segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Questões acerca do Novo Testamento (I): “Que significado tem a frase ‘Rasgou-se o véu do templo’?”


Carlos Nougué

“Que significado tem a frase 
‘Rasgou-se o véu do templo?’”

I) Antes de tudo, a frase encontra-se nos três Evangelhos ditos sinópticos (Mt 27, 51; Mc 15, 38; Lc 23, 45), ainda que de modo ligeiramente diferente.
II) Sobre Mateus 27, 51 (“E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo”):
«Orígenes (In Matth.): Grandes acontecimentos seguiram-se a este alto grito lançado por Jesus: “E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo”. — Agostinho (De Cons. Evang, 3, 10): Estas palavras provam suficientemente que o véu se rasgou no momento mesmo em que Jesus rendeu o espírito. Se o Evangelista não tivesse dito: “E eis que”, mas simplesmente: O véu do tempo rasgou-se, poder-se-ia dizer com justeza se Mateus e Marcos não fazem senão resumir suas lembranças, enquanto Lucas segue em seu relato a ordem natural dos fatos dizendo: “E escureceu-se o sol ”, e imediatamente depois: “E rasgou-se o véu do templo”; ou se Lucas resume o que os dois primeiros relatam em ordem cronológica”. — Orígenes (In Matth.): Havia dois véus, um que fechava o Santo dos Santos [cf. Ex 26, 14; Nb 4, 4; 3R 3, 50; 8,6], e o outro, no exterior, diante do templo, ou diante do tabernáculo. No momento em que o Salvador expirou, o véu exterior rasgou-se de alto a baixo, para significar que os mistérios que se tinham mantido ocultos segundo os desígnios da sabedoria de Deus desde o princípio do mundo até ao advento do Salvador iam ser revelados de uma extremidade da terra à outra. Quando porém vier o estado perfeito, então o segundo véu igualmente se rasgará, para que possamos ver o que está oculto no interior, ou seja, a verdadeira arca do Testamento, e os querubins e as outras maravilhas do céu em sua própria natureza. — Hilário (In Matth.): Ou então o véu do templo se rasgou porque, a partir desse momento, o povo se divide em duas partes, e porque a glória desse véu desaparece com o anjo que o cobria com sua proteção.»
III) Sobre Marcos 15, 38 (“E o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo”):
Glosa: Depois de ter narrado a paixão e a morte do Salvador, o Evangelista passa ao relato dos acontecimentos que se seguiram à sua morte: (“E o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo”. — Jerônimo: O véu do templo que se rasgou é o céu que se abre. — Teofilacto: Deus permite que o véu se rasgue a fim de significar que a graça do Espírito Santo se afastava e se separava do templo para descobrir aos olhos de todos os segredos do santo dos santos, e também que o templo ficaria desolado quando os judeus deplorassem as calamidades e rasgassem seus vestidos. Esse véu também figura o templo vivo do corpo de Jesus Cristo, que, em sua paixão, viu seus vestidos, quer dizer, seu corpo rasgado. Há ainda outro significado: nossa carne é o véu de nosso templo, isto é, de nossa alma. Ora, o poder da carne na paixão de Jesus Cristo foi rasgado e destruído de alto a baixo, quer dizer, desde Adão até ao último rebento de sua posteridade. Com efeito, Adão é salvo pela paixão de Jesus Cristo, sua carne já não permanece sob a maldição, já não está sujeita à corrupção, senão que recebe ao mesmo tempo o dom da incorruptibilidade. “E o centurião vendo, etc.” O centurião é o oficial que comandava um centena de homens. À vista de Jesus expirando com tanta potestade e domínio, admirou-se e confessou sua divindade.»
IV) Sobre Lucas 23, 45 (“e rasgou-se pelo meio o véu do templo”):
«Beda: A este milagre, Lucas acrescenta outro: “e rasgou-se pelo meio o véu do templo”. Foi no momento mesmo em que Jesus expirou que se deu este prodígio, como o relatam Mateus e Marcos; Lucas situa-o aqui por antecipação. — Teofilacto: O Senhor anunciava assim que doravante o santo dos santos já não estaria inacessível, que seria entregue às profanações dos romanos, e que sua entrada estaria aberta todos. — Ambrósio: O véu do templo rasgou-se também para figurar a divisão dos dois povos, e a profanação da sinagoga. O véu antigo rasga-se para deixar a Igreja desdobrar e suspender os véus novos da fé cristã. O véu da sinagoga desaparece para permitir-nos ver com os olhos de nossa alma os profundos mistérios da religião. Teofilacto: Por isso também se mostra que se rasgou o véu que nos separava dos mistérios do céu, isto é, a inimizade entre Deus e o pecado.»
