quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A Penetração do Liberal-conservadorismo na Tradição Católica (Terceira Parte de Três)

                                                                                                      Carlos Nougué

TERCEIRA E ÚLTIMA PARTE

 Nota prévias:

• Dizem-se atualmente da “tradição católica”, em oposição aos defensores do neomodernismo vitorioso no Concílio Vaticano II, os “tradicionalistas”. Como eu disse já em algum lugar, é nome corrente, do qual dificilmente se pode escapar, e que no entanto me parece inconveniente, por dois motivos. Primeiro: assim também se chamavam os da corrente pietista condenada no Concílio Vaticano I. Segundo: o nome mesmo leva às vezes ao criticável “tradicionalismo crítico” com respeito ao magistério autêntico da Igreja. É que a tradição não é senão uma das duas regras remotas da fé (a outra é a Sagrada Escritura), enquanto o magistério autêntico da Igreja é a regra próxima da fé, razão por que pode não só definir infalível ou certamente quais são os livros canônicos da Escritura e qual é a devida interpretação de todas as suas passagens, mas definir igualmente o que de fato pertence ou não à tradição. Assim, ao decretarem, em 1946, que o milenarismo mitigado não pode ser ensinado sem perigo, Pio XII e o Santo Ofício decretaram também, implicitamente, que esta doutrina, começada por Papias (discípulo de S. João) e continuada por muitos Padres da Igreja, não é da autêntica tradição, ou seja, a começada e essencialmente encerrada pelos Apóstolos. – Por tudo isso, o melhor seria que os tradicionalistas se chamassem “magisterialistas” ou algo assim, porque, com efeito, foi sobretudo com o magistério autêntico da Igreja que o chamado “magistério conciliar” rompeu no CVII. Não obstante, o uso é na língua o senhor.

• Mas, ainda mais restritivamente, dizem-se hoje “tradicionalistas” os que por um estado de necessidade – ou seja, para defender e perpetuar a verdadeira fé e o verdadeiro sacerdócio –, e enquanto vítimas de uma despótica iniquidade começada já por Paulo VI, não se encontram em acordo canônico com a Hierarquia ou Magistério conciliar. São, antes de tudo, os que se querem seguidores de D. Marcel Lefebvre, e que se dividem em dois grupos de maior ou menor importância e presença, conquanto também haja, neste sentido, tradicionalistas independentes.

• Desde há uns quatro anos, conto-me entre estes últimos. Não deixo de defender os referidos dois grupos diante dos ataques dos neomodernistas e suas infundadas e venenosas acusações de cisma, mas, por razões que não vem ao caso desfiar aqui, creio que ajudo mais à causa do “magisterialismo” mantendo-me independente e equidistante dos dois grupos. Por isso, esta mesma série, e em especial esta sua última parte, é duramente crítica dos tradicionalistas porque anelo que não se desviem de sua bondade original aderindo à ideologia liberal-conservadora da direita gnóstica atual. Com efeito, de que adianta combater corretamente o magistério conciliar e seu neomodernismo se acabam por atirar-se, como muitos o fazem agora mesmo, nos braços de um inimigo ainda mais sutil e pernicioso apesar das possíveis aparências em contrário? Outra coisa é se esta minha crítica terá eco geral entre os tradicionalistas, coisa que tenho certeza não acontecerá. Como porém tenho queridos amigos entre eles, espero que ao menos a estes possa alcançar de algum modo meu anelo. – Insista-se, além disso, em que tal crítica não necessariamente inclui a ambos os grupos enquanto grupos, mas sempre a numerosíssimos ou razoavelmente numerosos membros seus.

• Como já tratei o próprio liberal-conservadorismo atual e sua liderança gnóstica na parte 2 da série, não o voltarei a fazer nesta a não ser quanto a algum ponto ainda não aprofundado. Ademais, as duas partes anteriores desta série se encontram neste mesmo blog. E ao longo do texto desta última parte sua, por fim, remeterei a outros escritos que contribuam para a consecução de meu intento com a série.

