RESPOSTAS DO PROFESSOR NO CORPO
DO E-MAIL DO ALUNO
I) Sobre
a resposta à pergunta, gostaria de fazer alguns apontamentos:
1) Antes
de tudo, o mal não é propriamente um nada, mas a privação de um bem, e tal
privação sempre se dá num bem.
Hum, isto
é o que eu achava que havia dito, se não ficou claro, tentarei reexplicar-me:
ao dizer que o mal não-é, digo-o justamente porque o mal nega a presença
de um bem devido (e, portanto, de um ser). De fato, só poderia-se dizer que o
mal "é propriamente" um nada, em se tratando do mal simpliciter,
porquanto este seria a negação universal do bem e, portanto, do ser.
RESPOSTA. O mal simpliciter é
um ente de razão, não porém no sentido de ente de razão lógico, que tem sempre
fundamento remoto in re, na coisa, na
realidade. O mal simpliciter, por não
ter fundamento nenhuma na realidade, é um ente de razão enquanto quimera. Não
existe o mal simpliciter, à parte; o
mal é sempre a privação de um bem, e sempre se dá num bem.
II) Assim
como bom é ser capaz de ver, e mau é não-ser capaz de ver. Como o mal
tanto nas coisas (isto é, o mal enquanto a ausência deste ou daquele
bem devido) - o qual passo a chamar de mal secundum quid [1] -, quanto o
mal "em si" (isto é, enquanto absoluta negação do bem e, portanto, do
ser) - o qual passo a chamar de mal simpliciter -; ou não são em
absoluto (como o mal simpliciter) ou só podem existir enquanto afirmam a
bondade daquilo que são privação[2] (como o caso do mal secundum quid)
sem ser de modo algum per se.
RESPOSTA. O mal nunca pode ser por si, mas sempre, ao modo de privação, em outro. Não existe, pois, o mal simpliciter. Se o houvesse, estaria
negado o Bem simpliciter, que é Deus
(donde o combate acirrado de S. Agostinho ao maniqueísmo).
III) De
maneira que qualquer coisa (e, portanto, algo que é, e é perfeito, e é
bom) que se deseje, só pode ser desejada enquanto é boa, porque nem o mal simpliciter
pode ser objeto da vontade (já que não-é em absoluto) e porque o mal secundum
quid só se diz enquanto é privação de um bem e em um bem, de
maneira que só este bem (no qual o mal é privação) que pode ser objeto
da vontade.
RESPOSTA. Está correto, mas evite a distinção entre mal simpliciter e mal secundum quid, pelas razões aduzidas. Deixe tal distinção para o
bem.
IV) [1] É
possível este uso análogo dos termos ou descambo a ser equívoco?
RESPOSTA. Não se trata de analogia ou univocidade, mas do que já se
disse.
V) [2]
Afinal, não se diria que é mau ser cego, se não fosse bom ser capaz de ver.
RESPOSTA. Sim, mas daí não se segue o restante (a distinção entre simpliciter e secundum quid quanto ao mal, distinção que, insista-se, decorre de
uma quimera).
VI) 2) Depois, não é pela razão indicada que a
vontade não pode querer o mal para si. A vontade não pode querer o mal para si
porque cada um de nós não pode querer senão o bem e a felicidade para si
próprio. Tome-se o caso do suicida: no momento em que escolhe suicidar-se, isto
se lhe afigura um bem, sem o qual lhe sucederiam os males de que quer
livrar-se.
Carlos,
do modo como expuseste aqui (creio que pela brevidade, e por não poder mais que
apresentar a coisa senão enquanto delineio), pareceu-me uma petição de
princípio. "A vontade não pode querer o mal, porque só pode querer o
bem". Que eu não entendi direito?