terça-feira, 26 de abril de 2016

Da necessidade de resistir ao magistério conciliar (II)


Carlos Nougué

Artigo Primeiro

Se o chamado magistério conciliar é infalível (1)[1]

O magistério conciliar, ou seja, o do Concílio Vaticano II e dos papas posteriores, definitivamente não goza do carisma da infalibilidade. Com efeito, há dois modos de exercer o carisma da infalibilidade: um é extraordinário, enquanto o outro é ordinário e universal, como se verá pouco adiante. Conquistadas porém pelo liberalismo, as autoridades conciliares[2] não quiseram ensinar com infalibilidade segundo o modo extraordinário; e pelo mesmo motivo seu magistério ordinário não alcança o grau de universal. Desse modo, o magistério conciliar não é infalível nem poderá vir a sê-lo de maneira alguma, e isso é assim justamente porque as autoridades eclesiásticas se mantêm em seu liberalismo.[3] Explique-se.

O que se acaba de dizer pressupõe a doutrina segundo a qual há tão somente dois modos de o magistério da Igreja ser infalível. Afirmaram-se, ademais, três coisas que decorrem de algum modo da mesma doutrina. Com efeito, segundo uma ordem de evidência, a primeira dessas coisas é o fato manifesto de que as autoridades conciliares não desejaram nem desejam ensinar segundo o modo extraordinário do magistério da Igreja; a segunda, que resulta dessa mesma atitude, é sua mentalidade liberal; a terceira, que resulta do mesmo, é que seu magistério ordinário nunca poderá vir a ser universal. A conclusão, necessária, não só afirma o simples fato de que não houve infalibilidade no Concílio Vaticano II, mas assinala ainda que não pode havê-la de modo algum (ou seja, nem infalibilidade extraordinária nem infalibilidade ordinária universal) enquanto os papas conciliares não renunciarem à mentalidade liberal. Antes porém de demonstrá-lo, é preciso insistir nas noções centrais da doutrina referida mais acima.

Acerca do magistério da Igreja[4]

Nosso Senhor Jesus Cristo transmitiu à Igreja o poder de ensinar em seu nome e fundada em sua autoridade: “Ide e ensinai, porque quem vos ouve, a mim me ouve”. E é a este mesmo poder comunicado por Cristo que chamamos magistério da Igreja. É um dom único e permanente, que durará indefectivelmente até ao fim dos tempos (quer dizer, até à Parusia ou segunda e definitiva vinda de Cristo). Mas devemos conhecer, com respeito a ele, o sujeito que participa dele ou a quem é transmitido, o objeto que o especifica e os atos em que é exercido.

O sujeito do magistério eclesiástico

O sujeito do magistério eclesiástico são chamados órgãos ou instrumentos; e são chamados assim porque, falando propriamente, o poder ou autoridade só o mesmo Cristo a tem. Cristo é o mestre principal, e qualquer outro possui tal autoridade apenas como instrumento de Cristo.
Mas, se consideramos o sujeito do magistério eclesiástico quanto à maneira de participar da autoridade, é preciso distinguir os órgãos em autênticos e subsidiários. Os órgãos autênticos participam da autoridade de Cristo de maneira habitual e própria, enquanto os órgãos subsidiários o fazem de maneira transeunte (ou transitória) e delegada. Só os órgãos autênticos podem dizer-se propriamente “mestres” na Igreja.[5]
As pessoas que constituem os órgãos autênticos são o papa e os bispos. Mas o papa detém a autoridade magisterial de modo pleno, enquanto os bispos a detêm de modo não pleno. Se no entanto se consideram tais pessoas com relação a seus atos magisteriais, devem distinguir-se quatro sujeitos:
◊ o papa sozinho;[6]
◊ o papa com os bispos reunidos em concílio;
◊ os bispos dispersos mas em comunhão com o papa;
◊ os bispos sozinhos.
Com respeito aos órgãos subsidiários, devem distinguir-se os papais dos episcopais, ou seja, os sujeitos ao papa e os sujeito aos bispos. Os que recebem delegação imediatamente do papa (congregações romanas, comissões pontifícias, delegados apostólicos, etc.) participam mais plenamente do magistério eclesiástico que os que a recebem dos bispos (padres párocos, conselhos de presbíteros, comissões diocesanas, etc.). Devem distinguir-se ainda segundo a condição das pessoas, isto é, se se trata de simples fiéis (peritos em diversas ciências ou artes), ou se se trata de pessoas qualificadas por qualquer tipo de autoridade cristã (teólogos, catequistas, chefes de família).

