segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

SE O DEUS DO ISLÃ TEM ALGO EM COMUM COM O DEUS CRISTÃO – EM RESPOSTA A CARLOS ALBERTO

                                                                                                                     Carlos Nougué

Nota prévia 1: este opúsculo foi escrito originalmente para o Facebook.

Nota prévia 2: nosso Congresso Tomista, que se realizará em março próximo e que está anunciado desde nada menos que 7 de outubro de 2019, contará entre seus palestrantes com alunos meus da Escola Tomista. Depois de quase quatro anos de estudo comigo, começarão a exercitar-se para seu futuro magistério. Será para eles um exercício, e só mentes enfermas podem ver nisso, de minha parte, um recurso para tornar-me líder. Mas, contra o que pensam e fofocam tais mentes enfermas, a maioria dos palestrantes do Congresso não é de alunos meus. E entre estes – se é que continuam a aceitar meu convite, feito em meados do ano passado – estão dois jovens que não só não são atualmente alunos meus, mas nunca o foram: Leandro Bezerra e Carlos Alberto. São ambos impressionantes: domínio total do latim, leitura vasta de S. Tomás, dos tomistas e dos escolásticos em geral. Leandro Bezerra não é católico; é protestante, e digo que meu convite a ele para participar do Congresso se deve em parte a seu mérito próprio, em parte a meu interesse em que se converta ao catolicismo (e catolicismo tradicional). É pois também um convite interessado. Carlos Alberto creio que é já católico. Com ambos, todavia, já mostrei publicamente e privadamente que tenho divergências. Com Leandro, por exemplo, quanto à analogia. Quanto a Carlos Alberto, as divergências têm-se mostrado mais agudas. Há uma semana, por exemplo, ele defendeu em suas páginas a possibilidade de conciliação entre tomismo e fenomenologia. Respondi-lhe publicamente, sem citar-lhe o nome, com o post “O Pecado Filosófico de Angelismo”. Mas agora tenho de citar-lhe o nome, porque a divergência aqui é muito mais grave: trata-se do que ele escreveu no post cujo print colo abaixo. Leiam-no, pois, antes de ler-me a resposta. Mas digo: nada disto, para mim, implica que não o queira no Congresso (se ele mesmo já não o quiser, são outros quinhentos), até porque nosso Congresso tem caráter tão amplo, que eu ia convidar para palestrar dois tomistas que, no entanto, muito infelizmente, preferiram participar do Congresso de não tomistas sobre trivialidades tomistas. Escolheram seu lado (aliás, já havia muito o tinham escolhido; mas isto é assunto para outros posts). Agora, a breve mas creio que conclusiva resposta a Carlos Alberto.

1) Antes de tudo, em privado Carlos Alberto me disse que sua opinião se funda em determinadas autoridades, a saber: “Suárez, Lugo, Gonet, Billuart e tantos outros (tomistas e não-tomistas)”. Antes de tudo, diga-se que o argumento de autoridade é por vezes validíssimo: ou seja, se se trata da autoridade do magistério autêntico da Igreja, da das Escrituras, da da tradição, da do consentimento unânime dos Padres quanto a questões de fé e de costumes, e da de S. Tomás, justamente porque é o Doutor Comum da Igreja e porque “sua doutrina”, como disse Pio XI, “é a única que a Igreja fez sua”. Quanto aos demais, o argumento de autoridade nada ou pouco vale. É verdade que devo mais reverência a um Caetano ou a um Báñez que a um Billuart ou a um De Prado. Ainda assim, contudo, não estamos atados a eles por vínculo de autoridade; aliás, o mesmo S. Tomás, conquanto lhe devamos docilidade máxima, não deixa de merecer alguns pouco reparos, até porque sua doutrina, conquanto tenha sido em essência a mesma ao longo de toda a sua produção filosófica e teológica, amadureceu: por exemplo, livrou-se da sombra aviceniana e boeciana para alcançar perfeitamente o eixo de seu pensamento (a distinção real entre essência e ato de ser); mas, dado o ambiente em que se encontrava o nosso Doutor, por vezes até na Suma Teológica ele deixa de usar uma linguagem propriamente tomista para atingir um público majoritariamente aristotélico-platônico. – Quanto porém especialmente aos autores referidos por Carlos Alberto, a nenhum o tenho por autoridade em grau algum. Billuart é de um tomismo que, na terminologia do P. Calderón, eu chamaria fast-food, embora me tenha valido dele na questão disputada “Do Papa Herético”. Gonet e Lugo, nunca os li; mas tampouco me parece que estejam entre os maiores. Quanto todavia a Suárez, meu rechaço é amplo e profundo. Talentosíssimo metafísico, sua metafísica no entanto incorre na superficialidade do “essencialismo” (de que tratarei no livro Questões Metafísicas), além de padecer os efeitos nefastos de sua fracassada síntese de tomismo e scotismo. O pior, porém, reside em sua doutrina política: aprofunda os erros nominalistas do mau tomista Vitoria, nega a ordenação essencial do poder temporal ao poder espiritual, e traz para o seio do cristianismo algo análogo à “vontade geral” de Jean-Jacques Rousseau. (Quanto à doutrina política de Suárez, tratá-la-ei detidamente em “Da História e Sua Ordem a Deus”, apêndice único de meu Comentário ao Apocalipse).