V) Excurso 1. Como o mostra Santo Tomás de Aquino (cf. Suma Teológica I, q. 1, a. 10, c.), o autor das Escrituras é Deus mesmo, e, para significar algo, ele pode empregar não somente palavras – o que também o homem faz –, mas as coisas mesmas. Só as Escrituras têm como próprio que as próprias coisas significadas pelas palavras também possam significar algo. A primeira significação, ou seja, aquela segunda a qual as palavras significam algo, constitui o sentido literal ou histórico das Escrituras, enquanto a significação pela qual as próprias coisas significadas pelas palavras designam, por sua vez, outras coisas é o sentido chamado espiritual. Este segundo sentido, todavia, se funda no sentido literal ou o pressupõe.
Mas o sentido espiritual subdivide-se por sua vez. Com efeito, diz o Apóstolo (cf. Epístola aos Hebreus) que a lei antiga é figura da lei nova, enquanto a lei nova, como diz Dionísio Areopagita, é figura da glória futura. Na lei nova, ademais, o que se cumpriu na cabeça é figura do que devemos fazer.
1. Assim, quando nas Escrituras as coisas da lei antiga significam as da lei nova, tem-se o sentido alegórico.
2. Quando, por outro lado, as coisas sucedidas em Cristo, ou no que Cristo representa, são sinal do que havemos de fazer, tem-se então o sentido moral.
3. Quando, enfim, estas mesmas coisas significam as coisas da glória eterna, então se tem o sentido anagógico.
Como, todavia, o sentido literal é justamente o que o autor quer significar, e como, repita-se, o autor mesmo das Escrituras é Deus, que intelige simultaneamente todas as coisas, não há inconveniente algum em que, como o diz Santo Agostinho, em um mesmo texto das Escrituras se encontrem vários sentidos, sempre, insista-se, segundo o sentido literal ou histórico ou em ordem a este.
VI) Excurso 2. Há que entender adequadamente, no entanto, o que aqui se chama literalLiteral tem aqui exatamente o sentido de à letra (ad litteram), ou seja, segundo a letra. Mas a letra pode ser também de alguma analogia de proporcionalidade imprópria, ou seja, de alguma metáfora, ou de alguma figura aparentada à metáfora: símile, metonímia, sinédoque, hipérbole, etc. É o que se chama sentido parabólico, que, di-lo Santo Tomás de Aquino (Suma Teológica I, q. 1, a. 10, ad 3), “está contido sob o sentido literal: porque pelas palavras podemos significar algo em sentido próprio ou em sentido figurado [ou seja, por analogia de proporcionalidade imprópria, como dito]; neste último caso, o sentido literal não designa a própria figura, mas o que ela figura [ou representa]. Com efeito, quando as Escrituras falam do braço de Deus, o sentido literal não indica que haja um membro corporal em Deus, senão que indica o que é significado por esse membro, no caso a virtude operativa [divina]. Isso patenteia que o sentido literal das Sagradas Escrituras não pode nunca padecer nada falso” (destaque nosso).
E, com efeito, afora casos eventuais de defeito de cópia, as Sagradas Escrituras não podem conter erro algum: justamente porque Deus, seu autor, é inerrante, enquanto o hagiógrafo ou escritor sagrado não é senão o instrumento de que se vale Deus de modo, insista-se, inerrante.* Mas o dito mais acima há de prevenir-nos contra um exagero interpretativo, no qual nunca incorrem os Padres, nem Santo Tomás, nem, muito menos, o magistério da Igreja: o de considerar que o sentido literal nunca pode ser metafórico, e assim julgar que as palavras das Escrituras têm caráter de um como tratado científico. Não o têm. Vejamos alguns exemplos.
• Conquanto o Gênesis encerre todos os principais caracteres metafísicos da criação do mundo (criação no tempo e de nada [ex nihilo], ordem da criação, culminação no homem, etc.), nele Deus, por intermédio do instrumento Moisés, se vale de imagens sensíveis, e isso é assim porque, como diz, entre outros, Santo Tomás de Aquino, o Gênesis foi escrito para “um povo rude” que, no entanto, precisava educar-se na fé em ordem a ser aquele de onde nasceria o Messias. É por essa razão, aliás, que Santo Tomás de Aquino, ao tratar na Suma Teológica dos Dias da Criação, suspende o juízo quanto ao número destes e apenas expõe as diversas interpretações dos Padres.** – Atenção, porém: mostrar algo mediante imagens sensíveis não equivale a valer-se de “erros”, porque, com efeito, em seu mesmo âmbito e especialmente quanto a seu objeto próprio, os sentidos não erram. Os sentidos conhecem de fato (sensivelmente, insista-se), conquanto não possam saber, o que é próprio do intelecto.  
• Ademais, não há erro algum no dito em Jó 20, 26, ou seja, que a víbora mata pela língua: trata-se de perfeita metáfora; assim como não há erro algum em dizer que o grão ou semente de mostarda é a menor de todas: trata-se de hipérbole (ou talvez se diga segundo a agricultura de então).
Mas, insista-se, que não haja nem possa haver erro algum nas Escrituras não implica que estas se componham de tratados científicos.

