quinta-feira, 22 de abril de 2021
A MÃO PESADA DE DEUS
Carlos Nougué
segunda-feira, 5 de abril de 2021
A NECESSIDADE DA GRAÇA PARA UMA BOA VIDA DE ESTUDOS E DE ESCRITA
Carlos Nougué
Santo Tomás, na “Suma Teológica”, diz que em
princípio alguém pode ser moralista sem ter uma vida moral. E está
corretíssimo. Mas há que acrescentar a isso outras coisas ditas pelo mesmo
Santo ao longo de sua vasta obra. Sobretudo, que, tendo o pecado original
afetado de modo profundo a capacidade de operação de nossas potências – e a
operação é o último grau de perfeição do ente –, o fato é que sem o auxílio da
graça um moralista que não tenha vida moral não poderá alcançar maiores
alturas na ciência ética, de modo que contribua para sua ampliação. Veja-se o caso de S. Tomás, que foi cinzelado especialmente por
Deus para, isento de toda tentação, escrever as maiores obras de que o espírito
humano já foi capaz. Mas alma tão beneficiada não poderia deixar de ser mística
no sentido preciso de estar em união perpétua com Deus, o que, se sem dúvida se
deve à graça, supõe por outro lado méritos devidos ao bom uso do livre-arbítrio
sem os quais S. Tomás não teria crescido na amizade com Deus. Nada disto quer
dizer, todavia, que a obra de S. Tomás seja mística no sentido em que o são as
obras de um S. João da Cruz. A do Dr. Angélico é teológico-sagrada em sentido
estrito, ainda que possa dizer-se mística em sentido lato; mas, por ser teológico-sagrada
em sentido estrito, supõe da parte de seu autor considerável esforço de estudo
próprio, e estudo no sentido corrente. O que sucede é que suas conclusões que
tangenciam o místico podem dizer-se em palavras perfeitamente humanas e
cristalinas, com o que se negam, assim, os exageros “místicos” ou gnósticos ou
modernistas que hoje infestam de tantos modos a Igreja – ao passo que as obras
de um S. João da Cruz não raro se vazam em metáforas (ou analogias de proporção
imprópria), porque, com efeito, S. João da Cruz não quer concluir ao modo
teológico-sagrado, o que supõe o silogismo demonstrativo, mas expor na medida
do possível uma experiência sobrenatural. E tanto é verdade o que digo, que o
mesmo S. Tomás, após ter tido, ao que parece – e como Moisés e S. Paulo –, um
vislumbre da essência de Deus, já não quis escrever, porque para ele escrever
significava fazê-lo por silogismos demonstrativos. – Como quer que seja, de
todo o dito aqui fiquemos com o seguinte: ninguém será grande metafísico nem muito
menos bom teólogo sem o auxílio da graça, sem vida de oração, e sem estar em
amizade com Deus. Se se nega isto, nega-se ipso facto que nossa natureza esteja
decaída por causa do pecado original. Mas, hão de objetar, Aristóteles e Platão
eram pagãos e no entanto eram grandes metafísicos... Ao que se deve
responder: Crê-se que o Espírito Santo deixou de agir em almas como a de Platão
e a de Aristóteles? crê-se que estes não receberam graças atuais para ser o que
foram? Neste caso, crê-se mal.
domingo, 28 de março de 2021
IDEOLOGIA E CONSPIRACIONISMO – E A NEGAÇÃO DO EVIDENTE
Carlos Nougué
A ideologia
cega seus aderentes até para o que é evidente. Por exemplo, os comunistas, ante
o fracasso universal de seu sistema, atribuem tal fracasso ao “socialismo
real”, não ao “ideal”. Os liberais, por seu lado, negam-se a ver que sua
“liberdade de expressão” é uma quimera, mesmo ante o fato de que têm de tirar a
liberdade de expressão a quem é contra ela ou, se não forem demasiado estúpidos
(coisa difícil), aos mesmos comunistas, que só se valem dela na democracia
liberal para depois bani-la na ditadura do proletariado. – Mas os atuais
conspiracionistas de direita, incluindo tantos católicos, também negam o
evidente. Seu guru nacional continua a negar a gravidade da atual epidemia – a
serviço de quem ou de que está esse homem? O fato, todavia, é que ele faz
escola. Ouvi um católico bolsolavete negar que a covid-19 tivesse caído
drasticamente em Israel graças à vacinação maciça. Por quê? Segundo ele, porque
não se pode confiar em judeu!... Não é porém sua mesma corrente a que louva não
só os EUA, mas Israel? Deve ser uma nova subcorrente: o sionismo antissemita...
– Em verdade, tal conspiracionismo pode reduzir-se facilmente à ideologia e
suas estupidezes.
