terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Ainda os descaminhos filosóficos do neotomismo: os primeiros princípios e a teodiceia


Carlos Nougué


Em várias obras, diz Garrigou-Lagrange O.P. que o “princípio da identidade” é o primeiro dos primeiros princípios; e ele certamente não foi o primeiro a dizê-lo. Por outro lado, em sua A Essência do Tomismo, Manser O.P. põe o “princípio da razão suficiente” entre os primeiros princípios. Mas nada disso é de Aristóteles nem de Tomás de Aquino: ambas as coisas são de Leibniz. Não que por serem de Leibniz sejam erradas; mas o fato é que também nisso errou Leibniz. O “princípio da identidade” (“todo ser é o que é”) responde ao matematicismo cartesiano-leibniziano, e corresponde à famosa e vácua fórmula 1 = 1. Aí está um modo de ser profundo sem dizer absolutamente nada. Quanto porém ao “princípio da razão suficiente” (“nada existe sem razão suficiente), responde ao idealismo de Leibniz: Deus conhecia todos os mundos possíveis, mas, como por sua sabedoria não podia agir sem razão suficiente, de todos os mundos possíveis só fez o melhor. É o chamado “otimismo” leibniziano. Mas Tomás de Aquino demonstra na Suma Teológica que Deus poderia ter criado outro e melhor mundo, ainda que nenhum mundo que Deus criasse pudesse ser inconveniente. – O neotomismo também tomou de Leibniz, de certo modo, outra doutrina metafísica: a chamada “teodiceia”, mediante a qual Leibniz pretendia conciliar Deus e o mal no mundo. Mas o que encontra não é nada tomista, e Tomás de Aquino respondeu previamente a ele de modo cabal em sua vasta obra. Sucede todavia que quase todos os neotomistas dividem a Metafísica em Ontologia e em Teodiceia, com o que se infringe a unidade simpliciter da Metafísica: esta, como a Teologia Sagrada, não tem partes subjetivas. Mas, infelizmente, desde o século XVII os doutores e teólogos católicos também passaram a dar à Teologia Sagrada partes subjetivas: Teologia Dogmática, Teologia Moral, etc. – São os descaminhos do neotomismo: e assim é porque, como dizia Santo Tomás de Aquino, um pequeno erro no princípio torna-se um erro grande ao final. 

     Observação. Se critico o neotomismo, não deixo porém de ter grande apreço por boa parte dos neotomistas: com efeito, foram bravos combatentes sob o estandarte do tomismo contra inimigos pertinazes e majoritários. Mais que isso: ainda está por publicar-se em português a maior parte de sua obra, o que é urgente. Mas a principal tarefa dos tomistas hoje, quando nosso isolamento é total e por isso mesmo é possível seguir a Santo Tomás em espírito e letra, é voltar à doutrina do mestre sem concessão alguma ao ambiente. Para o fazermos, todavia, há que superar os desvios que sete séculos fizeram padecer à doutrina de Tomás de Aquino. Por isso, e tão somente por isso, não deixarei de insistir nos erros dos neotomistas.  

domingo, 22 de janeiro de 2017

“Do Papa Herético” e o dilema conciliar


Carlos Nougué

Diante do grave dilema que nos impõe o magistério conciliar, e em particular o de Francisco, têm-se dado duas respostas. A primeira, reagindo aos desvios da fé por parte do Magistério conciliar, acaba com o mesmo Magistério, e pois com a mesma Igreja, negando assim a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam. A segunda, pretendendo ater-se a esta mesma promessa, termina por calar-se diante dos referidos desvios da fé, ou até por segui-los, ambas as coisas inconvenientes. Tem-se buscado ainda, porém, uma posição média entre esses extremos, com doutrinas com a das “duas Igrejas” – mas sempre, a meu ver, insatisfatoriamente.
Por isso escrevi “Do Papa Herético”, ou seja, para mostrar que é possível uma posição média satisfatória entre tais extremos. Fundei-me amplamente nas Escrituras, no magistério da Igreja, na doutrina de multidão de Santos Padres, de Doutores e de teólogos – e em inegáveis fatos da vida pregressa da Igreja. E creio que, sim, consegui resolver neste escrito o referido dilema. Se o tiver feito, todavia, não terá sido senão pela só graça de Deus. 

