sábado, 24 de julho de 2021

A Penetração do Liberal-conservadorismo na Tradição Católica (Segunda Parte de Três)

                                                                                                                                        Carlos Nougué

 

SEGUNDA PARTE

 Nota prévia: na primeira parte desta série, eu disse que responderia na segunda a certo escrito de OdC. Mas foi mero pretexto para mostrar o que é o liberal-conservadorismo, ideologia que OdC abraça e de que é um dos principais expoentes no Brasil. Nem por isso, contudo, deixo de responder de fato àquele escrito; faço-o, abaixo, no apêndice desta segunda parte. 

* * * 

I) O liberal-conservadorismo não é senão a forma atual do velho girondinismo da Revolução Francesa. Nesta, os girondinos, que ocupavam o lado direito do parlamento revolucionário, opunham-se aos jacobinos, enquanto estes queriam radicalizar mais e mais a revolução e eles, os girondinos, pretendiam conservar algo, um verniz, digamos, do ancien régime. O girondinismo produziria, na Europa, algum filósofo e político de envergadura algo maior, como Edmund Burke, que, a par de uma crítica parcialmente acertada à Revolução Francesa, não fez mais que conservar o essencial da “girondina” revolução inglesa e, ademais, inventar a terrível partidocracia que assola até hoje boa parte do mundo. E assim é o liberal-conservadorismo atual, o de OdC, de Steve Bannon, de Trump, de Bolsonaro: mostram-se em princípio contrários ao aborto e à ideologia de gênero (mas não ao divórcio, nem ao sexo livre, nem aos pecados contranatura), sem deixar todavia de defender a liberdade de expressão, de imprensa e de religião – ou seja, a liberdade tanto para o bem como para o mal –, o sufrágio universal, o sistema partidário, alguma forma de tripartição do poder, o livre mercado e a livre usura, tudo o que não passa de uma forma de inverter o que sempre disseram Platão, Aristóteles, o magistério autêntico da Igreja: em vez de que o indivíduo seja para a sociedade, a sociedade é que é para o indivíduo. É o individualismo burguês, nascido nos já distantes séculos XII e XIII, e fundamento de toda forma de liberalismo.

Observação: os católicos liberal-conservadores costumam invocar Pio XII para negar críticas como a feita acima. Para responder a eles, basta-me traduzir um trecho luminoso do Padre Álvaro Calderón: “Há uma frase difícil que, diante dos totalitarismos do século XX, Pio XII repetiu muitas vezes: ‘A sociedade é para as pessoas, e não as pessoas para a sociedade’. Há duas maneiras de entendê-la bem, e uma de entendê-la mal. Entende-se melhor se se refere aos sujeitos, entende-se menos bem se se refere à pura utilidade, entende-se mal se se refere aos fins. 1º Referida aos sujeitos. O totalitarismo vê a sociedade como um Moloch pessoal para o qual as pessoas individuais não são mais que riquezas exteriores para gastar. A frase então se entende bem: ‘A sociedade é um bem que tem como sujeito as pessoas, e não são as pessoas bens que tenham como sujeito (hipóstase) a sociedade’. 2º Referida à utilidade. O totalitarismo vê nas pessoas simples instrumentos úteis para uma sociedade hipostasiada. A frase, então, entende-se bem na segunda metade, porque ‘as pessoas não são bens úteis para a sociedade’, uma vez que são os sujeitos que devem gozar desse bem comum. Mas se poderia entender mal na primeira metade, porque a simetria da frase leva a entender que ‘a sociedade é um bem útil para as pessoas’, o que é totalmente errado. Esta primeira parte há que entendê-la sempre da primeira maneira. A frase, então, entende-se bem se seus dois membros não se põem em simetria de contraposição, mas a modo de consequência: ‘A sociedade é para as pessoas como para seus sujeitos, e [em consequência] as pessoas não são bens úteis para a sociedade’. 3º Referida aos fins. Os personalistas [como os liberal-conservadores, ou antes, como os liberais em geral] reagem ao totalitarismo de maneira totalmente errada, e supõem um ordem de fins: ‘A sociedade é uma coisa [bem útil] subordinada ao bem supremo das pessoas [digníssimas em si mesmas por sua liberdade]’, ainda que as pessoas não cheguem a valer nada sem participar nos bens que só existem em sociedade. Parece claro (não o dizemos por papolatria pré-conciliar) que Pio XII tinha em mente a segunda maneira de pensar. Diz por exemplo em um discurso de 13 de setembro de 1952: ‘É preciso notar que o homem, em seu ser pessoal, não está subordinado, afinal de contas, à utilidade da sociedade, senão que, ao contrário, a comunidade é para o homem’ (não diz ‘é útil ao homem’). Mas reconhecemos que a retórica simetria dos conceitos é bastante incômoda” (Prometeu – a Religião do Homem, p. 28, nota).      

