sexta-feira, 1 de junho de 2018

"Se se deve rezar pela salvação do mundo", de Carlos Nougué


Carlos Nougué


Nota prévia

Este é o artigo 3 de um longo opúsculo, de mesmo título, publicado em livro (Estudos Tomistas, esgotado). – Atente-se a que se trata de artigo disputado, ou seja, os primeiros argumentos são objeções à doutrina sustentada na resposta do artigo (e na solução das objeções).

*  *  *

E parece que sim, que se deve rezar pela salvação do mundo.
1. Com efeito, pelas razões indicadas anteriormente, deve-se rezar pela salvação de todos. Mas o mundo é formado exatamente por esses todos por cuja salvação se reza. Logo, deve-se rezar pela salvação do mundo.
2. Ademais, o homem é um animal político ou social. Ora, não o poderia ser se não se organizasse em cidades, ou seja, nas nações ou países de que justamente se compõe o mundo. Mas a salvação do homem não pode dar-se, como visto nos artigos anteriores, sem a graça, a qual, todavia, como diz Santo Tomás de Aquino, non tollat naturam, sed perficiat (não suprime a natureza, senão que a perfaz [ou aperfeiçoa]).[1] Por conseguinte, ou seja, porque a graça não vem suprimir o caráter naturalmente político do homem, deve-se rezar pela salvação do mundo e de suas póleis.
3. Por fim, se justamente se entende a natureza política do homem enquanto ordenada à salvação, então esta supõe a cristianização do mundo e de suas póleis; e, com efeito, o mundo cristianizou-se a partir da conversão da Roma imperial e constituiu-se em Cristandade, onde reinava Cristo mediante a direção espiritual da Igreja. Mas o mundo veio descristianizando-se, em longo processo de apostasia que parece atinge hoje o ápice. Deve-se portanto rezar pela salvação do mundo e de seus países no preciso sentido de que se deve rezar por sua recristianização (ou, o que é dizer o mesmo, por sua reorganização em Cristandade).

Mas contrariamente está o dito em 2 Pedro 3, 13.: “esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça”. Ora, diz o Senhor (cf. Mateus 5): “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”. Mas não o serão senão nos céus e na terra onde habita a justiça. Não se deve, portanto, rezar pela salvação do mundo.

