terça-feira, 5 de janeiro de 2021

PROGRAMA DE ESTUDOS SOBRE O REINADO SOCIAL DE CRISTO (III e final): A BIBLIOGRAFIA, COM COMENTÁRIOS

                                                                                           Carlos Nougué

Nota prévia: como se verá, diferentemente do que se dá com o magistério da Igreja com respeito ao Reinado Social de Cristo, o qual nos fornece documentos em abundância, a boa bibliografia sobre o assunto é algo parca, enquanto a má bibliografia é algo vasta. Primeiro, darei a relação dos bons livros, com alguns comentários. Depois, a dos maus livros segundo graduação de falsidade, também com alguns comentários. – E, sim, só apresentarei livros do âmbito católico, para bem ou para mal.

I. A Boa e Indispensável Bibliografia

1) Carta de Santo Agostinho ao governador Bonifácio.

2) De regno, de Santo Tomás de Aquino. Em português, publicou-se Do Reino e outros escritos (Armada e Resistência Cultural), com tradução e estudo introdutório meus. Aí está já a doutrina definitiva do Reinado Social de Cristo. É a sólida rocha sobre a qual hão de dar-se posteriores aprofundamentos.

3) La Royauté Sociale de N.-S. Jesus-Christ d’après le cardinal Pie [de Poitiers] (A Realeza Social de N. S. Jesus Cristo segundo o Cardeal Pie de Poitiers). Infelizmente, só se encontra em francês (ainda que também em PDF, na Internet). Mas é fundamental, porque o nosso Cardeal é um dos grandes paladinos do Reinado Social de Cristo. O livro tem coisas datadas, que porém não lhe tiram importância.

4) Pour qu’Il règne (Para Que Ele [Cristo] Reine), de Jean Ousset, leigo cujo movimento La Citè Catholique (A Cidade Católica) foi apoiado vivamente por Pio XII e por D. Marcel Lefebvre. Não sei se há em outras línguas. Também tem algo de datado, além de padecer de otimismo exagerado quanto à recristianização do mundo, sem que todavia nada disso lhe tire importância.

5) El Reino de Dios – La Iglesia y el Orden Político (O Reino de Deus – a Igreja e a Ordem Política) e Prometeu – A Religião do Homem (este último pela Castela Editorial), ambos do Padre Álvaro Calderón. O primeiro é indispensável porque consolida definitivamente a doutrina. O segundo, para entender o destronamento de Cristo na sociedade pelo próprio magistério conciliar. Considero o P. Calderón o maior e mais profundo Mestre auxiliar de S. Tomás.

§ OUTRAS OBRAS

Também são de interesse os seguintes livros:

1) Disputationes de controversiis christianae fidei adversus hujus temporis haereticos, Terceira Controvérsia Geral: De Summo Pontifice (1576-1588); e Tractatus de potestate summi pontificis in rebus temporales, adversus Gulielmus Barclay (1610), de São Roberto Belarmino. Por vezes, especialmente por sua terminologia antes platônica, parece que o nosso Doutor não sustenta a posição do magistério quanto à relação entre poder temporal e poder espiritual; mas não é verdade: ele o faz, e numa época adversa para tal. Tem, pois, grande mérito.

2) A Ilusão Liberal, de Louis Veuillot (foi lançado no Brasil, mas não lembro a editora).

3) Les Pourquoi de la Guerre mondiale (Os Porquês da [Primeira] Guerra Mundial), de Mons. Henri Delassus. Cuidado apenas com a tendência de Delassus a ser quasi um milenarista por seu otimismo excessivo quanto à recristianização do mundo.

4) La Révolution (A Revolução), de Mons. Gaume. (Não sei se há tradução ao português.)

5) Conférences de S. Paul de Liège. De la maternité de l'Eglise. Relations essentielles des sociétés catholiques avec l'Eglise (Da Maternidade da Igreja. Relações Essenciais das Sociedades Católicas com a Igreja), do P. Feux. (Creio que não haja tradução ao português.)

