sábado, 26 de fevereiro de 2022

A guerra na Ucrânia: um olhar teológico

                                                                                  Carlos Nougué 

O mundo divide-se atualmente em dois grandes blocos geopolíticos: de um lado o Ocidente (o da vitoriosa revolução marcusiana ou libertina) com seus satélites; de outro a Rússia (hoje um czarismo republicano) e a China (hoje um neocomunismo radicalmente capitalista) com seus satélites. Pois bem, essa divisão e a pressão dos meios de comunicação a serviço desses dois blocos pressionam a que todos se sintam na obrigação de aderir de algum modo a um deles e suas ações. Mas ao menos os católicos absolutamente não temos necessidade disso, porque nenhum dos dois blocos está a serviço de Cristo – e ou as nações se põem sob o pavilhão de Cristo deixando-o reinar socialmente, economicamente, politicamente, ou não passam de carniça para os demônios.

Sem dúvida, a carniça pode estar em grau variado de decomposição ou podridão. O bloco ocidental chegou majoritariamente ao que parece ser o penúltimo ou último grau de corrupção, e tornou-se o reino do contranatural – e nele a religião está completamente subjugada. O liberalismo atingiu aí seu ponto máximo e, mesclando-se com algo de marxismo, tornou-se libertinismo. No outro bloco, há que distinguir. A China conjuga o totalitarismo estatal comunista com um capitalismo selvagem – e é produto da ganância e avareza dos EUA, cujo presidente Richard Nixon, um liberal-conservador, permitiu e incentivou o crescimento econômico do monstro oriental. A Rússia, como disse, é um czarismo de novo tipo, republicano-oligárquico, mas ainda cesaripapista e pan-eslavista, com uma legislação decididamente menos má que a ocidental quanto aos costumes, mas, insista-se, má, além de que ali, como aliás pouco mais ou menos no Ocidente, é grande o número de abortos e de divórcios e é alto o grau de devassidão, de prostituição e de alcoolismo. 

Quanto à Ucrânia, satélite hoje do bloco ocidental, leia-se antes de tudo o que escreveu em 1990 Alexander Soljenitsyn numa carta a ucranianos e bielorrussos: “Separar a Ucrânia hoje significa dividir milhões de famílias e pessoas: basta pensar em como a população é mista; há regiões inteiras [na Ucrânia] com popula-ção predominantemente russa; quantas pessoas têm dificuldade em escolher a qual das duas nacionalidades pertencer; quantas pessoas são de origem mista; quantos casamentos mistos existem (a propósito, ninguém até agora pensou neles como mistos). Na população em geral, não há indícios de intolerância entre ucranianos e russos. É claro que, se o povo ucraniano realmente decidisse separar-se, ninguém teria coragem de detê-lo pela força. Mas este território é muito diversificado e só a população local pode decidir o destino de seu país, de sua região, enquanto qualquer minoria étnica que se formou recentemente neste território deve ser tratada com a mesma não violência”. Tem-se pois na Ucrânia – cuja capital, Kiev, foi um dia capital do império russo – um verdadeiro problema, não algo forjado pela mídia de nenhum dos dois blocos.

Quanto à atitude do bloco ocidental com respeito à Ucrânia, é tripla: implantar ali a “democracia liberal-libertina” – o que conseguiu com a eleição do atual presidente e ex-comediante Volodymyr Zelensky, um defensor da ideologia de gênero e das drogas –; expandir para o leste o raio de ação da Otan (a Organização militar do Tratado do Atlântico Norte, liderada pelos EUA); e assegurar o fornecimento de gás para a Europa. Em ordem a tudo isso, descumpriu a promessa oral feita a Mickhail Gorbatchov de que não tentaria expandir para leste a Otan e incitou a Ucrânia a descumprir o fracassado protocolo de Minsk, acordo assinado em 5 de setembro de 2014 por representantes da Ucrânia, da Rússia, da República Popular de Donetsk (DNR) e da República Popular de Lugansk (LNR) para pôr fim à guerra no leste da Ucrânia, em Donbass.

Quanto à atitude especialmente da Rússia com respeito à Ucrânia, também é tripla: desmilitarizá-la e rerrussificá-la; garantir para si a parte gorda do fornecimento de gás à Europa; e frear a expansão da Otan para leste – razão por que agora ameaça a Suécia e a Finlândia de retaliação militar se vierem a tornar-se membros e bases da Otan.

