quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Retificação grave a respeito de “A Maternidade Divina”, de Dom Anscar Vonier, O.S.B.


C. N.

A pedido de pessoas em que deposito total confiança, divulguei amplamente o livro A Maternidade Divina, de Dom Anscar Vonier, O.S.B. Infelizmente houve certa precipitação dos que planejaram a publicação do livro – e de minha própria pessoa: divulguei-o fundado apenas em sumários e sem procurar conhecer o conjunto da obra do autor. Pois bem, o fato é que a teologia do referido beneditino presente, ao menos, em seu livro O Mistério da Igreja incorre em condenação de Pio XII ditada na Mystici Corporis Christi, como o mostra um Comentário do autorizado Padre M. Teixeira-Leite Penido (cf. https://aciesordinata.wordpress.com/2015/10/08/perolas-em-meio-a-lama-da-rede-xvi/). Por isso mesmo, não parece prudente publicar nenhum outro escrito do beneditino, ainda que, como é o caso de A Maternidade Divina, nunca tenha incorrido em censura eclesiástica. 
Não me resta senão suspender e eliminar toda a divulgação que fiz do livro. Quanto aos que planejaram sua publicação, nos quais, repito, confio firmemente, disseram-me que já suspenderam a campanha e que tomarão todas as medidas necessárias para sanar a situação.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Novo curso on-line de Carlos Nougué (de acesso livre): “A Ordem das Disciplinas – segundo Santo Tomás de Aquino”


A Ordem das Disciplinas
– segundo Santo Tomás de Aquino

 “A felicidade última do homem está na contemplação da Verdade.”
Santo Tomás de Aquino