§§ COM O PERDÃO DA AUTORREFERÊNCIA

Toda a parte de Política Teológica de meu livro Estudos Tomistas – Opúsculos II:

• Da Realeza de Cristo

• Corte e costura humanista

Apêndice I: Se pode o homem ter mais de um fim último (Exposição)

Apêndice II: A doutrina tomista sobre tirania e rebelião

• Notícia histórica da Doutrina Social da Igreja

• A pólis em ordem a Deus

Apêndice: Santo Tomás de Aquino e a fina “arte”  de discernir o mal menor

• O que é a ideologia

• Fátima e a Rússia de Putin, ou quando se faz imperioso um “parece”

• Quanto a Charles Maurras quem tem razão?

• Diferenças entre a revolução marxista e a revolução marcusiana

• Governo mundial, pandemia, governo Bolsonaro – os campos opostos do catolicismo tradicional e do “catolicismo” liberal-conservador

Apêndice I: Direitismo conservador “católico” versus Teologia da Libertação – duas cabeças da mesma hidra

Apêndice II: Um jesuíta vestido de brâmane – ou de como tornar-se uma democracia-cristã de sinal invertido

Uma proposta lançada em solo estéril (Proposta de programa de governo cristão para o Brasil)

II. A MÁ BIBLIOGRAFIA

Todos os livros abaixo padecem algum problema doutrinal com respeito à Realeza Social de Cristo. Divido-os em menos maus (porque ainda não saem demasiado da doutrina cristã) e em piores. No entanto, sugiro-lhes que não leiam nenhum deles senão após estarem firmes na doutrina infalível do magistério da Igreja quanto a este assunto.

§ MENOS MAUS

1) La Chiesa e lo Stato, do Padre Mateo Liberatore. (Creio que tampouco tem tradução ao português.)

2) De subordinatione indirecta Status ad Ecclesiam, in De habitudine Ecclesiae ad civilem societatem, segundo tomo do Tractatus de Ecclesia Christi, do Cardeal Louis Billot. (Sem tradução ao português, creio.)

3) Doctrina política de Santo Tomás (ou Pueblo y Gobernantes al servicio del Bien Común), de Santiago Ramírez O.P. (Não sei se tem tradução ao português.)

4) Segundo volume (Ecclesia et Status) de Institutiones Iuris Publici Ecclesiastici, do Cardeal Ottaviani.

5) Os capítulos relativos à relação entre cidade e Igreja de De Lamennais a Maritain, do P. Julio Meinvielle. Como diz o P. Calderón, foi um tropeço do grande Meinvielle, devido a que aqui segue servilmente neste assunto a autoridade do Cardeal Billot. Mas quase todos os outros livros de Meinvielle são de todo recomendáveis.

§§ PIORES

1) De Monarchia, de Dante Alighieri.

2) De potestate civili, De potestate ecclesiae I-II e De Jure belli Hispanorum in barbaros, de Francisco de Vitoria, o introdutor, no século XVI, do nominalismo no tomismo quanto às relações entre estado e Igreja.

3) De legibus e Defensio fidei, ambos de Francisco Suárez, que introduz na Igreja uma sorte de “vontade geral” semelhante, mutatis mutandis, à de Jean-Jacques Rousseau.

4) L’humanisme politique de Saint Thomas, de Louis Lachance O.P.

5) Tratado de Filosofía del Derecho, tomo II, de Francisco Elías de Tejada.

6) La Juridiction de l’Eglise sur la Cité, do Cardeal Charles Journet.

7) Religion et Culture, Du régime temporel et de la liberté, Humanismo Integral e On The Philosophy of History, de Jacques Maritain, o “tomista” corruptor do tomismo e da doutrina da Realeza Social de Cristo – e pai intelectual do CVII e seu destronamento de Cristo.

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Espero que a sugestão de programa de estudos que termina aqui os ajude. Obviamente, esta sugestão padece uma falha: só posso falar dos livros que li – e há multidão de outros que não li. Bons estudos.