sábado, 17 de julho de 2021

A impressionante justeza da doutrina do P. Calderón com respeito ao CVII

                                                                                                Carlos Nougué 

Diante do CVII, erguem-se antes de tudo três posições mutuamente excludentes.

1) Como devemos dócil obediência ao magistério da Igreja, devemos igual obediência ao magistério conciliar e pós-conciliar; e, se as posições deste parecem heréticas, a culpa é de nosso frágil entendimento: na verdade, não fazem senão continuar o magistério de sempre. – É a hermenêutica da continuidade.

2) Como as posições do magistério conciliar e pós-conciliar são heréticas e rompem com o magistério infalível anterior de quase dois mil anos, não só não lhe devemos obediência alguma, senão que os papas deste magistério não são papas: porque um papa herético não pode ser papa. – É o sedevacantismo.

3) Como algumas posições do magistério conciliar e pós-conciliar rompem com a doutrina de sempre e outras não, só lhe devemos obediência quanto a estas, não quanto àquelas, que devemos criticar de algum modo. – É o tradicionalismo crítico.

Mas estas três posições encerram verdades e falsidades.

1) É verdade que as posições do magistério conciliar e pós-conciliar rompem, naquilo que lhes é próprio, com a doutrina de sempre; quando não o fazem, fazem quase sempre de modo que se dissimulem aquelas.

2) Mas também é verdade que não só Cristo prometeu assistência perpétua ao magistério da Igreja para que este não errasse em matéria de fé, de costumes e de coisas conexas, mas por isso mesmo devemos completa e dócil obediência a este magistério. Desse modo, escolher que posições do magistério se devem adotar ou criticar resulta de puro arbítrio e, em verdade, de mais ou menos consciente indocilidade ao magistério da Igreja.

3) Portanto, o único modo de conciliar estas duas coisas, a saber: o magistério autêntico da Igreja é assistido pelo Espírito Santo, razão por que não pode errar; e é evidente que o magistério conciliar e pós-conciliar incorre, naquilo que lhe é próprio, em desvio da fé – como na doutrina ecumenista, na da sã laicidade dos estados, na da liturgia humanista, etc. –, o único modo, digo, de conciliar estas duas coisas é reconhecer que o magistério conciliar e pós-conciliar, em vez de impor, depôs sua autoridade doutrinal, deixando de falar “em pessoa de Cristo” para falar, humanística e liberalmente, “em pessoa do Povo de Deus”. Salvam-se assim tanto o reconhecimento de que o Espírito Santo assiste o magistério da Igreja quando fala “em pessoa de Cristo” como a devida docilidade a este magistério. Mas esta não é uma solução arbitrária, para salvar, digamos, as aparências. É exatamente o que se deu no e após o Vaticano II, o que se pode comprovar abundantemente pelos próprios documentos deste magistério. Em outras e mais precisas palavras, isso é dito pelo próprio magistério conciliar e pós-conciliar.

Observação 1: lembro que, quando li A Candeia Debaixo do Alqueire, onde o P. Calderón escreve o que resumi acima, entrei em estado de exaltação intelectual: “Heureca!”, pensei, “este sacerdote finalmente resolveu o enigma da esfinge conciliar!”

Observação 2: mas então por que eu mesmo escrevi e lancei o livro Do Papa Herético? Para mostrar duas coisas que me pareceram não constar, ao menos de modo explícito, no livro do Padre. Primeira: se é, e de fato o é, como diz A Candeia..., então o magistério conciliar e pós-conciliar se reduz a magistério privado. (Resumo muito a coisa, porque com efeito há momentos – poucos – deste magistério em que ele reafirmou a doutrina de sempre, o que porém não fez senão como “momento dialético” ordenado à palavra última do Povo de Deus.) Segunda: como um papa incurso em desvio da fé rompe com aquilo para o que foi eleito, mas nem por isso perde o cargo (e são numerosas as afirmações do magistério de sempre com respeito a isto), então há que dizer que ele permanece papa, sim, mas com jurisdição precária (tudo o que, é claro, está detidamente demonstrado e explicado em meu livro).

sexta-feira, 16 de julho de 2021

“FRANCISCO NÃO SE EQUIVOCA”

Por Miguel Ángel Yáñez (12/7/2020) 

(in Adelante la Fe; tradução de Urlan Salgado de Barros)

Se fazemos uma leitura calma do Motu Proprio Traditionis Custodes, o chamado Anti-Summorum, há que reconhecer que, do ponto de vista de Francisco e da revolução conciliar, é absolutamente coerente e compreensível em seus juízos, justificações e medidas: não se equivoca, porque atrás da Missa tradicional há algo mais que uma sensibilidade, algo que os inquieta profundamente, e com razão.

A imposição do Novus Ordo não foi, como nos querem fazer crer desde o Summorum Pontificum, uma nova forma do rito romano que expressava a mesma fé de sempre, ainda que marcando os acentos de forma ligeiramente diferente.

A nova missa tem sido, e é, o aríete com que o modernismo destruiu as portas da antiga Fé para substituí-la por uma nova mediante o Lex Orandi, Lex Credendi; por algo os cardeais Otavianni e Bacci a definiram como “afastada em conjunto e em detalhe da teologia católica da Santa Missa”.

Parece-lhes exagerada esta afirmação? Contra factum non valet argumentum, contra fatos não há argumentos que valham: simplesmente façam uma simples visita a qualquer igreja cheia aos domingos e perguntem sobre dogmas de Fé, sobre o que é a Santa Missa, sobre a transubstanciação, sobre a moral sexual mais básica e em todas as ordens, e descobrirão que a grande maioria das pessoas e do clero – com batina ou sem batina – que há ali dentro mal conservam parcos vestígios da verdadeira Fé.

Compreender-se-á, pois, como a tentativa impossível de Bento XVI de tornar quadrado o círculo, querendo unificar duas supostas “formas” e, por sua vez, dissipar as dúvidas sobre o Vaticano II com sua absurda hermenêutica da continuidade – nunca demonstrada e nem sequer exposta sistematicamente –, não podia senão explodir em algum momento, porque não é possível, se não renunciamos à lógica e ao princípio de não contradição, sintetizar um suposto único rito romano bicéfalo com duas cabeças ontologicamente concebidas para se destruírem uma à outra, porque não é que cada uma expresse o mesmo com ligeiro acento diferente, senão que expressa exatamente o oposto da outra. Não pode haver síntese, enriquecimento nem paz litúrgica que valha entre um rito concebido para destruir a teologia católica da Santa Missa e outro concebido para engrandecê-la.

