domingo, 25 de dezembro de 2022

Um santo e feliz Natal para todos


 Natal

Luís de Camões

(Observação: mor = maior.)


Dos Céus à Terra desce a mor Beleza,

Une-se à nossa carne e fá-la nobre;

E, sendo a humanidade dantes pobre,

Hoje subida fica à mor alteza.


Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;

Que, como ao mundo o seu amor descobre,

De palhas vis o corpo tenro encobre,

E por elas o mesmo Céu despreza.


Como? Deus em pobreza à terra desce?

O que é mais pobre tanto lhe contenta,

Que este somente rico lhe parece.


Pobreza este Presépio representa;

Mas tanto por ser pobre já merece,

Que, quanto mais o é, mais lhe contenta.


Quem disse que tomista não pode escrever literatura?

No final de janeiro, começará a campanha das Edições Santo Tomás pelo lançamento de dois livros literários:

1) Entre Capelas e Tabernas, de Daniel Coterline Scherer (romance de cerca de 200 páginas); e

2) Dormições, de Carlos Ancêde Nougué (um “orvalho de contos”, de cerca de 120 páginas com imagens coloridas).

Vou dando notícias.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Heureca!

                                                                                                              Carlos Nougué 

Os que me acompanham o trabalho filosófico sabem que já dura mais de uma década minha preocupação com a ordem das disciplinas, e em especial com a ordem de sustentação e pedagógica da Lógica e suas partes potenciais e integrais. Em um primeiro momento, na Escola Tomista, segui quanto a isto último a visão do P. Calderón; depois, ainda na Escola Tomista e no livro “Estudos Tomistas – opúsculos II”, mudei de parecer e em certo sentido inverti a ordem da Lógica e suas partes oferecida por Calderón. Mas tampouco minha mesma proposta chegou nunca a convencer-me totalmente. Pois agora, ao gravar as primeiras aulas da parte sobre Aristóteles do curso Uma História Tomista da Filosofia (ou seja, a partir da trigésima aula do curso), finalmente encontrei uma ordem da Lógica e suas partes que me convenceu plenamente. Dá-la-ei no curso, e em futuro livro. Não posso estar senão muito contente. Achei! e, quero crê-lo, com o auxílio de alguma graça.

domingo, 30 de outubro de 2022

A História da Igreja à luz das profecias

  

Curso online de Carlos Nougué em sete módulos

Dados gerais

As inscrições se farão por módulo.

Valor da inscrição por módulo: R$ 60,00.

Acesso a cada módulo: um ano.

• Entre um módulo e outro, sempre poderá haver um intervalo.

Cada módulo terá cerca de 15 aulas.

• A primeira aula do primeiro módulo irá ao ar no dia 3 de dezembro.

Fundamentação

1) As Histórias da Igreja padecem de um triplo problema.

• Antes de tudo, o não ver a história da Igreja à luz das profecias bíblicas, com o que fica suposto que estas ou já se cumpriram num passado sempre mais remoto ou só se cumprirão num futuro sempre postergado. Nega-se ou não se quer ver, assim, que tais profecias se cumpriram ao longo de toda a história da Igreja, se estão cumprindo bem diante de nossos olhos, e se cumprirão num futuro cujo limite não nos é dado conhecer.   

• Depois, o não reconhecer suficientemente que a história da Igreja se dá no seio ou leito da história do mundo, ainda que seja a Igreja o próprio Reino de Deus descido do céu à terra, e ainda que a figura deste mundo vá passar e a Igreja militante se vá transmutar na Igreja triunfante. Mas o dito supõe um íntimo imbricamento entre a História da Igreja e a Teologia da história.

• Por fim, e por conseguinte, não assinalar como devido que a história se ordena essencialmente à Igreja, porque a história não é senão propter electos, por causa e pelos eleitos.

2) Pois bem, sem deixar de fazer estrita História da Igreja, este curso buscará não incorrer em tal triplo problema, do seguinte triplo modo.

• Antes de tudo, verá a história da Igreja e do mundo à luz das profecias veterotestamentárias (muito especialmente Ezequiel e Daniel) e das profecias neotestamentárias (Nosso Senhor Jesus Cristo nos Evangelhos, Segunda Epístola aos Tessalonicenses, muito especialmente Apocalipse de São João, etc.).    

• Depois, verá a história da Igreja (e pois a do mundo) segundo um constante entrelaçamento entre História da Igreja e Teologia da História.

