quarta-feira, 18 de maio de 2022

“Smartphones e os meios de comunicação”, opúsculo do Padre Álvaro Calderón

    A comunicação é assunto da maior importância para o ser humano, pois este é social por natureza. Sem comunicação não há família, nem sociedade, nem educação, e o homem não desenvolve sua personalidade. 

E a comunicação é ainda mais importante para o cristão, porquanto Jesus Cristo quer que entre Ele e seus fiéis haja uma união grande ao ponto de ser semelhante à que há no seio da própria Santíssima Trindade: “E eu não rogo somente por eles (os Apóstolos), mas rogo também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra, para que sejam todos um, como tu, Pai, és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, e creia o mundo que tu me enviaste” (São João, 17). Daí se segue que aquilo que nos comunica e une com Deus seja também aquilo que nos comunica e une com os demais homens: a caridade, o amor divino, que tem ao mesmo tempo por objeto a Deus e ao próximo. Sem comunicação não há Igreja nem salvação.

Por isso tem também fundamental importância o meio de comunicação. Sim, usamos propositadamente essa expressão, já que tanto se fala hoje em “meios de comunicação”. Qual é o principal meio de comunicação cristão? O principal meio de comunicação cristão é a Eucaristia. Sempre os homens se uniram a Deus pelos sacrifícios e se comunicaram entre si compartilhando uma refeição, e a Eucaristia é ambas as coisas: Sacrifício divino e divina Refeição pela qual o cristão se une a Deus e aos seus irmãos, tornando-se assim membro do Corpo místico, cuja cabeça é Jesus Cristo.

A Eucaristia é o Sacramento da unidade eclesiástica, o Meio que engendra, engrandece e fortalece a sociedade divina que é a Igreja. Sinal puro e sensível, apto a ser compreendido pelas mais simples inteligências sem que deixe de ser eficacíssimo, pois nas sagradas espécies do pão e do vinho está presente o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. E a fim de explicar esse Sinal do amor divino, pelo qual Jesus Cristo se entrega ao Pai como Vítima e se entrega a nós como Refeição, a Igreja engastou a joia da dupla consagração na Liturgia da Santa Missa, pela qual somos formados no verdadeiro catolicismo e da qual brota toda a riquíssima cultura cristã. O meio de comunicação cristão é certamente a Eucaristia.

Mas também existem os meios de comunicação humanos, que na medida em que não são usados de maneira cristã merecem ser chamados meios de comunicação mundanos, e estes se têm aperfeiçoado de maneira assombrosa nos últimos tempos. 

Esses meios se têm incorporado aos homens numa sociedade também universal – é oportuno dizer – que constitui uma verdadeira anti-igreja, cuja cabeça invisível já podemos adivinhar quem é: Satanás. E hoje o principal meio de comunicação é o smartphone (em inglês, que é a língua sagrada da antiliturgia mundana), o telefone astuto que constitui uma espécie de antieucaristia pela qual se comunga nesta nova sociedade invertida. Isso é hoje, porque muito provavelmente amanhã todos terão um chip no cérebro e o 666 na fronte. Esta é uma sociedade antitradicional em que tudo muda a uma velocidade cada vez maior.

Talvez tu sejas tão ingênuo que a exagerada oposição que pusemos entre o celular e a Eucaristia te surpreenda. Por acaso não te dás conta de como esses aparelhinhos cativam e encantam, arrancando-te da oração, da família e da boa amizade? Quantas vezes não se interrompe uma conversa por causa da matreira vozinha do celular! Ou não se vê uma pessoa olhando para o vazio enquanto fala durante uma reunião! Não é à toa que se pede que se desliguem os celulares ao entrar na igreja: eles são contrários a Nosso Senhor. E o são muito mais do que geralmente se está disposto a reconhecer.