Não esqueçamos, como já expus num artigo anterior (https://adelantelafe.com/summorun-pontificum-y-la.../), que o Summorum Pontificum não é mais que o resultado de uma das condições das negociações que se deram com a Fraternidade São Pio X, as quais não frutificaram, ficando tudo como uma imensa “batata quente” nas mãos do Vaticano – “batata” que multidão de grupos vinha bicando até o dia de hoje.

Esta tensão inata ao monstro de duas cabeças criado por Bento XVI não só se percebe em nosso lado, senão que eles também o conhecem perfeitamente, e sabem que, assim como eles usam o Novus Ordo para destruir a fé de sempre, nós “usamos” a Missa Tradicional como muralha defensiva contra seu aríete, e que isto não é uma questão de sensibilidade, de gosto pelo incenso ou pelos “panos”, senão que há uma base firme e inevitável, uma emenda à totalidade de todo o modernismo surgido do, pelo e no Vaticano II, e imposto forte e violentamente por todos os papas pós-conciliares que agora “santificam” e “beatificam” a todo o transe.

O próprio Bento XVI era consciente disso quando impôs como condição para aproveitar-se dos benefícios do Summorum a condição sine qua non de não opor-se ao Novus Ordo, impondo assim de fato uma lei de silêncio que muitos lamentavelmente acolheram incautamente, querendo ser mais uns na grande orquestra conciliar da diversidade.

Francisco, pois, não fez mais que concluir esta condição, ao observar – com razão – que o que se move em torno da Missa tradicional não é somente uma sensibilidade especial pelo antigo, senão que é a ponta do iceberg de todo um exército que se opõe a tudo o que eles “construíram” ao longo 50 anos; e isto os aterroriza e lhes dói profundamente, razão por que não cabe outra coisa que destruí-lo. De alguma forma, este Motu Proprio esclarece e certifica o inconciliável entre os dois ritos.

Espero que isto sirva de lição para aprender que o combate pela Fé deve antepor-se até ao privilégio de ter a Missa tradicional, e que não há dádiva que possa fazer-nos calar, dissimular ou contemporizar com os destruidores da Igreja. Não será por estratégias humanas que se ganhará esta guerra, mas pela fidelidade ao depósito da Fé até ao preço de nosso sacrifício pessoal e espiritual.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

MILHÕES DE ESPÉCIES ANIMAIS NA ARCA DE NOÉ?

                               

                    Carlos Nougué

Isto de que há 8 milhões de espécies animais faz par com os milhões de anos de vida animal na terra – segundo, claro, os evolucionistas. O objetivo inicial da ampliação exorbitante do número de espécies animais era relegar à cloaca do mitológico a narrativa bíblica do dilúvio: com efeito, como milhões de espécies animais (excluídos os insetos e os peixes) poderiam entrar numa arca? Vou tratar tudo isto em livro, ampliando e aprofundando muito o que já disse sobre o assunto no livro Da Arte do Belo e no tratado de Biologia da Escola Tomista. Dou abaixo um resumo apertadíssimo.

1) O dilúvio foi antropologicamente mas não geograficamente universal. Com efeito, dizer que o dilúvio cobriu toda a terra é hoje lançar a fé ao escárnio dos ímpios. Mas negar que matou todos os homens menos os que estavam na arca tangencia o herético, pelo menos.

Observação: aliás, foi com grata surpresa que deparei com a obra do Padre Paul Robinson (da FSSPX dos EUA, atualmente) The Realist Guide to Religion and Science. Lendo-a por indicação de um amigo, vi que de fato são algo numerosos os pontos de coincidência entre o que pensa ele e o que penso eu acerca destes assuntos, muito especialmente acerca do dilúvio. O Padre também tem um ótimo blog: https://therealistguide.com/blog?blog=y.

2) O universo e a terra terem zilhões de anos não depõe contra a onipotência divina, senão que a ressalta ainda mais; e diga-se o mesmo da imensidão do universo.

3) O homem não pode estar na terra há mais de, digamos, 10 mil anos; se houvesse estado aqui desde há centenas de milhares de anos, tropeçaríamos hoje em multidão incalculável de ruínas de cidades.

Observação: segundo os cálculos da Vulgata, o homem estaria aqui há cerca de 6.000 anos. Mas este parece ser número simbólico (4.000 anos a.C.). Parece preferível ficar com a Septuaginta, segundo cujos cálculos estamos na terra há cerca de 7.500 anos.

4) Os vegetais podem estar na terra desde muito tempo antes do homem. Mas não assim os animais, ao menos os superiores, o que se mostra assinalando a fragilidade das espécies, que estão sempre em risco de extinção.

Observação: já desde quando ainda jovem – e ainda ateu – frequentei e concluí um curso universitário de Arqueologia descreio da precisão dos métodos radiométricos (de datação), e muito especialmente o de carbono-14. Tratarei detidamente também deste assunto no referido livro.

5) Os biólogos desde sempre confundem raça com espécie, mas a coisa se agravou, como disse, a partir do evolucionismo, o que permitiu a seus defensores chegar à fabulosa cifra de 8 milhões de espécies. Alguns poucos exemplos de seu erro: não há várias espécies de ursos, mas várias raças, o que se prova pelo fertilidade dos grolares (resultantes do cruzamento de urso-polar e de urso-pardo). Além disso, lobo, lobo-guará, lobo-cão, coiote, dino, cão, cachorro-do-mato, etc., também são raças diversas de uma só espécie: cruzam entre si e procriam criaturas férteis. Veja-se, aliás, no vídeo a que remete o link abaixo, como se relacionam com o homem os lobos em reservas especiais (e sem adestramento); e saiba-se que, se voltam ao estado selvagem, os cães domésticos tornam-se os chamados chimarrões: passam a viver em matilhas, fazem-se ferocíssimos, e tendem a uivar. E diga-se algo semelhante no âmbito dos felinos, etc., etc., etc., de modo que muito provavelmente nem sequer muitos dos enormes animais pré-históricos constituíam espécies à parte, mas eram membros das mesmas atuais espécies: tratar-se-ia de certos processos de “gigantismo” e de “nanismo” por fatores ambientais, hormonais, etc. – o que se vê, aliás, na própria espécie humana (do gigante nórdico ao pigmeu africano).

