sábado, 14 de maio de 2022
segunda-feira, 9 de maio de 2022
segunda-feira, 2 de maio de 2022
domingo, 10 de abril de 2022
A radical diferença entre a teologia moral de Santo Tomás de Aquino e a teologia moral de Santo Afonso de Ligório
Carlos Nougué
domingo, 27 de março de 2022
quinta-feira, 24 de março de 2022
A Questão dos Jesuítas
Carlos Nougué
1) Um defeito de muitos católicos tradicionais atuais – e julgo-me tradicional – é considerar que o Concílio Vaticano II brotou como um cogumelo depois de uma chuva. Dividem a história entre um antes do CVII perfeito e um depois do CVII catastrófico. Em parte têm razão; mas não quanto ao antes do CVII, porque é nesse antes que se devem encontrar as causas remotas e as mais ou menos próximas da hecatombe conciliar.
2) Alguns, porém, embora não tenham uma
visão tão idílica do pré-CVII, têm-na com respeito a um caso particular, por
exemplo o dos jesuítas, que teriam sido magníficos até o CVII e ruinosos depois
dele. Mas tal idealização não procede.
Observação: aliás, não procede nenhuma
idealização quanto à história da Igreja. Esquecemos que o joio e o trigo sempre estiveram e sempre estarão misturados até a Parusia? Esquecemos que o mistério da
iniquidade e multidão de anticristos já estavam em ação nos tempos apostólicos?
Quanto mais não estarão, no entanto, no tempo da apostasia das nações, começado
no já remoto século XIV!
a) Surgem os jesuítas numa situação em que,
falando propriamente, já não existia cristandade, que começara a findar duzentos
anos antes, no já referido século XIV. À parte o breve interregno dos Reis
Católicos, de Carlos V e de Felipe II, já a Igreja não contava entre suas
fileiras com nações propriamente cristãs. O humanismo e o Renascimento fazem renascer o paganismo; Lutero tira
à Igreja meia Europa; e
b) O Concílio de Trento foi uma magnífica
reação da Igreja, mas nem sequer nele se voltou a falar da doutrina dos dois
gládios: ainda estava fresca na memória católica a afronta de Felipe, o Belo, a
Bonifácio VIII, e o papado, acuado diante da crescente independência e
arrogância dos reis e da burguesia, era já uma cidadela grandemente sitiada.
Mais: no âmbito do próprio tomismo, pelas mãos de Francisco de Vitoria – um
nominalista que se cria tomista –, começava a corromper-se a doutrina
magisterial e tomista da subordinação essencial do poder temporal ao espiritual
(a doutrina dos dois gládios ou da realeza social de Cristo).
c) Os jesuítas, todavia, fazem sua entrada nesse
quadro dramático com a incumbência arduíssima de restaurar a cristandade – o
que porém já era impossível (ainda que fosse então impossível sabê-lo
impossível). Conseguem recuperar metade da metade da Europa perdida para o
protestantismo, mas já se tratava de uma metade só semicatólica. Quanto ao
fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio, era um tomista de estrita observância,
e fez gravar na ordem que fundara o cunho tomista; ele, diga-se, e os demais grandes
santos fundadores. É verdade que Santo Inácio já dizia pouco mais ou menos a
seus padres: A doutrina tomista da predestinação é a correta (e, digo eu,
perfeitamente acorde com a definição do Concílio de Quiersy: Os
que se salvam, salvam-se por dom de Deus; os que se perdem, perdem-se por
merecimento, ou seja, por sua própria culpa), mas, continuava o nosso Santo,
não insistam nela publicamente porque pode confundir-se com
o luteranismo. A consequência, contrária à intenção do Fundador, não tardou:
morto Santo Inácio, pelas mãos de Luis de Molina a Companhia de Jesus se faz
antitomista e, pelas próprias premissas do molinismo, voluntarista. Aliás,
ainda hoje vemos entre os defensores acríticos da Companhia de Jesus afirmações
como esta: Se não tivessem impedido a livre ação dos jesuítas na China, esta se
teria tornado um Império carolíngio do Oriente. E a graça, nada?
