sábado, 20 de fevereiro de 2021

O CORÃO E A SUNA – OBSCURIDADES E INCONGRUÊNCIAS*

                                                                                                                 Carlos Nougué

Se há pouco mais de dois mil anos o cristianismo nascia, humildemente, numa manjedoura, seguindo-se a tal nascimento uma paixão e morte de cruz que redimiria o gênero humano e, depois, séculos de martírios que regariam  o solo do Império Romano para que dele brotasse a cristandade, há pouco menos de mil e quatrocentos anos o islã começava a impor sua sanha de conquista guerreira sob uma lei sangrenta, sanha que não só perdura até hoje mas cresce, num ambiente mundial de tintas apocalípticas. E uma das primeiras razões de tão grande diferença podemos encontrá-la, por signo invertido, nas próprias origens do islã.

Com efeito, apesar de maquiada de mil maneiras, é extrema a pobreza das fontes que nos dariam ciência dessas origens. Não há documento que nos faça remontar à fundação do islã, e o que primeiramente podemos saber deste é de época muito posterior a Maomé – tudo sempre submetido a manipulações e adulterações. E isto com respeito também à mesma vida de seu fundador. Mas os próprios muçulmanos usam para conhecê-las o Corão e a tradição islâmica, os quais, todavia, pela falta de coerência daquele e pela carência de historicidade desta, são demasiado duvidosos – para dizer o menos.

Em razão de tudo isso, muitas das conclusões a respeito do islã a que chegam estudiosos modernos e imparciais não podem ser mais que hipóteses. Mas, em contrapartida, e em primeiro lugar, a estrutura geral do Corão – que, insista-se, para os muçulmanos é um livro revelado – já parece suficientemente clara.

“Corão” (Qoran) significa ‘lecionário’ ou ‘recitação’, ou seja, trata-se de livro para ser recitado religiosamente. Para os muçulmanos ortodoxos, é incriado, ou melhor, é uma reprodução do paradigma ou protótipo da religião divina guardado no céu desde a eternidade; e, ademais, vazado que é no idioma árabe, é não só fonética e graficamente idêntico ao original celeste mas, de algum modo, coeterno a ele. Tanto é assim, que o Corão teria sido ditado a Maomé diretamente pelo Arcanjo Gabriel durante dezenas de anos, para que depois seu profeta pudesse repeti-lo aos discípulos e estes o memorizassem. 

Após a morte de Maomé, no entanto, o califa Otmã (cerca de 579-656) mandou que se recolhessem todas as partes do texto, escritas em diversos materiais, e se queimassem, sendo seus donos condenados à morte. Não foi porém a única destruição: outras se seguiriam, como a empreendida sob o califado de Abu Bakr (em 665). Resultado: hoje não resta quase nenhum documento anterior ao século IX. Mas, segundo a mesma tradição muçulmana, a transcrição final do Corão empreendeu-a Abd al-Malik (685-705), unificando a ortografia e procedendo a correções que esquivassem omissões e confusões patentes; e só no século X é que se adotou um sistema consonântico unificado, com o que se limitava a sete o número de interpretações possíveis. – Mas acompanhemos mais de perto o texto do Corão que conhecemos.

Para confirmar seu caráter revelado, o Corão vale-se da história de uma viagem noturna. Certa noite, e por inspiração divina, Maomé deixou Meca tendo por guia o Arcanjo Gabriel. Montado num cavalo, Buraq, viajou pelo ar até Jerusalém e aterrissou no Monte do Templo, onde viu a Abraão, a Moisés, a Jesus e a outros profetas que, postos atrás dele, oravam com ele. Diante de dois cálices ali surgidos, um cheio de vinho e o outro de leite, o novo profeta escolheu o segundo, escolha aprovada pelo arcanjo. Em seguida, de um salto poderoso que deixou uma marca impressa na Rocha e ajudado por anjos, Maomé subiu de céu em céu até o sétimo e último, o mais próximo de Deus, que lhe deu as orações (cinco) que os muçulmanos deveriam rezar todo dia. Foi ali que Maomé estudou o Corão celeste; mas esqueceu-o antes de ir-se dali. Desceu e voltou a cavalo (alado) a Meca, onde anunciou a chegada iminente de uma caravana que ele mesmo sobrevoara. Como ela de fato chegou, mostrou-se assim a veracidade de sua subida aos céus e de sua visão de Deus.

