terça-feira, 31 de maio de 2016

Mythe laïc de l’État « neutre » : l’aveu d’un haut initié


– Qui t’attaque ? – Personne !
Ulysse a prétendu s’appeler « Personne ». Son ennemi, Polyphème, répond donc bêtement : « Personne ! » quand on lui demande qui l’attaque. Et cela ridiculise tous ses appels à l’aide.
La franc-maçonnerie a repris la même ruse. Les États dont elle s’empare ne se déclarent jamais ouvertement « maçonniques ». Ils se prétendent « neutres » ou « laïcs ». Si l’on demande qui persécute l’Église, la réponse est toute prête : « la neutralité », c’est-à-dire Personne ! Et c’est la même « neutralité » – toujours Personne ! – qui endoctrine les élèves de l’« Éducation nationale » totalitaire.

Le mythe de l’État « neutre »

La ruse de l’État « neutre » – présenté comme une pure machine administrative, libre de tout principe métaphysique ou religieux et se contentant de gérer le pays en laissant chaque citoyen penser comme il veut – est un pilier essentiel de la dictature maçonnique. Un de ses mythes fondateurs.
Mais les maçons ne savent pas toujours tenir leur langue. Ils sont tellement persuadés d’avoir gagné qu’ils livrent assez facilement ce secret. Vincent Peillon, ministre de l’Éducation de 2012 à 2014, déclarait sans se cacher que la Laïcité est une religion. Son prédécesseur René Viviani avait déjà avoué que la neutralité est un « mensonge nécessaire ». Et un autre grand initié, T. G. Masaryk, a clairement montré que l’État « laïc » moderne veut tout simplement prendre la place de l’Église.

Un franc-maçon bien renseigné

Le Frère Thomas Garrigue Masaryk (1850-1937) n’est pas n’importe qui. Il y a un siècle – durant la guerre de 1914-1918 – il répétait à qui voulait l’entendre que le principal but de la guerre mondiale était « le démembrement de l’Empire des Habsbourg ». Cet homme bien renseigné devint le premier président de la très maçonnique (et très artificielle) « république tchécoslovaque », essentiellement anti-autrichienne.
Avant de lire son texte, précisons que Masaryk, en bon maçon, emploie certains mots à contre-sens.
La chrétienté médiévale – qui distinguait très soigneusement le pouvoir temporel et le pouvoir spirituel – est nommée par lui « théocratie ». En face, le régime qui veut confondre les deux pouvoirs et les réunir en une seule main est, dans son vocabulaire, « non théocratique ». Mais ce langage codé (que La Harpe avait déjà repéré en 1794, et qualifié de « langue inverse ») n’empêche pas de comprendre ce qu’il veut dire.

L’aveu de Masaryk : un État « chargé des fonctions de l’Église »

Au-delà des mots, c’est la réalité qui importe. Dans la citation qui suit, laissons donc de côté le grand mot piégé « théocratie ». Méprisons comme elle le mérite l’attaque polémique contre l’« État médiéval servus Ecclesiæ ». Et voyons de près quel est ce fameux État démocratique moderne imposé dans le monde entier par la franc-maçonnerie.
Un État neutre ? Libre de toute idéologie ? Au contraire ! Masaryk l’avoue carrément : l’État « laïc » s’est « chargé des fonctions de l’Église » et les a même « étendues et multipliées » :

L’État démocratique est un État nouveau. Les théoriciens l’ont défini et caractérisé de toutes sortes de façons : on le nomme constitutionnel, […], légal, bureaucratique, économique, culturel ; toutes ces définitions ont quelque chose de juste. Mais ce qui fait que l’État démocratique est nouveau, c’est que ses fins et son organisation procèdent d’une nouvelle conception du monde, d’une conception non théocratique. Voilà la nouveauté. L’État moderne a pris les fonctions de la théocratie, surtout de l’Église, et c’est par là qu’il est un État nouveau.
L’État d’autrefois ne s’occupait ni de l’École ni de la culture des esprits ; toute l’éducation de la société était dirigée et donnée par l’Église ; au contraire l’État nouveau a, pas à pas, pris la charge de tout l’enseignement. Comme la Réforme, l’humanisme et la Renaissance avaient fait naître une morale et une moralité nouvelles, laïques, l’État a repris à l’Église aussi la charité, pour la transformer en législation sociale.
En face de l’État moderne, l’État d’autrefois était fort peu de chose ; je dirais volontiers qu’il ne pensait pas ; l’Église pensait pour lui. Si, sous la théocratie, la philosophie (scolastique) était ancilla theologiæ, le vieil État médiéval était servus Ecclesiæ. En se laïcisant, l’État a dû commencer à penser. Il s’est chargé des fonctions de l’Église, il les a étendues et multipliées. C’est pour cela qu’il est un État nouveau et démocratique.