Resposta. Deve dizer-se, antes de tudo, que a palavra mundo se toma em várias acepções.
1. Antes de tudo, chama-se “mundo” não só ao universo mas à parte sua em que vivemos, a terra. Ora, o universo, incluída a terra, é exatamente o que passará[2] para dar lugar a novos céus e a uma nova terra.[3] Tais novos céus e tal nova terra, explica-os detidamente Santo Tomás de Aquino no Compêndio de Teologia:[4] porque o mundo será então o lugar dos corpos gloriosos, ou seja, os que se ordenarão absolutamente à alma em sua visão beatífica de Deus por essência, então os astros cessarão de mover-se, na terra já não haverá vegetais nem animais, etc. – tudo isso que terá servido aos homens de corpo propriamente terrestre. E muito mais que compreendermos tal transformação, que se dará com o acabamento da Jerusalém Celeste, os católicos, de acordo com a promessa divina, “esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça”.[5]
2. Ademais, “mundo” é o que encerra ou designa os princípios da recusa de Deus e de sua Igreja (e este é o significado mais comum nas Escrituras e no âmbito teológico): “Não ameis o mundo nem as coisas do mundo... porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e soberba da vida”;[6] “Não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus? Portanto, todo aquele que quer ser amigo deste século, esse se constitui inimigo de Deus”;[7] “Ai do mundo por causa dos escândalos!”;[8] “Todo o mundo está sob o maligno”;[9] “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro que a vós, me aborreceu a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que seria seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do meio do mundo, e por isso o mundo vos aborrece”;[10] “Vem o príncipe deste mundo, e não tem em mim coisa alguma”;[11] “O príncipe deste mundo já está julgado”;[12] “Todo o que nasceu de Deus vence o mundo; e a vitória que vence o mundo é nossa fé”.[13]
3. Chama-se “mundo”, ainda, ao conjunto de homens que hão de ser remidos pela Redenção, ou seja, os eleitos: “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”;[14] o Pai amou o mundo até dar-lhe seu próprio Filho Único e, com este, todos os bens.[15] E, com efeito, ao instituir a eucaristia, disse Cristo: “Bebei dele todos. Porque isto é o meu sangue [que será o selo] do novo testamento, o qual será derramado por muitos [não por todos] para remissão dos pecados”[16] (ou, na versão de Marcos:[17] “Isto é o meu sangue do Novo Testamento, o qual será derramado por muitos”).[18]
4. Chama-se “mundo”, ademais, à sociedade natural (política, cultural, etc.) dos homens: “Se meu reino fosse deste mundo, certamente meus ministros se haveriam de esforçar para que eu não fosse entregue aos judeus”;[19] “Os que usam deste mundo sejam como se dele não usassem, porque a figura deste mundo passa”;[20] “Por carta vos escrevi que não tivésseis comunicação com os fornicadores; não certamente com os fornicadores deste mundo... doutra sorte deveríeis sair deste mundo”.[21]
5. Muitos dizem porém que o mundo entendido no último sentido é, diferentemente do mundo nos dois sentidos anteriores, algo neutro. Mas, em sentido contrário, diz Santo Agostinho[22] que o mundo enquanto sociedade natural nunca é neutro, senão que está permanentemente dividido entre a cidade de Deus e a do demônio. – Daí vem que se possa tomar mundo ainda, e por fim, de outra maneira: a de quando dizemos “mundo cristão”, ou “mundo pagão”, ou “mundo apóstata”, etc. Mas esta última maneira decorre precisamente do referido por Santo Agostinho. Com efeito, o mundo cristão é aquele em que domina a Cidade de Deus, que, sem poder suprimir embora a cidade do demônio e do amor-próprio, como que a mantém encadeada; o mundo pagão e o mundo apóstata são, ao contrário, formas diversas da própria cidade do demônio e do amor-próprio, a qual mantém oprimida a Cidade de Deus (ainda que aquela já esteja de antemão derrotada, no preciso sentido em que o diz o Padre Calmel em Théologie de l’histoire: “Para esta terra, vitória sem dúvida, mas vitória no sentido de que aquele que o Pai deu a Jesus ninguém o pode tirar de Sua mão, não no sentido de que os lobos vorazes não perseguirão as ovelhas fiéis até no redil do Dono e não lhes farão sentir suas mordidas; mas é impossível que os lobos sejam mais fortes que o Dono; eles não podem levar consigo as ovelhas que permanecem firmes na fé e confiantes com humildade”).
Pois bem, hoje não só já apostataram as nações, senão que também já apostatou parte considerável da hierarquia eclesiástica.[23]
• Naturalmente, não há nada de ilícito quanto à fé em rezar pela salvação, ou seja, pela recristianização deste mundo apóstata. Mas, antes de tudo, insista-se, é de fé que tanto no sentido de 1 supra como no de 4 supra um dia o mundo deixará de ser, para dar lugar, como dito, a novos céus e a uma nova terra – e à Jerusalém Celeste. Ademais, a espera dos novos céus e da nova terra, segundo o dito em 2 Pedro 3, 13 (“esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça”), não é própria de hoje, num mundo apóstata; senão que também o era dos tempos apostólicos ou do mesmo cume da Cristandade, o século XIII. Nossa esperança, com efeito, não se há de voltar antes para a terra, para o mundo, ainda um mundo cristão, senão que nos é infundida para que suspiremos sobretudo e justamente pela Jerusalém Celeste. Como diz o Padre Calmel O. P. ainda em Théologie de l’histoire, “Deus faz durar o mundo propter electos”, razão por que este mundo deixará de durar quando se salvar o último deles. Mas, se a história não se desenrola senão para a completação do número dos eleitos, então nossa espera e nosso mesmo rogo não se hão de ordenar última e centralmente senão à cidade e pátria destes – a celeste. Com efeito, diz Santo Agostinho no sermão numerado 116: “Então, digo, no fim do mundo, aproximar-se-ão do fundamento as pedras, as pedras vivas, as pedras santas, para que se complete o edifício que teve início naquela Igreja; ou melhor, na mesma Igreja que agora, enquanto se edifica a casa, canta o cântico novo. Assim se expressa o próprio salmo: ‘Quando se edificava a casa depois do cativeiro’. E quê? ‘Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor toda a terra’ (Ps. 95, 1). Quão grande é esta casa! Quando porém canta o cântico novo? Enquanto se edifica. Quando será a inauguração? No fim do mundo. O fundamento dela já foi inaugurado, porque subiu ao céu e não morre. Também nós, quando ressuscitarmos para nunca mais morrer, seremos então inaugurados”.
• Depois, há que atender à sucessão de eventos profetizada nas Escrituras: a apostasia do mundo e na Igreja;[24] o advento do derradeiro Anticristo, o homem do pecado, o filho da perdição;[25] a morte desse iníquo pelo “espírito da boca” do Senhor;[26] a conversão do povo judeu e seu efeito geral;[27] e, por fim, o segundo advento do Senhor ou Parusia, etc.[28] Pois bem, atendendo assim à referida sucessão de eventos, não é de fácil aceitação que se deem duas ou mais apostasias do mundo e na Igreja antes que enfim se dê a Parusia. Ademais, como vimos, Romanos 11, 11-12 indica certa consequência da morte do Anticristo e da conversão dos judeus. Interpreta-o assim, com outros, o Père Augustin Berthe (em Jésus-Christ, sa vie, sa passion, son triomphe): congraçados então os gentios e os pagãos na mesma fé, o mundo tornará a reger-se por Cristo, o que prosseguirá “por tanto tempo quanto for necessário para que se complete o número de seus eleitos. Quanto anos? Quantos séculos? Esse é um segredo que ele não revelou a ninguém. Tudo o que sabemos por suas últimas predições é que um dia a agonia do mundo soará”, ou seja, um dia se dará o fim do mundo e a Parusia. Mas Santo Tomás admite outra interpretação, mais estrita, destes dois versículos de São Paulo. Com efeito, [...] os que enganados pelo Anticristo tiverem caído totalmente serão, após a conversão dos judeus, restituídos em seu primeiro fervor. E ainda, assim como, após a queda dos judeus, os gentios se reconciliariam com suas antigas inimizades, assim também, após a conversão dos judeus, sendo então iminente o fim do mundo, se dará a ressurreição geral, e por ela os homens, de mortos que estavam, voltarão à vida imortal” (destaque nosso).[29]
• Como quer que seja, parece que, após o tempo mais ou menos longo (ou ínfimo) que se seguirá à conversão dos judeus, não tornará a dar-se apostasia das nações, nem dos judeus, nem na Igreja;[30] e tal tempo não se desdobrará senão, ainda, para a completação do número dos eleitos.
Por isso mesmo é que, conquanto, por não sabermos quantos e quem são os eleitos, Deus queira que rezemos pela salvação de todos os homens, havemos de entendê-lo, teologicamente, como ordenado propriamente e ultimamente ao mundo dos eleitos.