Data de lançamento de “Do Papa Herético e outros opúsculos”, de Carlos Nougué


Carlos Nougué 

Meu Do Papa Herético e outros opúsculos sairá pelas Edições Santo Tomás, terá cerca de 500 páginas (suprimiram-se alguns opúsculos previstos, em prol da viabilidade), formato 14 x 21 cm, miolo costurado e em papel Polen, capa com laminação fosca, e tem lançamento previsto para 10 de abril próximo. Devido ao alto custo da produção, será impresso por encomenda, e por isso de meados de fevereiro a meados de março se dará sua pré-venda (junto com uma série de outras promoções). Quantos se venderem, tantos se imprimirão. Passado este primeiro momento, o mesmo esquema de pré-venda do livro voltará a fazer-se regularmente.  

Observação 1. Publicado Do Papa Herético e outros opúsculos, será a vez, então, dos também meus Da Figura do Silogismo (de cerca de 200 páginas) e Das Artes do Belo: Essência e Fim (de cerca de 500 páginas), além de outros  se Deus quiser e para sua maior glória.
Observação 2. A segunda edição (revista) da Suma Gramatical da Língua Portuguesa (É Realizações, formato 16 x 23 cm, 608 pp.) sairá em fevereiro próximo. 

Visão de Daniel sobre o tempo final


“Cresceu até alcançar os astros do céu, do qual fez cair por terra diversas estrelas e as calcou aos pés. Cresceu até o chefe desse exército de astros, cujo holocausto perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu. Por causa da infidelidade, além do holocausto perpétuo foi-lhe entregue um exército! A verdade foi lançada à terra. O pequeno chifre teve êxito em sua empreitada. Ouvi um santo que falava, a quem outro santo respondeu: quanto tempo durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés? Respondeu: duas mil e trezentas noites e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido. Ora, enquanto eu contemplava essa visão e procurava o significado, vi, de pé diante de mim, um ser em forma humana, e ouvi uma voz humana vinda do meio do Ulai: Gabriel, gritava, explica-lhe a visão. Dirigiu-se então em direção ao lugar onde eu me achava. À sua aproximação, fiquei apavorado e caí com a face contra a terra. Filho do homem, disse-me ele, compreende bem que essa visão figura o tempo final” (Daniel VIII, 10-17).

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A civilização será cristã – ou não será perfeita civilização


São Pio X


“A Igreja, com pregar a Cristo crucificado, escândalo e loucura aos olhos do mundo (1 Cor. 1, 23), tornou-se a primeira instituidora e fautora da [perfeita] civilização, cujos bens se derramaram, por onde quer que a pregação dos Apóstolos se tenha feito ouvir, conservando e apurando os elementos bons as antigas civilizações pagãs, arrancando à barbárie e adestrando à vida civil as novas gentes, que rejuvenesciam amparadas ao seio maternal, imprimindo em toda a sociedade, se bem que a passos lentos, mas com traços seguros e sempre progressivos, aquele caráter tão realçado que retém [retinha] até o dia de hoje. A civilização do mundo é a civilização cristã [não judaico-cristã], tanto mais verdadeira, duradoura, provida de frutos preciosos quanto mais lidimamente cristã for; tanto mais decaindo, com dano imenso do bem-estar da sociedade, quanto mais se subtrair à ideia cristã. Tanto é assim, que a força intrínseca das coisas constitui, de fato, a Igreja guardiã e paladina da civilização cristã; fato este reconhecido e aclamado por outros séculos da História” (Enc. “Il fermo proposito”, 11-6-1905, A.S.S. vol. 37, p. 746).   

“Questão Disputada sobre as Criaturas Espirituais”: mais um livro de Santo Tomás traduzido


Carlos Nougué

“O ser em ato de todas as coisas é causado pelo ato primeiro e perfeito simpliciter, que tem em si a plenitude da perfeição”, diz uma vez mais Santo Tomás de Aquino, agora na Questão Disputada sobre as Criaturas Espirituais. É um dos pontos centrais da doutrina tomista, que, porém, infelizmente, ainda que involuntariamente, é obscurecido por boa parte dos tomistas, sobretudo ao confundir ser e existência ou ainda ser e ente (como o mostro num opúsculo do livro Estudos Tomistas). Pois bem, acabo de terminar a tradução de mais esta obra magna de Tomás de Aquino, e enviá-la-ei hoje mesmo à É Realizações, pela qual se publicará. Nesta tradução, uma vez mais procurei primar pelo lema “seguir a Santo Tomás em espírito e em letra”. Que Deus me tenha ajudado.  