Thomas Garrigue MASARYK,
La Résurrection d’un État, souvenirs et réflexions,
Paris, Plon, 1930.

On ne peut être plus clair : l’État laïc n’est pas seulement (comme il le prétend) un État séparé de l’Église. C’est l’État qui se prend pour l’Église. Ce qui est d’ailleurs logique, dans la religion de l’homme qui se prend pour Dieu. La laïcité est une imposture.


Fonte: http://www.dominicainsavrille.fr/mythe-laic-de-letat-neutre-laveu-dun-haut-initie-non-pret/.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Da necessidade de resistir ao magistério conciliar (VI)


C. N.

3.º Portanto, um magistério liberal como o conciliar não pode exercer e não exerce a infalibilidade ao modo extraordinário

Para que o ensinamento do Romano Pontífice só ou o do concílio sob o papa sejam infalivelmente extraordinários, eles têm de ter intenção de impô-lo de modo definitivo, fundados em seu próprio carisma e em sua própria autoridade, recebidos imediatamente de Cristo. Se não manifestam ou declaram formalmente tal intenção, o ato não adquire a nota de infalibilidade. Ora, o magistério liberal-conciliar está persuadido de que só pode impor à fé dos fiéis aquilo que o mesmo conjunto dos fiéis aceitou por seu sentir comum, e na medida mesma em que o aceitou (o que constitui uma sorte de círculo vicioso). Em outras palavras, não se consideram a si mesmos voz de Cristo em pessoa que fala ao restante de seu Corpo Místico; consideram-se tão somente voz de todo o Corpo Místico, a qual não faz mais que expressar por palavras o pensamento que todos os membros já tiveram. Por isso jamais exercerão o magistério infalível ao modo extraordinário, ou seja, impondo sua própria autoridade, porque o sentem como um exercício abusivo ou autoritário de suas funções (como aliás qualquer autoridade liberal, razão por que só é autoridade em certo sentido, não absolutamente). Já vimos como isso se manifestou com a carta apostólica Ordinatio sacerdotalis (com respeito à não ordenação de mulheres). Lida por católicos tradicionais que não compreendiam o novo contexto do magistério conciliar, foi julgada uma definição ex cathedra; mas tal consideração era um erro que escandalizava os “católicos” modernos e por isso foi necessário esclarecer: o papa não o impunha em razão de sua própria autoridade, mas apenas como voz de todo o povo de deus – na pessoa do Povo de Deus... –, que anteriormente já o tinha crido assim. Pois bem, se o que se acaba de dizer vale para esse ato, ou seja, a referida carta apostólica, que é o ato, digamos, mais “autoritário” do novo magistério, quanto mais não valerá para seus demais atos, a começar pelos documentos do Concílio Vaticano II (que trataremos mais detidamente mais adiante).


Mas o magistério liberal conciliar tampouco alcança a infalibilidade ao modo ordinário