6) Aliás, nem sequer o fato de que do cruzamento de animais da mesma espécie (segundo o meu conceito de espécie) não nasça nada ou nasçam animais estéreis vai necessariamente contra o que digo, o que se prova pelo seguinte exemplo. Se durante gerações sucessivas procriam entre si indivíduos humanos portadores do gene da ELA (esclerose lateral amiotrófica), chegará o momento em que seus descendentes serão estéreis com respeito aos não portadores deste gene – sem contudo deixarem de ser da mesma espécie humana.

Etc.

Portanto, quanto a estes assuntos, até o lançamento de meu livro. 

https://www.youtube.com/watch?v=CMCWbF4HG3U                                                                               

domingo, 4 de julho de 2021

Observações sobre a influência do ocultismo no discurso católico tradicional (parte 3 de oito partes)

 Alistair McFadden

Tradução

Danilo Rehem

 

Parte III: A Metafísica Gnóstica da Cabala

O que é essa “velha fé primitiva” que, segundo os maçons, é o “fundamento de todas as religiões”? Todo o tratado de Albert Pike é a resposta maçônica a esta pergunta:

“Todas as religiões verdadeiramente dogmáticas surgiram da Cabala e retornam a ela: tudo que é científico e grandioso nos sonhos religiosos de todos os illuminati, Jacob Bœhme, Swedenborg, Saint-Martin e outros, é emprestado da Cabala; todas as associações maçônicas devem a ele seus segredos e seus símbolos.

“Só a Cabala consagra a aliança da Razão Universal e da Palavra Divina; estabelece, pelo contraponto de duas forças aparentemente opostas, o eterno equilíbrio do ser; só ela reconcilia Razão com Fé, Poder com Liberdade, Ciência com Mistério; tem as chaves do Presente, do Passado e do Futuro.

“A Bíblia, com todas as alegorias que contém, expressa, de maneira incompleta e velada apenas, a ciência religiosa dos hebreus ...

“A Cabala é a tradição primitiva… e nas Tradições Secretas da Cabala encontramos uma Teologia inteira, perfeita, única… É o Segredo do EQUILÍBRIO UNIVERSAL… entre o Bem e o Mal, e a Luz e as Trevas no mundo, que nos garante a nós que tudo é obra da Sabedoria Infinita e de um Amor Infinito ... “

A Cabala (como é mais comumente escrita) é uma tradição mística judaica esotérica de origem incerta. O Rabino Geoffrey W. Dennis, professor de Cabala na Universidade do Norte do Texas e autor de The Encyclopedia of Jewish Myth, Magic, and Mysticism, oferece a seguinte introdução aos seus princípios básicos e à sua prática através do site oficial da Union for Reform Judaism:

“A Kabbalah (também escrita Kabalah, Cabala, Qabal) – às vezes traduzida como ‘misticismo’ ou ‘conhecimento oculto’ – é uma parte da tradição judaica que lida com a essência de Deus ...

“Seus praticantes tendem a ver o Criador e a Criação como um continuum, em vez de entidades distintas, e desejam experimentar intimidade com Deus ... Dentro da alma de cada indivíduo está uma parte oculta de Deus que está esperando para ser revelada ... Assim, o cabalista Moses Cordovero escreve: ‘A essência da divindade é encontrada em cada coisa, nada além dela existe ... Ela existe em cada existente’.

“Existem três dimensões em quase todas as formas de misticismo judaico, que provavelmente só serão compreendidas por um pequeno número de pessoas que possuem conhecimento especializado ou interesse no assunto:

“O aspecto investigativo da Cabala envolve a busca da realidade oculta do universo em busca de conhecimento secreto sobre suas origens e sua organização – uma busca que é mais esotérica do que mística ...

“A dimensão experiencial da Cabala envolve a busca real da experiência mística: um encontro direto, intuitivo e não mediado com uma Deidade próxima, mas oculta. Como Abraham Joshua Heschel escreveu, os místicos ‘... querem provar todo o trigo do espírito antes que seja moído pelas pedras de moinho da razão’. Os místicos buscam especificamente a experiência extática de Deus, não apenas o conhecimento sobre Deus ...

“A dimensão prática da Cabala envolve rituais para ganhar e exercer poder para efetuar mudanças em nosso mundo e nos mundos celestiais além do nosso. Este poder é gerado pela execução dos mandamentos, convocação e controle de forças angélicas e demoníacas e, de outra forma, aproveitando as energias sobrenaturais presentes na Criação ... O verdadeiro mestre desta arte cumpre o potencial humano para ser um cocriador com Deus ...”

Se tudo isso – o dualismo, o panteísmo, os segredos, a feitiçaria – atinge o leitor católico como distintamente impregnado da heresia gnóstica, ele não se engana. O filósofo israelense Gershom Scholem, o proeminente estudioso judeu moderno da Cabala, admite isso na Enciclopédia Judaica:

“Desde o início de seu desenvolvimento, a Cabala abraçou um esoterismo muito semelhante ao espírito do gnosticismo, que não se restringia à instrução no caminho místico, mas também incluía ideias sobre cosmologia, angelologia e magia.”

Com base na bolsa de estudos de Scholem, o falecido professor Orlando Fedeli, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, explica que, como os gnósticos, “a Cabala admite que existem dois princípios opostos em Deus: o do bem e o do mal ... [citando Scholem:] ‘Tudo o que é diabólico tem suas raízes em alguma parte do mistério de Deus’. “

O caráter inegavelmente gnóstico desse misticismo judaico é igualmente reconhecido por Joseph Dan, professor de Cabala da Universidade Hebraica de Jerusalém, que observou a apresentação pela Cabala “do universo como um campo de batalha entre poderes divinos satânicos e poderes divinos bons, traçando um paralelo mundo das divinas ‘emanações da esquerda’ que são os inimigos de Deus, mas eles são divinos no sentido pleno do termo ... A Cabala acredita fortemente que o destino dos poderes divinos é decidido pelas boas e más ações dos seres humanos, e que é tarefa do povo judeu ‘corrigir’ (tikkun) a incompletude da própria divindade “; isto é, unificando os opostos de Deus e Satanás, bem e mal, ser e não ser, ordem e caos.