Observação. Senhores católicos tradicional-conspiracionistas:
as conspirações contra a Igreja Católica, tão intensas do século XVIII ao XX,
terminaram. Por que o digo? Pelo simples fato de que tais conspirações já foram
vitoriosas e seus agentes estão no poder em todo o mundo, em plena luz do dia,
com a aquiescência de ninguém menos que a atual hierarquia da Igreja. Deixem de
brincar de detetive e cumpram o que deveria ser sua ação precípua: propagar a
doutrina da realeza de Cristo.
sexta-feira, 5 de março de 2021
O Cardeal Caetano sustenta a mesma tese que S. Tomás e o magistério autêntico e infalível da Igreja com respeito às relações entre o poder espiritual e o poder temporal
Carlos Nougué
Ao comentar a passagem da Suma Teológica em
que S. Tomás faz a analogia entre os dois poderes temporal e espiritual na igreja e o corpo e a alma no homem (II-II, q. 60, a. 6, ad 3),
anota o Cardeal Caetano com sua costumeira clareza: “A alma preside ao corpo
segundo uma tripla ordem de causalidade: segundo a causalidade eficiente,
porque é a causa dos movimentos corporais do animal; segundo a causa formal,
porque é a forma do corpo; segundo a causa final, porque o corpo é para
a alma. Dá-se o mesmo, proporcionalmente, no poder espiritual com respeito ao
poder secular: o poder que dispõe as coisas espirituais tem função de forma
com respeito ao que dispõe as coisas seculares; estas estão ordenadas como a
seu fim às coisas espirituais e eternas; e, como o fim mais alto corresponde
ao agente mais elevado, pertence ao poder espiritual o mover e dirigir o
poder temporal, e tudo aquilo que está sob seu domínio, para o fim supremo
espiritual”.
quarta-feira, 3 de março de 2021
O MAIOR DOS FÍSICOS É TAMBÉM O PADRE ÁLVARO CALDERÓN
Carlos Nougué
Para ilustrá-lo, leia-se esta passagem de seu mais recente livro, El orden sobrenatural: “As coisas naturais caracterizam-se, da maneira mais geral, pela corporeidade, que poderia definir-se por duas propriedades principais, a magnitude, quantidade contínua, que provém da matéria, com suas formas e figuras características de cada coisa; e a massa, qualidade passível, que provém da forma, com sua distribuição de densidade característica na quantidade de cada coisa. A massa pode definir-se como o vigor da corporeidade da substância natural [!!!!!!]; e, assim como é a primeira qualidade fundamental das coisas naturais, funda o primeiro apetite natural, a saber, a gravidade. A gravidade é potência passiva, e pode definir-se como o apetite dos corpos por incorporar os corpos próximos [!!!!!!!]. Se for [só] por isso, a massa tende a concentrar a quantidade e fazer de [todo] o universo corporal uma [só] bolinha; se nosso corpo mantém sua figura humana, é porque as forças eletromagnéticas a mantêm ‘na linha’ (e as forças nucleares mantêm ‘na linha’ as [forças] eletromagnéticas para que não nos dispersem em poeira de prótons)”.
É do P. Calderón o prêmio “Nobel” de Física outorgado pela Verdade; e, se Deus quiser, teremos ainda este ano a publicação de seu Curso de Física como tomo III de La naturaleza y sus causas. Sejamos-lhe sempre muito agradecidos.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021
UM SÓ EXEMPLINHO PARA OS QUE DESCREEM DE QUE A DOUTRINA DE S. TOMÁS PROGREDIU
Carlos Nougué
1) No Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, o jovem Tomás escrevia: “Portanto, deve dizer-se, com outros, que o nome ‘verbo’, por virtude do vocábulo, pode tomar-se personaliter e essentialiter [pessoalmente e essencialmente]”.
2) Em De veritate, um Tomás recém-entrado na
vida intelectual adulta já escrevia: “Se ‘verbo’ se toma propriamente no
divino, não se diz senão personaliter; se, em contrapartida, se toma
comumente [ou em geral], pode dizer-se também essentialiter”.
3) Mas na Suma Teológica o S. Tomás mais
maduro é taxativo: “O nome ‘Verbo’ no divino, se se toma propriamente, é nome
pessoal e nullo modo essentiale [de modo algum essencial]”.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
O MAIOR DOS TOMISTAS
Carlos Nougué
1) A história do tomismo, a partir da morte mesma de S. Tomás de Aquino, é
uma história de sítio: desde a condenação de várias teses de S. Tomás pelo
bispo de Paris Étienne Tempier até as adúlteras tentativas atuais de domesticar
o tomismo fazendo-o amancebar-se com doutrinas espúrias e de todo alheias a
ele, são sete séculos de resistência da parte de multidão de tomistas. Mas há
que reconhecer que, pelo fato mesmo de o tomismo estar de mistura nas universidades
com o scotismo, com o nominalismo, com o cartesianismo, com o kantismo, com o hegelianismo,
com o existencialismo, quase nenhum dos grandes tomistas se mostrou infenso a
alguma influência deformante de tais doutrinas. Não se veja nesta afirmação,
todavia, um como zelo amargo de minha parte. Ao contrário, reconheço nesses
homens verdadeiros heróis, cujo esforço teorético, muitas vezes inaudito, manteve
acesa a chama da única doutrina filosófico-teológica que a Igreja fez sua (como
o disseram João XXII, Bento XIII, Leão XIII, S. Pio X, Bento XV, Pio XI, Pio XII...). Uma
coisa porém é reconhecê-lo; outra, muito diferente, calar suas insuficiências
em nome de uma reverência que nada tem que fazer no campo da ciência.
Observação: só falarei aqui dos tomistas mais importantes e que, ademais, conheço,
sem nem de longe, obviamente, ter a pretensão de esgotar o assunto.