* * *

1) Com efeito, deixa-me cada vez mais impressionado e triste a concordância entre os meios tradicionalistas e a direita internacional gnóstica e liberal-conservadora quanto a teorias de conspiração. Já respondi a tais teorias não só na parte 2 desta série mas, mais detida e longamente, em “Governo mundial, pandemia, governo Bolsonaro – os campos opostos do catolicismo tradicional e do ‘catolicismo’ liberal-conservador” (in Estudos Tomistas – Opúsculos II). O que porém eu não esperava então, ao escrevê-lo, é a referida concordância, que quanto a isto faz de tais meios tradicionalistas meros apêndices da mencionada direita (coisa, aliás, que esta sempre almejou e tentou; relembre-se, por exemplo, sua já antiga infiltração em seminários da FSSPX, graças a Deus sustada então por D. Lefebvre). Por exemplo: em vez de verem na atual pandemia, como sempre viu a Igreja em casos assim, um castigo de Deus, seguem as mirabolantes teorias de um QAnon, de um Steve Bannon, de um Alex Jones, de um D. Viganò, de um Olavo de Carvalho, que negam o óbvio: a atual pandemia afeta gravemente os planos globalistas, em vez de alentá-los. E, em vez de bradarem, como seria seu dever, aos governos e cidadãos de todo o mundo que ou se porão sob o estandarte de Cristo Rei ou seguirão sendo carniça para os demônios e alvo dos flagelos de Deus, continuam a defender com tal afinco as abstrusas e pueris lucubrações gnóstico-conservadoras, que nem sequer percebem que assim fazem o jogo de insidiosos inimigos. Insista-se: não o digo com gosto; digo-o lamentando-o profundamente.

2) Observe-se o caso do chamado “Great ou Grand Reset” (Grande Reinício ou, oh! “Reinicialização”). Este foi o nome da 50ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WEF), realizada em 2020, que teve por fim tratar da reconstrução “sustentável” (e fundada na chamada Quarta Revolução Industrial) da sociedade e da economia após a pandemia de covid-19. Para tal, o WEF pretende cumprir uma tripla meta: crescimento verde, crescimento mais inteligente e crescimento mais justo. Ou seja, a lengalenga socioeconômica de sempre dos grandes líderes da revolução marcusiana ou sadolibertina que avassala e domina hoje o mundo – e que o faz marchar mais aceleradamente para o Anticristo final apesar dos percalços causados pela pandemia. Sucede todavia que, a partir de alguns, digamos, “indícios”, a saber: um artigo do WEF de 2016 que descreve como seria a vida em 2030; • uma frase do diretor do WEF Klaus Schwab: “A crise da covid-19 representa uma grande oportunidade para reformarmos o sistema”, o que ele repete e explica no livro A Quarta Revolução Industrial; • o slogan da campanha de Joe Biden, Build Back Better (Reconstruir melhor); • e o discurso do primeiro-ministro canadense Justin Trudeau em 20 de setembro de 2020, no qual falava de como criar um mundo mais justo e mais sustentável; a partir pois de tais “indícios”, a direita gnóstica, sobretudo mediante seu instrumento anônimo o QAnon – um dos maiores difundidores de fake news do planeta, o qual talvez só tenha por rival nisto a RT financiada por Putin –, começou a espalhar várias “profecias”:

Em novembro de 2020, ecoando o QAnon, o documentário francês Hold-up, que teve impressionante difusão, afirmava que o Grand Reset constituiria um plano mundial de controle, de manipulação e (nada menos) de destruição da população por meio da pandemia de covid-19 e do 5G.

• O objetivo de tudo isso seria, para alguns direitistas, o controle político e econômico mundial sob um regime marxista (!!) global: a Nova Ordem Mundial. Tal regime aboliria a propriedade privada, mandaria os militares ocupar as cidades para impor a vacinação obrigatória (!!!), e criaria campos de concentração para as pessoas que se opusessem a isso.

• Segundo outros direitistas, como, por exemplo, D. Viganò, Donald Trump seria o único líder mundial capaz de impedir que tal projeto se realizasse teoria exposta pela primeira vez por um vídeo de agosto de 2020 que foi visualizado por mais de três milhões de pessoas.

Outros direitistas, por fim, assinalam ainda a transferência do campo de gravidade geoestratégico e geoeconômico do mundo para o eixo eurasiático, após séculos de predomínio do eixo transatlântico.