“Ai de vocês que chamam o mal de bem, e o bem de mal: que colocam as trevas por luz, e a luz por trevas; que consideram amargo por doce, e doce por amargo.” (Isaias 5:20) “Até quando vocês vão oscilar para um lado e para o outro? Se o Senhor é Deus, sigam-no; mas, se Baal é Deus, sigam-no.” (3 Reis 18:21) “Ninguém pode servir a dois senhores. Pois ou ele odiará um e amará o outro; ou se dedicará a um e desprezará o outro.” (Mateus 6:24) “Que parte tem a justiça com a injustiça? Ou que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia tem Cristo com Belial? “ (2 Coríntios 6: 14-15) Estas são as perguntas bíblicas que eu colocaria não apenas para o maçom Pike e o judeu Dennis, mas para os autores católicos promovidos pela “principal editora de livros católicos tradicionais imaginativos e intelectualmente rigorosos”, Angelico Press: Valentin Tomberg, Prof Jean Borella, Roger Buck, Stratford Caldecott, Prof. Wolfgang Smith e Dr. Michael Martin, como também para aqueles outros católicos supostamente tradicionais de uma persuasão teológica semelhante (alguns dos quais encontraremos nas Partes IV e V).

Já vimos (na Parte I) que a Cabala é uma grande influência nas Meditações sobre o Tarô de Tomberg, em que, para citar apenas um exemplo, o leitor é informado de “que Jesus Cristo é a chave do mundo, e que o mundo – tal como era antes da queda e tal como será depois de sua reintegração – é a Palavra, e essa Palavra é Jesus Cristo ... “(p. 195). Nesta curta passagem estão contidas as duas mais fundamentais (e, creio, mais errôneas) doutrinas da Cabala: emanacionismo e apocatástase, que foram condenadas – e seus proponentes anatematizados – no Concílio Vaticano I [1] e no 2º Concílio de Constantinopla [2], respectivamente. Foram essas heresias gêmeas as que o notável Pe. Reginald Garrigou-Lagrange criticou quando escreveu seu famoso ensaio de 1946, “Para onde vai a Nova Teologia?“:

“Autores como Téder e Papus, em sua explicação da ‘doutrina martinista’, ensinam um panteísmo místico e um neognosticismo pelo qual tudo vem de Deus por emanação (há então uma queda, um ‘mal cósmico’, um ‘ pecado original sui generis), e todos aspiram a ‘ser reintegrados’ na divindade, e ‘todos’ chegarão lá. Isso está em muitos trabalhos recentes de ocultistas sobre o ‘Cristo moderno’ e ‘plenitude em termos de luz astral’, ideias que não são da Igreja e que são inversões blasfemas porque são sempre a negação panteísta do verdadeiro sobrenatural, e muitas vezes até a negação da distinção do bem moral e do mal moral, a fim de permitir apenas o que é um bem útil ou desejado, incluindo o mal cósmico ou físico, que com a reintegração [isto é, apocatástase] de todos, sem exceção, vai desaparecer.”

O pensamento gnóstico-cabalístico do autor de Meditações é similarmente aparente em uma observação feita por seu amigo (ainda vivo), Dr. Martin Kriele, executor literário e herdeiro de Tomberg:

“Ocasionalmente, ele [Tomberg] falava do mal em que via não apenas uma ‘falta de ser’, mas poderes muito reais, múltiplos e caóticos ... Para contrariar estes, havia a necessidade de um Esoterismo Cristão do Bem ‘branco’, o único que estava em alta para esta tarefa. Isso poderia revelar efeitos ‘mágicos’ se a vontade do homem estiver em perfeita harmonia com a vontade de Deus.”

Essas ideias, como diria o Pe. Garrigou-Lagrange, “não são de forma alguma as da Igreja”, porque toda a tradição da Igreja testemunha com Santo Tomás de Aquino que “a bondade e o ser [sic: o ente] são realmente a mesma coisa ... [Portanto,] nenhum ser [ente] pode ser chamado de mal, formalmente como ser [ente], mas apenas na medida em que lhe falta ser.” Afirmar que o mal tem ser é insistir em que Deus criou o mal e, portanto, Ele mesmo é em certa medida mau – o que, desnecessário dizer, é tanto uma blasfêmia no catolicismo quanto evidentemente um truísmo na Cabala: “Quando o Santo, bendito seja Ele, criou o mundo “, ensina o Zohar, o texto fundamental da Cabala, “... todas as coisas estavam contidas umas nas outras, a inclinação para o bem e a inclinação para o mal, direita e esquerda, Israel e as nações, branco e negro. Todas as coisas dependiam umas das outras”.

Nada disso, no entanto, impediu a “luz guiadora” da Angelico Press, o falecido Stratford Caldecott, de exaltar Valentin Tomberg como um profeta quase como Elias clamando no deserto de um catolicismo decrépito, como ele faz quando proclama por trás capa da edição revisada e atualizada da Angelico do magnum opus de Tomberg, “As Meditações sobre o Tarô mostram que o Cristianismo não se perdeu, mas vive e respira”. Além disso, dois dos livros de Caldecott – All Things Made New [3] e The Radiance of Being – fazem excursões frequentes à Cabala, em cujos textos obscuros, ele afirma, se pode encontrar “o anel da verdade”.

Um amigo e colega de Caldecott, Dr. Michael Martin, um católico bizantino que, em suas próprias palavras, “se inspira muito nas formas espiritualmente nutritivas do catolicismo ... na obra de Stratford Caldecott”, está igualmente apaixonado por Tomberg: “As Meditações sobre o Tarot têm sido uma fonte constante de renovação espiritual e de companheirismo", escreve ele, e defende a crença do autor na reencarnação (que ele considera “provavelmente verdadeira”) com base no fato de que, embora “alguns sugiram que a Bíblia não ensina a reencarnação, não acho que seja tão simples assim ... [porque] a cabala, um ensino místico judaico nascido da profunda contemplação das escrituras, propõe uma doutrina de sod ha-gilgul, ‘a revolução das almas’”. O Dr. Martin também se inspira no trabalho de outro “cristão esotérico”, Rudolf Steiner, cujas especulações metafísicas são semelhantemente cabalísticas:

“Nos últimos anos, achei a concepção de Lúcifer e Ahriman de Rudolf Steiner muito útil para diagnosticar nossas próprias lutas com o Espírito da Idade. Embora eu discorde de Steiner em certos aspectos de sua cristologia ... acho que ele descobriu algo com Lúcifer e Ahriman.

“Para Steiner, Lúcifer é o princípio (ou ser espiritual) que nos tenta com promessas de ‘liberdade’, o desejo de autoexpressão, individualização e uma criatividade absoluta. Ahriman, por outro lado, é o princípio (ou ser espiritual) que promete ordem e um tipo de eficiência tecnológica e corporativa que nos escraviza ao subumano, nos transforma efetivamente em máquinas. Entre essas duas polaridades, Steiner aponta para Cristo como aquele princípio que nos guia através dos perigos das promessas feitas por Lúcifer e Ahriman e nos ajuda a permanecer no real.”