Dizem alguns que o magistério conciliar teria escolhido, então, ensinar somente com a autoridade do magistério ordinário, que, como vimos, seria infalível se viesse a ser universal. E até argumentam que o faz por uma lícita prudência pastoral ante a hegemonia das tendências liberais entre os próprios católicos: com efeito, aos católicos de tendência liberal repugna qualquer exercício demasiado autoritário do magistério. Mas deve dizer-se que um magistério liberal tampouco pode vir a ser infalível ao modo ordinário, porque quanto a este também está contagiado pela doença que o impede de exercer a infalibilidade ao modo extraordinário.
Como se conclui de todo o dito até aqui, para os liberais o ofício das autoridades eclesiásticas consiste em dirigir a “opinião pública”, ou seja, a do povo de Deus, que – atenção! – só é opinião enquanto não autorizada pela hierarquia. Como vimos ainda, tal é assim para que o povo de Deus não tenda a dividir-se como os protestantes, e para que, se se distinguir das opiniões do passado, não se oponha a elas: finalidade tipicamente modernista e quimérica, como explicado por São Pio X na Pascendi. Se nesse processo se chega finalmente à aceitação de “expressões” (não verdades) comuns, tais “expressões” seriam então “infalíveis”. Naturalmente, para bem exercer esse novo ofício, e como o diz o Padre Álvaro Calderón, “os novos pastores têm muito mais que aprender com os manuais de técnica democrática para manipulação da opinião pública do que com os manuais de teologia escolástica. Daí que o Papa já não se ponha a dar sentenças de sua Sede Romana – magistério ex cathedra –, mas a fazer campanhas publicitárias girando ao redor do mundo – magistério ‘ex papamobile”.
O problema reside, precisamente, em que o sensus fidei (o senso da fé) do conjunto da Igreja não é infalível por si mesmo: só o é na medida em que tanto é guiado como é corrigido pela hierarquia. Em palavras mais técnicas, o princípio formal da infalibilidade não é a virtude infusa da fé, mas o próprio carisma do magistério hierárquico.[1] Em cada diocese, com efeito, e como diz ainda o Padre Calderón, “os bispos devem discernir as crenças, as devoções e os costumes de seus fiéis, confirmando o que julgarem bom, completando o imperfeito, corrigindo o desviado e condenando o errado, fundados sempre na própria autoridade que têm de Cristo e confiados na assistência do Espírito Santo para não errar nesses encargos”. Se todavia nesse exercício pastoral o conjunto ou universalidade dos bispos em comunhão com o Papa sustenta uma verdade, ou corrige um desvio, ou condena um erro, não pode equivocar-se: é infalível.
Insista-se porém no seguinte. Para que o magistério ordinário se torne infalível, deve cumprir de maneira equivalente ou análoga as quatro condições vaticanas: a sentença deve ser proposta pela totalidade dos bispos em comunhão com o papa quanto a fé e costumes (ou matéria conexa), de maneira definitiva e imposta à universalidade da Igreja com o peso da autoridade recebida imediatamente de Cristo. Se no entanto os bispos assumirem uma atitude liberal (porque creem, falsamente, que seus fiéis gozam de assistência infalível do Espírito Santo) e não assumirem a responsabilidade até de opor-se a todos os que eles virem desviar-se ou errar, não farão uso de sua autoridade, a única, repita-se, capaz de infalibilidade. Em outras palavras, sob o magistério liberal conciliar, as ovelhas já não seguem o pastor, senão que o pastor é que segue as ovelhas. Não é pois de assombrar que estas tomem mil caminhos errados. Diante de uma suposta aparição da Virgem, os bispos não se sentem no direito de julgá-la segundo os antigos critérios doutrinais, porque devem estar atentos ao sentir do povo fiel tão somente para confirmá-lo e unificá-lo.[2] Ora, se a totalidade dos bispos em conjunto com o papa aceita tal modo insensato de proceder, isso nada tem que ver com a infalibilidade: com efeito, dessa maneira não põem em jogo a autoridade que têm de Cristo. Repita-se: não a impõem, senão que a depõem. E, com efeito, o Espírito Santo assegura-nos que o conjunto dos bispos não pode errar quando impõe sua autoridade (em comunhão com o papa), mas não nos assegura absolutamente nada quando a depõem. Permanecem naturalmente de pé as promessas de indefectibilidade da Igreja – as portas do inferno não prevalecerão –, mas ficará muito minguado o rebanho de Cristo, como diz ainda o Padre Calderón, “se os pastores continuarem a adorar o sentir de sua grei, cada vez mais inspirado pelo espírito nada santo do atual aparato publicitário”.

Conclusão do primeiro artigo

O magistério conciliar nunca exerceu a infalibilidade ao modo extraordinário, nem jamais alcançará a infalibilidade ao modo ordinário universal enquanto se considerar subordinado a uma inexistente infalibilidade do povo de Deus.

(Continua, com a exposição das principais objeções a este primeiro artigo e com a solução de cada uma delas.)




[1] Assim como o princípio formal de toda e qualquer sociedade é a autoridade, que porém pode tomar-se ou em termos absolutos ou só em certo sentido. É o que se verá em Do Papa Herético.
[2] Nota do Padre Álvaro Calderón: “Agora é a piedade popular a que discerne se uma aparição é verdadeira ou não, e não a hierarquia; esta existe somente para normatizar o sentir dos fiéis. René Laurentin, um perito mariólogo conciliar, que em Medjugorje combateu firmemente o Bispo do lugar porque desaprovara as supostas aparições ali ocorridas aplicando os critérios tradicionais de discernimento (cf. Fr. Michel da Trinité, Medjugorje en toute verité, selon le discernement des esprits, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 1991), aplaude a hierarquia argentina que nos fenômenos de San Nicolás soube aplicar os critérios conciliares, deixando o discernimento para o sentir de seus fiéis: ‘Mons. Castagna, sempre a serviço do Senhor, assume interiormente as aparições de San Nicolás, e confirma esse movimento de graça, seguindo os fiéis, que foram os primeiros a discernir generosamente estas aparições com profunda gratidão. Uma aparição constitui em primeiro lugar um problema pastoral, e a aprovação vem por acréscimo e confirma o sensus fidelium, que surgiu primeiro. Se o povo de San Nicolás e de toda a Argentina continua a dar sua adesão ampla e abundante mediante a oração, o reconhecimento oficial da aparição não será necessário ou cairá de maduro’ (René Laurentin, María del Rosario de San Nicolás. Manifestaciones asumidas pastoralmente por la Iglesia, ediciones Paulinas, 1990, p. 141)”. Eis a ruína constituída pela chamada “Igreja conciliar”. (O sentido em que esta última expressão adquire plena validade, estudá-lo-emos ainda em Do Papa Herético.)