II) Mas os girondinos de hoje, ou seja, repita-se, a direita liberal-conservadora, têm por inimigo principal não os jacobinos de hoje, ou seja, os liberal-liberais (corrente atualmente inexpressiva), mas rebentos seus, o moribundo comunismo (ou marxismo) e o vitorioso sadolibertinismo (ou marcusianismo) – que, todavia, o liberal-conservadorismo insiste em identificar com o marxismo, pela simples razão de que, como o mesmo liberal-conservadorismo, o marcusianismo é antes de tudo individualista, enquanto o comunismo é coletivista e totalitário. É o espantalho sem o qual os católicos liberal-conservadores não poderiam brandir a condenação do comunismo pela Igreja esquecendo a condenação – pela mesma Igreja – de toda forma de liberalismo e do capitalismo (para isto, cf. a seção “Política teológica” de meu livro Estudos Tomistas – Opúsculos II).

III) Nada obstante, o girondinismo atual ou liberal-conservadorismo tem de próprio as duas seguintes notas.

• É comandado ideologicamente por gnósticos perenialistas (Steve Bannon, OdC, et alii), os quais têm seus parceiros católicos. É o caso de duas destacadas personagens do clero: Dom Carlo Maria Viganò (vide seu elogio dos EUA e de Trump como o “obstáculo” que impede o advento do Anticristo; sua tese da “Deep Church”, segundo a qual Francisco não é fruto próprio do CVII, mas de uma “Igreja” subterrânea de esquerda que alcançou enfim o papado; sua participação em um ato pró-Trump que foi como uma cópia direitista e em ponto menor do encontro de Assis; etc.); e o Cardeal Raymond Burke, que é membro de um grupo hebreu-cristão de fundo cabalista (vide Alistair McFadden, “Observations on the Influence of the Occult in Traditional Catholic Discourse”, algumas de cujas partes Danilo Rehem já traduziu e eu publiquei neste mesmo espaço). – É verdade que entre aqueles gnósticos perenialistas e seus parceiros católicos há diferenças quanto ao divórcio, ao sexo livre e aos pecados contranatura, tudo o que aqueles defendem discretamente ou toleram, enquanto estes o condenam. Estas diferenças, porém, são não raro caladas pelos católicos liberal-conservadores em prol de sua unidade com aqueles. 

Observação: tem ademais seu braço “científico”, um de cujos expoentes é o também perenialista Wolfgang Smith; e sua expressão política: Trump, Bolsonaro, Marine Le Pen (cujo pai era um célebre perenialista), Guillermo Lasso (do Opus Dei), et alii, mais ou menos próximos do comando ideológico gnóstico.

Por comandado centralmente por gnósticos, o atual liberal-conservadorismo é profundamente irracional e negador do evidente: o homem não foi à Lua; talvez a Terra seja plana; Newton não era verdadeiro cientista, mas um alquimista gnóstico (ou seja, os atuais gnósticos são capazes de “atirar no próprio pé” desde que com isso consigam atacar a razão, negando em Newton não o que ele tem de mau – o mecanicismo –, mas o que tem de bom – uma matemática magnífica, que o ajudou a consolidar verdadeiras descobertas, ainda que tal matemática esteja, sim, à espera do devido preenchimento conceptual); a noção einsteiniana de curvatura do espaço-tempo é um absurdo, pontifica OdC sem sequer se dar ao trabalho de dizer por quê e sem reconhecer, como devido, que a curvatura do espaço (não do tempo, claro) é uma hipótese plausível para o caso da aproximação gravitacional dos corpos celestes; a negação da pandemia de covid-19, negação cujo fim é unicamente culpar a China e seus supostos aliados ocidentais pelo espalhamento do novo coronavírus  (o que, ainda que seja verdade, absolutamente não é razão para negar o fato da pandemia), com consequências dramáticas nos EUA, no Brasil, etc.; a acusação de que o uso de máscara contra a contaminação da covid-19 é uma invenção dos globalistas para tirar a individualidade das pessoas, transformando-as em massa de manobra sua; a acusação de que as vacinas anticovid-19 imprimem nos que as tomam a marca da Besta apocalíptica, além de que está feita para simplesmente matar as pessoas...