Na postagem do blog citada acima – publicada no site da Angelico Press – vemos mais uma expressão do dualismo gnóstico no cerne da Cabala, que, na cristologia de Steiner, como na de Tomberg (e aparentemente também na de Martin), torna Nosso Senhor o “princípio” harmonizante no qual a ordem (Ahriman) e o caos (Lúcifer) encontram seu equilíbrio. Tal é a concórdia que Cristo tem com Belial; São Paulo tem sua resposta.

Mas, de todos os autores da Angelico, ninguém é devoto mais entusiasta da Cabala do que o Professor Wolfgang Smith. Em nenhum lugar isso é mais claramente evidenciado do que em sua correspondência escrita com o falecido Pe. Malachi Martin, compilada pela Angelico Press sob o título In Quest of Catholicity e comercializada como uma “fascinante troca de cartas entre dois celebrados católicos tradicionalistas...”:

“Se eu fosse mais jovem, adoraria seguir seus passos para aprender hebraico e me aprofundar na literatura cabalística – sem, é claro, esquecer Jacob Boehme. Na verdade, parece-me que a Cabala, o hermetismo e a doutrina de nosso místico alemão dificilmente podem ser separados. Esses três legados parecem formar uma tradição subjacente, uma grande doutrina perene, que, como você diz, brota do próprio Cristo. O que Boehme fez foi expor essa doutrina mais abertamente e em termos francamente cristãos. Talvez, graças a ele, a Igreja Católica um dia faça sua a Cabala! E eu me pergunto se talvez seja com base nesta Cabala assimilada que a Igreja acabará por resolver o enigma das ‘religiões separadas’ e, ao fazer isso, realizará sua própria catolicidade autêntica e definitiva.”[4]

Jacob Boehme, é claro, era um herege luterano. Mas o fedor da heresia não parece de forma alguma desagradável ao Prof. Smith, que não será dissuadido de “engajamento” com o pensamento de Boehme, nem com os ensinamentos místicos censurados papalmente de Mestre Eckhart (ver Parte II), como lemos na sinopse de Christian Gnosis de Smith (publicado em conjunto por Sophia Perennis e Angelico Press):

“Baseando-se em fontes cristãs – literalmente ‘de São Paulo a Mestre Eckhart’ – Wolfgang Smith formula o que chama de um relato ‘não expurgado’ da ‘gnose’ e demonstra seu lugar central na perfeição da vida centrada em Cristo ... O ‘fato da gnose’... tem uma influência decisiva sobre a noção teológica de’ creatio ex nihilo ‘... O que é assim exigido, ele afirma, é a noção inerentemente cabalística de uma ‘creatio ex Deo et in Deo’ [i.e., emanacionismo], não para substituir, mas para complementar a ‘creatio ex nihilo’. Isso leva a um engajamento com a Cabala Cristã (Pico de la Mirandola, Johann Reuchlin, e Cardeal Egidio di Viterbo especialmente) e com Jacob Boehme, culminando em uma exegese da doutrina de Mestre Eckhart. O autor argumenta, em primeiro lugar, que Eckhart não defende (como muitos pensaram) uma teologia de ‘Deus além de Deus’: em outras palavras, não mantém uma visão inerentemente sabelliana da Trindade. Smith afirma que Eckhart não transgrediu de fato um único dogma trinitário ou cristológico; o que ele nega implicitamente, ele mostra, não é outro senão a ‘creatio ex nihilo’, que na verdade Eckhart substitui pela ‘creatio ex Deo’ cabalística. Além disso, nesta mudança, Smith percebe a transição de ‘exotérico’ para ‘esotérico’ dentro do domínio integral da doutrina cristã.”

Por que razão é “exigida” a integração de “noções cabalísticas” na doutrina católica? Por que é tão desejável que a Igreja “faça sua a Cabala”? Acredito ter encontrado a resposta do Prof. Smith a essas perguntas, enterrada nas páginas de Sophia: The Journal of Traditional Studies:

“Existem níveis de significado tanto no Novo Testamento quanto [no Antigo] – que podem incluir o mais alto! – que provam ser acessíveis apenas por meios cabalísticos.”

Mas se é assim; e se, como diz São Jerônimo, “Ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”; e se, além disso, como o Catecismo de Baltimore nos assegura, “Quando O conhecemos, devemos amá-Lo ..., [e] quanto melhor O conhecermos, mais O amaremos”; então por que é, me pergunto, que no desfile de “Cabalistas Cristãos” que vieram antes de nós – Pico della Mirandola, Johann Reuchlin, Giles de Viterbo, Francesco Giorgi, Paolo Riccio, Athanasius Kircher, e assim por diante – com toda a sua erudição mundana e “conhecimento” cabalisticamente inferido de Cristo, ninguém é reconhecido como um santo?

Continua na Parte IV: Cabala para Católicos? “Católicos hebreus” e seu cardeal ... [tradução no prelo]

Notas finais:

[1] “Se alguém disser que as coisas finitas, tanto corporais como espirituais, ou pelo menos espirituais, emanam da substância divina; ou que a essência divina, pela manifestação e evolução de si mesma se torna todas as coisas ou, finalmente, que Deus é um ser universal ou indefinido que por autodeterminação estabelece a totalidade das coisas distintas em gêneros, espécies e indivíduos: seja anátema. “ (FONTE)

[2] “Se alguém disser que todos os seres racionais um dia estarão unidos em um, quando as hipóstases, bem como os números e os corpos tiverem desaparecido, e que o conhecimento do mundo por vir levará consigo a ruína dos mundos, e a rejeição dos corpos como também a abolição de [todos] os nomes, e que haverá finalmente uma identidade do γνῶσις e da hipóstase; além disso, que nesta pretensa apocatástase, os espíritos só continuarão a existir, como era na pré-existência fingida: seja anátema “. (FONTE)

[3] “De uma forma que é erudita e, ainda assim, acessível, encontramos excursões para a Cabala ...” (FONTE)

[4] Martin, M. & Smith, W., In Quest of Catholicity: Malachi Martin Responds to Wolfgang Smith (Angelico Press, 2016), p. 76.

sábado, 12 de junho de 2021

Observações sobre a influência do ocultismo no discurso católico tradicional (parte 2 de oito partes)

 Alistair McFadden

Tradução

Danilo Rehem

 