Críticas de sedevacantistas à nossa posição


C. N.

De quando em quando, chegam-nos notícias de “refutações” de sedevacantistas à nossa tese (o nós é aqui plural de modéstia) sobre a possibilidade de um papa herético. Ora nossa tese é considerada puro sofisma, ora uma continuação da do Padre Álvaro Calderón. Pois bem, digamos breves palavras sobre isso.
1) Antes de tudo, como dito no proêmio de Da Necessidade de Resistir ao Magistério Conciliar, série de Estudos Tomistas e ainda em curso de escrita e de publicação, nela não trataremos a questão posta pelos sedevacantistas (mas sim especialmente a questão posta pela chamada “linha média”). Fá-lo-emos, porém, em Do Papa Herético, que, se a crise econômica no-lo permitir, sairá ainda este ano. Portanto, sugerimos aos sedevacantistas – apenas sugerimos – que tenham certa paciência ou prudência.
2) É bem verdade que se publicou um vídeo nosso sobre o mesmo tema. Mas, como dito neste mesmo vídeo, trata-se de mera antecipação do que se dirá longa, detida e disputadamente no referido livro. Logo, tal vídeo não se pretende nossa resposta mais cabal à questão.
3) Depois, não sei se se percebeu, mas seguimos quanto possível o salutar costume escolástico medieval de não referir o nome dos adversários vivos, apenas suas ideias, e o mais fidedignamente possível.
4) A resposta a uma doutrina, se se trata de algo minimamente digno deste nome, e se em princípio não atenta contra a fé, merece por resposta uma verdadeira questão disputada. Mas, infelizmente, em decorrência da própria crise da Igreja instaurada pelo Vaticano II e das facilidades oferecidas pela Internet, tornou-se costume entre os católicos responder a doutrinas assim em artigos sumários, e sem seguir as regras da dialética (para alcançar a opinião mais provável) ou dos Analíticos aristotélicos (para alcançar a ciência ou verdade); aliás, o mais das vezes nem sequer se sabe a diferença entre opinião e ciência e entre estas e dogma. É um desserviço ao pensamento católico tão grande como o foi a escolástica decadente e resultante do ockhamismo. (Não se confundam, porém, tais artigos sumários com artigos não propriamente científicos mas de divulgação de doutrinas verdadeiramente científicas ou prováveis. No primeiro caso, como dito, trata-se de desserviço; no segundo, de serviço.) 
5) Nossa doutrina a respeito da possibilidade de que um papa incorra em heresia não é a do Padre Álvaro Calderón, como dito no referido proêmio, conquanto a siga em alguns pontos. 
6) Como dito aos da “linha média” quanto à série Da Necessidade de Resistir ao Magistério Conciliar, diga-se agora aos sedevacantistas que os que não se convencerem do escrito em Do Papa Herético poderão convidar-nos a um debate ou disputa pública, aceita de antemão. Com os que o fizerem, concertaremos então as regras desse mesmo debate ou disputa.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Da necessidade de resistir ao magistério conciliar (V)