C. N.

Já são muitos os que seguiram ou seguem nosso curso on-line “Por uma Filosofia Tomista”, efetiva introdução à filosofia aristotélico-tomista, ou melhor, à filosofia aristotélica enquanto levada a seus últimos termos ou consequências pelo Teólogo. Uma coisa, todavia, não se pôde fazer nesse curso senão em linhas gerais, a qual, portanto, necessita de expansão e de acabamento: uma precisa, ordenada e detalhada orientação dos estudos conducentes à Sabedoria, incluindo uma bibliografia comentada.
Por isso mesmo é que ministraremos um novo curso on-line, “A Ordem das Disciplinas – segundo Santo Tomás de Aquino”, este de acesso livre, ou seja, gratuito, e cujas aulas, ademais, poderão baixar-se, compartilhar-se e publicar-se francamente. Suas aulas serão mais breves que as de “Por uma Filosofia Tomista”: enquanto estas tinham cerca de duas horas cada uma, as do novo curso terão cerca de quarenta minutos cada uma. A cada semana, em princípio, e a partir de 1º de novembro de 2015, estará em nosso canal do Youtube uma nova aula, o que porém poderá deixar de suceder por qualquer circunstância relativa ao professor. Ademais, quando necessário, as aulas acompanhar-se-ão de algum texto disponível em Estudos Tomistas. Por fim, como resulta do dito mais acima, o curso não terá duração prefixada, e estender-se-á por quantas aulas forem necessárias para cumprir a ementa; mas todas as aulas ficarão indefinidamente em nosso canal, e a data a partir da qual cada aula estará no ar anunciar-se-á com alguns dias de antecedência na página Estudos Tomistas (http://www.estudostomistas.com.br/), por sua newsletter e em nossa página institucional do Facebook.
Eis a ementa do curso, suposta sempre a presença de bibliografia comentada:
1. O ordo disciplinae das artes e das ciências.
Observação 1. Mostrar-se-á, ademais, o que são estas e aquelas, e de que modo as artes podem dizer-se ciências, e as ciências artes (especialmente liberais).
Observação 2. Mostrar-se-á, ainda, a distinção entre arte e experiência.
2. A Gramática (portuguesa, além da latina, da francesa, etc.).
Observação 1. Tratar-se-á, também, a arte da tradução.
Observação 2. Tratar-se-á, ademais, criticamente, a Linguística.
3. A Lógica ou ciência-arte propedêutica a todas as demais ciências e a todas as demais artes.
a) O tratado dos universais:
• os unívocos;
• os análogos;
• os transcendentais;
• as categorias;
• etc.
Observação. As categorias voltarão a tratar-se no âmbito da Metafísica, enquanto os unívocos voltarão a considerar-se especialmente no âmbito da Tópica. E é justo para tratar estes temas que se publicarão em 2016 dois outros livros nossos: Comentário às Categorias de Aristóteles e Comentário à Isagoge de Porfírio.
b) O tratado da interpretação ou da enunciação.
c) O tratado do raciocínio.
d) O tratado do método científico.
3.1. A Dialética (ou Tópica) ou disciplina da investigação do provável.
3.2. A Retórica ou arte de fazer tender ao verossímil mediante o bem e o justo.
3.3. A Poética ou arte de fazer tender ao bem e à verdade mediante o belo.
      § O tratado das falácias ou sofismas.
      Observação 1. Têm o mesmo fim que a Poética as demais artes do belo:
• A Música;
• A Pintura;
• A Escultura;
• O Cinema;
• etc.
Observação 2. A razão de parte potencial da Lógica que deve dar-se à Poética (assim como à Retórica) é mais frágil que a que deve dar-se à Dialética, mas ainda é própria. Resta ver se se pode dar a mesma razão às demais artes do belo.
Observação 2. A Arquitetura não é pura arte do belo.
Observação 3. A Estética parece ser a ciência (prática) do facere das artes do belo: estará para estas, por um lado, assim como a Física geral está para as demais ciências físicas e, por outro lado, assim como as ciências práticas do agere estão para a Prudência. 
    Observação 4. O dito nestas três observações constitui justo o tema de nosso livro Das Artes do Belo: Imitação e Fim, por lançar-se também em 2016.    
4. As ciências práticas do agere.
a) A Ética ou ciência do autogoverno.
b) A Econômica ou ciência do governo doméstico e de seu desdobramento na pólis.
c) A Política ou ciência do governo da pólis.
Observação 1. A Prudência docens ou Ética é verdadeira ciência (prática), mas não é arte de modo algum, enquanto a Prudência utens ou Prudência propriamente dita não é ciência de modo algum, mas se diz arte em sentido amplo.
Observação 2. Tratar-se-á, também, o Direito.
Observação 3. Tratar-se-á, ainda, a História, disciplina subalternada e ordenada à Política e a outras ciências.
5. A Física geral ou ciência genérica do ente móvel.
a) A Cosmologia ou ciência física do ente segundo o lugar.
b) A Química ou ciência física do ente segundo a geração e a corrupção.
c) A Biologia ou ciência física do ente segundo o aumento e a diminuição.
d) A Psicologia ou ciência física do ente segundo alteração.
Observação 1. A alteração é a espécie de movimento relativa às qualidades, e as qualidades por antonomásia são as virtudes intelectuais e morais do homem. Mas a Psicologia ou Antropologia, enquanto trata precisamente a parte intelectivo-volitiva da alma humana, obviamente não é ciência física. Logo, a Psicologia é uma como ciência média entre a Física e a Metafísica, o que decorre da natureza mesma da alma humana.
Observação 2. Tratar-se-ão, criticamente, as chamadas “ciências modernas”.
6. A Matemática ou ciência do ens quantum.
a) A Aritmética ou ciência matemática das quantidades discretas.
b) A Geometria ou ciência matemática das quantidades contínuas.
c) Etc.
7. A Metafísica (ou Filosofia primeira, ou Teologia filosófica) ou ciência do ente enquanto ente.
8. A Teologia sagrada ou ciência de Deus enquanto Deus (ou sob a razão de deidade) – a única das ciências que é simultaneamente especulativa e prática e cujos princípios não se alcançam pelas luzes da razão. 