Os meios de comunicação e a revolução anticristã

É muito clara a ligação entre o progresso dos meios de comunicação e o avanço da revolução anticristã. O processo que vivemos começa em 1300 com o mal chamado Renascimento humanista, quando tantos cristãos deixaram de pôr Deus no centro de suas vidas e começaram a pôr-se a si mesmos. Mas é um fato histórico reconhecido que esse movimento de antropocentrismo foi determinantemente influenciado pela invenção do papel e da imprensa, e do consequente barateamento dos livros. Os homens cultos já não quiseram ter como mestres os sacerdotes e os teólogos, pois preferiram acessar as fontes de sabedoria por si mesmos: a Bíblia e os filósofos antigos. 

Dois séculos depois, em 1500, a propagação de traduções da Bíblia e de livros fáceis de autodeclarados teólogos provocou a mal chamada Reforma protestante (os nomes dessa história foram dados pelos revolucionários), a qual jamais poderia ter acontecido sem o progresso dos sistemas de fabricação de papel e de impressão dos escritos. Da mesma maneira, mas ainda mais intensa, foi o caso da Revolução francesa, que se deu no início do século XVIII (agora os historiadores começaram a chamar as coisas pelo seu nome, embora os bons franceses não gostem do adjetivo). Ela foi possível por causa de uma inundação de revistas e folhetins muito simples que denegriam a ordem cristã sem o cuidado argumentativo que tomavam os heresiarcas luteranos. Observe-se que, quanto maior a pujança do meio de comunicação, maior a pobreza do conteúdo comunicado.

Dois séculos depois e chegamos, no século XX, ao Concílio Vaticano II, onde a revolução modernista contagiou a própria hierarquia da Igreja. Pois bem, este foi o Concílio dos jornalistas, pois foi nele que os padres conciliares prestaram mais atenção aos jornais que ao Espírito Santo. É um fato patente que a reforma conciliar – que não é outra coisa que uma infecção de revolução anticristã na Igreja – não teria sido possível sem os modernos meios de comunicação: as impressoras rotativas, que vomitavam todos os dias milhões de jornais; o rádio, que aturde com seu incansável palavreado; e a televisão, que com sua vertigem enlouquece a imaginação. Os jornais bateram à porta, o rádio entrou em casa, e a televisão assentou-se de frente para a mesa familiar. Os católicos então não puderam mais pensar.

No entanto, os meios de comunicação que temos à disposição hoje são imensamente mais poderosos, e não estão em casa, pois já se meteram em nossos bolsos! Hoje não somente se têm as bibliotecas do mundo no celular mas todos estão chamados a ser autores; hoje não somente se ouve a incessante voz do rádio mas todos são instigados a tornar-se emissoras que falam sem parar; e não somente se abre estupidamente a boca diante do programa de televisão mas todos agora são convidados a atuar. Se deixamos a ingenuidade, o que hoje se pode esperar que ocorra quando vemos os poderosíssimos instrumentos à disposição de Satanás para possuir a mente dos homens?

As oito desventuranças do smartphone

Nós, os sacerdotes, não deixamos de assombrar-nos com os multifacetados danos produzidos por esses aparelhos endiabrados. Assombrados e atemorizados de fato, e, se não estamos horrorizados como deveríamos, é porque pouco a pouco acabamos por acostumar-nos com a situação. Tentamos fazer uma lista de males, daqueles que às vezes são tão graves que é inconveniente descrever, mas acreditamos que precisamos ser suficientemente claros.

Desventurança da impureza

Leva-se no bolso uma ampla biblioaudiovideoteca com uma seção quase infinita de pornografia, e para acessá-la não é preciso passar a vergonha de entrar na fila de um cinema de má fama, nem mostrar a triste cara na banca de jornal, que vive de enriquecer à custa da miséria alheia; basta apenas apertar um discreto botão. Vive-se em perpétua ocasião com um saco de gasolina suja na mão, pronta para explodir com a primeira fagulha de tentação. Quanta virtude é preciso ter para nunca acabar por incendiar-se?