2) E a primeira e mais clamorosa falha dos grandes tomistas foi uma compreensível
mas tão indevida reverência por Santo Tomás, que os impediu de ver que a
doutrina do nosso Doutor progrediu. Com efeito, tanto no campo ontológico como,
sobretudo, no gnosiológico, uma coisa é o Santo Tomás de Do Ente e da
Essência, do De veritate, dos Comentários a Boécio, do Comentário
às Sentenças de Pedro Lombardo, etc., e outra é o Santo Tomás das Questões
Disputadas sobre a Alma, do Comentário ao Liber de causis, das duas
Sumas, do Compêndio de Teologia, do opúsculo Das Substâncias Separadas,
etc. Entenda-se: não é que a doutrina de S. Tomás maduro ou sênior já não
estivesse em germe na de S. Tomás jovem ou júnior. Estava-o, mas ao modo como
um adulto bem formado está já presente nos desarmônicos membros de um
adolescente. Pois bem, tal “desarmonia” tem um nome: a sombra de Avicena.
S. Tomás foi pupilo de um grande avicenista, S. Alberto Magno, e, ademais, todo
o ambiente universitário de então estava grandemente impregnado de avicenismo, quando
não de averroísmo (lembre-se aliás que S. Tomás passou de chamar a Averróis “o
Comentador [de Aristóteles]” a chamar-lhe, em A Unidade do Intelecto contra
os Averroístas, “o Corruptor [de Aristóteles]”). Permaneceu-lhe essa sombra
mais de uma década; mas S. Tomás livrou-se de todo dela, salvo pelo eventual uso
de terminologia não tomista (antes avicenista ou até boeciana) em prol da
compreensão de sua doutrina por parte de seus ouvintes e leitores de então. –
Mas quem entre os tomistas foi capaz de assinalar vigorosa e taxativamente tal
progressão doutrinal em S. Tomás? Quem foi capaz de mostrar que se não se reconhece
tal progressão o tomismo fica indefeso ante a investida de doutrinas forâneas?
O Mestre auxiliar de Tomás por antonomásia, o Cardeal Caetano? Este que vos
escreve? Não. Foi o Padre Álvaro Calderón, sete séculos depois da morte de S.
Tomás.
3) Mas, se se trata da Lógica, quem deve dizer-se o maior dos tomistas?
O Cardeal Caetano e sua negação da principalidade da analogia de atribuição
intrínseca? João de S. Tomás e sua crença em que fosse do Mestre Tomás o longo e
confuso opúsculo Summa totius Logicae Aristotelis,
uma das causas pelas quais o mesmo João de Santo Tomás fundou toda uma longa escola
(que culmina em Jacques Maritain) fundada, por sua vez, no triste imbroglio quanto
à distinção entre lógica formal e lógica material? – Não. Na Lógica, o maior
dos tomistas, sobretudo por seu De Analogia, é o P. Santiago Ramírez
O.P., vindo logo depois o P. Calderón pela impressionante Introdução à Lógica de
seus Umbrales de la Filosofía.
4) E quanto à
Física? Reina absoluto o P. Álvaro Calderón, pelos dois tomos de La naturaleza
y sus causas e pelo esotérico Curso de Física (ou melhor, de Cosmologia),
que, Deo gratias, parece se publicará este ano como o terceiro tomo de La
naturaleza... É verdade que La naturaleza... segue de perto o tratado
físico de João de S. Tomás; mas, sem negá-lo, ultrapassa-o grandemente, além de
que é o P. Calderón o primeiro tomista a assimilar perfeitamente as ciências
modernas sem concordismo fácil. “Só” isto.
5) Se se trata
porém da Política, qual será o maior dos tomistas? Aqui, é preciso falar antes
da multidão de corruptores da doutrina política tomista (a da maturidade, a
exposta, por exemplo, em Do Reino e na Suma Teológica, doutrina
que em verdade é a mesma do magistério infalível da Igreja quanto à realeza de
Cristo). A decadência começa com o nominalismo disfarçado de tomismo de Francisco
de Vitoria e prossegue com Francisco Suárez, o introdutor nas escolas católicas
de uma noção análoga à da vontade geral de Jean-Jacques Rousseau; para
culminar, no século XX, numa sucessão de deformações mais ou menos graves,
presentes no Cardeal Billot, em Louis Lachance, em Santiago Ramírez, no Cardeal
Ottaviani e, sobretudo, em Jacques Maritain, o verdadeiro fautor do
destronamento de Cristo no CVII. A tal sucessiva e longa débâcle não escaparam
senão, imperfeitamente, S. Roberto Belarmino (que porém não era tomista) e,
mais perfeitamente, o Cardeal Pie de Poitiers e o leigo Jean Ousset – e, muito
à frente de todos, o nosso Padre Calderón, com Prometeu: a Religião do Homem
e El Reino de Dios (e outros que ainda virão, se Deus quiser).
6) Quanto à
tentativa geral de retornar a um tomismo mais puro, destacaram-se, já após Leão
XIII, os padres Hugon, Gardeil e Fabro; mas nem sequer puderam divisar a
perfeição com que o faria o P. Calderón ao longo de todas as suas obras (e trata-se
de retorno, insista-se, a Santo Tomás sênior). Registre-se no entanto que aqui
também há que destacar o P. Santiago Ramírez, cujo tropeço maior, como
assinalado acima, foi na Política.
