontrável na Internet.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

QUANDO, SEGUNDO ALGUNS, SE DEVE COMEÇAR A ESTUDAR SANTO TOMÁS

                                                                                                                           Carlos Nougué

1) Leiam-se antes de tudo todas as obras das tradições religiosas ou iniciáticas, queiram-se reveladas ou não.

2) Depois, todos e cada um dos filósofos gregos, de antes e de depois de Cristo.

3) Depois, todos e cada um dos Padres da Igreja.

4) Depois, todos e cada um dos neoplatônicos cristãos.

5) Depois, todos e cada um dos escolásticos anteriores a Tomás.

6) Por fim, S. Tomás.

7) Mas de preferência leia-se concomitantemente ou anteriormente a tudo isso toda a produção literária da antiga Índia, da antiga China, da antiga Grécia, etc., para formar bem o imaginário; além de, claro, aprender o canto gregoriano.

Observação: assim, com efeito, você estará preparadíssimo para entender S. Tomás aos cerca de 157 anos – ou após uma transmigraçãozinha de sua alma por alguns animalejos...