Desventurança da indecência

No homem se dá mais a tentação de ver; na mulher a de ser vista. Que a vejam mas não a toquem. E, em seu orgulho, a jovenzinha quer ser vista sem que se note que se mostra, como que por surpresa. Pois bem, a tela oferece a maneira mais gradual e mais medida de nutrir a vaidade e enfraquecer o pudor, porque permite manejar sua imagem e aparecer defendida por uma barreira de proteção. Ainda há aqueles que se escandalizam com a podridão dos reality shows, e não se dão conta de que, com os milhões de filmadoras que registram a todo momento, a sociedade moderna inteira se está mostrando da mesma maneira. Papais tranquilos quando o namoradinho tem uma janelinha aberta para entrar no quarto de sua filha.

Desventurança da sedução

O sedutor tem à sua disposição o melhor meio para ter acesso à sua presa. A jovenzinha tem o cuidado de não falar com qualquer homem, mas quem resiste a ler uma mensagem?! Ninguém deixa que qualquer pessoa se aproxime de sua filha e sussurre ao ouvido dela – ou do esposo, ou da esposa –, mas o celular consegue fazer isso. Pior ainda são as conversas anônimas, porque é sedutor lidar com o perverso ou a prostituta, assim como Eva foi atraída pela ciência do bem e do mal. E os aparelhos permitem entrar nesses infernos com a aparente segurança de poder sair instantaneamente com um movimento do dedo. Mas a cada momento que ali está cativa, como o ratinho hipnotizado pela serpente, a jovem caminha rumo à casa de seu estrangulador.

Desventurança da cobiça

O desejo das coisas cresce ao infinito. O cartão de crédito já era uma ocasião de gastos imoderados que poucos podem controlar, de modo que era preciso segurar em casa os compradores compulsivos. Mas agora já não é necessário passear no shopping, pois o celular é uma vitrine de tudo o que se vende no universo, tudo pronto para ser comprado em parcelas com um clique. E há também os gastos em telecomunicação. Pobres católicos tradicionais com muitos filhos: como fazem para pagar a conta de celular de cada um? Antes as crianças mendigavam uma moeda para as guloseimas ou para as figurinhas do álbum; agora é para carregar o celular.

Desventurança da irrealidade

O ser humano, por sua própria natureza, sempre sofreu o conflito entre aparência e realidade, porque os rostos nem sempre manifestam o que acontece na alma, e quase todos cobrem sua personalidade real com a máscara de uma personalidade artificial. Como é difícil conhecer até o próprio irmão! Mas agora, neste cenário virtual em que toda a sociedade inteira está encenando, este problema foi elevado ao nível de verdadeira loucura coletiva, de uma toxicodependência em massa, ou, pior, de certa possessão diabólica social. Se examinarmos bem, concluímos que não há exagero aqui. A sofisticada aparência virtual cria ilusões muito difíceis de dissipar. Hoje, até nossos bons fiéis creem ter amizade virtual, apostolado virtual, caridade virtual, e a distância que se toma do real pode ser imensa (advertimos, não condenamos). Um triste dado confidencial: temos certeza de que grande parte dos sacerdotes que nos últimos tempos deixaram a Fraternidade foi por se terem deixado enganar por uma ilusória fraternidade virtual. E se isso nos acontece a nós, em nossa família sacerdotal, não menos se passa convosco, queridos fiéis, em vossas próprias famílias. Ou não?

Desventurança da irreflexão

Já observamos que, quando cresce o meio, diminui o pensamento. Aquele que lê pouco pensa muito, e aquele que lê muito pensa pouco (entenda-se que não estamos contra o hábito da boa leitura!). E, se a letra esgota o espírito, quanto mais a imagem sonora em movimento! Hoje se têm mil cinemas abertos no bolso, se mantêm mil conversas, e mil notícias ao vivo bombardeiam o cérebro. Não sobra um segundo de contemplação nem de pensamento. A ebulição da atividade imaginativa torna-se obsessiva e tende a anular toda atividade propriamente intelectual. Não se dá de outra maneira a possessão demoníaca.