2) Para nós, nesta vida, há dois modos de conhecer a Deus: pelas só luzes da razão (é o que se dá na metafísica, ciência divina); ou por revelação e fé, a partir de cujos princípios se constitui a teologia sagrada (em que a razão se ordena essencialmente à fé); conquanto se possa e deva assinalar um terceiro modo: pela razão iluminada pela fé, com o que se atinge a perfeição da metafísica (perfeição efetivamente só alcançada, porém, por S. Tomás, como o mostrarei nas já referidas Questões Metafísicas). Pois bem, pelas só luzes da razão conheceram a Deus os maiores filósofos pagãos: Anaxágoras e Parmênides conquanto ainda muito primariamente, Sócrates, Platão, Aristóteles sobretudo, Plotino muito imperfeitamente, etc. Mas nenhum deles foi capaz de atingir a perfeição possível do conhecimento de Deus, e isto se deve antes de tudo ao pecado original, cujos efeitos tiraram aos homens a capacidade de conhecer naturalmente a Deus de modo tão perfeito como Adão o conhecera. Como quer que seja, nossa razão é capaz em princípio de conhecer que Deus é, que sua essência é Ser, que portanto Ele é o próprio Ser subsistente por si mesmo, que Ele é eterno, infinito, sumo bem e criador do céu e da terra (embora muitos tomistas não considerem que nossa razão seja capaz por si de alcançar a criação ex nihilo [de nada]; mas defenderei minha posição em livro). Ou seja, pela própria razão podemos superar o apofaticismo absoluto de um Maimônides ou de um Plotino, e conhecer não só que Deus é, mas de certa maneira algo de sua mesma essência. – Por revelação e fé, no entanto, conhecemos de Deus várias “coisas” que não nos é possível de modo algum alcançar pela razão, a mais importante das quais é que, embora Ele seja substancialmente uno, é também trino: Deus são três relações hipostasiadas. Não se trata de distinção de razão, mas de três Pessoas reais. Tampouco nos é acessível senão pela fé que Cristo é uma só pessoa com dupla natureza divina e humana, que Maria o deu à luz virgem, que no final dos tempos os mortos ressuscitarão, que os eleitos de Deus o conhecem e conhecerão por essência na Jerusalém Celeste, etc. Como, todavia, se deixados entregues à sua só razão, só poucos homens ascenderiam ao conhecimento de Deus e só depois de muito tempo e, ademais, com mais ou menos imperfeição (como foi o caso dos filósofos pagãos), Deus nos entrega como artigos de fé “coisas” que a razão poderia em princípio alcançar: Creio em Deus todo-poderoso, por exemplo. É da misericórdia de Deus para com seus eleitos. E mesmo os que podemos alcançar pela razão que Deus todo-poderoso é devemos igualmente tomar como de fé tais artigos. – Como no entanto S. Tomás olhou do cume da fé para a razão que tenta por si ascender ao conhecimento de Deus, ele conseguiu o que Aristóteles não alcançara em sua metafísica: a perfeição desta ciência divina. Pobre e bravo Aristóteles: sem a luz da fé e vítima, ele também, dos efeitos do pecado original sobre nossa inteligência, galgou genial e esforçadamente a mesma e altíssima montanha em cujo cume se viu Tomás, para porém não chegar a atingir este cume e descer rapidamente por falta de fôlego.