• O objeto do magistério eclesiástico[7]

Como o ensina Santo Tomás,[8] o objeto do magistério da Igreja é duplo, ou seja, são dois.
O primeiro é aquilo de que trata seu ensinamento, a saber, a matéria ou doutrina de fé e de costumes. Mas este mesmo primeiro objeto se divide duplamente. Chama-se objeto primário se se trata das verdades reveladas por Deus explicitamente ou implicitamente, e que foram transmitidas ou pelas Escrituras ou pela tradição. Chama-se objeto secundário se se estende “a todas as coisas que, ainda que não tenham sido explicitamente nem implicitamente reveladas, a juízo da mesma autoridade estejam, no entanto, vinculadas de tal maneira ao revelado, que sejam necessárias para custodiar integramente, explicar cabalmente e proteger eficazmente o depósito da fé”.[9] Particularmente, é parte deste objeto secundário declarar e explicar a lei natural, porque é assumida pela lei divina; e julgar todos os fenômenos religiosos (a santidade dos membros da Igreja, as aparições, as manifestações diabólicas, etc.) que se relacionem com a doutrina revelada.
O segundo objeto do magistério são aqueles a quem se dirige seu ensinamento. Aqui o que mais importa é se o ato de magistério se dirige à Igreja universal ou a alguma parte dela (uma diocese, um instituto religioso, uma pessoa).