Desventurança da charlatanice

Há aqueles que querem ter uma vida intelectual e descobrem o ambiente universitário virtual. Mas à irrealidade que padece soma-se outro pecado: o desconhecimento da autoridade. Não importa quem sabe; todo o mundo tem direito de ensinar. É como uma imensa praça, a Ágora da nova Atenas, onde qualquer pessoa instaura sua cátedra. Centenas de milhares falam e milhões escutam (porquanto não há blog que não tenha visitas), mas não se ensina nem se aprende nada, pois as verdades que são ditas acabam por ser desperdiçadas num oceano de ninharias e já ninguém acredita em nada.

Desventurança da liberdade

A internet é o ilusório triunfo da liberdade de expressão. Escutamos isso até de um sacerdote: “Os jornais e a televisão estão dominados, mas pela internet podemos falar”. Que falsa ilusão! O inimigo do homem sabe perder dez para ganhar um milhão. Deixem que diga o que quiser o padreco tradicional, que a única coisa de que me vou encarregar é pôr simultaneamente outras mil pessoas falando a favor e contra a Tradição. Vão todos à Ágora de Atenas para conhecer a verdade!

Terminamos aqui, mas todos sabem perfeitamente que a lista dos males poderia alongar-se muito mais.

Se nossa justiça não é melhor…

Nossas queridas famílias vivem, neste ponto, certa hipocrisia farisaica de que não estamos totalmente isentos os sacerdotes. O apego aos celulares é tão grande, e os males que traz são tão vergonhosos, que aquilo que seguramente se reconhece nos confessionários nem é mencionado na mesa familiar e é de difícil trato no púlpito. Mas Nosso Senhor nos adverte: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e que a dos fariseus, não entrareis no reino dos céus” (São Mateus, 5). Não façamos igual ao avestruz, que fecha os olhos diante do mal que sofre. Se a imprensa deu lugar à reforma protestante, se o rádio e a televisão permitiram a revolução conciliar, que nova etapa nos preparam a internet e o smartphone? É preciso fazer algo.

É verdade que a atitude católica ante o mundo e suas coisas não é a de separação material, como no Antigo Testamento ou como fazem hoje os menonitas. Nosso Senhor disse: “Não peço que vos tireis do mundo, mas que vos guardeis do mal” (São João, 17, 15). Os santos imprimiram livros e folhetos, e hoje utilizarão aparelhos, porque o mal não está nos circuitos eletrônicos, mas no uso que se faz deles. Trata-se de usar das coisas deste mundo com virtude cristã, tomando o que é bom e deixando o que é mau. Não é solução universal pretender não usar nunca um computador ou um celular; este é remédio material que geralmente termina pior. Mas também é muito católica a humildade de saber-se inclinado ao mal pelo pecado original. Temos pouca virtude, e por causa disso não precisamos propor-nos a condutas que só podem sustentar-se com virtude heroica. Necessitamos apartar-nos o quanto possível das ocasiões de pecado, e isso é que é o celular.

O que fazer? Não a todos convém a mesma coisa, nem todos são capazes das mesmas coisas, razão por que pode ser até contraproducente dar receitas universais:

• A posse de um celular traz uma falsa sensação de segurança, e acaba que te assaltam para roubar o aparelho: confia mais no anjo da guarda, que não é virtual.

• Quando for preciso usá-lo, convém não ter celulares pessoais, mas apenas familiares, que são usados apenas quando necessário.

• Não usá-lo em casa, mas apenas quando sair; e deixá-lo na entrada, como se deixam os guarda-chuvas.

• Impedir a conexão wi-fi em casa.

Ah! Para que seguir esses conselhos, se nada bastará se não se odeia a fonte de tanto mal?! É preciso falar mal dele, difamá-lo merecidamente, lutar contra o feitiço sob o qual ele nos mantém. Eucaristia ou smartphone. Aquela atrai para o alto, este puxa para baixo: é verdadeira a oposição. Se não o desligarmos, perderemos a Nosso Senhor! 