Sem que ele tivesse esquecido o Corão celeste, não se explicariam dois elementos do Corão terreno: a existência do Livro ao lado de Deus, e o ter sido ditado pelo arcanjo. Quem o disse? Os próprios califas. Ademais, a subida do profeta aos céus tinha de fazer-se em Jerusalém, lugar sagrado, onde o islã deitaria raízes mediante conquista. Estava selada a vinculação do Maomé com o templo; e a mesquita de Al-Aqsa construir-se-ia noventa anos despois sobre a mesma rocha de que ascendera ao céu o novo profeta. O Monte do Templo converteu-se, assim, no segundo lugar mais sagrado do islamismo. – Mas aprofundemo-nos ainda no Corão.

Hannah Zacharias (pseudônimo do Padre Théry) e o Padre Bertuel, discípulo seu, identificaram muitos elementos judaicos no Corão. O Padre Gallez, por seu turno, voltando a investigar o assunto, deu uma solução que a muitos especialistas parece a mais provável: o essencial da doutrina do Corão foi tomado da doutrina da seita dos judeu-nazarenos, a qual mesclava as esperanças terrenas de Israel e a religião cristã. Conheceram e combateram seitas como esta os Padres da Igreja; mas, ao que tudo indica, a dos judeu-nazarenos sobreviveu muito tempo às demais e procurou aliar-se a árabes que viviam na Síria para tentar levar a efeito seu intento messiânico.

O texto-base para a elaboração do Corão teria sido, portanto, certo catecismo judeu-nazareno, escrito em árabe para converter os árabes à seita e envolvê-los em seu objetivo: a reconstrução do templo de Jerusalém e a disseminação de um culto puro e capaz de alcançar o retorno do Messias e seu reinado de mil anos – o milênio que teria sido anunciado no Apocalipse e em que, por influência de Papias (um discípulo de São João), creram muitos Padres. E teria sido tal catecismo justamente o que Maomé pregou para atrair seus próprios concidadãos à mesma seita, que ele conhecera por sua primeira esposa. E do que se acaba de dizer há muitos elementos que parecem probantes.

Antes de tudo, os abundantes empréstimos que o Corão tomou da tradição judaica ou da, digamos, judaico-cristã. Com efeito, muitas leis islâmicas foram tomadas da lei judaica e do Talmud, enquanto vários versos do Livro provêm ou do Segundo Targum Sheni  (27.17-44)1, ou do Testamento de Abraão (87.19), ou do Targum de Jerusalém (5.30-31), ou do Midrash Rabba (21-51-71; 29.16-17; 37.97-98) – ou seja, de obras da literatura rabínica. Além disso – o que aponta para as seitas judaico-cristãs –, cerca de 25% do texto do Corão foi extraído de certos livros apócrifos, como o Evangelho do Pseudo-Mateus, ou o Evangelho de Santiago Menor, ou o Evangelho de Tomé, ou a História da Natividade de Maria e da Infância do Salvador, ou o Livro dos Jubileus.

Mas após a morte do novo profeta e após tomarem Jerusalém segundo o plano mesmo da seita, sucessores de Maomé teriam concluído que seus desígnios não passavam de fantasia e decidiram modificar o Livro, tarefa nada fácil, obviamente, sobretudo se se leva em conta que também as autoridades civis e religiosas tentavam ajustar o texto a suas próprias necessidades. Dessa multidão de interesses é que resultam as numerosas destruições e correções que havia de sofrer o Corão. Como todavia isso não poderia continuar indefinidamente, o texto corânico alcançou sua forma, digamos, final – ou seja, com variações locais ou devidas às diferentes tendências islâmicas (os xiitas, por exemplo, acusam os sunitas de ter adulterado o Livro) – pelo século IX.

Não é porém difícil concluir que tantas manipulações e alterações foram causa de muitas incoerências e obscuridades no Corão, e foi para tentar eliminá-las que se tomaram no século XI algumas decisões que continuam em vigor até hoje: a afirmação do dogma do Corão incriado; a doutrina do ab-rogado e do derrogado: quanto mais tardia seja a revelação de uma sura, maior será seu valor (e pois mais imperiosas suas determinações), de modo que, em caso de contradição, a sura mais recente substitui a contraditória; e o fim das tentativas de reflexão ou de interpretação quanto à religião, ficando assim proibido todo novo estudo crítico do Corão. Ademais, sempre está presente a tradição para explicar alguma obscuridade que já não se poderia sanar com a alteração do texto. – Como não pensar: que diferença entre a labilidade do Corão e a perenidade da Bíblia! Mas prossigamos.