• Por fim, e por conseguinte, mostrará como a história do mundo se ordena essencialmente à Igreja, e o que quer dizer precisamente que ela seja propter electos.   

Os sete módulos

I) A Igreja dos mártires: desde a instituição da Igreja até ao Imperador Constantino, exclusive.

Observação: vide mais abaixo o programa detalhado deste primeiro módulo; o programa detalhado dos outros módulos dar-se-á à medida que forem oferecidos.

II) A primeira Cristandade: desde o edito de Constantino (313) até ao pontificado de São Leão Magno e à queda do Império Romano do Ocidente, passando pela decadência deste após a morte de Teodósio.

Observação: explicar-se-á neste módulo o que é a Cristandade.

III) Nascimento e apogeu da segunda Cristandade: desde as tribulações da Igreja sob as invasões bárbaras e ante os obstáculos do Oriente até ao fim do século XIII, o ponto áureo da história, passando por Carlos Magno, pelo “século de ferro” (século X) e pela querela das investiduras.

IV) A ruptura da segunda Cristandade e a primeira fase da apostasia das nações: desde a afronta de Felipe, o Belo, ao Papa Bonifácio VIII (início do século XIV) até à heresia e cisma de Lutero, passando pela Guerra dos Cem Anos, pela peste negra, pelo humanismo e pelo Renascimento.

V) Entre uma Igreja revigorada e a revolução: desde o Concílio de Trento (século XVI) e os jesuítas até à liberal Revolução Francesa (fim do século XVIII), passando pela breve terceira Cristandade ibérica, pelo iluminismo e pelo rompimento da aliança entre a monarquia absolutista e a burguesia.

VI) A reação de uma Igreja sitiada à revolução: desde os Papas do século XIX, em especial Leão XIII com o retorno ao tomismo, até ao pontificado magnífico mas agônico de Pio XII, passando pelo Syllabus de Pio IX, pelo tradicionalismo, pelo Vaticano I, pelo liberal-conservadorismo, pelo modernismo, pelo pontificado santo de Pio X, pelo comunismo, pelo maurrasianismo, pela Quas primas de Pio XI, pelo nazifascismo, e pelas duas guerras mundiais.

VII) A abominação da desolação instalada no lugar santo: desde o Concílio Vaticano II até os dias atuais, passando pela última e vitoriosa revolução, a sadolibertina – um mundo sob a trindade Príapo, Mamon e Moloc, e uma Igreja em que muitos abrem os braços para o Anticristo.           

Programa do primeiro módulo

A Igreja dos mártires

1) As profecias bíblicas

2) A história e as nações em ordem a Deus e à Igreja

3) A história, o livro da vida e os eleitos

4) Preâmbulos

• Prefiguração e preparação da Igreja no povo judeu

• Preparação da Igreja no mundo greco-romano

• O anseio geral de um Sóter

• Encarnação, vida e redenção do Messias

• Fundação da Igreja e do papado por Cristo

• Substituição da sinagoga pela Igreja e ab-rogação da lei antiga

5) Dos atos dos Apóstolos ao fim dos tempos apostólicos

6) O Império Romano, sua progressiva decadência moral, e o esvaziamento de sua religião

7) Os cristãos sob as perseguições sangrentas do fim do século I e de todo o século II

8) Os Apologetas e primeiros Padres da Igreja

9) O nascimento da heresia antes da morte dos Apóstolos

10) O gnosticismo, isto é, o conjunto de heresias do século II

11) O primeiro momento da luta contra a Igreja da trincheira da filosofia pagã

12) Das perseguições sangrentas do século III a seu fim

13) Querelas cismáticas

14) O segundo momento da luta contra a Igreja da trincheira da filosofia pagã

15) Estado da Doutrina Sagrada

16) A constituição da Igreja até Constantino, exclusive, e os sacramentos durante este período

17) A arte na Igreja dos mártires

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Minha participação no documentário de Bernardo Küster