• Os atos em que se exerce o magistério

Quanto a isto, é preciso fazer antes de tudo uma dupla distinção.
◊ Em primeiro lugar, há que distinguir os atos de magistério autêntico dos atos de magistério pessoal. Uma mesma pessoa, ou seja, o bispo ou o papa, pode ser dotada de dupla autoridade magisterial: uma pessoal, em razão da perfeição com que possua a ciência teológica (como era o caso, por exemplo, de São Gregório Magno ou de Pio XII); outra, comunicada por Cristo, em razão do mandato ou missão recebida: os bispos com relação à sua diocese, o papa como bispo de Roma com relação à sua diocese e como pastor supremo com relação à Igreja universal. Se, portanto, o papa ou o bispo ensinam em virtude de sua ciência teológica, temos um ato de magistério pessoal, ato que se deve julgar como se julga o ensinamento de qualquer teólogo. Se, porém, ensina em virtude do mandato recebido de Cristo, temos um ato de magistério autêntico,[10] ato que deve julgar-se à luz da doutrina sobre o magistério da Igreja.
◊ Além disso, em razão de sua certeza, os atos de magistério autêntico dividem-se em infalíveis e mere (‘meramente’) autênticos. Nos atos de magistério infalível, não pode haver o menor erro, porque são plenamente assistidos pelo Espírito Santo. Se fazem parte do referido objeto primário, devem ser cridos com fé divina; se fazem parte do objeto secundário, devem ser cridos com igual certeza, uma vez que, como dito mais acima, têm vinculação necessária com a doutrina revelada. Mas os atos de magistério mere autêntico, ainda que não assegurados pela infalibilidade, também gozam – em grau diverso – da assistência do Espírito Santo, e portanto exigem “religiosa obediência do intelecto e da vontade”.[11] O grau de autoridade com que os atos de magistério mere autêntico se impõem aos fiéis “resulta principalmente da índole dos documentos, ou da frequente proposição da mesma doutrina, ou do modo de dizê-lo”.[12] Tudo isso deve julgar-se more humano, quer dizer, de modo análogo a como os homens costumam julgar o dito pelos doutores em ciências humanas.[13]
Há porém outras qualificações e distinções dos atos de magistério que nem sempre têm significado preciso.
◊ A definição ex cathedra (‘da cátedra, da cadeira, da sede’) do Romano Pontífice tem sentido perfeitamente precisado pelo Concílio Vaticano I; mas às vezes é indevidamente identificada com o magistério infalível do papa, porque, com efeito, como se verá mais adiante, também podem ser infalíveis ensinamentos não dados à maneira de definição ex cathedra. Além disso, provoca-se confusão quando se toma a expressão ex cathedra fora do contexto da declaração vaticana, porque então pode significar todo o magistério autêntico do papa, infalível ou mere autêntico, dado “da cátedra de São Pedro”, quer dizer, como pastor supremo da Igreja universal. – O significado da expressão ex cathedra também se estende às vezes, por analogia, às definições infalíveis dos concílios ecumênicos, as quais, como também se verá mais adiante, têm as mesmas notas ou qualidades das definições papais.
◊ A distinção entre magistério ordinário e magistério extraordinário também é fonte de confusões, e confusões ainda maiores, porque, com efeito, um ato de magistério pode deixar de ser comum ou ordinário de diversa maneira. Geralmente, assinala-se o caráter extraordinário ou solene de um ato de magistério como indicativo de compromisso maior da autoridade magisterial; daí que mais frequentemente ou mais claramente seja ao magistério extraordinário que se dá a nota de infalível. Isso todavia dá ensejo a que se cometa um erro: o de identificar, irrefletidamente, a distinção entre extraordinário e ordinário com a distinção entre infalível e mere autêntico. Com efeito, trata-se de erro porque nem todo o magistério extraordinário ou solene é infalível, assim como nem todo o magistério dado de modo ordinário é não infalível.[14] – Convém, ademais, notar que o magistério extraordinário por excelência é o dos concílios ecumênicos, uma vez que eles constituem um modo efetivamente fora do comum de exercer a autoridade, e só se reúnem por motivos graves ou sérios. – Quando, por outro lado, tal distinção se aplica ao magistério do Romano Pontífice, carece da mesma precisão. Com efeito, os atos do papa revestem-se de solenidade de modo tão variado, que muitas vezes é impossível decidir se são extraordinários ou ordinários. Neste caso, é frequente reduzir a significação de “extraordinário” ao magistério infalível ex cathedra do papa, o que, como dito e como se voltará a ver, não é isento de imprecisão. 




[1] Relembre-se que os mesmos cinco artigos desta série se subdividirão, em prol da facilidade. – Insista-se, ademais, em que a exposição destes artigos não se fará em ordem estritamente científica (ou seja, das objeções para a resposta e para a respectiva solução daquelas), mas em ordem antes e ainda facilitadora (ou seja, da resposta para as objeções e sua respectiva solução). Mas facilitação não implica que o assunto seja de si fácil, e, com efeito, o assunto tratado nesta série sempre exigirá esforço do leitor. Tal esforço, porém, é condição para uma mais perfeita compreensão da crise instaurada pelo Concílio Vaticano II.  
[2] Ou seja, tanto as autoridades do Concílio como as que o seguem.
[3] Como se vê, está suposto aqui que os papas conciliares são papas de algum modo. Que modo seja esse é o que se dirá no livro Do Papa Herético.
[4] Cf. esquema De Ecclesia, preparatório do Concílio Vaticano II.
[5] Insista-se, todavia, em que mestre propriamente dito não é senão Nosso Senhor Jesus Cristo.
[6] É no papa que reside a suprema autoridade apostólica.
[7] Para que se entenda o termo técnico objeto, veja-se como se aplica à linguagem. Com efeito, a linguagem tem dois objetos: um, as concepções mentais significadas pelas palavras; outro, o destinatário da linguagem, ou seja, aquele que ouve ou lê as palavras.
[8] Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 181, a. 3.
[9] Cf. esquema De Ecclesia, preparatório do Concílio Vaticano II.
[10] Autêntico vem de authenticus, palavra latina que tem a mesma raiz grega que auctoritas (‘autoridade’).
[11] Cf. esquema De Ecclesia, preparatório do Concílio Vaticano II.
[12] Idem.
[13] Ou seja, as ciências alcançáveis pelas próprias luzes da razão humana (as éticas, as naturais, as matemáticas, a metafísica).
[14] Naturalmente, tudo isto voltará a tratar-se nesta série.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Da necessidade de resistir ao magistério conciliar (I)