7) Mas, depois
da Política, é na Psicologia e na Metafísica (as quais em prol da facilidade aqui
misturo) que se há de falar de maior superioridade do P. Álvaro Calderón com
respeito a todos os outros grandes tomistas. Por partes.
a) Antes de
tudo, só o P. Calderón e poucos mais, depois de S. Tomás, não cederam de
modo algum à tentação de dividir a Metafísica em partes subjetivas. Com efeito, os neotomistas tomaram de Leibniz, ainda que só de certo
modo, a chamada “Teodiceia”, mediante a qual Leibniz pretendia conciliar
Deus e o mal no mundo. Mas o que encontrou não é nada tomista, e Tomás de
Aquino respondera-lhe previamente a ele de modo cabal em sua vasta obra. Sucede
todavia que ao menos quase todos os neotomistas dividem a Metafísica em
Ontologia e em Teodiceia, com o que se infringe a unidade simpliciter da
Metafísica: esta, como a Teologia Sagrada, não tem partes subjetivas. É verdade
também, infelizmente, que desde séculos anteriores alguns doutores e teólogos
católicos passaram a dar à Teologia Sagrada partes subjetivas: Teologia
Dogmática, Teologia Moral, etc. Mas a coisa agravou-se no âmbito do neotomismo.
b) Em
várias obras, diz Garrigou-Lagrange O.P. que o “princípio de identidade” é o
primeiro dos primeiros princípios; e ele certamente não foi o primeiro a
dizê-lo. Por outro lado, em sua A Essência do Tomismo, Manser O.P.
põe o “princípio da razão suficiente” entre os primeiros princípios. Mas nada
disso é de Aristóteles nem de Tomás de Aquino: ambas as coisas são de Leibniz.
Não que por serem de Leibniz sejam erradas; mas o fato é que também nisso errou
Leibniz. O “princípio de identidade” (“todo ser é o que é”) responde ao matematicismo
cartesiano-leibniziano, e corresponde à famosa e vácua fórmula 1 = 1 ou,
algebricamente, A = A. Aí está um modo de ser profundo sem dizer absolutamente
nada. Quanto porém ao “princípio da razão suficiente” (“nada existe sem razão
suficiente”), responde ao idealismo de Leibniz: Deus conhecia todos os mundos possíveis,
mas, como por sua sabedoria não podia agir sem razão suficiente, de todos os
mundos possíveis só fez o melhor. É o chamado “otimismo” leibniziano. Mas Tomás
de Aquino demonstra na Suma Teológica que Deus poderia ter
criado outro e melhor mundo, ainda que nenhum mundo que Deus criasse pudesse
ser inconveniente.
c) Quanto à
distinção real entre essentia e esse (ou actus essendi,
ato de ser), distinção que é o gonzo em torno do qual gira o tomismo, a maioria
dos tomistas a defende expressamente, mas quase nunca convenientemente. Por
quê? Porque confundem de algum modo ser ou ato de ser e existência
ou ato de existir, com o que põem a perder de algum modo a
distinção. Foi o P. Cornelio Fabro o campeão de um retorno mais perfeito ao
gonzo do tomismo. Mas tampouco o fez perfeitamente, porque, com efeito, não
deixa de incorrer em entitatismo, ou seja, o atribuir aos princípios de
um composto a entitatividade deste, além de tentar engessar a doutrina com um
rigor terminológico exacerbado. – De modo que também quanto a este ponto
capital é o P. Calderón quem leva a palma: sobretudo em seu mais recente livro,
El orden sobrenatural, o nosso sacerdote alcança a perfeita penetração
da mente do Mestre Tomás.
d) Quanto ademais
ao verbo mental (a terminologia é
dos tomistas, incluindo o P. Calderón, conquanto eu prefira chamá-lo verbo
cordial, como insisto nas aulas da Escola Tomista), os tomistas dividem-se
em dois extremos: o essencialismo de um Fabro ou de um Tonquédec (esta brecha para um indébito acordo com a epoché husserliana,
tal como tentado por Edith Stein e pelos ecléticos tomistas de Navarra) e o existencialismo
de um Maritain ou de um Gilson (e, ao cabo, também de Fabro, que aliás terminou
sua carreira como um perfeito existencialista ao modo de Kierkegaard com
uma boa pitada de voluntarismo scotista). Mas é outra vez o P. Calderón quem
resgata a verdadeira doutrina do Mestre Tomás maduro, como se vê em seu mais
recente livro.
e) Se se trata contudo da conversio
ad phantasmata (a conversão ou retorno aos fantasmas) – ponto fulcral da
Psicologia tomista –, efetivamente não conheço ninguém que sequer se aproxime
do P. Calderón. É verdade que o P. Fabro e o Ferrariense (Francesco Silvestri)
já haviam avançado bastante neste ponto; mas não haviam deixado de ficar a meio
caminho. Leia-se El orden sobrenatural do P. Calderón, e saber-se-á por
que o digo.
f) Quanto, por fim, ao “constitutivo
formal” da essência divina, temos de um lado o tomismo autêntico (Capreolo, Báñez,
Ledesma, Del Prado, Garrigou-Lagrange, Álvaro Calderón...) e de outro o
tomismo espúrio (João de S. Tomás, os Salmanticenses, Billuart, Gonet...).