C. N.

2.º O liberalismo do chamado magistério conciliar

As normas e as instituições vaticanas anteriores ao Concílio Vaticano II eram-no de uma Roma que desde o princípio fora mestra da verdade diante do mundo. Por isso mesmo, aliás, é que não se pôde ver nada de muito especial no breve pontificado de João XXIII, papa não só reconhecidamente tendente ao liberalismo: era, além disso, muito otimista com respeito à situação da Igreja no mundo (contrariamente ao sentir de todos os papas anteriores). Mas a natureza mesma de um concílio ecumênico seria ocasião propícia para transformar tudo isso, razão por que os espíritos mais lúcidos desaconselhavam com firmeza sua convocação: seria como abrir as portas a um liberalismo “católico” já muito forte e muito estendido.
Pois bem, a transfiguração liberal da autoridade suprema deu-se já com as decisões tomadas na primeira sessão do concílio.[1] É verdade que Paulo VI fala de sua própria autoridade de maneira antes tradicional; já a exerce, todavia, de modo efetivamente liberal, além de que, conforme os católicos deixavam de assombrar-se com as novas liberdades que iam adquirindo, o magistério conciliar passou a explicar sua natureza de modo mais aberto. Os princípios liberais tinham sido lançados nos documentos conciliares, e muito prontamente começaram a frutificar. Estava apagada a candeia da cátedra romana.
É o momento, porém, de que mostremos as três diferenças distintivas do exercício da autoridade liberal “católica”.
Antes de tudo, o próprio e novo “caráter pastoral” do concílio. Com efeito, todos os concílios tinham tido caráter pastoral, o que decorre de que sempre se tinham reunido para resolver sérios problemas do âmbito da Igreja. Mas já a convocação do último concílio anuncia seu caráter pastoral como algo radicalmente novo. Ora, a diferença entre o antigo caráter pastoral e o novo reside em que para os pastores tradicionais, de São Pedro a Pio XII, o primeiro cuidado pastoral era a definição dogmática que aqueles sérios problemas requeriam, enquanto para os pastores conciliares nada é mais oposto ao caráter pastoral que a definição doutrinal. De fato, todos os documentos do Vaticano II reafirmam seu caráter “pastoral” justamente para justificar a falta de definição doutrinal. Em verdade, este caráter é o caráter de uma pastoral liberal, que padece o falso conflito entre a autoridade e a liberdade (que já mostramos em outra postagem desta série). E esse mesmo sofisma foi o que freou as tentativas de dissolver as ambiguidades sob as quais se escondiam os princípios liberais.[2]
Depois vem a nova infalibilidade do sensus fidei (senso da fé). Sempre se ensinou (e repete-o Santo Tomás na Suma Teológica) que o conjunto ou universalidade dos fiéis não pode errar ao professar uma verdade como sendo de fé: dizer o contrário vai contra o dogma da indefectibilidade da Igreja. Mas a infalibilidade dos fiéis é consequência da infalibilidade do magistério, o sujeito único[3] do carisma da verdade indefectível.[4] Ora, o magistério conciliar inverte-o: para ele, o sujeito primeiro e imediato da infalibilidade não é a hierarquia, mas “todo o povo de Deus”, como se lê na Lumen Gentium, a carta magna ou constituição desta visão liberal. Insista-se: como sempre dissera a doutrina tradicional, só a hierarquia participa propriamente do sacerdócio de Cristo, e só ela tem então a função de ensinar com o carisma da infalibilidade. Mas a Lumen Gentium sustenta que do sacerdócio de Cristo participa primeira e imediatamente toda a Igreja. Assim, todo cristão, pelo simples fato de ser batizado, já é sacerdote segundo o “sacerdócio comum” e coletivo de todo o Povo de Deus; e, dentro do sacerdócio comum, há diferentes serviços, o principal dos quais é o “sacerdócio ministerial” da hierarquia. Portanto, para o neomodernismo, a função docente pertence primeira e imediatamente não à hierarquia, mas a todo o povo de Deus. Deve fazer-se, no entanto, a seguinte precisão: agora já não se trata propriamente de ensinar – com efeito, ensinar a quem, se todos participam de tal função? –, mas de dar testemunho vivendo a fé diante dos incrédulos. Seria, então, uma função “profética” do “sacerdócio comum”, que goza de infalibilidade comum e que tem por princípio o “senso da fé” e por sujeito, repita-se, a Igreja inteira.[5]
Desse modo, o depósito da fé não teria sido confiado somente aos Apóstolos e a seus sucessores, mas aos “santos”, quer dizer, à “totalidade dos fiéis que têm a unção do Santo”; por conseguinte, o Espírito Santo não assistiria somente à hierarquia com os carismas do magistério infalível, mas a todos, suscitando neles o sensus fidei [senso da fé]. Segundo o neomodernismo conciliar, portanto, como escreve o Padre Álvaro Calderón em A Candeia Debaixo do Alqueire, “a hierarquia participa da função profética por duas razões, uma geral enquanto simples membros do Povo de Deus que não carecem do senso da fé – ‘desde os Bispos até o último dos fiéis leigos’ –, e outra, especial, enquanto ministros ordenados que ‘guiam’ o Povo de Deus na tarefa comum de conservar, aprofundar e aplicar a fé. Esta função especial a serviço da função ‘profética’ comum não é de menor importância, porque, enquanto a hierarquia não unificar e autenticar o pensamento comum, este não pode dizer-se ‘verdadeira palavra de Deus’”.[6]