Pois bem, tais “profecias” são da mesma ordem das adivinhações” da mãe de santo com seus búzios: assim como é difícil encontrar alguém que não tenha tido, ao menos na juventude, uma decepção amorosa, assim também não é nada difícil adivinhar a intenção globalista dos líderes mundiais da revolução marcusiana e prever sua consecução. Mas, ao contrário da mãe de santo, que se limita a dizer a seu consulente o óbvio (sua passada desilusão e sua futura ilusão amorosas), a direita atual avança hipóteses absurdas e autocontraditórias, como a de que, apesar de matar a população de todo o planeta, haverá um governo mundial marxista sem governados, com o que tal direita demoliberal e adoradora do livre mercado não faz mais que exibir ainda sua contumaz estupidez. É óbvio que tal governo, quando se instalar, se fundará em megacorporações econômico-financeiras, e é óbvio que nem sequer a China atual é marxista, mas uma invenção do republicano Nixon – além de que Biden é muito mais virulento que Trump contra a Rússia de Putin e seus protegidozinhos mantenedores de um comunismo já caduco e moribundo (Cuba, Venezuela, Nicarágua e poucos mais). O que, portanto, deve o católico tradicional bradar diante de tudo isso aos governos e cidadãos de todo o mundo? Repita-se: que ou as nações se porão sob o estandarte de Cristo Rei, ou seguirão sendo carniça para os demônios e alvo dos flagelos de Deus (como a atual pandemia, os atuais tornados e inundações, etc.). Mas o que vêm fazendo muitos tradicionalistas? Ao endossar as invencionices e bizarrices da direita gnóstica, e esquecer-se de fazer o que acabo de dizer e de que um governo global será inevitavelmente o do Anticristo, incorre num discurso sem Cristo e irracional que mal se pode diferenciar do dos liberal-conservadores; e digo-o tendo diante dos olhos três artigos com este exato teor aparecidos em órgãos importantes ou oficiais dos tradicionalistas, e outro artigo que ao menos tangencia o sacrílego: a convocação a que os fiéis rezem o rosário durante três dias pedindo aos céus que impeçam o Grand Reset... Para quê? Para que o mundo permaneça como está hoje em dia?

Observação: ainda pior, se tal é possível, é que tais artigos defendem não a liberdade para a verdadeira religião – como o faziam os apologistas cristãos do século II –, mas a liberdade pura e simples (um deles chega a invocar ninguém menos que o ateu revolucionário Noam Chomsky!), com o que, certamente sem percebê-lo, caem sob a condenação da Mirari vos, da Quanta cura e do Syllabus, etc., etc.          

3) E, de fato, repetem-se de algum modo mas algo largamente nos meios tradicionalistas as “pérolas” do irracionalismo da direita gnóstica, cujo “hobby” é negar o evidente:

• A pandemia é uma “fraudemia”.

• As vacinas contra a covid-19 ou marcam as pessoas com o sinal da Besta, ou visam a matá-las ou imbecilizá-las dentro de mais ou menos pouco tempo – além de que são feitas a partir de células de fetos abortados; ao que lhes pergunto eu: vocês não aceitariam uma córnea transplantada de um homem assassinado? Para a resposta definitiva a este respeito, ou seja, quanto à licitude de tomar tais vacinas, vide o artigo do Padre Arnaud Sélégny (da FSSPX)Is it Morally Permissible to Use the Covid-19 Vaccine?”.

• As máscaras contra a contaminação pelo novo coronavírus são uma invenção dos globalistas e dos maçons, para tirar a individualidade das pessoas e torná-las massa de manobra sua.