                                                                                                                                Carlos Nougué

Foi lançado ontem o documentário de Bernardo Küster, “Eles estão no meio de nós”, sobre a Teologia da Libertação. Pois bem, aceitei há já mais de três anos conceder uma entrevista para o documentário. Bernardo esteve em minha casa, e gravamos muito mais do que aparece na versão final (só aparecem uns poucos minutos em que falo da distinção de Jacques Maritain entre indivíduo e pessoa e sua influência sobre várias heresias, incluída a da TL). Sucede porém que Bernardo não teria viajado cerca de 12 horas com o cameraman e seu pesado e delicado material para gravar comigo apenas alguns poucos minutos; além de que nem sequer este breve trecho está completo, mas editado. O centro de minha entrevista não foi a TL, mas o CVII, que de certo modo deu impulso à mesma TL. E no entanto a palavra “CVII” nem sequer aparece no trecho. Com isso, fica parecendo que endosso a posição central de Bernardo Küster e dos demais entrevistados, a saber, que o único verdadeiro mal do CVII foi não condenar o comunismo. Para eles, praticamente não há problema grave nos documentos do concílio, além de que teria havido dois concílios: o verdadeiro, e o propagado pela mídia, o vitorioso. É típico do liberal-conservadorismo: maniqueisti-camente, reduz todo o mal do mundo ao comunismo; e de fato sem este espantalho o liberal-conservadorismo, católico ou não, não sobreviveria. Ora, nada mais distante de meu pensamento sobre o comunismo (como se pode ver [no post anterior] por meu opúsculo “O católico tradicional e Bolsonaro”, e por toda a parte “Política teológica” de meu livro, Estudos Tomistasopúsculos II) e de meu pensamento sobre o CVII (como se pode ver por meu Do Papa Herético, por meu curso gratuito “A atual crise na Igreja”, por multidão de textos e de podcasts meus espalhados pela Internet). Não estou acusando Bernardo de tê-lo feito de propósito; seria temerário supô-lo. Mas o efeito é precisamente este: no documentário, meu pensamento aparece indiferenciado de uma massa doutrinal, liberal-conservadora, que nada tem que ver comigo. Lembre-se que que digo e redigo: Ou as nações se porão sob a bandeira de Cristo, ou serão sempre, sob governos de esquerda ou de direita, pasto de demônios. – Fique pois o esclarecimento.

Observação: apesar dos 70 anos que me pesam – bastante – sobre o corpo, minha memória continua elefantina.

domingo, 28 de agosto de 2022

Sermão sobre o Matrimônio, do Padre Álvaro Calderón

     

Fonte: Los Cocodrilos del Foso 


    Nem tudo o que se encontra na Suma Teológica, de Santo Tomás, é exclusivamente para teólogos. Uma das pérolas mais acessíveis e úteis lá encontradas é seu pequeno tratado acerca dos bens do matrimônio.

Ele começa dizendo: “Nenhum homem sábio deve aceitar um prejuízo se ele não vier compensado por um bem igual ou maior”. E observa que o matrimônio traz juntamente consigo bens e males. Quem se casa aceita sofrer estes para alcançar aqueles.

Até essa frase, todos estão de acordo. Mas, daqui em diante — e é assustador percebê-lo — entre o que ensina Santo Tomás, resumindo toda a Tradição e bom senso católicos, e o sentir comum de hoje não há uma mera divergência, e sim uma total e exata inversão. Aquilo que para o Doutor da Igreja são males, agora são considerados bens, e os bens, males. Deixemos bem claro que falamos de pessoas que se consideram católicas, de forma sincera.

Embora devamos reconhecer que tanto nos tempos de maior fé, como na época de Santo Tomás, quanto nos tempos de muita incredulidade, como hoje, muitos renunciam ao matrimônio (claro, antigamente renunciavam antes do casamento para entregar-se a Deus, e hoje renunciam depois dele, para entregar-se a… sabe lá Deus). Ainda assim, tanto antes quanto agora, a grande maioria segue casando. E é curioso, porque, apesar dessa inversão exata de valores, o saldo continua sendo positivo.

Quais são, segundo Santo Tomás, os males que o casamento traz consigo? Em primeiro lugar, uma decaída da atividade espiritual, devido à veemência das paixões própria do trato conjugal. E em segundo lugar, a “tribulação da carne”, ou seja, as preocupações e os trabalhos ocasionados pelas necessidades temporais.

Contudo, esses não tão pequenos males são extensamente superados por três grandes bens: a prole, a fidelidade e o sacramento. São os filhos, a prole, o primeiro e o grande bem do matrimônio, aquilo pelo qual Deus o instituiu. O segundo bem é a fidelidade, pela qual o homem se une com uma única mulher, e a mulher com um único homem, tendo cada um no outro um apoio em que poderão confiar. E o terceiro bem, selo sagrado dos demais, é o sacramento, pelo qual o matrimônio se vê transformado por Deus em laço indissolúvel e fonte de santidade para toda a família.