Com efeito, a segunda fonte tanto doutrinal como disciplinar do islã é a chamada Suna do Profeta, ou seja, a ‘prática habitual ou regra de comportamento’ (e é daí que vem a palavra “sunismo”, que nomeia hoje o principal ramo do islamismo – cerca de 85% dele –, contra os 10% do xiismo). E de fato o mesmo Corão chama a Maomé o “modelo mais excelente”: acredita-se que ele tenha decretado normas religiosas e morais mediante seu exemplo e suas palavras ou até seu silêncio. Por isso há três classes de Sunas: a verbal, a ativa e a tácita. E é tal a importância dessa tradição, que se tornou aforismo corrente que “a Suna pode prescindir do Corão, mas o Corão não pode prescindir da Suna”. Para comprová-lo, basta referir que muitas leis estabelecidas pela Suna não se acham, todavia, no Corão, como é o caso do apedrejamento de adúlteras. Entendamo-lo.

Morto Maomé, o Corão mostrou-se insuficiente para organizar a comunidade muçulmana. Com efeito, é grande a sua obscuridade. Teve-se por isso de recorrer a exemplos do Profeta referidos por testemunhas confiáveis, ou seja, aqueles que tinham convivido com ele. Mas entre tais testemunhas ou companheiros (do Profeta) também estão seus descendentes ou sucessores que teriam recebido toda essa tradição daqueles. Ambos os grupos constituem a casta dos salafi, à qual os salafitas – o grupo mais conservador dentro do sunismo – dizem pertencer.

Ademais, muitos sahabi teriam recompilado os ensinamentos transmitidos ao longo do primeiro século da Hégira (a era maometana, cujo início se assinala pela fuga de Maomé de Meca para Medina no ano de 622). O hadith (ou hádice ou hadiz: ‘novidade’) é a disciplina nascida precisamente para organizar todo esse material e compõe-se de duas partes: o isnad e o matn. Enquanto o primeiro fornece a relação de autoridades e de guardiães pelos quais o hadith alcançou o último transmissor, o segundo é o texto mesmo que deve reproduzir-se fielmente.

O problema é que não existe só um hadith, proveniente de Maomé e de seus companheiros. Sobretudo no período dos califados, a forma do hadith serviu para que se criasse uma tradição adaptada a várias necessidades, ou seja, justificar uma prática da Suna, ou elaborar uma Suna ainda inexistente, ou corrigir uma tendência de pensamento, etc. Tanto os califados como os ulemás (teólogos ou sábios) produziram hádices segundo sua conveniência – e desenfreadamente. Imitá-los-iam as muitas seitas dissidentes. Desse modo, cada partido ou seita ou corrente de pensamento possuía a tradição mais acorde com sua própria doutrina. Para que se tenha uma ideia da coisa, diga-se que no século IX Bukhari recolheu 300.000 hádices e decretou que 200.000 eram apócrifos – conservando tão somente 8.000...

 Hoje em dia há cerca de um milhão e meio de hádices, o que constitui tal escândalo que os acadêmicos muçulmanos sempre se deram à tarefa de avaliar seu valor; mas tão só o valor do isnad, nunca o do matn. Este sempre será inquestionável e intocável. E o que proporciona aos crentes o matn dessa multidão de hádices? Proporciona informações sobre como Maomé fazia suas orações e abluções, sobre como comia, sobre como se vestia, sobre como se conduzia em casa; sobre seus pratos favoritos, sobre seus aposentos, sobre suas armas, sobre seus cavalos e seus camelos, sobre sua genealogia, sobre suas virtudes; etc. Além disso, o mestre dá resposta a todas as futuras dificuldades tanto dogmáticas como disciplinares e políticas, além de arrolar todas as cidades e todos os países que seriam conquistados pelas armas islâmicas. Em outras palavras, configura a Suna e completa as tão superficiais prescrições do Corão. Mas, apesar de tanta inverossimilhança dos hádices mesmos e de tantas contradições entre eles, insista-se, a maioria dos intelectuais islâmicos nega-se a rejeitá-los. A minoria que admite a invenção fraudulenta de alguns dos hádices contenta-se, no entanto, com indicar os pontos fracos em seu isnad e o pouco valor das pessoas relacionadas. Mas o fato é que, como diz o islamólogo Louis Massignon em Essai sur les origines du léxique (Paris, Geuthner, 1922, p. 103), se se eliminassem todos os hádices cujo isnad é fraco, “os crentes ficariam unicamente com umas poucas prescrições sobre higiene e cortesia”.