VI) Para que se confirme quão despropositado e indevido é dar exegese contrária à dada pela Igreja e pelos Padres, transcrevo dois decretos dogmáticos sobre a interpretação das Escrituras:

a) Concílio de Trento
“Decreta também com a finalidade de conter os ingênuos insolentes que ninguém, confiando em sua própria sabedoria, se atreva a interpretar a Sagrada Escritura em coisas pertencentes à fé e aos costumes que visam à propagação da doutrina Cristã, violando a Sagrada Escritura para apoiar suas opiniões, contra o sentido que lhe foi dado pela Santa Amada Igreja Católica, à qual é de exclusividade determinar o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Letras; nem contra o unânime consentimento dos santos Padres, ainda que em nenhum tempo se venham dar ao conhecimento estas interpretações” (Sessão IV).
b) Concílio Vaticano I
“Todavia, já que o salutar decreto dado pelo Concílio Tridentino sobre a interpretação da Sagrada Escritura para corrigir espíritos petulantes é erradamente exposto por alguns, Nós, renovando o mesmo decreto, declaramos que seu sentido é que, nas coisas da fé e da moral, pertencentes à estrutura da doutrina cristã, deve ter-se por verdadeiro sentido da Sagrada Escritura aquele que foi e é mantido pela Santa Madre Igreja, a quem compete decidir quanto ao verdadeiro sentido e à interpretação da Sagrada Escritura; e que, por conseguinte, a ninguém é permitido interpretar a mesma Sagrada Escritura contrariamente a este sentido nem contra o consenso unânime dos Santos Padres” (Decretos Dogmáticos do Concílio Vaticano I, cap. 2).



* Se o hagiógrafo, enquanto instrumento de Deus, é absolutamente inerrante, o papa, enquanto assistido pelo Espírito, é infalível. Por um ângulo, ser inerrante é mais que ser infalível; mas, por outro ângulo, como o magistério do papa enquanto assistido pelo Espírito é a regra próxima da fé (ao passo que as Escrituras são a regra remota da fé), este magistério está de certa forma acima da mesma fé e é o intérprete infalível e último das mesmas Escrituras.
** E, com efeito, nunca o magistério definiu a questão. Como, ademais, os Padres não chegaram quanto a este ponto a consentimento unânime, então nos é lícito adotar esta ou aquela posição a este respeito, ou suspender o juízo como Santo Tomás de Aquino – desde que não se neguem os referidos caracteres metafísicos, e muito especialmente o relato de Adão e Eva, o qual, como sempre disse o magistério, há de tomar-se de todo historicamente.