__________________

Publicado na revista Iesus Christus, n.º 155, no penúltimo trimestre de 2016.

Fonte: https://notasquotidianas.wordpress.com/2021/12/10/smartphones-e-os-meios-de-comunicacao-padre-alvaro-calderon/?fbclid=IwAR0gIRuzVPsrMwlL89i3yNjNd9IKo-Ec5JE1yXUqM_AuIL5gy_x5tBVVrXY.

Uma História Tomista da Filosofia | Vídeo 3/6


domingo, 10 de abril de 2022

A radical diferença entre a teologia moral de Santo Tomás de Aquino e a teologia moral de Santo Afonso de Ligório

                                                                                                                 Carlos Nougué

 Nas 303 questões (com cerca de 1.540 artigos) de que consta o vasto tratado moral da Suma Teológica – sua Segunda Parte –, praticamente não se encontra nenhum estudo de casos de consciência, e o papel que seria o desta é exercido conjuntamente pela razão prática e pela virtude da prudência sobre-elevada pela graça; só em algum quodlibet Santo Tomás trata certo número de casos morais singulares, mas isto porque neste tipo de disputa os temas eram propostos pela assistência. No entanto, o primeiro livro da Teologia Moral de Santo Afonso começa com um longo tratado “Da Consciência”, onde esta aparece como uma sorte de intermediário entre a lei e a liberdade – coisa que jamais passou pela mente de Santo Tomás (nem, aliás, pela de nenhum Padre da Igreja). Mas Santo Tomás e Santo Afonso não são ambos doutores da Igreja? Como é possível tamanha divergência? Por outro lado, não terá a Igreja aprovado a doutrina moral de Santo Afonso, o equiprobabilismo? Tudo isso também o tratarei no novo curso (de um ano) que começará no próximo 31 de maio. No início do mesmo mês, darei a conhecer o programa do curso e todos os demais dados relativos a este. – E não se esqueça: apesar de em julho eu terminar de gravar as 260 aulas da Escola Tomista, esta continuará no ar ao mesmo tempo que o novo curso, e eu continuarei a responder às dúvidas dos alunos dos dois cursos. Diga-se, a propósito, que se poderá assistir simultaneamente a ambos.

O Pensamento de Hegel -- Prof. Carlos Nougué

quinta-feira, 24 de março de 2022

A Questão dos Jesuítas

                                                                                                Carlos Nougué

1) Um defeito de muitos católicos tradicionais atuais – e julgo-me tradicional – é considerar que o Concílio Vaticano II brotou como um cogumelo depois de uma chuva. Dividem a história entre um antes do CVII perfeito e um depois do CVII catastrófico. Em parte têm razão; mas não quanto ao antes do CVII, porque é nesse antes que se devem encontrar as causas remotas e as mais ou menos próximas da hecatombe conciliar.

2) Alguns, porém, embora não tenham uma visão tão idílica do pré-CVII, têm-na com respeito a um caso particular, por exemplo o dos jesuítas, que teriam sido magníficos até o CVII e ruinosos depois dele. Mas tal idealização não procede.

Observação: aliás, não procede nenhuma idealização quanto à história da Igreja. Esquecemos que o joio e o trigo sempre estiveram e sempre estarão misturados até a Parusia? Esquecemos que o mistério da iniquidade e multidão de anticristos já estavam em ação nos tempos apostólicos? Quanto mais não estarão, no entanto, no tempo da apostasia das nações, começado no já remoto século XIV!

a) Surgem os jesuítas numa situação em que, falando propriamente, já não existia cristandade, que começara a findar duzentos anos antes, no já referido século XIV. À parte o breve interregno dos Reis Católicos, de Carlos V e de Felipe II, já a Igreja não contava entre suas fileiras com nações propriamente cristãs. O humanismo e o Renascimento fazem renascer o paganismo; Lutero tira à Igreja meia Europa; e Francisco I, rei de França, nega-se a enviar ao papa tropas para enfrentar os turcos porque tem relações comerciais com eles. 