Está subordinada, assim, a função do magistério hierárquico à do sacerdócio comum. Mas o n. 25 da Lumen Gentium faz uma síntese perfeita da doutrina tradicional da infalibilidade do papa e dos bispos. Por que o faz? Para que os padres conciliares que estavam inquietos com as novidades dos primeiros parágrafos pudessem tranquilizar-se. Efetivamente, porém, no novo marco do “sacerdócio comum”, todas as expressões clássicas devem ser reinterpretadas, o que o magistério conciliar seguinte ao concílio não perderá oportunidade de fazer explicitamente.
Em suma, para a doutrina católica o poder de ensinar infalivelmente é comunicado por Cristo primeira e imediatamente ao papa, ainda que os bispos e o conjunto da Igreja também participem dele, mas de modo diverso (os bispos de modo ativo, e o conjunto da Igreja de modo passivo). Para a doutrina liberal conciliar, contudo, a função de expressar a fé com infalibilidade (termos que, como visto, adquirem novo significado nesta mesma doutrina) é comunicada por Cristo primeira e imediatamente a toda a Igreja, enquanto a hierarquia apenas participa dela cumprindo o serviço de unificá-la como mediadora.
Por fim, esse mesmo novo “serviço da unidade”. É verdade que Hans Küng tirará a conclusão, coerente mas extrema, de que já nem sequer é preciso falar de infalibilidade. Por isso, a Congregação para a Doutrina da Fé vê-se obrigada a publicar a declaração Mysterium Ecclesiae, de 24 de junho de 1973, onde se assinala a doutrina da Lumen Gentium sobre a dupla infalibilidade, “da Igreja universal” e “do magistério da Igreja”.[7] Mas, como diz ainda o Padre Calderón no mesmo livro, sustentar “que o consentimento dos fiéis em pelo menos uma verdade de fé deve ser reconhecido como infalível por seu mero sensus fidei [senso da fé], de maneira anterior à proposição do magistério, já implica negar que o magistério da Igreja seja a regra próxima e necessária da fé. Segundo a verdade católica, Jesus Cristo comunicou somente aos Apóstolos e seus sucessores a autoridade de seu próprio magistério: ‘Quem vos ouve, a Mim me ouve’ (Luc. 10, 16), e só a eles os enviou a ensinar: ‘Ide e pregai o Evangelho, [...] o que não crer será condenado’ (Mar. 16, 15). Se a profissão de fé da universalidade [ou conjunto] dos fiéis pode ser julgada infalível, é porque pressupõe a sanção anterior, ao menos tácita, do magistério; porque o verdadeiro católico não pode nunca estar certo dos pensamentos surgidos em sua meditação enquanto não os vir confirmados pela autoridade da Igreja. Segundo a mentira liberal, em contrapartida, a comunidade eclesial inteira é inspirada e enviada, de maneira que a verdade evangélica surgiria da meditação comum: se todos creem na mesma coisa, a hierarquia tem o dever de sancioná-la. A certeza de seu consentimento é tomada, então, não da pregação exterior das testemunhas autorizadas [...], mas do senso interior da fé em contato imediato com a Verdade substancial”.
Sucede ainda, no entanto, que a Lumen Gentium diz que ao menos às vezes o magistério pode predispor os fiéis ao consentimento – e até exigi-lo! Seria isso uma concessão à doutrina tradicional? De modo algum. A doutrina modernista ou liberal reconhece que a autoridade tem não só uma função unificadora da interpretação comum da Igreja em cada momento, mas também uma função conservadora, para que a comunidade eclesial não perca sua identidade com o passar do tempo.[8] À autoridade competiria, portanto, fazer valer algumas fórmulas chamadas “dogmas” que expressaram a fé comum em tempos passados, fórmulas já sancionadas outrora pela autoridade. Se pois agora o magistério predispõe ao consentimento e até o pode exigir quanto a certos pontos, não é por “autoritarismo”, mas porque, “como comunhão de fé, a Igreja é uma comunhão na palavra da confissão; por isso, cabe à unidade da Igreja tanto diacronicamente [ou seja, ao longo do tempo] como sincronicamente [ou seja, agora, em dado momento] também a unidade nas palavras fundamentais da fé [= dogmas] que não são revisáveis, se não se quer perder de vista a ‘coisa’ expressa nelas”.[9] Para o modernismo liberal, por conseguinte, a sanção da autoridade é sempre posterior ao consentimento da comunidade e dependente dele; enquanto, para a doutrina católica, o consentimento universal é sempre, em última instância, posterior à sanção e dependente da mesma sanção – ao menos tácita – do Romano Pontífice. 