Dê-se, assim, a solução das objeções.
1. Quanto à primeira objeção, deve dizer-se que se concede, se se trata de mundo tomado no sentido de todo o mundo, toda a gente. Mas tal uso da palavra “mundo” é de todo inusual.
2. Quanto à segunda, deve dizer-se que, se a graça não suprime a natureza política ou social do homem, também é certo, todavia, que esta mesma natureza, como também, mutatis mutandis, a virtude nutritiva e a geracional do homem, não passará de certa recordação na Jerusalém Celeste: nesta, com efeito, os homens terão o intelecto deiformado para viver de contemplar a Deus por essência, e segundo isso serão antes como anjos.
3. Quanto à terceira, deve dizer-se que, como dito na resposta, não há nada de ilícito em rezar pela salvação ou recristianização do mundo. Mas, como dito ainda na resposta, se se atende ao profetizado nas Escrituras, não parece provável que o mundo se recristianize antes da morte do Anticristo e da conversão dos judeus.

Quanto ao que se põe contrariamente, deve dizer-se que a esperança dos novos céus e da nova terra não é oposta à cristianização do mundo, que resulta da ordem dada por Cristo a seus discípulos: “Ide e ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mat. 28, 19). Antes, a cristianização do mundo está para o que assim se espera como um meio para o fim. – Mas de fato não se deve rezar pela salvação do mundo se isto se entende no sentido impugnado pela fé.




[1] Summa Theol., I, q. 1, a. 8, ad 2.
[2] Cf. Mat. 24, 35.
[3] Cf. Is. 66, 22; 2 Pedr. 3, 13; Ap. 21, 1-5.
[4] Lib. I, cap. 153-171.
[5] 2 Pedr. 3, 13.
[6] 1 Jo. 2, 15-16.
[7] Tiag. 4, 4.
[8] Mat. 18, 7.
[9] 1 Jo. 5, 19.
[10] Jo. 15, 18-19.
[11] Jo. 14, 30.
[12] Jo. 16, 11.
[13] 1 Jo. 5, 4.
[14] Jo. 3, 17.
[15] Cf. Jo. 3, 16, e Rom. 8, 32.
[16] Mat. 26, 27-28.
[17] 14, 24.
[18] Ambas as passagens extraímo-las tais quais se encontram na Bíblia Sagrada traduzida da Vulgata e anotada pelo Padre Matos Soares (15.ª ed., São Paulo, Edições Paulinas, 1962). – Em La Santa Biblia, traducción directa de los textos primitivos por Mons. Dr. Juan Straubinger (La Plata, Universidad Católica de La Plata, 2007), as mesmas passagens encontram-se assim: “Bebed de él todos, porque esta es la sangre mía de la Alianza, la cual por muchos se derrama para remisión de pecados” (Mat. 26, 27-28); “Esta es la sangre mía de la Alianza, que se derrama por muchos” (Marc. 14, 24).
[19] Jo. 18, 36.
[20] 1 Cor. 7, 31.
[21] 1 Cor. 5, 9-10.
[22] Em Da Cidade de Deus.
[23] “Deve dizer-se que [o Império Romano] não cessou, senão que se comutou de temporal em espiritual, como diz o Papa Leão no sermão sobre os apóstolos. E por isso se deve dizer que a apostasia do Império Romano [referida em 2 Tessalonicenses] se entende não só do temporal, mas do espiritual, ou seja, da fé católica da Igreja Romana. Mas este sinal é conveniente, porque, assim como Cristo veio quando o Império Romano dominava sobre todos, assim também, inversamente, um sinal do Anticristo é a apostasia daquele” (Tomás de Aquino, Comentário à Segunda Epístola aos Tessalonicenses, caput 2, lectio 1).
[24] 2 Tess. 2, 3.
[25] 2 Tess. 2, 3.
[26] 2 Tess. 2, 8. – “... com o espírito de sua boca, isto é, com seu mandato; porque Miguel há de matá-lo no monte das oliveiras, de onde Cristo ascendeu... [Dicendum est, quod nondum cessavit, sed est commutatum de temporali in spirituale, ut dicit Leo Papa in sermone de apostolis. Et ideo dicendum est, quod discessio a Romano imperio debet intelligi, non solum a temporali, sed a spirituali, scilicet a fide Catholica Romanae Ecclesiae. Est autem hoc conveniens signum, quod sicut Christus venit quando Romanum imperium omnibus dominabatur, ita e converso signum Antichristi est discessio ab eo]” (Tomás de Aquino, Super II Epistolam B. Pauli ad Thessalonicenses lectura, caput 2, lectio 2).
[27] Rom. 11, 11-12: “Digo, pois: Porventura tropeçaram eles [os judeus] de modo que caíssem [para sempre]? Não, certamente. Mas por seu delito veio a salvação para os gentios, para incitá-los à emulação. Ora, se seu delito foi a riqueza do mundo, e sua redução a riqueza dos gentios, quanto mais [não o será] sua plenitude? [Dico ergo : Numquid sic offenderunt ut caderent ? Absit. Sed illorum delicto, salus est gentibus ut illos æmulentur. Quod si delictum illorum divitiæ sunt mundi, et diminutio eorum divitiæ gentium : quanto magis plenitudo eorum?]”.