“Questões Teológicas”: conjunto de hangouts semanais de Carlos Nougué


C. N.

A partir de novembro deste ano, farei (em princípio semanalmente) um hangout sobre alguma questão teológica. O conjunto chamar-se-á precisamente Questões Teológicas e será permanente, ou seja, sem data predeterminada para terminar. Observações.
1) Cada hangout será de uma hora, e em princípio aberto a todos.
2) As questões – sempre fundadas, de algum modo, em Santo Tomás de Aquino – serão aleatórias, ou seja, não seguirão nenhuma ordem predeterminada; escolher-se-ão por qualquer critério de atualidade, de conveniência ou de necessidade .
3) A questão do primeiro hangout será “Que é a Fé”.
4) Ao final de cada hangout, e segundo normas que se darão oportunamente, poderão fazer-se perguntas, que ou terão resposta imediata, ou terão resposta em outro hangout (caso esta demande mais tempo), ou não terão resposta, se se tratar de perguntas inconvenientes.
5) O professor poderá bloquear a participação de quem quer que se comporte inconvenientemente.  
6) A data (em princípio, quarta-feira) e a hora (em princípio, 21 horas) de cada hangout, bem como seu tema, anunciar-se-ão com alguns dias de antecedência na página Estudos Tomistas, por sua newsletter e em nossa página institucional do Facebook.
7) Pode ser, todavia, que em dada semana não haja hangout, o que também se anunciará nesses espaços.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Questões acerca do artigo “As Duas Operações do Intelecto: uma Crítica a Maritain e a Outros Tomistas”


QUESTÃO 1 DO ALUNO

 

Após ler o artigo “As Duas Primeiras Operações do Intelecto: uma Crítica a Maritain e a Outros Tomistas”, restaram-me algumas dúvidas (não, evidentemente, quanto à justíssima crítica a Maritain).

I. A primeira é precisamente a que o senhor mesmo enuncia na entrada “observações”, na parte I, no parágrafo “Naturalmente, etc.,”, ou seja, se a obra única da primeira operação do intelecto é a definição, por que não estudá-la no âmbito da demonstração científica (Analíticos Posteriores).
Parece-me que a única solução conveniente é dizer que a definição que é obra da primeira operação do intelecto não é a mesma que a definição científica (gênero próximo e diferença específica), embora esta signo daquela, como o nome, pois:
a) Santo Tomás diz que o intelecto quase nunca erra, senão per accidens, em sua primeira operação, que consiste na formação da definição ou conceito quiditativo. Ora, se a definição consistisse em indicar o gênero próximo e a diferença específica, o dito seria falho, pois a maioria dos homens é incapaz de dar tal definição. Portanto, a definição que é obra da primeira operação não é a mesma que a definição científica.
b) No número 2 (f), Santo Tomás chama à obra da primeira operação verbo cordial. Ora, não convém chamar à definição científica verbo cordial. Logo...
c) A definição científica parece antes ser um signo exterior da definição interior. Do verbo cordial. Pois, com efeito, a voz ou palavra incomplexa é signo do verbo cordial (2b). Mas a definição científica e o nome incomplexo são convertíveis (“O homem é o animal racional/ O animal racional é o homem”). Logo...

RESPOSTA DO PROFESSOR

Questões gramaticais (1): A matéria da arte da Gramática


C. N.

Objeção. Diz-se na Suma Gramatical que a matéria da arte da Gramática é o ato da escrita. Mas, assim como a matéria da arte da Arquitetura, ou seja, a de fazer casas, são as pedras, a areia, o cimento, etc., assim também a matéria da arte da Gramática, ou seja, a de escrever formas linguísticas, é a tinta ou semelhante e o suporte material em que se aplicam. Por conseguinte, não é a própria escrita a matéria da Gramática.

Resposta. Diz Santo Tomás (em In Post. Anal., lect. 1, n. 1) que, “se do fato de que a razão raciocina sobre o ato da mão se inventou a arte da edificação ou a fabril, pelas quais o homem pode executar este tipo de atos fácil e ordenadamente, pela mesma razão é necessária uma arte que dirija o ato mesmo da razão, de modo tal que o homem proceda nele com ordem, com facilidade e sem erro”. Tal arte diretiva é a Lógica, que, assim, como diz o Padre Calderón (em Umbrales de la Filosofía, p. 230), toma o ato da razão como “certa matéria”   porque, com efeito, tudo o que é ordenado está para o que o ordena assim como a matéria está para a forma. Analogamente, ao ato da escrita toma-o a Gramática também como certa matéria. Se todavia se quer expressar a matéria das formas linguísticas escritas – o sujeito da Gramática  enquanto são formas artificiais, então tal matéria se constitui, por um lado, do suporte em que tais formas se inscrevem e, por outro, da tinta ou semelhante com que se inscrevem. Note-se, contudo, que tal suporte e a tinta ou semelhante já são, eles mesmos, formas artificiais.  
Se pois se considera a matéria desta arte do primeiro modo, ter-se-á a definição de Gramática dada na Suma Gramaticala arte diretiva da escrita [ou seja, do ato de escrever formas linguísticas] segundo regras morfossintáticas cultas, para que o homem possa transmitir suas concepções e argumentações com ordem, com facilidade e sem erro a outros homens distantes no espaço ou no tempo”.
Se porém se considera a matéria mesma das formas linguísticas escritas enquanto são formas artificiais, ter-se-á a seguinte definição de Gramática: a arte de escrever em certo suporte formas linguísticas segundo regras morfossintáticas cultas, para que o homem possa transmitir suas concepções e argumentações com ordem, com facilidade e sem erro a outros homens distantes no espaço ou no tempo. 
   Observação. Tem-se por suposto em ambas as definições que as formas linguísticas escritas são signos da fala.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Se a Teologia Sagrada é a única ciência que é especulativa e prática ao mesmo tempo (em resposta a pergunta de aluno do curso Por uma Filosofia Tomista)