domingo, 15 de janeiro de 2017

O Sumário de “Opúsculos – II”, de Carlos Nougué


Opúsculos II*

Sumário

I) Filosofia
1) Lições de Sócrates
2) Das artes liberais: a necessária revisão
Apêndice: Da ordem pedagógica das disciplinas 
3) Da divisão do gênero vivente e da definição de homem
4) Se o “bom” é um transcendental
5) Da hipótese heterotrófica para o surgimento da vida
6) Do sexo masculino e do sexo feminino
7) Da xifopagia e da individuação
8) Crítica da crítica kantiana das provas da “existência” de Deus
Apêndice 1: Das vias pelas quais alcançamos ciência das coisas
Apêndice 2: Defesa das cinco vias tomistas  
9) Tradução de “Da eternidade do mundo contra murmurantes”, opúsculo de Santo Tomás de Aquino
Apêndice 1: Se se contradiz Santo Tomás ao afirmar que uma criação ab aeterno não repugna à razão
Apêndice 2: Se é possível fazer remontar ao infinito as causas eficientes ou motoras
Apêndice 3: Se é possível fazer remontar ao infinito as causas materiais

II) Teologia Sagrada
1) Das complexas relações entre fé e razão e entre Filosofia e Teologia Sagrada
2) Dos sentidos e da inerrância das Escrituras
3) Do significado da frase evangélica “Rasgou-se o véu do templo”
4) Se Deus sofre por nossos pecados
5) Se o limbo é eterno
6) Da doutrina herética do aniquilacionismo
7) Tradução de “Dos juízos dos astros”, opúsculo de Santo Tomás de Aquino
Apêndice 1: Da impossibilidade de que o astrólogo acerte por si mesmo quanto ao que depende da vontade humana
Apêndice 2: Se a obra Speculum astronomiae, de Santo Alberto Magno, autoriza a estudar ou a usar qualquer tipo de astrologia
8) Da salvação pelo “batismo de desejo”
9) Se pode haver milagres fora da Igreja
10) Dos dois catecismos de São Pio X
11) Se o homem pode ter mais de um fim último (exposição)
12) Da Realeza de Cristo
13) Corte e costura humanista
14) Fátima e a Rússia de Putin
14) Do papa herético
Apêndice: Linha média versus sedevacantismo, ou quando os extremos se tocam
15) Da chamada missa nova

III) Artes
1) Se Teogonia e Trabalhos e Dias, de Hesíodo, são poesia
2) Da arte de traduzir
3) Intentio Cordis
4) O segredo de Léon Bloy
5) O arrependimento de um grande artista
6) Da arte da Música:
A música no Brasil do descobrimento ao fim do Império
Requiem aeternam dona eis, Domine
Um carmen figuratum da Cruz e um “X” de Bach
Origens e invenção da sinfonia
O Haydn sinfonista
Prélude, Choral et Fugue, de César Franck
A música maior de Anton Bruckner
Apêndice: tradução de “Reflexões sobre a Nona Sinfonia de Bruckner”, de Günter Wand
O Stabat Mater de Dvořák, o ápice da música religiosa não litúrgica
Por que e em que sentido dizemos que Dvořák é superior a Bruckner na música religiosa
O que tem da música de Bruckner a música de Egon Wellesz
As sinfonias de Gustav Mahler
• A música majestosa de Franz Schmidt
O Livro dos Sete Selos, a obra-prima de Franz Schmidt
As sinfonias de Richard Wetz e as de Franz Schmidt
A obra organística de Charles-Marie Widor
A obra malograda de Dmitri Shostakovich
Glenn Gould, o maior dos pianistas
7) Da arte do cinema:
• Cinema: arte liberal, arte do belo
Nostalgia, de Andrei Tarkovski
Céu e Inferno, de Akira Kurosawa: grande filme de fundo cristão
Vá e Veja, de Elem Klimov – ou a nem sempre fácil apreciação de uma obra de arte
São Basílio e a arte pagã – e o cinema de Ozu
O cinema de Yasujirō Ozu: a poesia do familiar e do doméstico
Rope, de Alfred Hitchcock
• Um belo filme russo da era de Nikita Khrushchov: A Balada do Soldado
Wit, de Mike Nichols – uma película surpreendente