Carlos Nougué

Proêmio

Não houve maior desgraça e crise na história da Igreja que a ocasionada pelo Concílio Vaticano II. Comparada a esta, a crise do arianismo – pela qual, no dizer de São Jerônimo, “o mundo dormiu cristão e, sobressaltado, acordou ariano” – mostra-se pequena.
E, com efeito, diante da tremenda crise aberta pelo Concílio Vaticano II, dividiram-se e dividem-se os católicos.
1. Uns são fautores do mesmo concílio e de suas sequelas. Como porém não somos Deus nem tribunal canônico, não nós é dado saber efetivamente se são lobos em pele de cordeiro ou se destroem a Igreja pretendendo salvá-la. O que, sim, devemos afirmar é que o que sustentam e fazem não pode dizer-se católico senão ao modo de um câncer: porque, com efeito, o tumor maligno é daquele que o porta. 
2. Outros – talvez a maioria – repetiram e repetem os erros desses fautores sem saber que se trata de erros e crendo-os em perfeita continuidade com o estabelecido pelo magistério anterior. A estes não se pode chamar hereges, como diria Santo Tomás de Aquino; mas tampouco se podem ignorar os perigos a que sua alma se encontra exposta.
3. Outros ainda, diante daquilo que perceberam proscrito pelo magistério anterior e que, no entanto, era sustentado pela própria hierarquia conciliar, se foram afastando da vida religiosa e dos sacramentos, e tenderam a perder a fé.
4. Uma parte, por certo devido a alguma graça para que percebesse mais certeiramente o infortúnio que implicaram e implicam o Concílio Vaticano II e seu seguimento, opôs-se e opõe-se ao chamado magistério conciliar. Mas esta parte se subdivide.
a. Uns, mais próximos da verdade, nem sempre porém sabem fundar sua oposição em doutrina mais sólida, razão por que alguns destes (como os superiores da atual FSSPX), sustentando não só a necessária visibilidade da Igreja, mas a necessidade de sua própria regularização canônica, acabam por aderir de algum modo à hierarquia conciliar.
b. Outros – os sedevacantistas –, julgando absolutamente impossível conciliar heresia e jurisdição, acabam por atentar contra a necessária visibilidade da Igreja. Incluem-se aqui, de algum modo, os chamados eclesiavacantistas, para os quais a Igreja se reduz a eles mesmos, apesar de seu ínfimo número e de sua falta de jurisdição.
5. Tem-se por fim a chamada “linha média”, que, sem ver como conciliar a devida docilidade ao magistério com a oposição ao magistério conciliar, acaba por favorecer, de maneira vária e mediante os mais diversos artifícios teológicos, a este mesmo magistério. – Da linha média entram a fazer parte, de algum modo, os que buscam ou alcançam a referida regularização canônica.  
Pois bem, contamo-nos entre os seguidores de Dom Marcel Lefebvre e julgamo-nos beneficiado por sólida doutrina: a exposta pelo Padre Álvaro Calderón (da FSSPX) na questão disputada A Candeia Debaixo do Alqueire, a qual por sua vez se funda, naturalmente, em tudo quanto fez, disse ou escreveu Dom Lefebvre, mas elevando-o ao plano da mais estrita ciência teológica. Esta questão disputada é o terreno seguro em que podemos alicerçar nossa postura sem desviar-nos para o sedevacantismo (ou para o eclesiavacantismo) nem para a linha média e o acordismo.*
Desse modo, a série que iniciamos com este proêmio visa a mostrar a justeza e a necessidade de resistir ao magistério conciliar, e especialmente ao papado de Francisco, cujo caráter catastrófico a chamada linha média e os acordistas do dia não querem ou não conseguem ver perfeitamente. Mas não o poderíamos fazer, insista-se, sem demonstrar a possibilidade de unir tal resistência à devida docilidade ao magistério, e esta demonstração é A Candeia Debaixo do Alqueire a que no-la possibilita cabalmente.
Sucede todavia que esta mesma questão disputada não é de fácil compreensão para os ainda não dotados do hábito intelectual da teologia (e teologia tomista). Eis pois a razão central desta série: tornar A Candeia acessível a um maior número, e tornar assim mais amplamente compreensível a necessidade de resistir e seguir resistindo ao chamado magistério conciliar.
Mas há uma razão suplementar. Não poucos vivem a dizer pelos cantos e pelas sombras que “esse Carlos Nougué” é cismático, que apoia bispos cismáticos, que é excomungado, etc. Pois bem, os que assim murmuram terão oportunidade de ver melhor nossas razões e a resposta que damos a suas objeções à nossa postura (objeções que, como mandam a boa doutrina e o bom método, hão de expor-se o mais fielmente antes de ser refutadas). Se ainda assim não se convencerem, fique desde já o convite a que então busquem refutar-nos publicamente, à luz do dia, em alguma forma de debate.
Observações.
• Insista-se em que nos fundaremos muito estritamente em A Candeia Debaixo do Alqueire. Mas algo será de nossa própria lavra, e obviamente não deverá imputar-se ao sacerdote da FSSPX.
• Não responderemos diretamente nesta série ao sedevacantismo e ao eclesiavacantismo, o que faremos no livro Do Papa Herético. É aliás quanto ao sedevacantismo que A Candeia nos parece necessitar de aprofundamento.**
• Nossa série dividir-se-á nos seguintes artigos:
1.  Se o chamado magistério conciliar é infalível;
2. Se se pode pôr em discussão algum magistério, e especialmente o conciliar;
3. Se o magistério conciliar tem algum grau de autoridade;
4. Se o magistério conciliar impõe sua autoridade de modo indireto;
5. Se a resistência ao magistério conciliar há de ser franca e sistemática.
• Como cada um destes artigos será muito longo, dividi-lo-emos em quantas postagens nos parecerem necessárias.
• E tais postagens não virão a lume segundo nenhuma periodicidade preestabelecida, mas segundo nossa própria disponibilidade de tempo para escrevê-las.