d) É bem verdade que a disputa entre
jesuítas e dominicanos em torno do tratado da predestinação teve muito de
sectária: ordem contra ordem, não doutrina contra doutrina, pouco mais ou menos
como a Ordem Franciscana se encarniçara contra Santo Tomás de Aquino. E
certamente todo o sectarismo do enfrentamento de ordem contra ordem influiu na
crítica feita ao trabalho dos jesuítas no Império chinês. Mas sem dúvida os
jesuítas exageraram: a chamada Questão do Rito não foi algo inventado por maliciosas
mentes dominicanas e franciscanas. De fato, os sucessores de Santo Inácio
faziam já – muitos séculos antes do CVII – certa inculturação no rito da missa
para converter os chineses, assim como companheiros seus se vestiam de brâmanes
na Índia para converter os hindus... Por isso mesmo, a condenação da
inculturação jesuítica por dois papas
(Clemente XI, em 1715, e Bento XIV, em 1742) foi mantida, em 1939, por Pio XII,
que da decisão de seus predecessores só revogou um ponto preciso: autorizou os
católicos chineses a participar dos cultos cívicos confucianos, desde que não
se envolvessem em nenhuma idolatria.
e) Ademais, já predominava na teologia moral uma inflexão de
consequências nefastas: a substituição da caridade pelo tribunal da
consciência. Não foi algo próprio dos jesuítas. A enorme Teologia Moral de
Santo Afonso de Ligório peca exatamente por isso (ainda que, claro, santo que
era, o nosso teólogo não tenha dado nenhuma norma ou preceito moral falso).
Some-se porém uma ética afinal caudatária em algum grau do racionalismo (não
será Kant quem instituirá o imperativo categórico da consciência?) ao
voluntarismo molinista, e ter-se-á o fundo teológico dos erros jesuíticos em
suas missões. Entenda-se bem: é imenso o mérito dos jesuítas em todo o mundo,
incluindo a América, quanto à conversão de grandíssima quantidade de almas
(para não falar de seus próprios mártires). Foram vítimas, ademais, de
implacável perseguição maçônica, jansenista e protestante. Nada disso, no entanto, suprime
o problema: pelo sistema circulatório do catolicismo já corria voluntarismo e,
digamos, “consciencientismo”, com o que a graça ficava como que relegada ao
papel de coadjuvante.
f) Os problemas não param por aí. Depois de São Roberto Belarmino,
jesuíta, ter reafirmado de algum modo a correta doutrina da ordenação essencial
do poder temporal ao espiritual, no seio da própria Companhia de Jesus surge um
negador de peso dessa mesma doutrina: Francisco Suárez, que dando continuidade
ao posto pelo dominicano Francisco de Vitoria e aprofundando-o introduzirá na política
teológica católica uma espécie de “vontade geral” avant la lettre, ou
seja, antes mesmo que o fizesse Rousseau. A vontade do povo é a vontade de
Deus. Pois bem, voluntarismo + “consciencientismo” + democratismo liberal em
germe = rendição (involuntária) ao mundo moderno. Não por nada a Revolução
Francesa vai fazer desmoronar facilmente o que restava das velhas nações
cristãs por toda a Europa e depois pelas Américas. Será preciso esperar Leão
XIII, São Pio X, Pio XI para que o papado, agora já completamente sitiado,
voltasse a falar da doutrina dos dois gládios, ou seja, da ordenação essencial
do poder temporal ao espiritual, ou seja, da realeza de Cristo, e tentasse
fazer voltar o tomismo. Mas este já é outro assunto, igualmente espinhoso.
g) Quanto à questão da “restrição mental”, os jesuítas não foram os
únicos a propagá-la, mas também o fizeram, sim. A distinção sutil entre
“restrição mental lata” e “restrição mental estrita” não resolve o problema.
Aliás, embora o magistério da Igreja só tenha condenado esta, não autorizou
aquela; tão só não a desautorizou. Mas será tão difícil entender que onde o
tribunal da consciência impera sobre a caridade tem lugar a “restrição mental
lata”, que afinal não é senão uma maneira de mentir julgando que não se está
mentindo? Um exemplo de “restrição mental lata”: “Não tenho este livro”, diz
alguém ao que lho pede emprestado, fazendo a “restrição mental”: “para
emprestar-to a ti”. Os defensores deste tipo de “restrição mental” arguem que
é fácil ao outro deduzir o que o “restringidor” não disse. Sem dúvida, se ele
tiver algum dom paranormal... Aliás, revisei há uns dois anos um longo tratado
de ética de um importante grupo da Igreja segundo o qual seria
preciso rever a dura doutrina agostiniano-tomista sobre a mentira: para os dois maiores doutores da Igreja, a mentira é
sempre pecado, a ponto de que nem sequer na guerra tem lugar. Por que o dizia o referido tratado? Porque hoje há a espionagem, e o
espião tem de mentir constantemente para bem cumprir seu ofício!!! Porventura
não terá passado pela cabeça do tratadista que o próprio ofício da espionagem é
pecaminoso e ilícito?