O corolário evidente é que há pouco material básico quanto à vida de Maomé. E, se é verdade que no final do século VIII certos autores muçulmanos compuseram a Sirah ou Vida de Maomé, também o é que há numerosas versões dela, quase todas, ademais, tomadas de algum hadith (uma vez que, como dito, o mesmo Corão fornece pouquíssimos dados sobre a vida do Profeta). Por isso é impossível traçar uma biografia veraz de Maomé. Mas deem-se exemplos disso.

A preexistência da alma de Maomé, um dos principais dogmas da tradição e da Sirah, é de origem platônico-gnóstica. Ademais, a partir de uma frase que Alá teria dito ao Profeta: “Enviamos-lhes uma luz”, desenvolveu-se e aplicou-se a ideia ao mesmo Maomé; seu corpo emitiria raios de luz, o que o faria visível até em meio da mais cerrada escuridão, e não produziria, ele mesmo, sombra. Seria tal seu fulgor, que tornaria opacos o sol e as tochas, afora o fato de que ele poderia ver o que acontecia a suas costas. Diz-se até que tinha um olho físico no meio das costas ou entre os ombros.

Maomé recebeu o nome de Qotam ao nascer, o que se pode saber por alguns dos mesmos hádices. Como contudo o livro de Alá o chamou Ahmed, ou Mahoma (Maomé), a tradição desdenhou qualquer outro nome. E quantos anos tinha Maomé ao morrer? Possivelmente, segundo alguns, nem sequer ele o sabia, assim como em geral não o sabem os beduínos até hoje. Não obstante, a tradição criou uma cronologia na Sirah: sua idade ao morrer varia então entre 60 e 65 anos. Algumas das explicações são demasiado imaginativas, como a que diz: “Cada profeta chega à metade dos anos de seu predecessor; ‘Isa [o nome árabe para Jesus] viveu 125 anos”; logo, Maomé viveu 62 anos e meio...

Os descendentes masculinos de Maomé são um dos tópicos mais destacados da tradição. Ao que tudo indica, Maomé teve um só filho. Com efeito, lê-se no mesmo Corão o sofrimento de Maomé por sua infelicidade paterna, por seu desejo insatisfeito de longa descendência masculina. Desse modo, os irmãos desse filho único tiveram de ser inventados. Tomaram-se por nomes reais os adjetivos tahir (puro) e taiyb (bom) atribuídos aos filhos do Profeta pela piedade popular, dando-se-lhes, ademais, vários pares de gêmeos. Chegou-se assim a um total de doze filhos, oito dos quais homens...

Reza o Corão: “Obedece ao apóstolo quando chama”. Daí que uma série de hádices considere obrigação o interromper qualquer coisa, ainda que seja a oração, para acorrer ao menor sinal de Maomé. Muito mais que isso, porém. Uma mulher desejada pelo Profeta não podia rejeitá-lo. Se fosse casada, e ainda que contra a vontade dela mesma, o marido tinha de dar-lhe libelo de repúdio. Pois disse Alá: “Os crentes hão de preferir o Profeta a si mesmos” (Corão, XXXIII, 6.36).

De todo o dito, decorre patentemente que para reconstruir a história do islã é preciso recorrer a fontes externas a ele. Mais que isso: ao contrário do que se dá no cristianismo, cuja tradição tem por origem a revelação divina, a tradição islâmica é de fonte humana e resulta de imaginação mais ou menos popular, de tentativas mais ou menos eruditas de justificação e até de lutas pelo poder. Não se nega aqui que muitos muçulmanos sejam mais ou menos sinceros. São todos, todavia, como conclui tão corretamente o conjunto de dois artigos em que me fundei aqui, reféns de um complexo sistema doutrinal de autojustificação.

Observação final: uma coisa, porém, há que reconhecer: a íntima vinculação entre o islã e o poder político nos países islâmicos, por problemática que seja e ainda que per accidens, tem muito mais de natural que a insana “sã laicidade” vaticano-segunda, porque, com efeito, mesmo que Deus nos tivesse criado sem ordem ao sobrenatural, o fim último do homem não deixaria de ser Deus mesmo e o conhecimento, o louvor e a glória que lhe devemos individual e socialmente.

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* Fundo-me aqui, antes de tudo, em “Explicación del Islam”, conjunto de dois artigos aparecidos em FSSPX.News em março de 2019. Mas também em Rubén Calderón Bouchet, “El Islam – una ideología religiosa”, opúsculo encontrável na Internet.