(Continua.)          
  



* Que o Padre Álvaro Calderón pareça contradizer sua doutrina com sua prática não é assunto que nos interesse aqui.  
** Não dizemos, assinale-se, que erre quanto a ele, senão que, repita-se, necessita de aprofundamento. E, com efeito, nosso Do Papa Herético ergue-se sobre dois pilares: o dito a respeito deste assunto pelo tomista Domingo Báñez O. P. (1528-1604) e a tese da “jurisdição precária” avançada por Arnaldo Xavier da Silveira em suas Considerações sobre o Ordo Missae de Paulo VI. Desde que os lemos pela primeira vez, pareceram-nos grávidos de importantes desdobramentos, como esperamos mostrar em Do Papa Herético.  

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Se o limbo é eterno


Carlos Nougué

Certo sacerdote defende entre seus fiéis que o limbo não é eterno. Segundo esse sacerdote, imediatamente antes do juízo final Deus dará às almas do limbo uma prova, de modo que, segundo se comportem diante dela, ou serão salvas e, unidas a seu corpo ressurrecto, ascenderão à beatitude eterna, ou, também reunidas a seu corpo, se condenarão ao fogo eterno da geena.
Mas tal “doutrina”, saída não se sabe de que fábrica, vai contra a doutrina tradicional sobre o limbo, e corrompe de algum modo a fé dos fiéis. Para o confirmarmos, mostremos, ainda que brevemente, o que dizem a este respeito o magistério da Igreja e a Tradição, para depois entregar a palavra a Santo Tomás de Aquino.