h) Se agora se soma todo o quadro traçado acima ao fato de que mesmo
grandes papas como Leão XIII, Pio XI e Pio XII – a par de uma doutrina sempre impecável
por assistência do Espírito Santo – levassem a efeito na prática uma política de
ralliement ou de relações cordiais com regimes liberais, e ao fato de
que a cúria conservadora (por exemplo, o Cardeal Ottaviani) e os tomistas em
geral já fossem muros com brechas incapazes de conter a torrente impetuosa do
modernismo quanto às relações entre o poder temporal e o espiritual, ter-se-á o
terreno perfeitamente adubado para a eclosão conciliar. Não haverá reversão?
Isso não depende de nós, mas de Deus e seus desígnios na história. Podemos
dizer tão somente que, embora o tomismo não seja capaz de salvar o mundo, sem o
tomismo o mundo não se salvará.
Observação
final. A tal ponto estava fendido o muro do conservadorismo antiliberal no seio
da Igreja, que um Cardeal Billot, jesuíta que abraçara sinceramente o tomismo
propugnado pelos papas e se transformara num paladino da reação ao modernismo e
ao liberalismo, não entendeu todavia perfeitamente a doutrina magisterial e
tomista dos dois gládios ou realeza social de Cristo. Era tão frágil seu muro
antiliberal, que se opôs à condenação por Pio XI da Action Française de Charles
Maurras não por inoportuna – e teria tido então razão –, mas por ver naquele
movimento de caráter nada católico um verdadeiro aliado da Igreja. Onde ficava
para Billot a Quas primas de Pio XI? Nos dias da festa
litúrgica de Cristo Rei? Mas explica-se: como sempre o disse ele mesmo, o nosso
grande Cardeal era discípulo de seu irmão de religião Francisco Suárez quanto à
política teológica.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022
Nelson Rodrigues católico tradicionalista?
Carlos Nougué
É o que se lê e ouve por aí. E, com efeito, Nelson Rodrigues chegou a
elogiar Dom Lefebvre. Mas em verdade não o fez senão para contrapô-lo a Dom Helder
Câmara e todo o “catolicismo marxista”, porque anticomunista de fato Nelson Rodrigues
foi. Como todavia chamar, já nem se diga católico tradicionalista, mas católico
pura e simplesmente a quem disse coisas como a que se lê na imagem abaixo ou
como esta: “Sou um menino que vê
o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de
morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de
ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)”? Ou a quem teve numerosos romances e peças teatrais interditados pela censura, o mais
das vezes a pedido da Igreja, por atentado à moral?
Veja-se uma relação parcial dessas obras censuradas e muitos
de seus “edificantes” títulos, tão “edificantes” como seu conteúdo: A mulher sem pecado, Álbum de família, Bonitinha mas ordinária, Vestido de noiva, Anjo negro, Senhora dos Afogados, Vinde ensaboar vossos pecados, Valsa
nº 6, A falecida, Perdoa-me por me traíres, Viúva, porém honesta, Boca
de Ouro, Toda nudez será castigada.
Mais: foram suas peças uma das principais molas e inspirações
da maré montante da pornografia no cinema brasileiro a partir do próprio regime
militar. Ademais, mesmo depois de sua “conversão” ao tradicionalismo católico,
jamais Nelson Rodrigues foi capaz de fazer a mínima autocrítica com respeito a
estas obras suas.
Mas dirão seus
defensores... católicos: Em suas peças Nelson Rodrigues apenas espelha com
realismo a realidade do pecado, “a vida como ela é”. Já lhes respondeu porém Pio XII, falando do
cinema: “Uma
coisa é conhecer os males, procurando dar-lhes explicação na filosofia e na
Religião; outra é fazer deles objeto de espetáculo e diversão. Ora, acontece
que dar forma artística ao mal, descrever-lhe a eficácia e o desenvolvimento,
os caminhos claros ou tortuosos com os conflitos que gera ou através dos quais
caminha, tem para muitos uma atração quase irresistível” (“Alocução de 28 de
outubro de 1955 aos representantes do mundo cinematográfico”).