     (Continua.)




[1] Cf., por exemplo, The Rhine Flows into the Tiber. A History of Vatican II  [O Reno Lança-se no Tibre…], 1.a ed., Nova York, Hawthorn Books, 1967.
[2] Na primeira sessão do concílio, D. Lefebvre assinalou a necessidade de propor textos dogmáticos em que se formulasse a doutrina de modo preciso. Mas sua proposta, segundo ele mesmo, “foi objeto de violentas oposições: ‘O Concílio não é um concílio dogmático, mas pastoral; não queremos definir novos dogmas, mas expor a verdade pastoralmente’”. Cf. Acuso el Concilio, Buenos Aires, Iction, 1978, p. 25; Fr. Pierre-Marie O.P., “L’autorité du Concile”, in Le Sel de la Terre, n. 35, p. 38-39.
[3]  Vide a noção de sujeito ainda numa postagem anterior desta série.
[4] Cf., por exemplo, Ioan. Bapt. Franzelin, Tractatus de divina Traditione, ed. 3.ª, Romae 1882, Thesis XII; e H. Mazzella, Praelectiones scholastico-dogmaticae, ed. 6.ª, Torino 1937, vol. I, p. 450.
[5] “O Povo santo de Deus participa também da função profética de Cristo, difundindo seu testemunho vivo sobretudo com a vida de fé e de caridade e oferecendo a Deus o sacrifício de louvor, que é fruto dos lábios que confessam seu nome. A totalidade dos fiéis, que têm a unção do Santo, não pode equivocar-se quando crê, e ele manifesta essa prerrogativa peculiar sua mediante o senso sobrenatural da fé de todo o povo, quando desde os Bispos até aos últimos fiéis leigos prestam consentimento universal nas coisas de fé e costumes. Com este senso da fé, que o Espírito de verdade suscita e mantém, o Povo de Deus adere indefectivelmente à fé confiada de uma vez por todas aos santos, penetra-a mais profundamente com julgamento certeiro e dá-lhe mais plena aplicação na vida, guiado em tudo pelo sagrado Magistério, submetendo-se ao qual já não aceita uma palavra de homens, mas a verdadeira palavra de Deus” (Lumen Gentium, n. 12; destaque nosso).
[6] Cf. Novo Catecismo da Igreja Católica, n. 889. – Mas, insista-se, se o conjunto ou universalidade dos fiéis não pode errar, não é senão porque tão somente é “guiado” pelo magistério, mas sobretudo e essencialmente porque a Igreja discente sabe o que é de fé pela voz da Igreja docente (ou seja, do magistério infalível da Igreja).
[7] Segundo a nova doutrina, deve-se falar de uma “dupla infalibilidade” porque cada uma tem um princípio diferente e independente: a infalibilidade da Igreja funda-se na virtude da fé, enquanto a do magistério se funda nos poderes de ordem e de jurisdição, cuja raiz última é o caráter sacerdotal. A nova teologia, é claro, não quer reconhecer o que se acaba de afirmar, porque sabe que a tradição fala de uma única infalibilidade, e por isso tentou unificar, justamente ao modo modernista, tal princípio com a doutrina do “sacerdócio comum”. Mas, quando se pergunta aos novos teólogos qual é o princípio ou raiz do sacerdócio comum, a fé ou o caráter batismal, “a resposta”, como escreve o Padre Álvaro Calderón, “perde-se numa indefinida multidão de opiniões contraditórias. São as belezas do pluralismo teológico atual”.
[8] Cf. São Pio X, Encíclica Pascendi, Dz 2095* (antiga numeração): “Seguindo mais de perto a mente dos modernistas, diremos que a evolução [do dogma] surge do conflito de duas forças, das quais uma tende ao progresso, a outra à conservação. A força conservadora reside com todo o seu vigor na Igreja e é contida na tradição; exerce-a, porém, a autoridade religiosa, e isso tanto de direito, dado que entra na natureza da autoridade salvaguardar a tradição, como de fato, pois a autoridade, limitada pelas mudanças da vida, não se sente nada ou quase nada movida pelos estímulos que impelem ao progresso. Vemos aqui, Veneráveis Irmãos, como ergueu a cabeça uma doutrina perniciosíssima que furtivamente introduz na Igreja os leigos como elementos de progresso. De uma espécie de convênio e pacto entre essas duas forças, a conservadora e a progressiva, quer dizer, entre a autoridade e as consciências individuais, nascem os progressos e as mudanças. Porque as consciências dos indivíduos, ou algumas delas, agem sobre a consciência coletiva, e esta sobre os representantes da autoridade, obrigando-os a pactuar e a ater-se ao pactuado”.
[9] Comissão Teológica Internacional, “La interpretación de los dogmas”, em Documentos 1969-1996, Madri, BAC, 1998, p. 449.