I

É certo que nunca houve uma declaração solene do magistério quanto ao limbo. Mas as seguintes palavras de Pio VI, pelas quais defendeu justamente a ortodoxia da crença no limbo contra o conciliábulo de Pistoia, devem bastar-nos para que não demos ouvidos a tão estranha tese:

«O papa declara falsa, temerária, injuriosa às escolas católicas a proposição segundo a qual deve rejeitar-se como a uma fábula pelagiana o lugar dos infernos chamado vulgarmente limbo das crianças [ou dos párvulos], no qual a alma daqueles que morrem somente com o pecado original é punida com a pena de dano [privação da visão de Deus] sem a pena do fogo» (DB 1526).

Naturalmente, a tese que combatemos aqui não nega a existência do limbo, apenas diz que é provisório. Mas as referidas palavras de Pio VI, ao reafirmarem uma doutrina ensinada pelas escolas católicas, afirmam implicitamente também que devemos segui-la por pertencer à Tradição, e a Tradição sempre sustentou a eternidade do limbo. Com efeito, os Padres da Igreja sempre sustentaram (com fundamento especialmente em João 3, 5) a exclusão das crianças não batizadas da visão beatífica de Deus. Ora, a tese combatida defende que algumas almas do limbo, vencida certa prova, terão tal visão – sem todavia estarem batizadas. Logo, incorre em negação de uma doutrina tradicional.  

II

Demos agora a palavra a Santo Tomás, transcrevendo parcialmente o artigo sexto da questão 69 (“De his quae spectant ad ressurrectionem”) do Suplemento da Suma Teológica.

«Artigo 6 ─ Se o limbo das crianças [ou dos párvulos] é o mesmo que o dos Patriarcas.

[...]
Em sentido contrário, assim como ao pecado atual é devida uma pena temporal no purgatório, e eterna no inferno, assim também ao pecado original é devida uma pena temporal no limbo dos Pais [os do Antigo Testamento], e eterna no limbo das crianças. [...]
Respondo: deve dizer-se que o limbo dos Pais e o dos párvulos diferem, sem dúvida alguma, quanto à qualidade do prêmio ou da pena. Pois as crianças não têm nenhuma esperança da vida eterna [ou seja, da beatitude eterna], [esperança] que tinham no limbo os Pais, nos quais também refulgia o lume da fé e o da graça. [...].»

III

Quanto à condição dos que estão (eternamente, insista-se) no limbo dos párvulos, já dissera o nosso Doutor Comum (In IV Sent., I.II, dist. XXX, q. 2, a. 2, ad 5):

«Apesar de as crianças não batizadas estarem separadas de Deus no que concerne à visão beatifica, não estão todavia completamente separadas dele. Ao contrário, estão unidas a Deus pela participação nos bens naturais, e podem assim gozar dele também pelo conhecimento natural e pelo amor natural».

IV

Por fim, perguntemo-nos se a tese aqui combatida não tem algum ponto de contato com a tese neomodernista que nega a ortodoxia ou a existência mesma do limbo. Sim, porque o que parece intolerável a ambas é o fato de que as crianças não batizadas se vejam privadas eternamente da visão beatífica. Mas isso é requerido, como o mostra Santo Tomás, pela justiça divina. O que não é requerido por esta, no entanto, é a mesma existência do limbo, lugar de felicidade natural que decorre da pura misericórdia de Deus.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Datas de reinício de nossos cursos gratuitos


C. N.

• O curso A Ordem das Disciplinas segundo Santo Tomás de Aquino recomeçará na quinta-feira dia 21 de abril, às 21 horas como sempre, com a quarta e conclusiva aula de “A Necessidade da Física Geral Aristotélico-tomista”. Na próxima, falar-se-á um pouco da Matemática, mas já se tratará, inicialmente, a Metafísica ou Teologia Filosófica. – As aulas anteriores do curso encontram-se nesta página e em nosso canal do Youtube (Carlos Nougué Tomismo).
• O curso Questões Teológicas recomeçará na quinta-feira dia 28 de abril, às 21 horas como sempre, com sua nona aula sobre “A Fé”. – As aulas anteriores do curso também se encontram nesta página e em nosso canal do Youtube (Carlos Nougué Tomismo).