Parte II:

Perenialismo e a “Unidade Transcendente das Religiões”

 

Em 2005, o mencionado autor Stratford Caldecott, publicado quatro vezes pela Angelico Press, postou - com aprovação, ao que parece - o texto de uma carta enviada a ele por seu colega, também escritor com obras publicadas pela Angélico, Professor Wolfgang Smith, no fórum da Internet da Second Spring, uma empresa fundada por Stratford e sua esposa que “oferece serviços editoriais e educacionais no campo da fé e da cultura”. Até o momento, esta organização publicou um total de onze livros sob seu próprio selo “Second Spring” com a Angelico, que lamentou a morte de Caldecott (que faleceu em 2014), se referindo a ele como “uma luz orientadora para todos nós da Angelico Press”. A carta do Prof. Smith diz, em parte:

“Só recentemente (talvez no ano passado ou retrasado) é que finalmente pareço ter feito as pazes com a doutrina da UT [Unidade Transcendente] ...

“Estou plenamente convencido de que HÁ uma unidade transcendente, da qual toda religião autêntica constitui uma manifestação desejada por Deus. Parece-me que esta unidade transcendente é de fato a pérola da verdade consagrada em cada religião, que os fiéis estão destinados a descobrir e tomar posse no final do caminho, quando terão, Deo volente, alcançado o que o Cristianismo chama theosis; pois, de fato, essa verdade não é mais uma questão de doutrina, de concepções teológicas ou metafísicas, mas é o próprio Deus: Eu sou a verdade, disse Cristo “.

Do meu ponto de vista simples de leigo, não consigo compreender como esta “unidade transcendente das religiões” difere materialmente da afirmação: “O pluralismo e a diversidade das religiões ... [é] querido por Deus em Sua sabedoria”, para o qual o Papa Francisco controversamente deu consentimento papal quando assinou o Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e da Convivência Comum em 2019, e pelo qual foi tão duramente criticado nos círculos católicos tradicionais, não menos pelo Dom Athanasius Schneider,  grande defensor da Fé em nossos tempos. Com efeito, quando muito, a carta de Wolfgang Smith vai ainda mais longe, tornando explícito o que aquele documento apenas implica; a saber, que Deus deseja positivamente uma multiplicidade de religiões. E, no entanto, esta parece ser uma opinião compartilhada pelos principais autores da Angélico, que veem Stratford Caldecott – “Strat” para seus fãs – como seu líder visionário. [1]

Eu exagero? Eu acho que não. Outra evidência do consenso de “unidade transcendente” que existe na Angelico Press pode ser encontrada em outra de suas editoras, a “Sophia Perennis”, sob a qual a Angelico publicou dezenove títulos até agora, tornando-se a principal impressão especial da Angelico. Pertence a uma editora de mesmo nome, dirigida pelo cofundador da Angelico Press, James Wetmore [2], cujo site declara sua missão nos seguintes termos:

“Sophia Perennis se dedica a publicar os melhores escritos contemporâneos sobre as tradições de sabedoria do mundo, principalmente de uma perspectiva tradicionalista ou ‘perenialista’, bem como reimprimir clássicos reconhecidos. Tentamos permanecer fiéis aos princípios centrais tradicionalistas - notadamente a Unidade Transcendente das Religiões - ao explorar novas aplicações desses princípios, bem como retornar às próprias grandes Revelações para um novo insight. “

De acordo com a página “FAQ” de Sophia Perennis, a “regra” principal do Tradicionalismo / Perenialismo - doravante usarei este último termo ao me referir à escola filosófica para evitar confusão com o tradicionalismo católico - é que “um tradicionalista deve permanecer fiel em sua prática pessoal para uma e apenas uma das Tradições reveladas ... “A este respeito, a Escola Perenialista se posiciona em oposição ao sincretismo religioso (como defendido pela Teosofia ou pelo New Age, por exemplo):

“O tradicionalismo rejeita todo sincretismo. As diferenças entre as religiões são tão providenciais quanto os aspectos que elas têm em comum. Misturar religiões é como tentar trilhar caminhos separados, mas paralelos ao mesmo tempo; não pode ser feito, exceto na fantasia. As religiões verdadeiras e reveladas foram todas enviadas pela Realidade Absoluta, bem como remetem e garantem acesso a essa mesma Realidade, mas seus caminhos não convergem neste mundo; a unidade das religiões existe apenas no transcendente. Assim, o Tradicionalismo, enquanto permanecer fiel aos seus primeiros princípios, é totalmente contrário a todas as tentativas de reunir as religiões do mundo sob uma autoridade não religiosa, ou de criar uma religião mundial. “

Isso, entretanto - como qualquer leitor católico reconhecerá imediatamente - é puro indiferentismo religioso; como tal, cai na mesma categoria de erro do sincretismo ao qual pretende se opor. O autor da seção “FAQ” da Sophia Perennis, reconhecendo este aparente paradoxo, procura resolvê-lo perguntando e respondendo às seguintes perguntas:

“O tradicionalismo implica que somos obrigados a nos comprometer seriamente com UMA das religiões reveladas. Isso não entra em conflito com a ideia de que mais de uma religião é válida? Como você pode assumir um compromisso sério com uma religião se não vê essa religião como a própria Verdade?

“A única maneira, em última análise, é desenvolver um senso tão profundo e inabalável de Deus ou Realidade Absoluta, que Ele mesmo, e não sua religião particular, se torne o foco principal de sua fé - e então entender seu caminho religioso como um dom incomparável dado a você por Aquele Que especificamente o chamou para se aproximar Dele por meio desse dom. Sua religião torna-se então, como seu amado humano, sua ‘única’; compará-la com outras religiões é inútil, irrelevante - na verdade, um insulto Àquele que o chamou a Ele por meio disso - uma vez que tais comparações exigem que você desvie sua atenção Dele e se concentre em questões secundárias. Ao buscar a Unidade Transcendente das Religiões, você aprende como deixar os outros seguirem seus próprios caminhos, e descobrir (se Deus quiser) que seu único dever é seguir seu único caminho até o fim.”

Esses “assuntos secundários”, é claro, são as diferenças doutrinárias óbvias que existem entre as múltiplas religiões do mundo. No jargão perenialista, eles são referidos como representações meramente circunstanciais, “exotéricas” (externas e superficiais) de verdades universais, “esotéricas” (internas e profundas); quem leva a primeira opção muito a sério - evangelizando não católicos, por exemplo - está perdendo o foco.