8) Se porém agora damos um salto
para a Teologia Sagrada e para o espinhoso tema da predestinação, confesso
que a doutrina de nenhum dos tomistas que li (e li muitos) foi capaz de
agradar-me suficientemente, razão por que ainda fico com minha mesma exposição
sobre o assunto em “Se Se Deve Rezar pela Salvação do Mundo” (in Do Papa
Herético e outros opúsculos), que pretendo seja de todo fiel ao Santo Tomás
da Suma Teológica. Veja-se, no entanto, que o P. Calderón nunca escreveu
sobre isto.
Observação: aliás, por falar em mim, quanto à Arte do Belo, quanto à Gramática e quanto à questão do papa herético, minha referência sou eu mesmo; assim como creio que acabarei por ter como referências meu Comentário ao Apocalipse e minhas Questões Metafísicas... Se assim não fosse, por que afinal haveria de escrever livros?
9) Quer dizer então, Carlos Nougué,
que o senhor não tem nenhuma divergência com o P. Álvaro Calderón? Tenho. Cito
duas: a ordem em que se devem estudar as partes potenciais da Lógica (como o assinalo
em “A Ordem das Disciplinas”, in Estudos Tomistas – Opúsculos II), e o
caráter preciso da primeira operação do espírito (razão por que escrevi “Das Duas Primeiras Operações do Intelecto: uma
Crítica a Maritain e a Outros Tomistas [incluindo o P. Calderón]”, in Do Papa Herético e
outros opúsculos). Assinale-se todavia que, em seu mais recente livro, parece que o P.
Calderón já não incorre, quanto à referida primeira operação, na deficiência
que encontro nos Umbrales de la Filosofía.
10) Mas que são essas bagatelas diante do oceano de acertos do P. Álvaro Calderón? E não deixa de assombrar-me ver tantos narizes torcidos quando digo que o P. Calderón é meu grande mestre (depois de Tomás de Aquino, claro) e sobretudo que é o maior dos tomistas. Sua contemporaneidade o impediria? Mas tampouco deixa de assombrar-me, ou antes, horrorizar-me, que a obra do P. Calderón seja amplamente desconhecida no mesmo mundo hispânico e só tenha começado a traduzir-se ao português (do Brasil), mas não ao inglês, ao francês, ao alemão, ao italiano... Para mim, isso é uma sorte de “mistério de iniquidade”.
Observação: quem sabe, no entanto, se o isolamento do Padre em seu amado Seminário de La Reja não é justamente uma das precondições para a grandeza e pureza de sua obra?
11) Muitos contudo hão de perguntar-se: Quem é esse Carlos Nougué para dizer tudo isso que acabamos de ler? Resposta simplicíssima: Sou este mesmo que vos escreve.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2021
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
QUE DEVE DIZER O TOMISMO DA DOUTRINA CENTRAL DE XAVIER ZUBIRI?
Carlos Nougué
Xavier Zubiri, condenado em vida por modernista e cuja obra conheço muito bem por tê-la traduzido quase toda, tem por doutrina central que a inteligência humana é “senciente” (ou, como preferem outros, “sentinte”), isto é, conhece concomitante e sinteticamente de modo sensitivo e racional, sendo o homem um “animal de realidades”. Como responder tomisticamente a isto? Ao modo essencialista de um Fabro ou de um Tonquédec (essa brecha para um indébito acordo com a epoché husserliana), ou ao modo existencialista de um Gilson ou de um Maritain (e, ao cabo, também de um Fabro)? Ou ao modo entitatista, modo esse quase geral entre os tomistas? De maneira alguma: fazê-lo é acabar por dar razão a Zubiri, porque, com efeito, Zubiri toca em cheio e dolorosamente um nervo sensível do tomismo, o que vem de Santo Tomás jovem e aviceniano para alcançar de algum modo, insista-se, a quase totalidade dos tomistas. A maneira como se deve responder a Zubiri quanto a isto é de todo outra, e supõe o resgate e o aprofundamento de Santo Tomás maduro (o das Questões Disputadas sobre a Alma, da Suma Teológica, etc.), coisa que, sejamos justos, já começou a fazer o mesmo Fabro em Percepção e Pensamento (ainda que algo contraditoriamente e em forma, digamos, de “insight”). Mas é o que pretendo mostrar e fazer o mais cabalmente possível em uma de minhas futuras Questões Metafísicas: “Santo Tomás e/ou Xavier Zubiri? – Do Sentido ao Verbo Cordial”.
domingo, 21 de fevereiro de 2021
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021
QUANDO, SEGUNDO ALGUNS, SE DEVE COMEÇAR A ESTUDAR SANTO TOMÁS
Carlos Nougué
1) Leiam-se antes de tudo todas as obras das tradições religiosas ou iniciáticas, queiram-se reveladas ou não.
2) Depois, todos e cada um dos filósofos gregos, de
antes e de depois de Cristo.
3) Depois, todos e cada um dos Padres da Igreja.
4) Depois, todos e cada um dos neoplatônicos
cristãos.
5) Depois, todos e cada um dos escolásticos
anteriores a Tomás.
6) Por fim, S. Tomás.