Mas, ao contrário, o que move hoje muitos católicos a se casar? Principalmente os sentimentos e a paixão, que para um cristão só podem ser satisfeitos legitimamente dentro do matrimônio. E, em segundo lugar, as conveniências práticas: que haja alguém que varra a casa e faça a comida, ou alguém que dê um teto e comida. E, por essas razões, como homens sábios, aceitam a pesada carga dos poucos filhos, que escapam a seus cuidados; o resignar-se só exteriormente ao único cônjuge; e submeter-se como um condenado à cadeia perpétua da indissolubilidade.

Dissemos que percebemos, assustados, essa total inversão daquilo que é o matrimônio. Com terror! deveríamos dizer. Porque não se trata somente da perda das verdades de fé, o que já seria gravíssimo; senão da corrupção mesma da razão natural, o que é ainda pior. Um incrédulo pode se converter a Deus, mas um insensato não!

É evidente que para ter fé é necessário não estar louco. Mas, para ter a fé, não basta o uso da razão, mas também se faz necessário o uso correto da razão natural. Há uma relação mútua e estreita entre a fé e o bom senso das coisas naturais: nossa mente se eleva ao conhecimento dos mistérios divinos apoiada em comparações com as realidades naturais. E a luz desses mistérios faz com que compreendamos de um modo novo, muito mais profundo, as verdades das quais partimos. Essa é a explicação teológica do grande senso comum de um bom cristão, e da dificuldade de ser cristão àquele ao qual falta senso comum.

Não seria necessária a Revelação para saber que os filhos são a grande recompensa do matrimônio, que a fidelidade é um grande bem e que a indissolubilidade é, no mínimo, necessária. Mas somente a luz divina poderia mostrar aos fiéis a grandeza imensa desses bens. “Grande é esse sacramento”, exclama São Paulo falando do matrimônio, “mas o digo em Cristo e na Igreja” (Ef 5, 32). Somente ao mirar o mistério de amor e de união entre Cristo e sua esposa, a Igreja, podemos nos assegurar da grandeza do matrimônio cristão, já que ele é como um reflexo ou imagem daquele outro Grande Mistério de fecundidade, de fidelidade e de santificação.

Mistério de fecundidade: Cristo deu todo o seu Sangue para fazer fecunda a Igreja, e a Igreja ardeu em desejos de lhe dar filhos. Em todos os povos os engendrou, generosa, porque é Católica; e por ser Apostólica os deu à luz, incansável, em todos os tempos. Que pais verdadeiramente cristãos fariam delongas com o último de seus filhos, quando de tal forma Cristo os desejou!

Mistério de fidelidade: porque foi todo o seu Sangue o que Cristo deu, e nada guardou para si; não houve outra Igreja que pudesse ser objeto de seu amor. Por isso a Igreja é una, e com olhos para um único Senhor. É contemplando esse amor único, exclusivo porque é total, que os esposos cristãos aprendem a se amar: “maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou sua Igreja, e, como a Igreja está sujeita a Cristo, assim as mulheres devem ser sujeitas a seus maridos em tudo” (Ef 5, 24-25).

Mistério de santificação: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela para santificá-la”. É por sua união indissolúvel a Cristo na cruz que a Igreja é santa, e fonte inesgotável de santidade. Assim, o matrimônio cristão, elevado à dignidade de sacramento, é uma das sete fontes que derramam entre os homens a santidade que vem da cruz. Fonte de santidade na medida que é informada pela caridade e pelo espírito de sacrifício.

Os esposos católicos, neste tempo de confusão tão profunda e universal, devem mirar a Cruz, contemplar ali o mistério da união entre Cristo e a Igreja, para redescobrir a grandeza do matrimônio cristão. Seus filhos, um dia, ao ter em vocês a fiel imagem desse mistério de fecundidade, de fidelidade e de santificação, facilmente compreenderão por que a Igreja é Católica, Apostólica, Una e Santa.

Que difícil é compreender a esse par de sobreviventes do egoísmo de seus pais que a Igreja dê seu sangue em suas missões. Que difícil, quando veem separar-se aqueles que foram seus pais, para atirar-se em braços de estranhos, entender que Cristo não pode repartir seu amor em pedaços entre uma infinidade de seitas e religiões; e, por causa disso, que difícil descobrir que o ecumenismo conciliar é uma mentira. Que difícil acreditar que somente na Igreja se possa nascer e crescer, que ela seja o único lugar para a vida da graça, quando nunca sentiram, coitados, o calor de uma família. 

Padre Álvaro Calderón 

Fonte: aqui .