É somente trabalhando a partir de tal premissa que se pode chegar à conclusão do próprio Professor Wolfgang Smith da Angelico, “que a verdade não é mais uma questão de doutrina, de concepções teológicas ou metafísicas, mas é o próprio Deus: Eu sou a verdade, disse Cristo.” Embora não sem uma certa lógica interna, é revelador que esta conclusão requer do perenialista cristão uma abreviatura bastante dissimulada da declaração de Nosso Senhor: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14: 6) Cristo, em outras palavras, devidamente entendido, não é apenas o destino final (“a verdade”), para ser “tomar posse no final da estrada”, como Smith imagina, mas é também a própria estrada (“o caminho”); na verdade, a estrada única e exclusiva, contra o perenialismo.

Qualquer esforço para forçar a fixação do Cristianismo - e do Catolicismo especialmente - no buraco redondo do Perenialismo invariavelmente mutila tanto a Escritura quanto a Tradição. Veja, por exemplo, essa tentativa do falecido Professor James S. Cutsinger, outro estudioso cristão da Escola Perenialista, de reconciliar sua fé com sua filosofia em um ensaio que ele contribuiu para Christianity: The Complete Guide: “Deve ser admitido”, ele escreve, “que o Cristianismo tradicional é amplamente hostil à filosofia perene ...

“De acordo com [Frithjof] Schuon e outros perenialistas, essa atitude dominante entre os cristãos não é surpreendente, nem deve ser questionada sua utilidade para a vasta maioria dos crentes. O objetivo de qualquer religião é garantir a salvação do maior número de pessoas possível, e a maioria das pessoas, sejam cristãs ou não, são capazes de levar sua tradição a sério apenas se forem persuadidas de que é a melhor, se não a única, maneira de chegar a Deus ... “

[Há ecos aqui de Valentin Tomberg (ver Parte I deste ensaio), que supostamente impressionou um de seus discípulos - note bem, após sua conversão ao catolicismo – sobre a importância de “Viver na Tradição! Somente aquele com gênio deve (e pode) transcendê-lo.” Os tons gnósticos são inconfundíveis; as verdades mais elevadas, profundas e puras devem permanecer veladas e inacessíveis ao homem comum, e ensinadas apenas aos iniciados.]

“... Os críticos argumentaram que o Novo Testamento, tomado como um todo, se opõe à filosofia perene, e isso é em geral verdade ... Mas para o perenialista isso simplesmente mostra que o objetivo principal das religiões do mundo, começando com suas escrituras e autoridades apostólicas, é ajudar seus adeptos a permanecerem focados em uma única forma de verdade salvadora, não para lançar as bases para o diálogo inter-religioso. Por outro lado, dada a origem comum das religiões em uma Fonte transcendente que, como as próprias tradições atestam, ultrapassa infinitamente até mesmo suas próprias autoexpressões, é da natureza das coisas que as formulações escriturísticas e dogmáticas de cada religião devem incluir certas aberturas ou pistas para a validade subjacente da filosofia perene ...

“Seguindo o fio das pistas [como encontradas no Cristianismo], começa-se a sentir que o Filho ou o Verbo, longe de estar limitado a uma única religião, é o princípio divino por trás de toda revelação e a fonte eterna de salvação em toda autêntica tradição. Embora verdadeiramente encarnado como Jesus Cristo no cristianismo, ele é salvificamente atuante nas religiões não cristãs e por meio delas também. Em algumas ele está presente de forma igualmente pessoal, como em Krishna e os outros avatares hindus, nos quais ele também foi ‘feito homem’ (Credo Niceno), enquanto em outros ele aparece de forma impessoal, como no Alcorão do Islã, onde se fez livro ... “

Que Nosso Senhor é simultaneamente um homem, um livro e um demônio - “Porque todos os deuses dos gentios são demônios ...” (Salmo 95: 5) - e que os dogmas da Fé existem apenas para manter as massas não iniciadas na linha, espero, será um choque para os fiéis católicos. Mas a Angelico Press aparentemente não se incomoda com a sugestão e mantém sua parceria com Sophia Perennis mesmo assim. De fato, Stratford Caldecott até se juntou a seu colega Professor Smith ao contribuir com um endosso de contracapa para um dos títulos exclusivos da Sophia Perennis, Guénonian Esoterism and Christian Mystery, do filósofo perenialista francês Jean Borella.

Sem dúvida será do interesse dos leitores católicos tradicionais que Borella, um autodenominado tradicionalista católico [3] que Caldecott frequentemente citou em seus escritos e recomendou [4] aos seus leitores, foi o tema de um livro de 1996, Les hérésies de la Gnose du professeur Jean Borella, para o qual o Bispo Bernard Tissier de Mallerais, da Fraternidade São Pio X (FSSPX), escreveu o Prefácio:

“Qualquer uma das ideias centrais para o pensamento de Borella entra em conflito com as condenações históricas da Igreja aos erros gnósticos ...

“Pecado original, ele argumenta, é ‘a vontade do ser condicionado de se conhecer como tal’, e eliminá-lo é simplesmente uma questão de o homem ‘retornar ao poder operativo e à eficácia salvífica do conhecimento’. É esta uma cosmovisão atraente, em que o pecado é um erro intelectual e a salvação uma questão meramente de conhecimento? “[5]

O gnosticismo (do qual falaremos mais na 3ª Parte) está intimamente ligado ao perenialismo. O professor Smith certamente mergulha em suas águas turvas ao tratar da “afirmação de um ingrediente sobrenatural no homem..., [a] ‘pequena centelha’ em todo ser humano, dita por ‘incriada e incriável’...”, do místico heterodoxo Mestre Eckhart. Wolfgang Smith concorda claramente com este ensino de Eckhart (apesar de sua condenação pelo Papa João XXII em 1329 [6]), mas, no entanto, aplaude a rejeição “pastoral “da Igreja, porque “tais concepções são compreensíveis para muito poucos, e ... sua disseminação aos fiéis em geral não é apenas desnecessária, mas extremamente perigosa; como disse Clemente de Alexandria: ‘Não se chega a uma espada para uma criança’.” Valentin Tomberg (não estritamente um perenialista, mas cuja crença em “uma energia cósmica geral... que passa por todas as religiões” certamente o situa dentro dessa tradição filosófica) toma a mesma posição obscurantista vis-à-vis da reencarnação em suas Meditações sobre o Tarô (p. 361):

“Você vê agora, caro Amigo desconhecido, por que a Igreja era hostil à doutrina da reencarnação, embora o fato das reencarnações fosse conhecido ... por um grande número de pessoas fiéis à Igreja com experiência espiritual autêntica ... Pois a humanidade poderia [de outra forma] sucumbir à tentação de se preparar para uma futura vida terrestre ... Vale cem vezes mais ... negar a doutrina da reencarnação, do que dirigir pensamentos e desejos para a futura vida terrestre e, assim, ser tentado ... “

Monsenhor Tissier de Mallerais continua:

“Borella também é altamente heterodoxo no assunto da Revelação, afirmando, como ele faz, ‘a origem divina das revelações’ - observe o plural - ‘após a revelação necessária de Cristo’, bem como ‘a presença de um elemento central e propriamente divino na religião não-cristã ‘. Isso, afirma ele, se deve à generosidade sem limites do dom divino da salvação, à existência de visionários em religiões não-cristãs e à beleza transcendente, que não pode ter origem humana, dessas religiões.