7) Mas de preferência leia-se concomitantemente ou
anteriormente a tudo isso toda a produção literária da antiga Índia, da antiga
China, da antiga Grécia, etc., para formar bem o imaginário; além de, claro,
aprender o canto gregoriano.
Observação: assim, com efeito, você estará
preparadíssimo para entender S. Tomás aos cerca de 157 anos – ou após uma
transmigraçãozinha de sua alma por alguns animalejos...
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
A ANALOGIA DO ENTE – UM MERO ESBOÇO OU ESQUEMA
Carlos Nougué
2) Mas uma de minhas muitas “Questões Metafísicas”
será atinente ao sujeito (ou gênero sujeito, aquilo que com imprecisão a
maioria dos tomistas chama “objeto formal”) da Metafísica. Com efeito,
Aristóteles já a denominava Filosofia Primeira (porque trata das causas e
princípios primeiros) ou Teologia (porque trata de Deus). Se todavia trata de
Deus, que é a Causa primeira de tudo, a Causa das causas, por que então o
sujeito da Metafísica é, segundo o próprio Aristóteles, S. Tomás e os
principais tomistas, o ente enquanto ente, o ente comum, e não Deus mesmo?
Porque nenhuma ciência pode ter por sujeito algo cuja essência não nos é dado
conhecer (nesta vida), como, obviamente, é o caso de Deus. Claro, esta só
afirmação já dá pano para mangas, porque, com efeito, falando estritamente, não
conhecemos a essência senão dos gêneros (ou seja, uma essência – digamos –
potencial e pois imperfeita) e de uma única espécie especialíssima: o homem. Esta
dificuldade já a comecei a enfrentar em Da Arte do Belo, mas ainda há
muito que solucionar quanto a ela. Por outro lado, a afirmação de que não nos é
dado conhecer a essência de Deus (nesta vida) e que, portanto, dele conhecemos basicamente o que ele não é (trata-se
do conhecimento chamado apofático) levou teólogos importantes a não ver que
conhecemos, sim, já nesta vida, algo quiditativo ou essencial de Deus, sem o
que se cai no agnosticismo, por exemplo, de um Maimônides. Apenas, não o conhecemos
univocamente, mas por certo modo, superior, de equivocidade – a analogia. – A analogia,
porém, subdivide-se: pode ser de proporcionalidade imprópria ou própria, ou de
atribuição extrínseca ou intrínseca (alguns acrescentam a estas alguma espécie
mais); e há que assinalar aqui que a partir e por influência do Cardeal Caetano
a maioria dos tomistas põe que é por uma analogia de atribuição extrínseca
que se conhece o ente. Terão todavia razão quanto a isto o grande Cardeal
e sua multidão de importantes seguidores (entre os quais, assinale-se, não se
contam por exemplo o P. Santiago Ramírez e o P. Álvaro Calderón)?
3) Estamos obrigados a pôr que o ente se
conhece antes de tudo por uma analogia de atribuição intrínseca.
Para que se entenda isto, insista-se: a analogia pode ser de dois modos gerais,
ou seja, de razão simples ou atribuição, em que os analogados secundários
guardam uma razão proporcional a um primeiro e principal; ou de razão composta
ou proporcionalidade, em que a razão de dois termos é proporcional à razão de
dois outros. No primeiro caso, a quididade significada pelo nome dá-se de modo
primeiro e simpliciter no analogado principal, ao passo que os outros
analogados recebem o nome enquanto mantêm determinada relação proporcional com
o primeiro. No segundo caso, no entanto, o nome só indica em cada um dos
analogados certa relação de quididades proporcionalmente semelhantes, razão por
que aqui não se dá atribuição simpliciter. Sucede ademais que o conceito
de ente se reporta primeiramente, propriamente e simpliciter
à substância, devendo tudo o mais (partes e acidentes) referir-se à substância.
Não é difícil pois notar que a analogia do ente é de atribuição, e não
de proporcionalidade.
4) Não obstante, e como antecipado, a analogia
de atribuição pode ser extrínseca ou intrínseca. No primeiro caso, os
analogados secundários recebem seu nome por denominação extrínseca a partir do
primeiro analogado. No segundo caso, os analogados secundários recebem seu nome
por aquilo mesmo que são. É evidente contudo que tudo o que é de qualquer
modo e pode pois ser distinguido e apreendido pelo intelecto deve dizer-se ente
por aquilo mesmo que ele é. Sendo assim, é inescapável a conclusão de
que a analogia do ente é de atribuição intrínseca. Mas, como dito, o Cardeal
Caetano e multidão de importantes seguidores seus põem que a analogia do ente é
de atribuição extrínseca, razão por que, se na analogia do ente a substância
é analogado principal mas há predicação intrínseca em todos os modos, tal se
deve a que, em verdade, no mesmo ente sucedem as duas analogias de atribuição
(extrínseca) e de proporcionalidade. Entenda-se: enquanto se dá analogia de
atribuição (extrínseca), a substância é o analogado principal mas os outros
modos não se dizem entes pelo que eles mesmos são de fato, e sim tão somente
enquanto são algo da substância; ademais, os acidentes e outros modos
secundários dizem-se propriamente e intrinsecamente entes na medida em que se
dá também uma analogia de proporcionalidade – uma vez que todo ente só tem ser em
proporção à sua essência.