quinta-feira, 7 de abril de 2016

O pecado original segundo o “Compêndio de Teologia” de Santo Tomás de Aquino


Capítulo 186

Dos preceitos dados ao primeiro homem, e de
sua perfeição no primeiro estado

Como se disse acima [c. 152], o homem foi instituído por Deus em sua condição de modo que o corpo fosse de todo sujeito à alma: e que, ademais, entre as partes da alma, as virtudes inferiores se submetessem sem repugnância à razão, e a mesma razão do homem fosse sujeita a Deus. Porque porém o corpo era sujeito à alma, sucedia que não podia dar-se nenhuma paixão no corpo que repugnasse ao domínio da alma sobre o corpo, razão por que não havia lugar para a morte nem para a enfermidade no homem. Mas pela sujeição das virtudes inferiores à razão havia no homem uma onímoda tranquilidade da mente, porque a razão humana não era turbada por nenhuma paixão desordenada. E, porque a vontade do homem era sujeita a Deus, o homem referia tudo a Deus como ao último fim, e nisto consistia sua justiça e sua inocência. Mas destas três coisas a última era a causa das outras. Com efeito, se se consideram seus componentes, não decorria da natureza do corpo que não houvesse lugar nele para dissolução nem para nenhuma paixão que repugna à vida, porque era composto de elementos contrários. Semelhantemente, tampouco decorria da natureza da alma que também as virtudes sensíveis se submetessem sem repugnância à razão, porque as virtudes sensíveis naturalmente se movem às coisas que são deleitáveis segundo o sentido, as quais muitas vezes repugnam à reta razão. Era pois por uma virtude superior, ou seja, a de Deus, que, assim como uniu ao corpo uma alma racional, que transcende toda a proporção do corpo e das virtudes corporais, como as virtudes sensíveis, assim também deu à alma racional a virtude de sobre a condição do corpo poder contê-lo e às virtudes sensíveis, segundo o que competia à alma racional. A fim pois de que a razão contivesse firmemente sob si as coisas inferiores, era necessário que ela mesma se contivesse firmemente sob Deus, do qual tinha a referida virtude sobre a condição da natureza.
Portanto, o homem foi instituído de modo que, se sua razão se submetesse a Deus, nem seu corpo podia furtar-se ao império da alma, nem as virtudes sensíveis à retidão da alma: daí que sua vida fosse de certo modo imortal e impassível, porque, com efeito, não podia morrer nem padecer, se não pecasse. Mas podia pecar por sua vontade, ainda não confirmada pela aquisição do fim último, e sob este evento podia morrer e padecer. E nisto diferem a impassibilidade e a imortalidade que o primeiro homem teve e a que na ressurreição terão os santos, que nunca poderão padecer nem morrer porquanto sua vontade estará de todo confirmada em Deus, como acima se disse [c. 166]. Diferia também da outra porque após a ressurreição os homens não usarão de alimentos nem das coisas venéreas, enquanto o primeiro homem foi formado de modo que necessariamente tivesse de sustentar a vida por alimentos, e se encarregasse de dar a obra da geração, para que o gênero humano se multiplicasse a partir de um.
 Por isso recebeu dois preceitos em sua condição. Ao primeiro pertence o que lhe foi dito [Gn 2, 16]: “Come de todas as árvores que há no Paraíso”; ao segundo, o que [também] lhe foi dito [Gn 1, 28]: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra”.

Capítulo 187

Este estado perfeito se chamava justiça original,
e do lugar em que o homem foi posto

Mas este tão ordenado estado do homem se chama justiça original, pela qual ele estava submetido a seu superior, e a ele mesmo se sujeitavam todas as coisas inferiores, segundo o que dele se disse [Gn 1, 16]: “e presida aos peixes do mar, e às aves do céu”: e, entre suas partes, também a inferior se submetia à superior sem repugnância. Em verdade, este estado foi concedido ao primeiro homem não como a determinada pessoa singular, mas como ao primeiro princípio da natureza humana, de modo que por ele fosse transmitido junto com a natureza humana aos pósteros. E, porque a cada um se deve um lugar segundo a conveniência de suas condições, o homem assim ordenadamente instituído foi posto num lugar temperadíssimo e delicioso, para que se lhe suprimisse toda e qualquer vexação não só das moléstias interiores, mas ainda das exteriores.