b) O Concílio de Trento foi uma magnífica reação da Igreja, mas nem sequer nele se voltou a falar da doutrina dos dois gládios: ainda estava fresca na memória católica a afronta de Felipe, o Belo, a Bonifácio VIII, e o papado, acuado diante da crescente independência e arrogância dos reis e da burguesia, era já uma cidadela grandemente sitiada. Mais: no âmbito do próprio tomismo, pelas mãos de Francisco de Vitoria – um nominalista que se cria tomista –, começava a corromper-se a doutrina magisterial e tomista da subordinação essencial do poder temporal ao espiritual (a doutrina dos dois gládios ou da realeza social de Cristo). 

c) Os jesuítas, todavia, fazem sua entrada nesse quadro dramático com a incumbência arduíssima de restaurar a cristandade – o que porém já era impossível (ainda que fosse então impossível sabê-lo impossível). Conseguem recuperar metade da metade da Europa perdida para o protestantismo, mas já se tratava de uma metade só semicatólica. Quanto ao fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio, era um tomista de estrita observância, e fez gravar na ordem que fundara o cunho tomista; ele, diga-se, e os demais grandes santos fundadores. É verdade que Santo Inácio já dizia pouco mais ou menos a seus padres: A doutrina tomista da predestinação é a correta (e, digo eu, perfeitamente acorde com a definição do Concílio de Quiersy: Os que se salvam, salvam-se por dom de Deus; os que se perdem, perdem-se por merecimento, ou seja, por sua própria culpa), mas, continuava o nosso Santo, não insistam  nela publicamente porque pode confundir-se com o luteranismo. A consequência, contrária à intenção do Fundador, não tardou: morto Santo Inácio, pelas mãos de Luis de Molina a Companhia de Jesus se faz antitomista e, pelas próprias premissas do molinismo, voluntarista. Aliás, ainda hoje vemos entre os defensores acríticos da Companhia de Jesus afirmações como esta: Se não tivessem impedido a livre ação dos jesuítas na China, esta se teria tornado um Império carolíngio do Oriente. E a graça, nada?

d) É bem verdade que a disputa entre jesuítas e dominicanos em torno do tratado da predestinação teve muito de sectária: ordem contra ordem, não doutrina contra doutrina, pouco mais ou menos como a Ordem Franciscana se encarniçara contra Santo Tomás de Aquino. E certamente todo o sectarismo do enfrentamento de ordem contra ordem influiu na crítica feita ao trabalho dos jesuítas no Império chinês. Mas sem dúvida os jesuítas exageraram: a chamada Questão do Rito não foi algo inventado por maliciosas mentes dominicanas e franciscanas. De fato, os sucessores de Santo Inácio faziam já – muitos séculos antes do CVII – certa inculturação no rito da missa para converter os chineses, assim como companheiros seus se vestiam de brâmanes na Índia para converter os hindus... Por isso mesmo, a condenação da inculturação jesuítica por dois papas (Clemente XI, em 1715, e Bento XIV, em 1742) foi mantida, em 1939, por Pio XII, que da decisão de seus predecessores só revogou um ponto preciso: autorizou os católicos chineses a participar dos cultos cívicos confucianos, desde que não se envolvessem em nenhuma idolatria.

e) Ademais, já predominava na teologia moral uma inflexão de consequências nefastas: a substituição da caridade pelo tribunal da consciência. Não foi algo próprio dos jesuítas. A enorme Teologia Moral de Santo Afonso de Ligório peca exatamente por isso (ainda que, claro, santo que era, o nosso teólogo não tenha dado nenhuma norma ou preceito moral falso). Some-se porém uma ética afinal caudatária em algum grau do racionalismo (não será Kant quem instituirá o imperativo categórico da consciência?) ao voluntarismo molinista, e ter-se-á o fundo teológico dos erros jesuíticos em suas missões. Entenda-se bem: é imenso o mérito dos jesuítas em todo o mundo, incluindo a América, quanto à conversão de grandíssima quantidade de almas (para não falar de seus próprios mártires). Foram vítimas, ademais, de implacável perseguição maçônica, jansenista e protestante. Nada disso, no entanto, suprime o problema: pelo sistema circulatório do catolicismo já corria voluntarismo e, digamos, “consciencientismo”, com o que a graça ficava como que relegada ao papel de coadjuvante.