Quanto à invasão atual da Ucrânia, poderia alegar-se a favor de Putin que ele apenas reage às provocações ocidentais e ucranianas. Não por nada a invasão da Ucrânia se deu quando o presidente dos EUA já não era Donald Trump (com quem Vladimir Putin tinha bom relacionamento), mas o belicista Joe Biden. Não nos apressemos, todavia, a concluir isso. Não esqueçamos que, como bom czar e pan-eslavista que é, e influído pela mesma ideologia gnóstica de um Alexandr Dugin – segundo o qual não só a Rússia deve de fato invadir e retomar a Ucrânia mas a Argentina deve invadir e retomar as Malvinas (enquanto, completa-o Trump, os EUA devem invadir e retomar o México...) , Putin invadiu a Ucrânia não como um ato de defesa propriamente dito, porque, com efeito, a Ucrânia havia provocado mas não atacado a Rússia.

Trata-se portanto de um quadro extremamente complexo, em que é difícil decidir se a invasão da Ucrânia pela Rússia é ou não é uma guerra justa. Eu não me aventuro a dizê-lo, ao menos por ora. Nem, muito menos, me aventuro a fazer prognósticos: deixo-o à multidão de “analistas políticos” e sua vaidade – ou vanidade.

Quanto todavia a tachar a Putin de novo Hitler, eis algo que não pode passar pela cabeça senão de um liberal: porque, com efeito, se Putin o é, também o são ene presidentes dos EUA e suas guerras iníquas e injustas, como a do Iraque, fundada numa mentira e movida pelo conservador George Bush.

Não obstante, insista-se em que os católicos não devemos apoiar nenhum dos blocos em conflito. Devemos antes de tudo lembrar que o mundo – o mundo em que não reina Cristo – é um de nossos três inimigos (os outros dois são o demônio e a carne). Devemos depois compreender que o atual dilaceramento do mundo em dois blocos perigosamente antagônicos resulta da apostasia das nações, um dos sinais dados por Cristo para sabermos que o mundo marcha para o fim. E devemos por fim rezar a Jesus pedindo-lhe que leve todas as almas para o céu, e fazer penitência por nossos próprios pecados e atos de reparação pelos pecados do mundo, além de suspirar não por um mundo recristianizado – o que parece não se dará – mas pelo céu, que para isto nos é infundida a virtude da esperança.

Observação 1. Aos apressados vaticinadores da iminência do Anticristo e do fim dos tempos, recomendo-lhes relembrem o que dizia Santo Agostinho: erram os que queiram determinar, ainda que aproximadamente, o tempo do fim, quer afastando-o quer aproximando-o. Mas sobretudo erra aquele que o diz próximo, porque, se o faz e o fim não se dá proximamente, isso pode abalar a fé de muitos. – Como assinalou tão precisamente o Padre Calderón em seu El Reino de Dios, nossa atitude ante a expectativa da segunda e última vinda de Nosso Senhor há de ser tripla segundo a tripla palavra de Cristo mesmo: Eu venho logo; Não vos alarmeis; Ninguém sabe.  

Observação 2. E volta o fatimismo, ou seja, isto de a Rússia espalhar seus erros. Já o fez, e hoje o Ocidente é que espalha seus erros por toda a antiga Rússia (da qual era parte a Ucrânia). Por exemplo, acabo de ver o líder dos católicos ucranianos relembrar Fátima e falar de martírio. Curioso: alguém já o viu criticar o estado da Ucrânia atual, um dos países mais libertinos de todo o mundo? Que erro a Rússia ainda pode espalhar na Ucrânia? – Em “Fátima e a Rússia de Putin”, opúsculo meu que publiquei em Estudos Tomistas II, já disse tudo o que tinha por dizer sobre este abusivo uso de Fátima, o qual o mais das vezes esconde um anticomunismo cinquentista: é como se o mundo tivesse parado na década de 1950 e ainda perdurasse o namoro de tantos católicos com uma democracia liberal que se fazia de escudo contra o comunismo (como se os líderes ocidentais não tivessem, eles mesmos, entregado metade do mundo à URSS ao fim da Segunda Guerra). O muro de Berlim caiu e o mundo ocidental tornou-se libertino, mas os fatimistas preferem continuar o idílio liberal dos anos 1950 e para tal alimentam um abuso religioso.