* Carlos Nougué, Opúsculos – II, edição do autor. Está já em fase de revisão final.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

El problema de la Misa “Una Cum”



1º SEGÚN LA SANA TEOLOGÍA DE LA PRIMERA, SEGUNDA Y TERCERA ESCOLÁSTICA

Padre Domingo Báñez

El eminente teólogo dominico Domingo Báñez[i], comentando la Suma Teológica del Aquinate (In IIam-IIae, q. 1, a. 10) y retomando la hipótesis de su hermano de orden el cardenal Tommaso de Vio, llamado Cayetano[ii] (De comparatione auctoritatis Papae et Concilii, Roma, Angelicum, 1936, ed. a cargo de Vincent Pollet, cc. 18-19), explica que el Papa, si, por pura hipótesis investigativa, cayese en herejía, seguiría siendo Papa. En efecto, la falta de la gracia santificante lo separaría del Alma de la Iglesia y la falta de fe de Su Cuerpo, pero la jurisdicción visible del Pontífice romano no sería herida ya que ella se refiere al gobierno visible de la Iglesia, que es una sociedad visible y no puede ser privada de la Primera Autoridad visible que la gobierna a causa de la falta en esta última de la gracia o de fe, las cuales son hábitos sobrenaturales invisibles[iii].
Por lo tanto, según Báñez (y Cayetano en la escuela de Santo Tomás[iv]), el Papa hipotéticamente hereje no sería miembro vivo de la Iglesia por falta de la gracia, no haría parte ya del Cuerpo de la Iglesia por error contra la fe, pero sería su Cabeza visible en acto en cuanto al gobierno o a la jurisdicción: “El Papa no es Cabeza de la Iglesia en razón de la santidad o de la fe porque no es por ello que puede gobernar a los miembros de la Iglesia, sino que es Cabeza suya en razón del oficio ministerial, que lo hace apto para dirigir y gobernar la Iglesia mediante el gobierno externo y visible y a través de la jerarquía eclesiástica, que es visible y palpable. Por lo tanto, según el influjo espiritual de la gracia y de la fe, no es miembro de la Iglesia de Cristo, si no las tiene; por el contrario, según el poder de gobernar y dirigir la Iglesia, es su Cabeza visible en acto” (In IIam-IIae, q. 1, a. 10, Venezia, 1587, coll. 194-196)[v].

Charles-René Billuart

Billuart[vi] (1685-1757), en su De Incarnatione (disert. IX, a. II. § 2, objec. 2), retoma la tesis de Báñez y enseña que “la Cabeza gobierna y el miembro recibe la vida de la gracia. Por lo tanto, si el Papa cayese en herejía, mantendría aún la jurisdicción con la cual gobernaría la Iglesia, pero no recibiría ya el influjo de la gracia santificante y de la fe por parte de Cristo, Cabeza invisible de la Iglesia y, por lo tanto, no sería miembro de Cristo y de la Iglesia. Ahora bien, en un cuerpo físico quien no es miembro físico no puede ser cabeza física, pero en un cuerpo moral o en una sociedad la cabeza moral puede subsistir sin ser miembro moral de ella. En efecto, un cuerpo físico sin vida no subsiste y una cabeza física muerta no gobierna el cuerpo físico, mientras que la cabeza moral de una sociedad o cuerpo moral lo gobierna aun sin la vida espiritual o la fe” (cfr. Charles-René Billuart, Cursus theologiae, III pars, Venezia, 1787, pp. 66; II-II pars, Brescia, 1838, pp. 33-34, 123 y 125).