f) Os problemas não param por aí. Depois de São Roberto Belarmino, jesuíta, ter reafirmado de algum modo a correta doutrina da ordenação essencial do poder temporal ao espiritual, no seio da própria Companhia de Jesus surge um negador de peso dessa mesma doutrina: Francisco Suárez, que dando continuidade ao posto pelo dominicano Francisco de Vitoria e aprofundando-o introduzirá na política teológica católica uma espécie de “vontade geral” avant la lettre, ou seja, antes mesmo que o fizesse Rousseau. A vontade do povo é a vontade de Deus. Pois bem, voluntarismo + “consciencientismo” + democratismo liberal em germe = rendição (involuntária) ao mundo moderno. Não por nada a Revolução Francesa vai fazer desmoronar facilmente o que restava das velhas nações cristãs por toda a Europa e depois pelas Américas. Será preciso esperar Leão XIII, São Pio X, Pio XI para que o papado, agora já completamente sitiado, voltasse a falar da doutrina dos dois gládios, ou seja, da ordenação essencial do poder temporal ao espiritual, ou seja, da realeza de Cristo, e tentasse fazer voltar o tomismo. Mas este já é outro assunto, igualmente espinhoso.

g) Quanto à questão da “restrição mental”, os jesuítas não foram os únicos a propagá-la, mas também o fizeram, sim. A distinção sutil entre “restrição mental lata” e “restrição mental estrita” não resolve o problema. Aliás, embora o magistério da Igreja só tenha condenado esta, não autorizou aquela; tão só não a desautorizou. Mas será tão difícil entender que onde o tribunal da consciência impera sobre a caridade tem lugar a “restrição mental lata”, que afinal não é senão uma maneira de mentir julgando que não se está mentindo? Um exemplo de “restrição mental lata”: “Não tenho este livro”, diz alguém ao que lho pede emprestado, fazendo a “restrição mental”: “para emprestar-to a ti”. Os defensores deste tipo de “restrição mental” arguem que é fácil ao outro deduzir o que o “restringidor” não disse. Sem dúvida, se ele tiver algum dom paranormal... Aliás, revisei há uns dois anos um longo tratado de ética de um importante grupo da Igreja segundo o qual seria preciso rever a dura doutrina agostiniano-tomista sobre a mentira: para os dois maiores doutores da Igreja, a mentira é sempre pecado, a ponto de que nem sequer na guerra tem lugar. Por que o dizia o referido tratado? Porque hoje há a espionagem, e o espião tem de mentir constantemente para bem cumprir seu ofício!!! Porventura não terá passado pela cabeça do tratadista que o próprio ofício da espionagem é pecaminoso e ilícito?

h) Se agora se soma todo o quadro traçado acima ao fato de que mesmo grandes papas como Leão XIII, Pio XI e Pio XII – a par de uma doutrina sempre impecável por assistência do Espírito Santo – levassem a efeito na prática uma política de ralliement ou de relações cordiais com regimes liberais, e ao fato de que a cúria conservadora (por exemplo, o Cardeal Ottaviani) e os tomistas em geral já fossem muros com brechas incapazes de conter a torrente impetuosa do modernismo quanto às relações entre o poder temporal e o espiritual, ter-se-á o terreno perfeitamente adubado para a eclosão conciliar. Não haverá reversão? Isso não depende de nós, mas de Deus e seus desígnios na história. Podemos dizer tão somente que, embora o tomismo não seja capaz de salvar o mundo, sem o tomismo o mundo não se salvará.