[28] Apoc. 20, 11 s.; 21. – Ponha-se, porém, que nenhum curso histórico é linear, senão que sempre consta de idas e vindas não raro inesperadas; além de que uma coisa é o desenho profético de dada sucessão de acontecimentos – e as profecias são como uma vista aérea de determinado terreno e seus acidentes geográficos –, outra o percurso que se faz nesse mesmo terreno, percurso que, pela própria natureza das coisas, não pode deixar de topar com surpresas e eventos súbitos.

[29] “Vel etiam qui totaliter cadent decepti ab Antichristo, Iudaeis conversis in pristinum fervorem restituentur. Et etiam sicut Iudaeis cadentibus, gentiles post inimicitias sunt reconciliati, ita post conversionem Iudaeorum, imminente iam fine mundi, erit resurrectio generalis, per quam homines ex mortuis ad vitam immortalem redibunt” (Super Epistolam B. Pauli ad Romanos lectura, caput 11, lectio 2).
[30] Resta, porém, conciliar o dito com Apocalipse 6, 13-17. Fica para outro lugar; mas diga-se que antes parece – apenas parece – condizer com a última interpretação de Rom. 11, 11-12 admitida por Santo Tomás. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

"Da Realeza de Cristo", opúsculo de Carlos Nougué


Da Realeza de Cristo


Carlos Nougué


“Dizei às nações: O Senhor é rei. [...] / Jubilem todas as árvores das florestas / com a presença do Senhor, que vem, pois ele vem para governar a terra: julgará o mundo com justiça, e os povos segundo a sua verdade.”
Salmo 95

“Foi-me dado todo o poder no céu e na terra: ide, pois, e instruí todas as nações.”
Nosso Senhor Jesus Cristo,
Evangelho de São Mateus

“Uma coisa é, para o príncipe, servir a Deus na qualidade de indivíduo, e outra fazê-lo na qualidade de príncipe. Como homem, ele o serve vivendo fielmente; como rei, fazendo leis religiosas e sancionando-as com um vigor conveniente. Os reis servem ao Senhor enquanto reis quando fazem por sua causa o que só os reis podem fazer.”
Santo Agostinho,
Carta ao Governador Bonifácio

“É necessário que o fim da multidão humana, que é o mesmo que o do indivíduo, não seja viver segundo a virtude, mas antes, mediante uma vida virtuosa, alcançar a fruição de Deus.”
Santo Tomás de Aquino, 
De regno

“[A Igreja tem em seu poder dois gládios (ou espadas)], o gládio espiritual e o gládio temporal. Mas este último deve ser usado para a Igreja, enquanto o primeiro deve ser usado pela Igreja. O espiritual deve ser manejado pela mão do sacerdote; o temporal, pela mão dos reis e dos soldados, mas segundo o império e a tolerância do sacerdote. Um gládio deve estar sob o outro gládio, e a autoridade temporal deve ser submissa ao poder espiritual.”
Bonifácio VIII,
Unam Sanctam

“O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isso, salvar sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para o ajudarem a alcançar o fim para o qual é criado. Donde se segue que o homem há de usar delas na mesma medida em que o ajudem a alcançar seu fim, e que ele há de privar-se delas na mesma medida em que dele o afastem.”
Santo Inácio de Loiola,
Exercícios Espirituais

“Se eu conseguir ganhar um rei, terei feito mais pela causa de Deus do que se tivesse pregado centenas ou milhares de missões. O que um soberano tocado pela graça de Deus pode fazer no interesse da Igreja e das almas, milhares de missões jamais o farão.”
Santo Afonso M. de Ligório,
apud P. Berthe, S. Alphonse

“Para os povos como para os indivíduos, para as sociedades modernas como para as sociedades antigas, para as repúblicas como para as monarquias, não há sob o céu outro nome dado aos homens em que eles possam ser salvos além do nome de Jesus Cristo.”
Cardeal Pie de Poitiers,
Discours au Président
de la République (1870)

“Os que no governo dos estados pretendem desconsiderar as leis divinas desviam o poder político de sua própria instituição e da ordem prescrita pela própria natureza.”
Leão XIII,
Libertas præstantissimum

“Na ordem das doutrinas, [o liberalismo] é pecado grave contra a fé [...]. Na ordem dos fatos, é pecado contra os diversos Mandamentos da Lei de Deus e de sua Igreja.”
D. Félix Sardà i Salvany,
El liberalismo es pecado

“Não, a civilização não está por inventar [...]. Ela já existiu, ela existe: é a civilização cristã, a cidade católica. O que falta é instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos contra os ataques sempre renascentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade: Omnia instaurare in Christo.”
São Pio X,
Notre charge apostolique

“No juízo final, Jesus Cristo acusará os que o expulsaram da vida pública e, em razão de tal ultraje, aplicará a mais terrível vingança.”
Pio XI,
Quas Primas 

“Nós percebemos a numerosa classe daqueles que consideram os fundamentos especificamente religiosos da civilização cristã [...] sem valor objetivo [para os dias de hoje], mas que gostariam de conservar o brilho exterior dela para manter de pé uma ordem cívica que não poderia passar sem tal. Corpos sem vida, acometidos de paralisia, são eles mesmos incapazes de opor qualquer coisa às forças subversivas do ateísmo.”
Pio XII,
Discurso à União Internacional
das Ligas Femininas Católicas

