segunda-feira, 5 de abril de 2021

A NECESSIDADE DA GRAÇA PARA UMA BOA VIDA DE ESTUDOS E DE ESCRITA

                                                                                                                     Carlos Nougué 

Santo Tomás, na “Suma Teológica”, diz que em princípio alguém pode ser moralista sem ter uma vida moral. E está corretíssimo. Mas há que acrescentar a isso outras coisas ditas pelo mesmo Santo ao longo de sua vasta obra. Sobretudo, que, tendo o pecado original afetado de modo profundo a capacidade de operação de nossas potências – e a operação é o último grau de perfeição do ente –, o fato é que sem o auxílio da graça um moralista que não tenha vida moral não poderá alcançar maiores alturas na ciência ética, de modo que contribua para sua ampliação. Veja-se o caso de S. Tomás, que foi cinzelado especialmente por Deus para, isento de toda tentação, escrever as maiores obras de que o espírito humano já foi capaz. Mas alma tão beneficiada não poderia deixar de ser mística no sentido preciso de estar em união perpétua com Deus, o que, se sem dúvida se deve à graça, supõe por outro lado méritos devidos ao bom uso do livre-arbítrio sem os quais S. Tomás não teria crescido na amizade com Deus. Nada disto quer dizer, todavia, que a obra de S. Tomás seja mística no sentido em que o são as obras de um S. João da Cruz. A do Dr. Angélico é teológico-sagrada em sentido estrito, ainda que possa dizer-se mística em sentido lato; mas, por ser teológico-sagrada em sentido estrito, supõe da parte de seu autor considerável esforço de estudo próprio, e estudo no sentido corrente. O que sucede é que suas conclusões que tangenciam o místico podem dizer-se em palavras perfeitamente humanas e cristalinas, com o que se negam, assim, os exageros “místicos” ou gnósticos ou modernistas que hoje infestam de tantos modos a Igreja – ao passo que as obras de um S. João da Cruz não raro se vazam em metáforas (ou analogias de proporção imprópria), porque, com efeito, S. João da Cruz não quer concluir ao modo teológico-sagrado, o que supõe o silogismo demonstrativo, mas expor na medida do possível uma experiência sobrenatural. E tanto é verdade o que digo, que o mesmo S. Tomás, após ter tido, ao que parece – e como Moisés e S. Paulo –, um vislumbre da essência de Deus, já não quis escrever, porque para ele escrever significava fazê-lo por silogismos demonstrativos. – Como quer que seja, de todo o dito aqui fiquemos com o seguinte: ninguém será grande metafísico nem muito menos bom teólogo sem o auxílio da graça, sem vida de oração, e sem estar em amizade com Deus. Se se nega isto, nega-se ipso facto que nossa natureza esteja decaída por causa do pecado original. Mas, hão de objetar, Aristóteles e Platão eram pagãos e no entanto eram grandes metafísicos... Ao que se deve responder: Crê-se que o Espírito Santo deixou de agir em almas como a de Platão e a de Aristóteles? crê-se que estes não receberam graças atuais para ser o que foram? Neste caso, crê-se mal.