A Ordem das Disciplinas (penúltima aula) - Metafísica (quarta-feira 25 de maio, às 21 horas)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Pio XI: "Quadragesimo Anno" - No XL Aniversário da encíclica de Leão XIII «Rerum Novarum»


CARTA ENCÍCLICA
QUADRAGESIMO ANNO
DE SUA SANTIDADE
PAPA PIO XI
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS,
PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS,
 BISPOS E DEMAIS ORDINÁRIOS
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
BEM COMO A TODOS OS FIÉIS DO ORBE CATÓLICO
SOBRE A RESTAURAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO
DA ORDEM SOCIAL EM CONFORMIDADE COM
A LEI EVANGÉLICA NO XL ANIVERSÁRIO
DA ENCÍCLICA DE LEÃO XIII «RERUM NOVARUM»

Veneráveis Irmãos e Amados
Filhos Saúde e Bênção Apostólica

No 40º aniversário da magistral encíclica de Leão XIII « Rerum novarum », todo o orbe católico, movido dos sentimentos da mais viva gratidão, propõe-se comemorá-la com a devida solenidade.

A Encíclica « Rerum novarum ».

Já antes, em certo modo, haviam preparado o caminho àquele documento de solicitude pastoral, as encíclicas do mesmo Nosso Predecessor sobre o princípio da sociedade humana que é a família e o santo sacramento do Matrimónio, (1) sobre a origem da autoridade civil, (2) e a devida ordem das suas relações com a Igreja, (3) sobre os principais deveres dos fieis como cidadãos, (4) contra os princípios do socialismo, (5) contra as falsas teorias da liberdade humana, (6) e outras do mesmo género que plenamente revelaram o modo de pensar de Leão XIII; contudo a encíclica « Rerum novarum » distingue-se das demais por ter dado a todo o género humano regras seguríssimas para a boa solução do espinhoso problema do consórcio humano, a chamada « Questão social », precisamente quando isso mais oportuno e necessário era.

Sua ocasião

Leão XIII - "Rerum novarum" - Sobre a condição dos operários


CARTA ENCÍCLICA
«RERUM NOVARUM»
DO SUMO PONTÍFICE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE A CONDIÇÃO DOS OPERÁRIOS

INTRODUÇÃO

1. A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efectivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito.
Por toda a parte, os espíritos estão apreensivos e numa ansiedade expectante, o que por si só basta pa ra mostrar quantos e quão graves interesses estão em jogo. Esta situação preocupa e põe ao mesmo tempo em exercício o génio dos doutos, a prudência dos sábios, as deliberações das reuniões populares, a perspicácia dos legisladores e os conselhos dos governantes, e não há, presentemente, outra causa que impressione com tanta veemência o espírito humano.
É por isto que, Veneráveis Irmãos, o que em outras ocasiões temos feito, para bem da Igreja e da salvação comum dos homens, em Nossas Encíclicas sobre a soberania política, a liberdade humana, a constituição cristã dos Estados (1) e outros assuntos análogos, refutando, segundo Nos pareceu oportuno, as opiniões erróneas e falazes, o julgamos dever repetir hoje e pelos mesmos motivos, falando-vos da Condição dos Operários. Já temos tocado esta matéria muitas vezes, quando se Nos tem proporcionado o ensejo; mas a consciência do Nosso cargo Apostólico impõe-Nos como um dever tratá-la nesta Encíclica mais explicitamente e com maior desenvolvimento, a fim de pôr em evidência os princípios duma solução, conforme à justiça e à equidade. O problema nem é fácil de resolver, nem isento de perigos. E difícil, efectivamente, precisar com exactidão os direitos e os deveres que devem ao mesmo tempo reger a riqueza e o proletariado, o capital e o trabalho. Por outro lado, o problema não é sem perigos, porque não poucas vezes homens turbulentos e astuciosos procuram desvirtuar-lhe o sentido e aproveitam-no para excitar as multidões e fomentar desordens.

Causas do conflito