“O leigo, em certo sentido, está mais diretamente interessado no desenvolvimento da realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo, e isso na medida mesma em que se encontra mais engajado que o clérigo na ordem social, na ordem civil, na ordem secular, mais engajado nas coisas sociais, mais diretamente interessado em matéria política.” 
Jean Ousset,
Pour qu’Il règne


I. Fundamentos teológicos

1. Se o Papa São Pio X determinou para tal ou qual eleição civil que o voto católico deveria dar-se a candidatos menos indignos, cabe-nos conhecer as condições concretas – o contexto – em razão das quais o determinou, para as podermos comparar com as atuais de nosso país e com as de outros. Mas temos, sobretudo, de conhecer os princípios doutrinais em que se baseava para fazê-lo.
2. Ora, não é difícil saber por que princípios doutrinais se pautava São Pio X. E se o sabemos não podemos senão concluir, segundo tais princípios, que uma coisa é votar num candidato menos indigno, e outra, completamente diferente e indigna do nome católico, é fazê-lo repetindo e propagando ideias perfeitamente anticatólicas como o são as liberais. Vezes sem conta, porém, ouvimos da boca e lemos pela pena de católicos a defesa (ainda que mitigada) da democracia liberal, regime político condenado, todavia, pelo magistério da Igreja – especialmente pelo próprio São Pio X – até que o câncer humanista que já corroía sua hierarquia atingisse, na segunda metade do século XX, o ponto metastático máximo. Repetem-se infaustamente, então, argumentos de notórios liberais, como, por exemplo, o de que a democracia liberal é “melhor” que o comunismo, esquecendo-se de dizer não só que este brotou daquela como de terreno propício, senão que a democracia liberal nasceu e se mantém com um único fim: impedir o reinado político-social de Nosso Senhor Jesus Cristo, para impedir todo e qualquer reinado seu.[1] Não é “só” que seu triste lema “liberdade, igualdade e fraternidade” seja uma caricatura das três virtudes teologais, “fé, esperança e caridade”. É-o, sem dúvida, mas é mais que isso: é a barreira que os poderes infernais e mundanos tentam erguer contra a tripla petição que o nosso mesmo Senhor nos prescreveu: “Sic ergo vos orabitis a) santificado seja o vosso nome; b) venha a nós o vosso reino; c) seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”.[2]
3. Pois bem, devemos confessar e divulgar permanentemente a doutrina católica prescrita por Nosso Senhor em seu Pater e desenvolvida pelo magistério da Igreja e pelos Doutores católicos (em especial o Comum, Santo Tomás de Aquino), doutrina segundo a qual:
• Como o próprio homem, tudo no mundo humano – as artes, a economia, a política, etc. – deve ordenar-se de algum modo ao fim último do universo, Deus mesmo. Com efeito, se as artes visam a dar beleza ao homem, se a economia visa a dar comodidade ao homem, se a política visa dar virtudes ao homem, e se o homem se ordena a Deus, logo tais fins não serão senão fins intermediários ou, mais precisamente, meios para a consecução pelo homem do fim último;[3]
 • Ora, tal ordenação de todo o humano ao fim último universal assumiu – em razão da própria história humana, que começa com o estado de justiça original e, passando pelo pecado de nossos primeiros pais e pela queda da natureza do homem, atinge sua consumação com a redenção propiciada pela paixão na cruz –, assumiu, pois, a forma concreta de ordenação a Nosso Senhor Jesus Cristo e a seu reino assim na terra como no céu. O reino de Cristo não é, pois, senão o mesmo reino de Deus que, vertido do flanco de nosso Salvador, se constituiu em Igreja Católica. A mesma Igreja Católica de que não só faz parte o conjunto de seus sacerdotes e fiéis – na terra, no purgatório, ou já no céu –, mas de que também fizeram parte, de modo particular, as próprias nações cristãs, as que constituíram a hoje extinta Cristandade. A mesma Igreja Católica que, ao fim dos tempos, se transmutará gloriosamente na definitiva Jerusalém Celeste;
• Por isso mesmo, ou seja, porque fora da Igreja Católica não há salvação para os indivíduos humanos nem para suas cidades, por isso mesmo é que não há meio-termo: ou os indivíduos humanos e suas cidades fazem parte do reino de Cristo e vivem sob seu reinado, ou se transformam em pasto dos demônios. Tertium non datur. Mas há que saber de onde advém tal oniabrangente realeza, ante a qual todo joelho se há de dobrar para que toda língua a possa louvar dignamente. Vem, antes de tudo, do simples fato de que não pode haver exceção ali onde Deus não deixou nenhum lugar para ela. E não o deixou porque não pode haver exceção com respeito àquele que é o Rei universal, e que o é a triplo título: a) por direito de geração eterna, a do Verbo, que é o alfa e o ômega de toda a criação; b) por direito de natureza por sua união hipostática; e c) por direito de conquista, de redenção, de resgate do gênero humano por sua paixão e morte na cruz. Disse-o o mesmo Jesus: “Omnia potestas data es mihi in cœlo et in terra (Foi-me dado todo o poder no céu e na terra) (Mat. 28, 18). E concluiu São João: “Todo espírito que dissolve Jesus Cristo não é de Deus, mas é justamente esse Anticristo de que ouvistes que está para chegar e que no presente já se acha no mundo”... (1 Jo. 4, 3); 
• E foi ainda Nosso Senhor quem, respondendo à pergunta de Pilatos: “Ergo rex es tu?” (Então tu és rei?), o confirmou: “Tu o disseste” (cf. Mat. 27, 11; Marc. 15, 2; Luc. 23, 3; Jo. 18, 33-34). Mas disse Cristo também que seu reino não é deste mundo, e que se deve dar a César o que é de César. Há que indagar, por conseguinte, se não indicariam essas duas afirmações, respectivamente, uma autonomia essencial deste mundo com respeito ao reino de Cristo e uma divisão essencial entre as duas ordens terrestres, a civil ou temporal e a eclesiástica ou espiritual. E deve responder-se que não, porque: a) se não é “deste mundo”, é por isso mesmo que a realeza de Cristo se exerce, e plenamente, “sobre este mundo”; e b) se é verdade que Cristo estabeleceu a distinção entre jurisdição civil e jurisdição eclesiástica, com o que resolvia graves dilemas pagãos como o de Platão em busca da república ideal, também é verdade, porém, que distinção não implica necessariamente ausência de subordinação de fins, e de subordinação essencial. Com efeito, a ordem temporal está para a ordem espiritual assim como o corpo está para a alma no homem; assim como a natureza está para a graça no justo; e assim como a razão está para a fé na Sacra Teologia.[4] Em outras palavras, embora a ordem civil, quanto à jurisdição, seja distinta da ordem eclesiástica, a esta porém se subordina, quanto aos fins, não acidentalmente, mas essencialmente;
• Por fim, é dever ineludível de todo católico confessar ou professar aquilo que o magistério eclesiástico sempre sustentou, quer insistindo na posse pela Igreja dos dois gládios (o temporal e o espiritual), quer, com São Pio X, convocando todos a “instaurare omnia in Christo” (instaurar todas as coisas em Cristo), quer pondo a pedra angular da doutrina – na qual já tanto insistira o Cardeal Pie de Poitiers – com a Quas Primas de Pio XI: “é evidente que também em sentido próprio e estrito pertence a Cristo como homem o título e a potestade de Rei”; “a força e a natureza deste principado [consistem] num triplo poder”: legislativo, judicial e executivo; e “o principado de nosso Redentor compreende todos os homens […]. ‘Sua autoridade, com efeito [diz Leão XIII em Annum sacrum], não se estende somente aos povos que professam a fé católica […] a humanidade toda está realmente sob o poder de Jesus Cristo.’ E neste ponto não há diferença alguma entre os indivíduos e as sociedades domésticas e civis”. Ou seja: a realeza de Cristo é total, e cada católico tem o imperioso dever de professá-la, sem atenuações, segundo seu estado e sua capacidade.