5) No entanto, como escreve o P. Calderón
em El orden sobrenatural – una inmersión en el tomismo profundo (Primera
parte – El misterio de Dios), esta doutrina do Cardeal Caetano e de seus
seguidores “não se ajusta à doutrina fundamental do ente primum cognitum
[primeiro conhecido], segundo a qual ambos os membros de toda distinção que o
intelecto estabeleça caem própria e absolutamente sob o conceito de ente, e não
por denominação extrínseca nem por proporção de aspectos; porque o intelecto nada
pode conhecer senão sob este conceito [de ente]”. Consigne-se, aliás, que
Santiago Ramírez O.P seguiu num primeiro momento a doutrina do Cardeal Caetano,
mas, após estudar profundamente e como ninguém até então a analogia (em seu volumosíssimo
De analogia, que está a esperar uma civilizatória tradução ao português),
passou a pôr que a melhor exegese tomista há de sustentar que a analogia do
ente é de atribuição intrínseca. Cf., aliás, o precioso livro de José
Miguel Gambra La analogia en general, síntesis tomista de Santiago Ramírez,
EUNSA, 2002 (p. 256-271).
6) Mas – e eis o tratamento principal e mais propriamente metafísico que darei a esta questão em Questões Metafísicas – a analogia do ente tem de ser de atribuição intrínseca antes de tudo (conquanto só o possamos ver ao fim de tudo) porque Deus, o analogado principal, é causa primeira e absoluta do ente, o que de imediato suscita a seguinte objeção: Mas Deus também é ente... Ao que se deve responder: Até por uma necessidade de nosso intelecto, tendemos a “definir” o ente com alguma composição, ou seja, boecianamente, como id quod est, aquilo que é, ou seja, aquilo que tem ser. Mas Deus, como o vemos ao cabo de nossa ascensão analógica, não é propriamente um ente que tenha ser, senão que é o próprio Ser subsistente por si mesmo, assim como a brancura seria subsistente se pudesse destacar-se da superfície branca. Em outras palavras, Deus é Ente, sim, mas não do mesmo modo como são entes os entes criados, porque, diferentemente destes, não tem ser, senão que é o Ser – motivo pelo qual pode criar ex nihilo (de nada) os demais entes. E este é o fundamento último e, insista-se, mais propriamente metafísico da analogia de atribuição intrínseca do ente – quando caímos de cheio na “dialética” entre o Ente ou Ser por essência e o ente por participação (conquanto não se alcance essa “dialética” sem passar pelo miolo do tomismo: a distinção real entre essência e ser ou ato de ser).
7) Mas haverá
mais em minha “Questão Metafísica”: assim como tudo quanto é per accidens se reduz ao que é per se, assim também toda analogia proporcional
se reduz à analogia de atribuição – e de atribuição intrínseca. Veja-se o caso
do transcendental verdadeiro.
“Verdadeiro”,
com efeito, diz-se com relação ao intelecto de várias maneiras. Em primeiro
lugar, como adequação dos conceitos com relação às coisas, razão por que
dizemos que o intelecto “é verdadeiro” quando pela simples apreensão ele se assimilou
à quididade ou essência da coisa: por exemplo, quando concebe de homem: animal
racional. Mas também se diz que o intelecto conhece o verdadeiro quando,
julgando-se a si mesmo, considera-se como adequado em seu conhecimento ao real:
O homem é animal racional. Mas também como adequação das palavras com
relação às coisas. Com efeito, quando expressamos qualquer proposição, dizemos
que é verdadeira se de fato corresponde à realidade significada. Não basta que
corresponda ao que pensamos; tem de adequar-se ao que são verdadeiramente as
coisas. Uma proposição pode até ser “sincera”, mas não deixa de ser falsa se lhe
falta a devida correspondência com a realidade. E, se alguém diz algo diferente
do que efetivamente pensa, dirá uma “mentira”, que todavia até pode per
accidens verdadeiro (ou seja, se o que pensava era falso). – Pois bem, nestes
modos vários se dá muito diversamente a razão de adequação a que se reporta a
noção de verdadeiro, motivo pelo qual temos aqui uma analogia de
proporcionalidade. Como no entanto há de ser manifesto, a referida adequação se
dá no intelecto, enquanto a coisa em si é o que é segundo seu modo de ser e essência.
Mas a adequação se dá justo quando a essência (ou melhor, sua espécie) se
encontra no intelecto e o reduz a cognoscente em ato, pelo que se pode dizer que
a verdade é o objeto próprio que define e especifica a potência intelectiva (o
que também dá pano para mangas). Sendo porém assim, acabamos por ver com luz
meridiana que a analogia do verdadeiro é, com efeito, uma analogia de atribuição
cujo primeiro analogado é a verdade conhecida, isto é, a que se dá no segundo
verbo mental ou cordial: a obra da segunda e propriamente reflexiva operação do
intelecto. Mas será que esta doutrina sobre a verdade, que é amplamente majoritária
entre os tomistas e que segue de algum modo o dito por S. Tomás em
sua obra de juventude De veritate, pode ter-se por segura? Ademais, como
toda analogia de proporcionalidade e toda analogia de atribuição extrínseca
podem reduzir-se, como dito mais acima, a uma analogia de atribuição intrínseca?
e como todas as analogias de atribuição intrínseca podem reduzir-se a uma
primeira? É sobretudo em torno disso que girará minha referida “Questão Metafísica”.