Capítulo 188

Da árvore da ciência do bem e do mal, e do
primeiro preceito dado ao homem

Porque porém o referido estado do homem dependia de que a vontade humana se sujeitasse a Deus, para que desde o princípio se acostumasse a seguir a vontade de Deus, Deus propôs ao homem alguns preceitos, a saber, que comesse de todas as árvores do Paraíso, proibindo-lhe todavia com ameaça de morte que comesse da árvore da ciência do bem e do mal; e sem dúvida se proibiu que comesse desta árvore não porque fosse de si má, mas para que o homem ao menos nesta pequena coisa observasse algo pela simples razão de que era preceituado por Deus: daí que comer desta árvore se tenha tornado mau, porque proibido.
Mas tal árvore se dizia da ciência do bem e do mal não porque tivesse virtude causativa da ciência, mas pelo evento sequente, ou seja, porque o homem por ter comido dela aprendeu por experiência a distância que medeia entre o bem da obediência e o mal da desobediência.

Capítulo 189

Da sedução de Eva pelo Diabo

Por conseguinte, o Diabo, que já pecara, vendo o homem de tal modo instituído para a felicidade perpétua de que ele caíra, e que [aquele] igualmente poderia pecar, empreendeu desviá-lo da retidão da justiça atacando o homem pela parte mais fraca, ou seja, tentando à mulher, na qual menos vigia o dom ou a luz da sabedoria: e, a fim de incliná-la de modo mais fácil à transgressão do preceito, excluiu mendazmente o medo da morte, e prometeu-lhe o que o homem naturalmente apetece, isto é, a evitação da ignorância, dizendo [Gn 3, 5]: “se abrirão vossos olhos”; e a excelência da dignidade: [“sereis como deuses”; e a perfeição da ciência:] “conhecendo o bem e o mal”. O homem, com efeito, da parte do intelecto naturalmente foge à ignorância, e apetece a ciência; mas da parte da vontade, que é naturalmente livre, apetece a excelsitude e a perfeição para não estar submetido a ninguém, ou ao menor número possível.

Capítulo 190

O que induziu a mulher [a pecar]

A mulher, portanto, cobiçou a excelsitude prometida e ao mesmo tempo a perfeição da ciência. Para isso concorreram também a beleza e a suavidade do fruto, o que incitava a comê-lo, e assim, desprezando o medo da morte, transgrediu o preceito de Deus de não comer da árvore proibida: e assim seu pecado se encontra multiplicado. Em primeiro lugar, sem dúvida, [é] de soberba, porque apeteceu desordenadamente a excelência. Em segundo, de curiosidade, porque cobiçou uma ciência para além dos limites prefixados. Em terceiro, de gula, porque a suavidade do alimento a excitou a comê-lo. Em quarto, de infidelidade, pela falsa estimação de Deus, enquanto creu nas palavras do Diabo contra o que dissera Deus. Em quinto, de desobediência, por transgredir o preceito de Deus.

Capítulo 191

De que modo chegou ao homem o pecado


Mas por persuasão da mulher o pecado logo chegou ao homem, que, todavia, como diz o Apóstolo [1 Tim 2, 14], não foi seduzido como a mulher, quer dizer, não creu nas palavras do Diabo contra o que dissera Deus. Com efeito, não podia entrar em sua mente que Deus tivesse podido cominar algo mendazmente, nem proibir inutilmente uma coisa útil. Foi induzido, contudo, pela promessa do Diabo, apetecendo indevidamente a excelência e a ciência. Com isso sua vontade se desviava da retidão da justiça, e, querendo atender ao capricho da mulher, secundou-a na transgressão do divino preceito, comendo do fruto da árvore proibida.