II. Se ainda é factível, nos dias de hoje, 
a instauração do reinado político-social 
de Nosso Senhor Jesus Cristo

4. Não só já se passou muito tempo desde que o Cardeal Pie de Poitiers, o Papa São Pio X e o Papa Pio XI escreveram o que se leu acima, senão que desde então se estenderam a tal ponto a democracia liberal e a revolução marcusiana (consequência daquela) e suas ervas daninhas, que hoje até a maioria dos próprios batizados na Igreja Católica admite ou pratica algum atentado à lei natural. Muito mais que tudo isso, todavia, entre aqueles tempos e os dias de hoje ocorreu o que já se chamou “golpe de mestre de Satanás”: o destronamento de Cristo Rei pela própria hierarquia da Igreja (não infalivelmente, é claro, porque é impossível que a assistência do Espírito Santo seja autocontraditória). Ademais, parece que já se cumpriram os dois sinais indicados por Cristo da proximidade do fim dos tempos: a apostasia geral das nações e a abominação da desolação instalada no lugar santo. Mas, sem acalentar ilusões que neguem a marcha final da história segundo as mesmas Escrituras,[5] o fato é que nenhum curso histórico é linear, senão que sempre consta de idas e vindas não raro inesperadas; além de que uma coisa é o desenho profético de dada sucessão de acontecimentos – e as profecias são como uma vista aérea de determinado terreno e seus acidentes geográficos –, outra o percurso que se faz nesse mesmo terreno, percurso que, pela própria natureza das coisas, não pode deixar de topar com surpresas e eventos súbitos. E, com efeito, bem diante de nossos olhos se vêm dando gratíssimos eventos súbitos, os principais dos quais são a recristianização constitucional da Hungria e a entronização de Jesus Cristo como rei da Polônia. Que sejamos capazes de apoiá-los e de tentar reproduzi-los, sem ilusões, sim, mas de modo decidido, no meio mesmo dos escombros de um mundo deicida e suicida e dentro das limitações que se nos impõem: será uma maneira contingente e atual de ajudar a instaurar tudo em Cristo. Se só algo mais se instaurar em Cristo, já terá sido muito. Se nem algo assim se der, teremos travado um bom e justo combate.
5. O que porém não podemos fazer de modo algum, insista-se, é deixar de aderir interiormente à realeza total (incluída a político-social) de Jesus Cristo e de confessá-la publicamente, até para não suceder que, de tanto a omitirmos, acabemos nós mesmos por negá-la. Há que saber, no entanto, o que implica efetivamente este dever de confessar publicamente a realeza total de Cristo. Como tal confissão é parte da nossa profissão global da fé, vejamos como explica Santo Tomás de Aquino (na Suma Teológica, II-II, q. 3, a. 2) o preceito de professar exterior e abertamente a fé cristã. Devemos, segundo o nosso Doutor, considerá-lo por dois ângulos. Enquanto tal preceito implica uma proibição, sua obrigação é de todos os momentos e de todas as situações da vida: nunca é permitido ao católico fazer qualquer coisa, ou dizer qualquer coisa, ou escrever qualquer coisa que seja uma negação de sua crença. Enquanto todavia implica um ato positivo, o preceito, conquanto permanente e contínuo, não obriga o católico a professar sua fé a todo momento e em todo lugar. Ou seja, fazê-lo a todo momento e em todo lugar não é necessário para sua salvação. No entanto, o que, sim, é necessário para sua salvação é professá-la na devida hora e lugar, o que não se dá se por omissão da declaração de sua crença o católico deixa de prestar a honra devida a Deus ou deixa de concorrer para a utilidade espiritual do próximo; ou se, ao ser interrogado sobre sua fé, ele se cala, podendo resultar desse silêncio, para o próximo, ou a conclusão de que a fé não é verdadeira, ou a perda dela ou a desistência de abraçá-la. Como seja, o fato é que não nos basta a adesão interior à verdade divina, incluída a realeza total de Cristo; é-nos de preceito confessá-la exteriormente pelo menos nas condições indicadas por Santo Tomás. E são de Nosso Senhor mesmo estas inequívocas palavras: “Todo aquele que não me tiver confessado diante dos homens, o Filho do homem tampouco o confessará diante dos anjos de Deus. E aquele que me tiver negado diante dos homens, esse será negado diante dos anjos de Deus” (Luc. 12, 8-9).
6. Além do mais, ainda que estejamos marchando para o fim dos tempos e que não possamos tornar a instaurar, efetivamente, tudo em Cristo, devemos imbuir-nos profundamente das seguintes palavras do Cardeal Pie de Poitiers,[6] escritas há cerca de um século e meio, e que citaremos extensamente: lutemos