Observação final: como muitos me perguntam
se lançarei de fato o anunciado livro Tratado dos Universais, digo aqui
que ele será incorporado ao livro Questões Metafísicas – o que transfere
todo o seu assunto lógico para sua solução metafísica última.
sábado, 6 de fevereiro de 2021
PELA ENÉSIMA VEZ (OH!), MINHA POSIÇÃO A RESPEITO DO CVII
Carlos Nougué
1) Com a hierarquia da Igreja depondo sua própria autoridade doutrinal, o Concílio Vaticano II “simplesmente” fundou uma nova religião: a religião do homem. Por isso, juntamente com seus seguidores, deve ser combatido.
2) Mas dizer que o CVII fundou uma nova religião definitivamente não implica dizer que
tenha fundado uma nova Igreja. Baseado na Mystici Corporis de Pio XII e
no Concílio Vaticano I, assinalo no livro Do Papa Herético que a
doutrina das duas Igrejas sob um só papa padece sérios problemas.
a) O Vaticano I definiu que não só a sucessão
petrina se dará ininterruptamente até o fim dos tempos, mas também a sucessão
apostólica em geral. Ora, se a nova Igreja conciliar, como a chamam, não é a
Igreja Católica, onde estará esta? Nos grupos tradicionalistas? Impossível,
justo porque, ainda que como resultado de uma condenação iníqua e pois
inválida, os bispos tradicionalistas estão despojados de jurisdição ordinária.
b) Em outras palavras, a doutrina das duas Igrejas
é um como ecclesiavacantismo inconsciente. E de nada adianta pôr a esdrúxula
figura de um papa para as duas Igrejas, até porque este papa não legisla
salomonicamente, senão que é a própria pedra angular da nova religião.
3) Não se pode tentar resolver um problema tão
intricado como o CVII e o que ele fundou com uma explicação que “esqueça” o já
definido, infalivelmente, pelo magistério. E, com efeito, não só os papas
conciliares são papas, mas os bispos conciliares são bispos, e aqueles e estes
constituem em conjunto a atual hierarquia da Igreja Católica. Que a nova
religião que sustentam seja uma imensa heresia não anula o anterior (conquanto
deixe a atual hierarquia da Igreja com “jurisdição precária”, como o mostro em Do
Papa Herético). É um câncer, e, como todo câncer, é daquele mesmo que o
porta e padece. Ademais, tal câncer não se explica mais perfeitamente se não o
identificamos com a apostasia na Igreja, ou seja, com a abominação da desolação
instalada no lugar santo predita por Cristo mesmo. Estamos vivendo a
sexta-feira da paixão da Igreja (como o explicarei, creio que suficientemente,
no Comentário ao Apocalipse).
Observação: tudo quanto acabo de dizer não valida nem
invalida esta ou aquela solução prática para o enfrentamento da religião
humanista. Este é outro assunto, de ordem justamente prática.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021
OUTRA QUESTÃO METAFÍSICA: QUEM LEVA A ATO SEGUNDO AS POTÊNCIAS ATIVAS DAS CRIATURAS?
Carlos Nougué
Os antigos diziam que Deus move a primeira
esfera celeste, e que esta move a seguinte esfera, e assim sucessivamente, esferas
que, em seu movimento conjunto, são de algum modo causas das formas e motores das
próprias potências ativas no mundo sublunar. Mas isso já não se pode sustentar.
Assim, por exemplo, Deus é não só o criador direto das almas humanas, mas é
quem move suas mesmas potências ativas a atuar. Com efeito, a vontade pode
fazer voluntária a inteligência, mas não pode levar esta potência a inteligir,
porque para tal falta comproporcionalidade entre causa e efeito. E isto vale
também para a potência ativa do intelecto agente. A potência ativa do intelecto
agente é real e individual, e de fato é ela quem leva ou reduz a ato o
intelecto possível (potência passiva). Mas é Deus quem move o intelecto agente
a agir; feito isto, o próprio intelecto agente abstrai dos fantasmas as
espécies inteligíveis e com elas reduz a ato o intelecto possível. Em outras
palavras, Deus é não só o criador direto da alma, mas move suas potências
ativas a atuar por conta própria – o que lança a última pá de cal sobre o deísmo
racionalista, segundo o qual Deus criou o universo e a partir do sétimo descansou para sempre, entregando
o mundo à própria sorte de sua natureza. Não: Deus não só traz o universo e
seus entes a ser, senão que os sustenta nele ao mesmo tempo que sustenta sua
ação atuando suas potências ativas. Em resumo, Deus é não só o primeiro motor
imóvel das séries de motores, mas o motor imóvel e permanente de todos e cada
um dos motores, sempre que se trate de fazê-los mover-se a seu ato segundo (a inteligência a
inteligir, a vontade a querer, a vis irascível a irar-se, o gravitacional-inercial a fazer girar os corpos celestes,
etc.). Deus é motor de motores, eficiente de eficientes, ente de entes,
perfeição de perfeições, finalidade de finalidades. Como diz o P. Santiago
Ramírez O.P. em De actibus humanis, trata-se da moção que propriamente
se pode chamar “divino instinto”.