Padre Réginald Garrigou-Lagrange

Recientemente también uno de los mayores teólogos del siglo XX, el padre Réginald Garrigou-Lagrange[vii], en su tratado De Christo Salvatore (Torino, Marietti, 1946, p. 232), comentando a Santo Tomás (S. Th., III, pp. 1-90) y retomando la doctrina de los dos Doctores dominicos contrarreformistas arriba citados, precisa que un Papa hipotéticamente herético oculto permanecería siendo miembro de la Iglesia en potencia, pero no en acto, y mantendría la jurisdicción a través de la cual gobierna visiblemente la Iglesia. El hereje público, por el contrario, no sería ya miembro de la Iglesia ni siquiera en potencia, como enseña Báñez, pero mantendría el gobierno visible de la Iglesia.
Es pacífico, por lo tanto, para la sana y la más alta teología de la primera, segunda y tercera escolástica (Santo Tomás, Cayetano, Báñez y Garrigou-Lagrange) que, admitido y no concedido que el Papa caiga en herejía, mantendría igualmente la jurisdicción y permanecería siendo la Cabeza de la Iglesia, aun cesando de ser miembro de ella.
Si se tratase de una cabeza física, explica el padre Garrigou-Lagrange, esto sería imposible, pero es posible si se trata de una Cabeza moral y además “vice gerens”, o sea, se trata del Vicario visible de Cristo invisible ascendido al Cielo y Cabeza principal de la Iglesia.
La razón de esto es que la cabeza física de un cuerpo no puede influir y mandar a los miembros de su cuerpo si es separada de él físicamente porque no recibe ya la vida del alma separada de la cabeza y del cuerpo (por ejemplo Ticio es decapitado y muere, su alma abandona su cuerpo y su cabeza ya no lo dirige, a través del cerebro, todos los órganos), mientras que una Cabeza moral de una sociedad o de un ente moral (temporal como el Estado o espiritual como la Iglesia) puede ejercitar la jurisdicción sobre el ente moral aunque esté separado de la Iglesia y del influjo vital interno y sobrenatural de Cristo por el error contra la fe o por el pecado[viii]. Esto, aun siendo anormal y excepcional, es posible[ix].

2º EL SEDEVACANTISMO Y LA CUESTIÓN DE LA MISA “UNA CUM”

Una cuestión espinosa

Se resuelve, así, la famosa y espinosa cuestión de la Misa celebrada “una cum Pontifice N.” (Pablo VI-Francisco I). En efecto, como el Papa hipotéticamente hereje no sería miembro de la Iglesia por falta de la gracia, no haría parte del Cuerpo de la Iglesia por error contra la fe, pero sería, sin embargo, Cabeza visible suya en cuanto al gobierno o a la jurisdicción según la mejor teología tomista, desde el Aquinate († 1274), a los teólogos contrarreformistas (siglo XVI) y a Billuart (siglo XVIII) hasta al padre Garrigou-Lagrange († 15 de febrero de 1964). Entonces es del todo lícito citar en el Canon de la Misa al Papa (eventualmente) hereje, que no es miembro de la Iglesia, pero que en cuanto al poder de jurisdicción es su Cabeza, diciendo, como reza el Canon: “In primis, quae tibi offerimus pro Ecclesia tua sancta catholica: quam pacificare, custodire, adunare et regere digneris toto orbe terrarum: una cum famulo tuo Papa nostro N. et Antistite nostro N. / Te ofrecemos estos dones ante todo por tu Iglesia santa y católica, para que le concedas la paz, la protejas, la congregues en la unidad y la gobiernes en el mundo entero, junto con [una cum] tu servidor el Papa N., con nuestro Obispo N.” Se pide, en efecto, al Señor que pacifique, proteja, congregue en la unidad y gobierne la Iglesia  junto con el Papa y el Obispo del lugar donde se celebra. En pocas palabras, se ora por la Iglesia, por el Papa y por el Obispo nada más y nada menos. Esta es la traducción exacta de las palabras “una cum” del Canon de la Santa Misa[x].
Los sedevacantistas pretenden que ellas signifiquen: “… tu santa Iglesia católica, que es una cosa sola con tu siervo nuestro Papa N.”. Ahora bien, aunque fuera así y se dijese, en el Canon de la Misa, que la Iglesia y el Papa son una cosa sola porque el Papa es su Fundamento y su Cabeza visible, a la luz de cuanto ha sido enseñado por los teólogos arriba citados no habría ningún inconveniente. Por lo tanto, el Papa puede ser nombrado también en el Canon Missae según esta traducción inexacta sin cometer ningún pecado.