com esperança contra a esperança mesma. Pois quero falar a esses cristãos pusilânimes, a esses cristãos que se fazem escravos da popularidade, adoradores do sucesso, e que são desconcertados pelo menor progresso do mal. Ah! afetáveis como eles são, praza a Deus que as angústias da provação derradeira sejam mitigadas! Esta provação está próxima ou está distante? Ninguém o sabe [...].[7] Mas o certo é que, à medida que o mundo se aproxime de seu termo, os maus e os sedutores terão cada vez mais vantagem. Já quase não se encontrará fé sobre a face da terra, ou seja, ela terá desaparecido quase completamente de todas as instituições terrestres. Os próprios crentes mal ousarão fazer uma profissão pública e social de suas crenças. A cisão, a separação, o divórcio das sociedades com Deus, o que é dado por São Paulo como sinal precursor do fim, “nisi venerit discessio primum”, ir-se-á consumando, dia após dia. A Igreja, sociedade sem dúvida sempre visível, será cada vez mais reduzida a proporções simplesmente individuais e domésticas.[8] Ela, que dizia em seus começos: O lugar me é estreito, abre-me um espaço em que eu possa habitar: Angustus mihi locus, fac spatium ut habitem, ela se verá disputar o terreno palmo a palmo, ela será cercada, encerrada por todos os lados: tanto quanto os séculos a tinham feito grande, tanto se aplicarão muitos agora a restringi-la. Enfim, haverá para a Igreja da terra uma como verdadeira derrota, e será dado à Besta mover guerra contra os santos e vencê-los. A insolência do mal atingirá o ápice.
Ora, nesse extremo das coisas, nesse estado desesperado, neste globo entregue ao triunfo do mal e que logo será invadido pelas chamas, o que deverão fazer todos os verdadeiros cristãos, todos os bons, todos os santos, todos os homens de fé e de coragem?
Aferrando-se a uma impossibilidade mais palpável que nunca, eles dirão com energia redobrada e tanto pelo ardor de suas preces como pela atividade de suas obras e pela intrepidez de suas lutas: Ó Deus! Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome assim na terra como no céu; venha a nós o vosso reino assim na terra como no céu; seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu! Eles murmurarão ainda estas palavras, e a terra tremerá sob seus pés. E, assim como outrora, em seguida a um espantoso desastre, se viu todo o senado de Roma e todas as ordens do Estado ir ao encontro do cônsul vencido, e felicitá-lo por não se ter desesperado da república, assim também o senado dos céus, todos os coros dos anjos, todas as ordens dos bem-aventurados virão ter com os generosos atletas que tiverem sustentado o combate até ao fim, esperando contra a esperança mesma: contra spem in spem. E então este ideal impossível, que todos os eleitos de todos os séculos tinham obstinadamente perseguido, se tornará enfim realidade. Neste segundo e derradeiro advento, o Filho entregará o Reino deste mundo a Deus seu Pai, e o poder do mal terá sido evacuado, para sempre, para o fundo dos abismos; todo aquele que não tiver querido assimilar-se, incorporar-se a Deus por Jesus Cristo, pela fé, pelo amor, pela observância da lei será relegado à cloaca das imundícies eternas. E Deus viverá e reinará plenamente e eternamente, não apenas na unidade de sua natureza e na sociedade das três pessoas divinas, mas na plenitude do corpo místico de seu Filho encarnado e na consumação dos santos![9]