Observação: os liberal-conservadores fingem não ver ou, irracionais que são, de fato não conseguem ver que a pandemia, seja qual for sua origem, é um duríssimo golpe nas pretensões globalistas (encerramento das populações em seus territórios nacionais e das famílias em seus lares, crise econômica, crescente protecionismo econômico das diversas nações, ressurgimento da guerra-fria), e que os globalistas não promoveram lockdowns, uso de máscara e aplicação maciça de vacinas feitas rapidamente senão porque queriam salvar seu mesmo projeto globalista. Ademais, como bons individualistas que são, os liberal-conservadores (incluindo seus tristes parceiros católicos) “esquecem” que o indivíduo incapaz de sacrificar-se por sua pátria é uma pessoa não virtuosa,* e que, assim como em tempo de guerra os cidadãos-soldados hão de estar dispostos a morrer para defender sua nação, assim também os cidadãos devem sacrificar-se em tempos de pandemia pela mesma razão – e vacinar-se por isso, ainda que haja algum risco de efeito nocivo em algumas pessoas. Como porém a desonestidade é parte intrínseca do liberal-conservadorismo (sobretudo quando dirigido pela irracionalidade gnóstico-perenialista), seus líderes fingem não ver que os efeitos nocivos das vacinas anticovid-19 não se dão senão em uma ínfima porcentagem das pessoas; que de fato estas vacinas são capazes de vencer, ao menos temporariamente, o vírus; e que, assim que a situação está sob controle, os diversos governos que impuseram lockdowns e o uso da máscara suspendem tais imposições (Austrália, Israel, Inglaterra, EUA, etc.). Tudo isso do liberal-conservadorismo é profundamente repugnante, e não faz senão promover a volta da esquerda ao poder em vários países. Como porém são irracionais, nem sequer diante disto os liberal-conservadores são capazes de retroceder e de tomar uma caminho mais razoável: quando, à beira do abismo, não se pode senão dar um passo atrás, os liberal-conservadores dão um decidido passo à frente. Não foi o que vimos nos EUA com a derrota de Trump?   

IV) Meu fim, porém, ao escrever esta série não é senão mostrar a triste penetração do liberal-conservadorismo na tradição católica, o que se fará em sua terceira e última parte. Esta segunda parte, portanto, como a primeira, só a escrevi para que à terceira não faltassem pressupostos e fundamentos e ela não se perdesse em multidão de considerações de caráter preambular. Creio, pois, que o escrito nesta segunda parte seja suficiente para a finalidade da série, e encerro-a aqui, deixando-lhes porém também o referido apêndice sobre certo escrito de OdC.

                                               Apêndice

Escreveu OdC com toda a sua brilhante potência “retórica”: “Intelectuais católicos de boa cepa tomista sempre existiram no Brasil. Por que não conseguiram abalar – nem aliás arranhar – a hegemonia cultural comunista?”

Respondo. Este tão brilhante escritozinho oculta, todavia, uma grosseira falácia: o tomismo é mau porque nenhum tomista consegue mudar o mundo. Mostre-se o inteiro silogismo falacioso, uma sorte de sorites:

Todo bom filósofo é capaz de mudar o mundo.

Mas nenhum tomista jamais foi capaz de mudar o mundo.

Logo, nenhum tomista é bom filósofo.

Mas toda doutrina que não tenha nenhum seguidor capaz de mudar o mundo é má.

Logo, o tomismo é, ele mesmo, mau.

• Em que reside este sofisma como em seu princípio? A premissa maior “todo bom filósofo é capaz de mudar o mundo” não é propriamente princípio de uma falácia; é tão somente falsa. Com efeito, absolutamente não é verdade que todo bom filósofo é capaz de mudar o mundo: não o pôde Sócrates, que ao tentá-lo foi condenado à morte; não o pôde Platão em Siracusa; não o pôde Aristóteles, que acabou perseguido pelo mesmo Alexandre, o Grande de quem fora tutor; não o pôde Cícero, que acabou decapitado por um sicário de Augusto. Aliás, é de dizer antes que nenhum bom filósofo é capaz de mudar o mundo. Mas o mais importante é mostrar que a filosofia mais propriamente dita não tem por fim mudar o mundo: seu fim é saber e com isso superar uma ignorância. Com efeito, a filosofia ou ciência é o conhecimento certo, perfeito e atual do necessário por suas causas; e tal conhecimento se dá totalmente na alma do filósofo, sem redundar para a realidade extramental. É fato que há partes da filosofia que se dizem ciências práticas, entre as quais a Política. Mas não só nenhuma destas partes deve dizer-se filosofia ou ciência em sentido estrito, senão que, se alguma destas mesmas partes tem algum poder de contribuir para mudar o mundo, não o é senão por meio de outros que os mesmos filósofos enquanto filósofos. Por exemplo: se a política tomista fosse capaz de contribuir para mudar a sociedade, não o seria por Tomás de Aquino nem por nenhum outro tomista enquanto filósofo; mas por alguém que, além de conhecedor da doutrina política tomista, tivesse a prudência política necessária para aplicar convenientemente à sociedade esta doutrina. Ora, para que alguém seja bom filósofo, absolutamente não se requer prudência  justamente porque a filosofia é antes de tudo e em sentido estrito especulativa, e porque até suas mesmas partes práticas só são práticas ex suppositione.