Observação final. A tal ponto estava fendido o muro do conservadorismo antiliberal no seio da Igreja, que um Cardeal Billot, jesuíta que abraçara sinceramente o tomismo propugnado pelos papas e se transformara num paladino da reação ao modernismo e ao liberalismo, não entendeu todavia perfeitamente a doutrina magisterial e tomista dos dois gládios ou realeza social de Cristo. Era tão frágil seu muro antiliberal, que se opôs à condenação por Pio XI da Action Française de Charles Maurras não por inoportuna – e teria tido então razão –, mas por ver naquele movimento de caráter nada católico um verdadeiro aliado da Igreja. Onde ficava para Billot a Quas primas de Pio XI? Nos dias da festa litúrgica de Cristo Rei? Mas explica-se: como sempre o disse ele mesmo, o nosso grande Cardeal era discípulo de seu irmão de religião Francisco Suárez quanto à política teológica.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Nelson Rodrigues católico tradicionalista?

                                                                                                                     Carlos Nougué 

É o que se lê e ouve por aí.  E, com efeito, Nelson Rodrigues chegou a elogiar Dom Lefebvre. Mas em verdade não o fez senão para contrapô-lo a Dom Helder Câmara e todo o “catolicismo marxista”, porque anticomunista de fato Nelson Rodrigues foi. Como todavia chamar, já nem se diga católico tradicionalista, mas católico pura e simplesmente a quem disse coisas como a que se lê na imagem abaixo ou como esta: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)”? Ou a quem teve numerosos romances e peças teatrais interditados pela censura, o mais das vezes a pedido da Igreja, por atentado à moral?

Veja-se uma relação parcial dessas obras censuradas e muitos de seus “edificantes” títulos, tão “edificantes” como seu conteúdo: A mulher sem pecado, Álbum de família, Bonitinha mas ordinária, Vestido de noiva, Anjo negro, Senhora dos Afogados, Vinde ensaboar vossos pecados, Valsa nº 6, A falecida, Perdoa-me por me traíres, Viúva, porém honesta, Boca de Ouro, Toda nudez será castigada.

Mais: foram suas peças uma das principais molas e inspirações da maré montante da pornografia no cinema brasileiro a partir do próprio regime militar. Ademais, mesmo depois de sua “conversão” ao tradicionalismo católico, jamais Nelson Rodrigues foi capaz de fazer a mínima autocrítica com respeito a estas obras suas.

Mas dirão seus defensores... católicos: Em suas peças Nelson Rodrigues apenas espelha com realismo a realidade do pecado, “a vida como ela é”. Já lhes respondeu porém Pio XII, falando do cinema: “Uma coisa é conhecer os males, procurando dar-lhes explicação na filosofia e na Religião; outra é fazer deles objeto de espetáculo e diversão. Ora, acontece que dar forma artística ao mal, descrever-lhe a eficácia e o desenvolvimento, os caminhos claros ou tortuosos com os conflitos que gera ou através dos quais caminha, tem para muitos uma atração quase irresistível” (“Alocução de 28 de outubro de 1955 aos representantes do mundo cinematográfico”).

Você, católico que quer contribuir para a salvação de seus filhos, teria ânimo para dar-lhes a ler tais obras de Nelson Rodrigues? ou ao menos temeria o julgamento de Deus por isto? ou ainda se poria a si mesmo em ocasião de pecado lendo ou vendo tais peças?




quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Novo curso gratuito de Carlos Nougué (irá ao ar dentro de cerca de dois meses)

HUGO DE SÃO VÍTOR E SUA DOUTRINA

Ementa:

1) Vida e obra, e seu lugar na escolástica

2) Se é verdade que Santo Tomás o tinha por mestre

3) Seu método educativo

4) Sua divisão e ordem das disciplinas (ainda caudatária do estoicismo)

5) Sua doutrina dos sacramentos (refutada por Santo Tomás)

6) Sua doutrina da beatitude (dita por Santo Tomás ou herética [de um ângulo] ou ao menos temerária [de outro], e dita estranha por São Boaventura)

7) Por que Hugo de São Vítor é tão louvado hoje em dia por certos pensadores católicos