“Borella afirma que ‘a inteligência, em sua forma pura, ultrapassa a ordem da natureza ... [e] é ela mesma ordenada ao transcendente’. Ao fazer isso, ele nega a gratuidade e a origem sobrenatural da graça infusa do Batismo. Da mesma forma, ele afirma que ‘o conhecimento da fé, em que consiste a verdadeira gnose, não precisa ser gerado por meio de uma infusão de uma graça particular, como uma experiência mística extraordinária’, mas ‘é capaz de ativar (isto é, de pôr em ação) [a] capacidade natural [do intelecto], ou pelo menos permitir ao intelecto realizar um ato cognitivo que começa a revelar ao intelecto sua própria natureza deiforme / teomórfica’. Isso, novamente, equivale a uma negação da distinção entre as ordens natural e sobrenatural: uma negação que não deixa espaço para crer na gratuidade ou na origem sobrenatural da graça santificante e da virtude teologal da fé... que inere na alma humana em virtude do sacramento do Batismo!”

A Angelico Press, de fato, publicou cinco livros de Borella; e claramente, vários de seus autores mais proeminentes absorveram profundamente das fontes do perenialismo. Mas há outra razão para supor que não apenas esses indivíduos, mas a própria Angelico Press, como instituição, abraçou essa filosofia. De que outra forma explicar a publicação em seu próprio site de um artigo, “The Covenants of the Prophet Muhammad”, que afirma de fato que “os pactos em questão não foram produto de sua própria iniciativa humana [de Muhammad], não o resultado da inspiração divina, mas sim a consequência real da revelação divina”, e fala do Alcorão como “o livro divinamente ditado concedido a Muhammad ibn ‘Abd Allah por meio do Anjo Gabriel”?

Por mais chocante que seja ler tal declaração em um site ostensivamente católico, cuja página inicial é intitulada com o slogan: “Para aprofundar nosso conhecimento da tradição católica. Encontrar novas maneiras de viver nossa fé dentro dessa tradição “, no entanto, está em perfeita harmonia com o pensamento de Stratford Caldecott – a “luz-guia” da Angélico, lembrem-se - que opinou em “The Mystery of Islam: Further Reflections que “o Islã e o Cristianismo podem, de fato, ser doutrinariamente mais próximos do que frequentemente se supõe...

“[O Pe. Roch] Kereszty escreve: ‘Os cristãos não podem deixar de reconhecer que Deus falou através do Alcorão e comunicou a experiência e o conhecimento de si mesmo a incontáveis ​​milhões de pessoas’. O Islã é uma árvore que deu inúmeros frutos bons e ruins...”

Além disso, o fundador da Angelico Press e atual presidente John Riess – que, por sua própria admissão, criou a Angelico “para dar um porta-voz às vozes católicas contemporâneas, como Stratford Caldecott, Jean Borella e Jean Hani” (este último é outro perenialista filósofo) –  pertence a “uma academia e think-tank”, Restore the Arts Inc., cujo manifesto junguiano “neo-humanista” declara que “quaisquer membros deste grupo são pessoas de fé e crentes no Deus Único dos Revelações judaico-cristãs-islâmicas “- uma formulação decididamente indiferentista (para não mencionar quase maçônica).

Que esse assim chamado perenialismo tem suas origens no ocultismo é tão óbvio que isso nem precisa nos deter. Será suficiente notar que o pai fundador da Escola Perenialista, o ocultista francês e apóstata católico René Guénon, foi um maçom de rito escocês; e para citar Morals and Dogma of the Ancient Scottish Rite of the Freemasonry (1871) pelo maçom Albert Pike:

“O brâmane, o judeu, o maometano, o católico, o protestante, cada um professando sua religião peculiar, sancionada pelas leis, pelo tempo e pelo clima, deve retê-la e não pode ter duas religiões; pois as leis sagradas e sociais adaptadas aos usos, costumes e preconceitos de determinados países são obra dos homens. Mas a Maçonaria ensina, e preservou em sua pureza, os princípios fundamentais da velha fé primitiva, que subjaz e são a base de todas as religiões.”

Notas finais:

[1] E eu quero dizer “visionário” no sentido literal: “O próprio Stratford, quando jovem, teve sonhos visionários do Santo Graal ...” (FONTE) Ele também afirmou ter testemunhado a ascensão da alma de seu falecido pai: “… enquanto orava sozinho com seu corpo, acredito que tive um vislumbre da batalha por sua alma, e eu sabia que ele tinha sido vitorioso.” (FONTE)

[2] Em uma entrevista com o Pe. Dwight Longenecker sobre o trabalho da Angelico Press, o fundador John Riess faz referência a “Meu parceiro de negócios James Wetmore e eu ...” (FONTE) Roger Buck também expressa sua gratidão a “John Riess e James Wetmore de Angelico Press “em Agradecimentos de The Gentle Traditionalist Returns. (FONTE)

[3] “Algumas figuras luminosas, como Jean Borella ... foram de fato associadas tanto à Escola Perenialista quanto ao movimento católico tradicionalista ...”.

[4] Por exemplo, “Eu também recomendo os escritos de Jean Borella, um perenialista que se tornou católico ortodoxo, especialmente ... seu livro sobre Esoterismo Guénoniano e Mistério Cristão ...” (FONTE)

[5] Original em francês. Todas as citações deste trabalho são minha própria tradução.

[6] João XXII “condenou dezessete das proposições de Eckhart como heréticas, e onze como mal-intencionadas, precipitadas e suspeitas de heresia ...” (FONTE)