Com tudo isso, tais tradicionalistas incorrem em pecado político. Com efeito, negar-se a proteger-se e a proteger o próximo vai contra os deveres mesmos do cidadão (além de ir, é claro, contra a caridade). Leia-se antes de tudo o que, fundado em S. Tomás de Aquino, escreve o Padre Álvaro Calderón no estupendo El Misterio Pascual (ainda não publicado): “O pecado contra as leis pátrias [que não firam gravemente a lei natural e a lei divina positiva] é também pecado contra a lei natural e contra a lei divina. […]  Os pecados contra as leis pátrias diminuem o bem comum temporal, mancham com pública infâmia e merecem pena por parte da ordem social [como já diziam São Pedro e São Paulo, os quais, observe-se, o diziam sob um império que já perseguia a fé e martirizava os cristãos, razão por que era essencialmente ilegítimo]. [...] O pecado do cidadão causa sempre um dano ao bem comum. Se não cumpre as leis de trânsito, por exemplo, ainda quando não provoque um acidente, influencia com o mau exemplo e tira aos demais a tranquilidade de atravessar com sinal verde sem olhar. Tornou-se inimigo da ordem e devedor da sociedade. O pecados contra a ordem pública podem chegar a eliminar totalmente o bem comum transformando em selva a cidade. [...] Como o pecador ataca o bem comum, tanto a comunidade como o que governa devem reprimir o agressor obrigando-o a reparar o dano e infligindo-lhe um castigo exemplar para corrigir ou ao menos coibir sua má vontade e contra-arrestar o escândalo provocado para os demais. Assim como um organismo são reprime rapidamente os agentes estranhos com seus anticorpos evitando a doença, assim também os que faltam às leis e aos bons costumes são reprimidos de alguma maneira, ou pela ordem mesma, como quando todo o povo ridiculariza o desonesto; ou pelos governantes, como quando prendem o que abusou de sua liberdade; ou pela mesma desordem causada pelo pecado, como quando o que governa permite que o delinquente seja danado por seus mesmos cúmplices defraudados. Neste último caso, o que tem razão de culpa da parte dos cúmplices alcança razão de justa pena da parte do governante, porque podendo impedi-lo não o faz”. E de tudo isso o nosso Padre como que conclui (em El Reino de Dios): “Cada bocado [de comida] do homem temperado é comido pelo bem da Pátria, pela glória de Deus e no Espírito Santo. Se não, não é verdadeiramente um bocado virtuoso”. Ademais, escrevia o jovem Tomás de Aquino em seu Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo (lib. 2, d. 23, q. 1, a. 2, co.): “Pertence à providência divina que cada coisa seja deixada em sua natureza, pois, como diz Dionísio [Areopagita], a providência não corrompe a natureza, mas a salva. A razão disso é que o bem do universo ultrapassa o bem particular de qualquer natureza criada, assim como ‘o bem de uma nação ultrapassa o bem de um homem [ou indivíduo e cidadão]’, como o diz Aristóteles na Ética [a Nicômaco], I”. Além disso, digo eu: quem não se deixa vacinar contra a covid-19 peca de algum modo contra a amizade familiar e política, porque verdadeira amizade tem aquele que é capaz até de dar a vida pelo amigo, assim como o soldado é capaz de dar a vida pela pátria e por seus concidadãos. E, para corroborar tudo isto, dêmos a palavra ao magistério da Igreja. Escreve com efeito o Papa Gregório XVI na Encíclica Mirari vos: “Condenação da rebeldia contra as autoridades. [...] 13. Mas, tendo sido divulgadas, em escritos que correm por todas as partes, certas doutrinas que lançam por terra a fidelidade e a submissão que se devem aos príncipes, com o que se alenta o fogo da rebelião, deve-se vigiar atentamente para que os povos, enganados, não se afastem do caminho do bem. Saibam todos que, como disse o apóstolo [Paulo], toda autoridade vem de Deus e todas as que existem foram ordenadas por Deus. Aquele, pois, que resiste à autoridade resiste à ordem de Deus e se condena a si mesmo (Rom 13, 2). Portanto, os que com torpes maquinações de rebelião se subtraem à fidelidade que devem aos príncipes, querendo tirar-lhes a autoridade que possuem, ouçam como contra eles clamam todos os direitos divinos e humanos. 14. Não era este, certamente, o proceder dos primeiros cristãos, os quais, para obviar a tão grave falta, ainda que em meio das terríveis perseguições suscitadas contra eles, se distinguiram por seu zelo em obedecer aos imperadores e em lutar pela integridade do império, como provaram quer no pronto cumprimento de quanto lhes era ordenado (sempre que não se opusesse à sua fé de cristãos), quer vertendo seu sangue nas batalhas, pelejando contra os inimigos do império. Os soldados cristãos, diz Santo Agostinho, serviram fielmente aos imperadores infiéis, mas, quando se tratava da causa de Cristo, outro imperador não reconheceram que o dos céus. Distinguiam o Senhor eterno do senhor temporal; e, não obstante, pelo primeiro obedeciam ao segundo (In Ps. 124, n. 7)”. O grande Papa tinha alvo certo contra o qual disparar esta seta: o vírus do individualismo liberal, que é puro egoísmo. Infelizmente, porém, grande parte dos católicos atuais – incluindo, como vamos vendo, alguns dos melhores – também está infectada por este terrível vírus, que a rigor é muito pior que o da covid-19: mata a alma.

4) E que dizer da confusão, nestes mesmos meios tradicionalistas, entre votar ou até tolerar um mal menor e apoiar este mal? Com efeito, um sacerdote tradicionalista chegou a pontificar que “quem não apoia Bolsonaro não é católico!” – o mesmo Bolsonaro cujo ministério é composto por maçons e gnósticos e puros corruptos; o mesmo Bolsonaro que não cumpriu seu compromisso eleitoral de combater a ideologia de gênero; o mesmo Bolsonaro cujo alinhamento internacional é sobretudo com os EUA (o que agora, com Biden, se tornou mais difícil) e com Israel, e não com a Hungria e com a Polônia, os últimos restos ou ruínas da já longínqua Cristandade; o mesmo Bolsonaro que de modo sacrílego se vale politicamente do catolicismo mas tem profunda vinculação com o protestantismo pentecostal e suas iniquidades.