PERGUNTA DO ALUNO

Professor, a teologia sagrada é a única ciência que é especulativa e prática ao mesmo tempo?

RESPOSTA DO PROFESSOR

Assim se dividem as ciências.
1) Antes de tudo, estão as ciências especulativas, que têm seu fim em si mesmas: a Metafísica (ou Teologia Filosófica), a Física Geral e a Matemática.
2) Depois, as chamadas ciências práticas, ou seja, a Ética e a Política. São ciências, mas em ordem ao agir.
3) Depois, as artes, que mais propriamente falando não são ciências, e cuja parte teórica é estritamente normativa e voltada ao fazer (o poiético): a Equitação, a Marcenaria, a Medicina, a Gramática, a Música, a Escultura, etc.
4) Há a Lógica, que é ciência-arte propedêutica às demais ciências.
5) E por fim a Teologia Sagrada, que é ciência perfeitamente especulativa (subalterna-se à ciência de Deus e dos bem-aventurados), e ao mesmo tempo é ciência perfeitamente prática: seu fim é, afinal, a salvação eterna do homem.
      6) Assim porém como Deus conhece suas obras enquanto se conhece a si mesmo, assim também a Teologia Sagrada é antes especulativa que prática, porque, com efeito, não considera os atos humanos senão enquanto por eles o homem se ordena ao conhecimento perfeito e por essência de Deus – até porque é nisto último que consiste o fim de nossa vida, ou seja, a beatitude ou bem-aventurança eterna.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Se a criatura em seu ser inteligível se confunde com a própria essência divina (em resposta a pergunta de aluno do curso A Existência de Deus e a Criação do Mundo – segundo Santo Tomás de Aquino)


PERGUNTA DO ALUNO

A criatura, por exemplo, a minha pessoa, preexiste na essência divina, ou seja, a criatura em seu ser inteligível se confunde com a própria essência divina? A criatura enquanto razão inteligível se confunde com a essência divina?


RESPOSTA DO PROFESSOR

Por partes.
1) Tudo quanto Deus pensa se identifica com ele mesmo. Em Deus, essência e ser, atributos e ideias são uma só e mesma coisa, porque Deus é absolutamente simples: sua essência é Ser.
2) Se assim é, e como tudo quanto existe ou é provém de ideias presentes na mente de Deus desde toda a eternidade, e como Deus é a própria eternidade, então tais ideias se identificam com Deus mesmo: são ele mesmo.
3) Mas atenção: você, eu, aquela árvore, essa pedra, este cão não somos Deus nem emanações da substância dele (isto seria panteístico), mas resultantes de ideias na mente de Deus, assim como uma catedral resulta de um projeto na mente do arquiteto mas não se identifica com este.

Insista-se: a ideia das coisas que são ou existem está presente na mente de Deus desde toda a eternidade e identifica-se com ele, com sua essência, etc. Mas as coisas mesmas ocorrem fora de Deus: têm verdadeira entidade, ainda que dependente da participação do ser por Deus. E nada impede que, conquanto o universo e seus entes estejam como ideia na mente de Deus desde toda a eternidade, não venham a ser senão no tempo: assim como um arquiteto pode ter hoje a ideia de uma catedral mas querer que ela só se construa dentro de, digamos, 15 anos.