Você,
católico que quer contribuir para a salvação de seus filhos, teria ânimo para
dar-lhes a ler tais obras de Nelson Rodrigues? ou ao menos temeria o julgamento
de Deus por isto? ou ainda se poria a si mesmo em ocasião de pecado lendo ou vendo tais peças?
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Novo curso gratuito de Carlos Nougué (irá ao ar dentro de cerca de dois meses)
HUGO DE SÃO VÍTOR E SUA DOUTRINA
Ementa:
1) Vida e obra, e seu lugar na escolástica
2) Se é verdade que Santo Tomás o tinha por
mestre
3) Seu método educativo
4) Sua divisão e ordem das disciplinas
(ainda caudatária do estoicismo)
5) Sua doutrina dos sacramentos (refutada
por Santo Tomás)
6) Sua doutrina da beatitude (dita por
Santo Tomás ou herética [de um ângulo] ou ao menos temerária [de outro], e dita
estranha por São Boaventura)
7) Por que Hugo de São Vítor é tão louvado
hoje em dia por certos pensadores católicos
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
Há tempo de calar e tempo de falar
Santo Ambrósio e São Jerônimo, ao comentarem o versículo do
Eclesiastes em que se diz: “Há tempo de calar e tempo de falar”, confirmam-no, e
dizem que esta é a causa por que o primeiro mandamento de Pitágoras a
seus discípulos era o de não falar durante cinco anos, para que com o longo
silêncio se esquecessem do mal que sabiam, e ouvindo-o a ele aprendessem o que depois
haviam de falar – e desse modo saíssem mestres. E conclui São Jerônimo: “Aprendamos
também nós primeiro a calar para que depois saibamos falar; guardemos silêncio
por algum tempo; andemos com os olhos nos que se assinalam nesta ciência para imitá-los; façamo-nos primeiro discípulos, para que depois de muito silêncio
possamos ser mestres”.
sábado, 8 de janeiro de 2022
Que Hugo de São Vítor tenha sido mestre de Santo Tomás é um blefe
Carlos Nougué
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
COM A VARIANTE ÔMICRON, PROSSEGUE O CASTIGO DIVINO
Carlos Nougué
Sempre a Igreja, seus santos e seus
doutores disseram que as pestes e as catástrofes naturais são castigos de Deus
pelos pecados dos homens. E a pandemia de covid-19, obviamente, também o é;
apesar de não poucos católicos – e alguns do melhores – preferirem brincar de
Sherlock Holmes para descobrir conspirações dos globalistas (como se precisasse de conspirações uma revolução já tão vitoriosa). Não querem ou não
conseguem ver que os revolucionários hegemônicos dos dias de hoje – os marcusiano-globalistas,
ou sadolibertinos – estão tontos diante da pandemia, que afeta gravemente
seus interesses: crise econômica global com inflação galopante no campo da
alimentação e no da energia, tambores de guerra mundial, protecionismo crescente,
lockdowns que obrigam os cidadãos a encerrar-se em seus territórios
nacionais e as famílias em seus lares (que coisa mais antiglobalista pode haver
que isso!?), etc. Naturalmente, as grandes farmacêuticas lucram com a venda de
bilhões de doses de vacinas; mas isso é assim mesmo no capitalismo, haja vista
quanto lucraram a indústria siderúrgica e a bélica nas duas guerras
mundiais (e pode haver algo mais antiglobalista que guerras globais?!).
Pois bem, como dito, prossegue o castigo
divino que é a atual pandemia, e é castigo longo e lento: a gripe espanhola era
mais letal que a covid-19 mas seu vírus era menos mutante que o desta (só no Brasil já há cerca de 40 variantes), razão
por que a devastação causada por ela foi relativamente mais breve que a da pandemia de covid-19. Além disso, como todos os castigos divinos, a atual
pandemia traz imensos bens. Por exemplo: ao que parece, não vai haver carnaval
de rua este ano ao menos em algumas das grandes cidades. O demônio deve de estar
contorcendo-se de ódio impotente.