Prima Sedes a nemine judicatur

En el caso de un Papa malo, que lleve a la Iglesia hacia una grave crisis de fe y de costumbres, como ninguna autoridad humana es superior al Papa, se puede pedir a Dios que lo convierta o que se lo lleve de esta tierra como enseña Santo Tomás de Aquino: “El mal prelado puede ser corregido por el inferior que recurre al superior denunciándolo, y si no hay un superior [como en el caso del Papa, cuyo superior es sólo Cristo, ndr], recurra a Dios para que lo corrija o se lo lleve de la faz de la tierra” (IV Sent., dist. 19, q. 2, a. 2, qcl. 3, ad 2). En ningún caso se puede juzgar al Papa [con un veredicto jurídico, se entiende] y deponerlo del Papado: “Prima Sedes a nemine judicatur”. El Concilio Vaticano I (IV sesión, 18 de julio de 1870, Constitución dogmática Pastor aeternus) definió dogmáticamente el principio de la injudiciabilidad del Papa por toda autoridad humana o eclesiástica[xi]. El CIC de 1917, en el canon 1556, retomando la definición dogmática del Vaticano I, estableció el principio: “Prima Sedes a nemine judicatur”, retomado también tal cual por el CIC de 1983, canon 1404.
Por lo tanto, en el Canon de la Misa es lícito pedir a Dios que ayude a la Iglesia junto con el Papa y el Obispo del lugar (una cum Papa nostro N. et Antsistite nostro N.) y que, si no hay otro remedio, se lo lleve de la faz de la tierra a “nuestro Papa Francisco” y lo acoja en el seno de su Misericordia. Se tenga en cuenta, sin embargo, que desear la condenación de cualquier persona es pecado mortal.

3º. CONCLUSIÓN 

No hay pecado alguno en nombrar en el Canon Missae el nombre del Papa considerado, pero no demostrado, decaído del Pontificado porque, admitido y no concedido que no sea miembro de la Iglesia por eventual indignidad o herejía, sigue siendo su Cabeza y su fundamento visible en cuanto a su gobierno. Es lícito también asistir a la Misa “una cum” sin cometer pecado mortal.
Un bautizado manchado por una vida inmoral o por falta de fe, si es elegido canónicamente Papa, no es miembro vivo o no es en absoluto miembro de la Iglesia, pero sigue siendo su Cabeza (aunque indigna) en cuanto al poder de jurisdicción. Por lo tanto, la gobierna visiblemente y debe nombrársele en el Canon de la Misa sin por esto mancharse de pecado y manchar a la Iglesia, que es Santa en cuanto a su naturaleza (Cuerpo Místico de Cristo), a su fin (el Cielo), a su origen (Cristo) y a sus medios (Sacramentos, Magisterio infalible y Leyes), pero está compuesta por divina voluntad por miembros santos y pecadores. El Papa, como miembro, puede ser un pecador incluso contra la fe, hipotéticamente podría ser considerado “hereje”, pero sólo de manera puramente investigativa o dubitativa, como cuando Santo Tomás de Aquino se pregunta en forma ficticiamente dubitativa: “An Deus sit / Si Dios existe” (S. Th., I, q. 2, a. 3). Sin embargo, en ambos casos seguiría siendo Cabeza visible (aunque indigna) de la Iglesia en cuanto a Su gobierno.
Privar hoy, en este mundo contemporáneo literalmente convertido en “infernal”, a los fieles de la Misa tradicional porque es celebrada nombrando en el Canon el nombre del Papa elegido canónicamente y reinante pública aunque malamente, es un juego perverso que expone a la mayor parte de los fieles al riesgo próximo de no poder vivir habitualmente en estado de gracia, privándolos de todos los Sacramentos administrados “una cum”.
Es lícito para los fieles ir a toda Misa tradicional (celebrada también no “una cum”) porque es el Ministro que responde a Dios de sus decisiones, mientras que el fiel debe sólo responder de si ha observado el 3º Mandamiento: “Santificarás las fiestas”.
No olvidemos nunca la enseñanza del Angélico según la cual “Dios no abandona jamás a su Iglesia hasta el punto de no poder encontrar suficientes ministros para las necesidades del pueblo” (S. Th., Suppl., q. 36, a. 4, ad 1). Ahora bien, si los únicos Sacramentos lícitos fueran los administrados sin el “una cum”, los ministros católicos serían totalmente insuficientes para las necesidades del pueblo y la Iglesia no sería ya “católica”, o sea, esparcida por todo el mundo, sería una iglesilla ni siquiera nacional, sino incluso regional.