• O sofisma olaviano começa na segunda parte do sorites. Com efeito, ao silogismo “todo tomista é mau filósofo; mas toda doutrina que não tenha nenhum seguidor capaz de mudar o mundo é má; logo, o tomismo é, ele mesmo, mau”, a este silogismo simplesmente falta um termo. Com efeito, todo silogismo bem construído contém um termo maior, um termo menor, e um termo médio, que está para a demonstração como a causa para seu efeito. Ora, há três figuras possíveis de silogismo. A primeira figura é aquela em que o termo médio (M) é o sujeito (S) da premissa maior e o predicado (P) da premissa menor; a segunda figura (ou figura média) é aquela em que o termo médio (M) é o predicado (P) de ambas; e a terceira figura é aquela em que o termo médio (M) é o sujeito (S) de ambas. Exemplos das três figuras: (1ª.) todo vivente (M) se alimenta; mas todo vegetal é vivente (M); logo, todo vegetal se alimenta; (2ª.) todo invejoso é cruel (M); ora, nenhum santo é cruel (M); portanto, nenhum santo é invejoso; (3ª.) todo centauro (M) é homem-caval0; mas todo centauro (M) é um ente fabuloso; portanto, algum ente fabuloso é homem-cavalo. Pois bem, procure-se na falácia olaviana se algum termo médio se encontra ou como sujeito da premissa maior e como predicado da menor; ou como predicado de ambas; ou como sujeito de ambas. Não, não se encontra nenhum, porque simplesmente não há aí termo médio. Mas onde não há termo médio não há demonstração, justo porque, como dito, o termo médio funciona no silogismo como a causa da conclusão, e demonstrar é alcançar na conclusão conhecimento certo, perfeito e atual do necessário por suas causas. Logo, todo silogismo mal construído como este, e que por isso mesmo não demonstra nada, é uma falácia ou sofisma.

Há que reconhecer, no entanto, que OdC em verdade não queria demonstrar nada com seu sofisma, e isso por duas razões. Primeira: OdC, como bom perenialista e modernista que é, não acredita na razão (e, contra a falácia do mesmo OdC segundo a qual ou se é perenialista ou se é modernista, leia-se o livro Sob a Máscara – as Polêmicas de Orlando Fedeli e Fernando Schlithler contra Olavo de Carvalho, do mesmo Fernando Schlithler, que simplesmente a destrói; além de que logo se lançará outro livro que aprofundará o trabalho de Schlithler também quanto a isto). Em verdade, neste sofisma OdC, ao reduzir o “mudar o mundo” a “vencer o comunismo”, não tem outro fim que o fim principal de sua “filosofia”: louvar-se a si mesmo como o maior dos filósofos, aquele único que foi capaz não só de arranhar, mas de desmantelar o comunismo. Sua “filosofia” é o que com todo o direito podemos chamar “a messiânica filosofia de mim mesmo – ou como reduzir a realidade a chão para meus altos pés”. Pobre egolátrico, e, mais ainda, pobres de seus seguidores, que, estes sim, se veem reduzidos a chão para os pés de OdC: logo logo a realidade os virá esmagar a todos com todo o seu dramático peso.

Observação última: qualquer semelhança entre o cartesianismo, o baconianismo, o rousseaunianismo e o marxismo, por um lado, e, por outro, a doutrina olaviana de que a boa filosofia há de ter por fim mudar o mundo não é mera coincidência. Descartes e Francis Bacon queriam que o homem subjugasse a natureza; Rousseau, que a vontade geral subjugasse a lei de Deus; Marx, que o proletariado conduzisse a humanidade a seu paraíso (terrestre); e OdC, que não só o comunismo seja derrotado, mas se imponha à sociedade o indivíduo enquanto indivíduo – ou, mais precisamente, o indivíduo enquanto divino. É a gnose perenialista, que – contra o que diz sua verborragia – OdC nunca abandonou, apenas mitigou (como o provam os referidos livros). Mas, se bem se observa, o fim de todos os “filósofos” citados acima supõe que, para eles, os homens sejam de algum modo divinos, sem o que lhes seria impossível idear projetos prometeicos e messiânicos de tal envergadura. E é precisamente por tal suposição e por tal fim que podem unir-se em OdC (como em Steve Bannon, et alii) – sem conflito algum – gnose perenialista e liberal-conservadorismo, que não é senão outra forma do liberalismo rousseauniano (o que é mostrado e demonstrado pelo excepcional novo livro de Daniel C. Scherer, A Metafísica da Revolução – Pressupostos do Liberalismo, cuja campanha de financiamento coletivo começará dentro de poucos dias).  



* “Cada bocado [de comida] do homem temperado é comido pelo bem da Pátria, pela glória de Deus e no Espírito Santo. Se não, não é verdadeiramente um bocado virtuoso” (Padre Álvaro Calderón, El Reino de Dios, p. 100, n. 3).