Observação: lembra-me, aliás, que um dos fiéis do referido Padre me enviou certo dia um e-mail com um vídeo do príncipe maçônico e deputado federal bolsonarista Luiz Phillippe de Orleans e Bragança. Ingenuamente, recomendei-lhe que não divulgasse mais este príncipe justamente por ser maçom. Tréplica: “Mas ele está dizendo a verdade!” Como pode, pergunto-me, um tradicionalista dizer tal enormidade? Só o pode porque tristemente perdeu a convicção antiberal e antimaçônica – e isto não é senão resultado da influência liberal-conservadora que tento mostrar aqui.

5) Por fim, está o apoio como que oficial de um dos grupos tradicionalistas a D. Carlo Maria Viganò, exaltado por este grupo como uma sorte de novo D. Lefebvre. Além de andar de braço dado com gnósticos perenialistas da importância de Steve Bannon e de Alexander Duguin, satanista confesso; além de ter dito que Trump era o “obstáculo” que impedia o advento do Anticristo (!!!!!!!); além de ter participado de um evento ecumênico ao puro estilo do Encontro de Assis; além de – como o mostrou o insuspeito Roberto de Mattei (tradicionalista crítico e, a seu modo, também liberal-conservador) –  talvez nem sequer seja ele mesmo o autor de seus textos, mas um ghost writter, o que o torna ainda mais obscuro; além de tudo isso, portanto, a doutrina de D. Viganò sobre a crise atual na Igreja é própria do neoconservadorismo católico e portanto é incompatível com a de D. Lefebvre, como se mostra neste meu artigo: “Dom Viganò versus Dom Lefebvre: Doutrinas Inconciliáveis” (neste mesmo blog), e como se comprova pelo último artigo do mesmo Arcebispo: “Lapides clamabunt: Mons. Viganò habla sobre ‘Traditionis Custodes’” (em http://nonpossumus-vcr.blogspot.com). Mas, como se verá, é na própria apresentação deste mesmo artigo – a qual inclui uma crítica de todo infundada e injusta ao superior do outro grupo tradicionalista – que se vê como o grupo tradicionalista em questão perdeu completamente o rumo das razões que justificariam sua própria existência. De fato, elogiar este artigo de D. Viganò implica confessar, ipso facto, e ainda que inconscientemente (como quero crer): Já não sou tradicionalista.

* * *

Conclusão da série: em verdade, tudo quanto se disse aqui não faz senão mostrar que considerável parte do tradicionalismo católico se vai corroendo em seus fundamentos por graves debilidades doutrinais, ou seja, filosóficas e teológicas. É como se parte razoável dos tradicionalistas atuais ainda vivesse na década de 1950-1960, quando o “tradicionalismo” tomista e o da Cúria foram incapazes, apesar de seus esforços, de impedir que o Reno desaguasse no Tibre; eram, para usar expressão alheia, “muros com brechas”. Ou mais ainda: é como se esta parte do tradicionalismo católico ainda pensasse em termos de consagração da Rússia pedida por Nossa Senhora em Fátima e, pois, de um anticomunismo caduco e anacrônico. Com efeito, como mostro em “Fátima e a Rússia de Putin, ou quando se faz imperioso um ‘parece’” (in Estudos Tomistas – Opúsculos II), a promessa de Nossa Senhora era condicional: “Se..., então...”, ou seja, como não se consagrou a URSS a seu Imaculado Coração, o império comunista espalhou seus erros pelo mundo (e até no mesmo CVII); e hoje é o mesmo mundo ocidental, sob o tacão cor-de-rosa da revolução sadolibertina, o que busca espalhar seus erros numa Rússia neoczarista. Com isso, ou seja, se permanecer nesse passadismo que não se quer renovar e que para tal se cega à realidade atual, tornando-se incapaz de aderir na prática à doutrina do reinado social de Cristo e de compreender que o Apocalipse de São João nos revela perfeitamente o que estamos vivendo – o milênio é duplo, como o mostrarei em meu Comentário ao Apocalipse, e ambos já se cumpriram –, esta parte do tradicionalismo católico acabará por não distinguir-se de um dos chifres da Besta da terra, o humanismo, com o que se mostrará inabilitada para cumprir seu papel precípuo: conduzir sua pequena grei a imitar a Cristo nos derradeiros combates da história.