Petrus

(Traducido por Marianus el Eremita)

[i]      Nacido en Valladolid el 29 de febrero de 1528 y muerto en Medina del Campo el 21 de octubre de 1604. Discípulo de Domingo Soto y de Melchor Cano en la Universidad de Salamanca, escribió allí profundos comentarios a la Suma Teológica del Aquinate y enseñó durante muchos años obteniendo fama de profundo intérprete de Santo Tomás de Aquino († 1274), el máximo Doctor de la primera Escolástica y el Doctor Común u Oficial de la Iglesia universal. El nombre de Báñez está vinculado indeleblemente a la célebre controversia sobre el concurso divino, sobre la pre-moción física, sobre la gracia eficaz y sobre la predestinación al Cielo ante praevisa merita sostenida por él y por su Orden en  los años 1582-1588 contra Luis Molina (Cuenca 1536 – Madrid 1600) y los Jesuitas. Fue hombre de vida austera y de profunda piedad y durante varios años confesor de Santa Teresa de Avila y del emperador Felipe II. Cfr. U. Viglino, voz Bañez, en Enciclopedia Cattolica; C. Giacon, La seconda scolastica, Milano, Bocca, 1946, vol. II.
[ii]     Teólogo, cardenal y Maestro general de los Dominicos, nacido en Gaeta el 2 de febrero de 1468, muerto en Roma el 10 de octubre de 1533, descansa en la Basílica de Santa María sopra Minerva junto a Ferrarensis (Ferrara 1474 – Rennes 1528) o Francesco de’ Silvestri da Ferrara, el gran comentador de la Suma contra Gentiles de Tomás de Aquino. Tomás de Vio fue un trabajador infatigable y escribió numerosísimas obras de filosofía, teología y de exégesis, pero su fama más perdurable permanece vinculada al clásico comentario de la Summa Theologiae de Santo Tomás de Aquino, compuesto de 1507 a 1520, cuya mayor edición es la Leonina en 13 volúmenes, iniciada en 1882 por voluntad de León XIII. Cfr. U. Degli Innocenti, voz De Vio Tommaso, en Enciclopedia Cattolica; C. Giacon, La seconda scolastica, Milano, Bocca, 1946, vol. II.
[iii]    “Sea cual sea la forma de gobierno, lo que importa ante todo es que haya un gobierno, de otro modo una sociedad no permanece en pie. Por lo tanto, la existencia de un gobierno está justificada por el orden intrínseco que establece y conserva las relaciones entre los hombres, los cuales deben vivir y viven de hecho en sociedad. Ahora bien, el gobierno de una sociedad compleja, como es la sociedad civil o el Estado nacional [y con mayor motivo la sociedad espiritual universal que es la Iglesia, ndr], debe ser fuerte, esto es, capaz de someter y dirigir toda la actividad de las familias y de los demás organismos que pueden desarrollarse dentro de dicha sociedad· (F. Roberti – P. Palazzini, Dizionario di Teologia Morale, Roma, Studium, IV ed., 1968, vol. I, p. 753, voz “Governo”).
[iv]    III Sent., d. 25, q. 1, a. 2, ad 5; S. Th., II-II, q. 14, a. 2, arg. 4; II-II, q. 1, a. 10; II-II, q. 10, a. 5, ad 3; II-II, q. 1, a. 7, arg. 2; II-II, q. 2, a. 6, ad 3; II-II, q. 1, a. 9, sed contra.
[v]     Es interesante resaltar que Domingo Báñez (In IIam-IIae, q. 1, a. 10, Venezia, 1587, col. 196), tratando este problema, hace una analogía entre el Rey y el Papa, entre el Estado y la Iglesia, analogía negada por algunos que declaran al Papa decaído del Papado.
[vi]    Nacido en Revin en Ardena el 8 de enero de 1685 y muerto allí el 20 de enero de 1757. Su obra principal es la Summa Sancti Thomae hodiernis Academiarum moribus accomodata (19 voll., Lieja, 1746-51), que continuó con el Supplementum cursus Theologiae (Lieja, póstumo 1759). El mismo Billuart hizo un compendio de las dos obras titulado Summa Summae Sancti Thomae sive compendium Theologiae (6 voll. Lieja, 1754). Defendió la doctrina tomista y bañeciana sobre la premoción física, la predestinación y la gracia eficaz. Fue el teólogo más estimado de su tiempo y especialmente en el siglo XIX. También en nuestros días su Summa es uno de los manuales más consultados por su absoluta fidelidad al tomismo, la claridad de su exposición y la precisión de su lenguaje. Cfr. P. Mandonnet, voz Billuart, en D. Th. C., vol. II, coll. 890-892.