[1] “A democracia é uma religião mais universal que a Igreja [...]. Resulta do grande movimento de apostasia organizado em todos os países para o estabelecimento de uma Igreja Universal que não terá dogmas, nem hierarquia, nem regra para o espírito, nem freio para as paixões” (Pio XNotre charge apostolique). – Outra coisa é considerar se entre os regimes revolucionários um é menos mau que os outros.
[2] “O reino visível de Deus sobre a terra é o reino de seu Filho encarnado, e o reino visível de Deus encarnado é o reino permanente de sua Igreja” (Cardeal Pie de PoitiersŒuvres sacerdotales, III, 501). Sobre esta identidade dos três reinos: o reino de Deus, o reino de Nosso Senhor Jesus Cristo e o reino da Igreja, cf. ainda Cardeal Pie de Poitiers, Œuvres sacerdotales: I, 143-144, 317 a 320, 381, 499-500.
[3] Mas, se uma obra de arte – um romance, uma peça teatral ou musical, um filme – leva o homem a afastar-se de Deus por qualquer razão, já não o terá de modo algum por fim, mas servirá aos inimigos dele e da santidade; e diga-se analogamente o mesmo da política, da vida econômica, etc.
[4] Para estas analogias, cf. muito especialmente Padre Álvaro CalderónEl Reino de Dios en el Concilio Vaticano II (versão em PDF), p. 16-24. Quanto ao próprio Santo Tomás de Aquino, cf. Summa Theol., II-II, q. 60, a. 6; De regno, liv. 1, cap. 15, e In II Sententiarum, dist. 44, q. 1, a. 3, c. e ad 5; Contra Gent., l. 4, cap. 72, n. 10; et alii loci. – Por seu lado, o Cardeal Pie de Poitiers dizia que o poder temporal está para o espiritual assim como a natureza humana de Cristo está para sua natureza divina. Parece válida também esta analogia, com a desvantagem, porém, com respeito às outras, de que entre as duas naturezas de Cristo não há nem pode haver nenhum conflito. Para esta analogia do Cardeal Pie de Poitiers, cf. especialmente a Lettre à M. le ministre de l’instruction publique et des cultes (16 de junho de 1861) e a Troisième instruction synodale sur les principales erreurs du temps présent. – Para o dito pelo magistério da Igreja acerca disto, cf.: Documento de excomunhão e de deposição de Henrique IV (S. Gregório VII); encíclica Sicut universitatis (Inocêncio III); bula Unam Sanctam (Bonifácio VIII); constituição Licet iuxta doctrinam (Erros de Marsílio de Pádua e de João de Jandun sobre a constituição da Igreja; João XX); encíclica Etsi multa luctuosa (Pio IX); encíclica Quanta cura (Pio IX); o Syllabus (Pio IX); encíclica Quod Apostolici muneris (Pio IX); encíclica Diuturnum illud (Leão XIII); encíclica Immortale Dei (Leão XIII); encíclica Libertas praestantissimus (Leão XIII); encíclica Sapientiae christianae (Leão XIII); encíclica Annum sacrum (Leão XIII); encíclica Rerum novarum (Leão XIII); encíclica Graves de communi re (Leão XIII); encíclica Vehementer Nos (S. Pio X); encíclica Communium rerum (S. Pio X); encíclica Jucunda sane (S. Pio X); encíclica Pascendi (S. Pio X); motu próprio Sacrorum antistitum (S. Pio X); encíclica Editae saepe Dei (S. Pio X); encíclica E supremi apostolatus (S. Pio X); encíclica Il fermo proposito (S. Pio X); Carta sobre a ação social, janeiro de 1907 (S. Pio X); encíclica Ad diem illum (S. Pio X); alocução Gravissimum (S. Pio X); encíclica Notre charge apostolique (S. Pio X); encíclica Ubi arcano (Pio XI); encíclica Quas Primas (Pio XI), a carta magna da Cristandade; encíclica Divini illius magistri (Pio XI); encíclica Quadragesimo anno (Pio XI); encíclica Firmissimam constantiam (Pio XI); encíclica Summi Pontificatus (Pio XII).
[5] A saber: apostasia geral das nações  a abominação da desolação instalada no lugar santo  advento e império breve do Anticristo  conversão dos judeus e refervor geral da fé dentro de tempo mais ou menos longo ou mais ou menos breve, a Parusia ou segunda e definitiva vinda de Cristo, com a conformação de novos céus e de nova terra. 
[6]Discours prononcé le 8 novembre 1859 dans l’église cathédrale de Nantes à l’occasion de la réception des reliques de Saint Émilien”, in Oeuvres de Monseigneur l'Évêque de Poitiers, t. 3, Bibliothèque Nationale de France, p. 526-528.
[7] Sobre a incerteza da hora do juízo, cf. Mateus 24, 36-44.
[8] Deve entender-se isto não como uma previsão de que a Igreja perderá sua hierarquia por herética ou cismática (se a perdesse, teria falhado a promessa de Cristo e o definido pelo próprio magistério, e o Cardeal Pie não teria dito: “a Igreja, sociedade sem dúvida sempre visível”); senão que deve entender-se como uma previsão de que será encerrada nas referidas proporções, como o foi na época das catacumbas e como o é, por exemplo, na China atual. 
[9] Œuvres sacerdotales, III, 527-529.