quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A infernal gangorra direita/esquerda

                                                                                                                     Carlos Nougué

A alternância direita/esquerda é própria da Revolução; e é diabólica no preciso sentido de que envolve o conjunto dos cidadãos de modo tal, que estes não têm como escapar a ela, ou seja, não têm como escapar à própria Revolução. É um círculo vicioso sem fé, nem lei, nem rei, em sentido estrito. Ao longo do tempo, todavia, essa gangorra vai assumindo feições diversas. Por vezes a esquerda comunista deu a impressão de que da ditadura do proletariado não haveria volta. Mas a queda do muro de Berlim e da URSS e o atual estado de decrepitude dos países mais propriamente comunistas (Cuba, Nicarágua, Venezuela, Coreia do Norte) desfizeram-lhe as ilusões. Pode até dizer-se que tal ditadura ainda persiste, firme, na China; mas de modo profundamente alterado, ou seja, já não visa à consecução do comunismo final. É hoje antes uma ditadura capitalista. A Rússia de Putin, por seu lado, conquanto geopoliticamente deva apoiar as moribundas nações comunistas, é o que chamo um “czarismo republicano”, com cesaripapismo e tudo. No restante do mundo, a gangorra direita/esquerda dá-se no palco da democracia liberal, que é sobretudo uma sementeira de convulsões sociais, mas não é democracia em sentido algum. É antes uma partidocracia a serviço de uma plutocracia mais ou menos velada pela ação da mídia e pela miragem do sufrágio universal, que faz que um dogradicto de 16 anos tenha o mesmo peso eleitoral que um sábio jurisconsulto. Não é democracia efetiva porque não é orgânica, ou seja, porque não se funda em corpos sociais devidamente hierarquizados, senão que é um como o esgoto dos lábeis e manipuláveis anseios de uma massa informe e ignara. E é neste palco que a referida gangorra infernal assume sua atual feição na maior parte do mundo. A revolução hegemônica nos dias de hoje é a que chamo marcusiana ou sadolibertina, uma mescla de marxismo profundamente alterado – ou seja, essencialmente capitalista mas capaz de métodos de ação marxistas e tendente a um governo global – com o liberalismo paroxístico que começou com um Marquês de Sade. O partido desta revolução, fundado sempre no grande capital antes de tudo financeiro, é a ONU com seus tentáculos; e sua religião tem sua trindade: o deus Mamon, o deus Himeros e o deus Homem, o superior da tríade, ao qual também servem o ecumenismo e o laicismo vaticano-segundos. E partidos como o PT e o Psol, sob a veste bolorenta do marxismo, não fazem senão ser pontas de lança desta revolução libertina: estão em verdade a serviço de homens como Soros e Gates, os quais, quando julgam que já não servem a seus interesses, os descartam – foi o que se deu com Dilma. Hoje porém o PT parece voltar a servir a seus interesses, para que possam livrar-se também no Brasil da direita liberal-conservadora. Qual é precisamente, no entanto, a doutrina da atual direita liberal-conservadora internacional? Em uma palavra: o liberalismo sem o libertinismo de Sade, ou melhor, sem este libertinismo encarnado em corpo legal. A direita liberal-conservadora não é de modo algum contra a prática privada do que a ideologia de gênero defende; é contra que esta se torne lei. E isto tão só em princípio, porque tal direita é capaz de conviver até com a ideologia de gênero feita lei desde que se preservem os direitos do sacrossanto livre mercado, da sacrossanta liberdade de expressão para o bem ou para o mal, da sacrossanta liberdade religiosa para Deus ou para Satã, etc. Sucede contudo que a atual direita liberal-conservadora tem uma nota muito própria: o irracionalismo advindo de sua liderança gnóstica internacional, cujo expoente é o perenialista Steve Bannon. (O lado eurasiano também tem seu expoente gnóstico: Alexandr Duguin, um assumido satanista.) É justamente de suas lideranças perenialistas que a massa direitista atual herda irracionalidades como: não há pandemia, essa invenção dos globalistas para poderem promover o Great Reset; a máscara contra a covid é um instrumento do Deep State para despersonalizar as pessoas; as vacinas contra a covid imprimem a marca da besta ou introduzem um chip de 5G, ou têm por fim matar a humanidade (com o que, digo eu, se teria um governo mundial sem governados...); o homem não foi à Lua; a terra pode ser plana; Trump é o grande obstáculo ao advento do Anticristo (D. Viganò dixit); dois mandatos de Bolsonaro nos permitirão instaurar o reinado social de Cristo (Centro Dom Bosco dixit); etc., literalmente ad nauseam.

Mas então que fazer na eleição de 2022, se de fato ela se polarizar entre Bolsonaro e Lula? Na campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro ainda aparecia como um mal menor por suas promessas, incumpridas, de lutar contra a ideologia de gênero; só por isso. Hoje, todavia, depois de anos de descumprimento de promessas eleitorais, de desgoverno irracional e trapalhão e de alianças com corruptos exatamente ao modo petista, será preciso fiar fino para defender como um mal menor a candidatura de Brancaleone... ops, de Bolsonaro. Eu não o farei. Mas votarei nele? Se o farei ou não, eis algo que vai comigo para o túmulo.