[vii]   Nacido en Auch (Francia) en 1877 y muerto en Roma en la Clínica San Domenico en la plaza Sassari el 15 de febrero de 1964. En 1909 inició la enseñanza de la teología dogmática en la Pontificia Universidad de los Dominicos, llamada Angelicum, en Roma y la continuó hasta 1960. “En la primera mitad del siglo XX y sobre todo durante el pontificado de Pío XII fue el teólogo más escuchado por la Curia romana. Preciso, claro, metódico y profundo, supo poner al servicio de la teología mejor que nadie la filosofía neotomista” (B. Mondin, Dizionario enciclopedico di filosofia, teologia e morale, Milano, Massimo, II ed., 1994, p. 362). Garrigou-Lagrange “fue el teólogo católico más eminente e influyente de la primera mitad del siglo XX, aquel que tras la crisis modernista supo mejor que nadie realizar una sólida síntesis entre el dato revelado y el realismo filosófico de Santo Tomás. El edificio que construyó con el instrumento de la filosofía tomista es de enorme alcance; es admirable también, además de por su grandiosidad, por la solidez de todas sus partes. Es el edificio clásico de la teología clásica post-tridentina” (B. Mondin, Dizionario dei Teologi, Bologna, ESD, 1992, p. 255). Cfr. I. Colosio, Il padre Maestro Reginaldo Garrigou-Lagrange, l’uomo di studio, en “Rivista di ascetica e mistica”, 1965, pp. 52-68.
[viii] Juan Hus (1369-1415) consideraba, como los Donatistas, que los sacerdotes privados de la gracia santificante no confieren válidamente los Sacramentos (DS, 1208). El extendía este principio también al poder que respecta al gobierno o a la jurisdicción de la Iglesia. En pocas palabras, según Hus, un Papa que no sigue a San Pedro en las buenas costumbres y en la confesión de la fe no es Papa, sucesor de Pedro, sino que es vicario de Judas Iscariote (DS, 1212-1213); si el Papa es malo o infiel, entonces, igual que Judas, es un demonio, un ladrón, destinado a la ruina eterna, y no Cabeza de una Santa Iglesia Militante, no siendo ni siquiera miembro de esta (DS, 1220). Según Hus esto vale para todos los Cardenales y los Obispos y también para los titulares de los poderes civiles: “nadie es pública autoridad civil desde el momento en que está en estado de pecado mortal” (DS, 1230). Cfr. G. Perini, I Sacramenti, Bologna, ESD, 1999, II vol., Battesimo, Confermazione, Eucarestia, pp. 87-88; A. M. Lanz, voz Hus, en Enciclopedia Cattolica.
[ix]    No es absoluta o metafísicamente posible aun por milagro sólo lo que repugna (por ejemplo que un triángulo, permaneciendo como tal, tenga cuatro ángulos); es físicamente posible por milagro que un peso dejado en el vacío no caiga a tierra si Dios suspende las leyes naturales; sólo de manera excepcional y anormal, por el contrario, es moralmente posible que una madre odie y mate a su hijo yendo monstruosamente contra la inclinación natural.
[x]     Véase G. Campanini – G. Carboni, Vocabolario Latino-Italiano, Italiano-Latino, Torino, Paravia, 1961, VI ed., p. 158, voz “Cum”: “preposizione con l’ablativo indicante compagnia. […]. Una cum, insieme /  preposición de ablativo que indica compañía. […]. Una cum, junto con”.
[xi]    “Enseñamos y declaramos que, según el derecho divino del Primado papal, el Romano Pontífice es el juez supremo de todos los fieles[…]. Por el contrario, nadie podrá juzgar un pronunciamiento de la Sede Apostólica, autoridad mayor de la cual no existe. Por lo tanto, quien afirma que es lícito apelar contra las sentencias de los Romanos Pontífices al Concilio ecuménico, como a una autoridad superior al Sumo Pontífice, está lejos del recto camino de la verdad” (DS, 3063-3064).