3) Pois bem, o que o islã diz de Deus não o diz pelas luzes da razão natural, senão que o crê revelado por Deus mesmo. Nunca houve por aquelas terras um Sócrates, um Platão, um Aristóteles que tivessem antecedido essa suposta revelação. É certo que houve dois grandes filósofos muçulmanos: Avicena e Averróis. Mas eles não fazem senão refratar, pelas lentes algo míopes de Alexandre de Afrodísias e, de certo modo, do mesmo neoplatonismo, o dito por Platão e por Aristóteles. Mais que isso, contudo: para eles havia uma como dupla verdade, a revelada e a filosófica, que não necessariamente deveriam conciliar-se entre si, como se Deus, que é autor não só da revelação mas da mesma razão humana, pudesse contradizer-se de qualquer modo. Portanto, o expresso pelo islã quanto a Deus nada tem que ver com a metafísica.

4) Mas Carlos Alberto, como se pode ler no print abaixo, diz que o Deus do islã e o Deus do cristianismo compartilham “certo corpo predicativo comum”. Ora, como diz S. Tomás na Suma Teológica, ou a verdadeira fé é íntegra (isto é, professa todos os artigos da fé), ou não passa de mera opinião (ainda que se negue tão somente um de tais artigos). Mas o islã nega que Deus uno seja também trino, que Cristo seja Deus, etc. Logo, sua fé não pode passar de opinião (a não ser que caiamos no nefando relativismo religioso vaticano-segundo). Sendo assim, o referido “corpo predicativo comum” não passa de mera semelhança ocasional, ou seja, material, não formal. Não dizer isto, contudo, como não o diz Carlos Alberto, é “vender gato por lebre” e contribuir para debilitar a verdadeira fé, ainda que não tenha sido esta a intenção do nosso Carlos.

Objeção: lê-se no número 225 do Catecismo Maior de São Pio X: Quem são os infiéis? Os infiéis são aqueles que não foram batizados e não creem em Jesus Cristo, seja porque creem e adoram falsas divindades, como os idólatras; seja porque, embora admitam o único Deus verdadeiro, não creem em Cristo Messias, nem como vindo na pessoa de Jesus Cristo, nem como havendo de vir ainda: tais são os maometanos e outros semelhantes” (destaque nosso). Mas, se admitem o Deus verdadeiro, então é verdade que quanto a Ele o islã e o cristianismo têm um corpo predicativo comum e formal, não material. Logo, não procede a crítica a Carlos Alberto.

Solução: como se lê em “Dificuldades quanto aos Catecismos de São Pio X”, opúsculo de meu livro Estudos Tomistas II, “em 1905 São Pio X promulgou uma versão revista de um catecismo de 1765, à qual chamou Compendio della dottrina Cristiana (Compêndio da Doutrina Cristã), atualmente conhecido como Catechismo Maggiore (Catecismo Maior). Seu fim era algo distinto do fim do Catecismo Romano. Este, escrito por uma pequena comissão de cardeais sob supervisão e direção diretas de São Pio V, sem deixar de ser instrumento de formação do povo cristão, visava eminentemente à unificação doutrinal, donde sua considerável extensão. O Catecismo Maior, por seu lado, visava eminentemente à formação do mesmo povo cristão. Mas em outubro de 1912 o santo Pontífice publicou um novo catecismo, de feição algo diferente da do primeiro, ou seja, ainda mais breve (433 perguntas e respostas) e de caráter ainda mais pedagógico, chamado Catechismo della dottrina Cristiana (Catecismo da Doutrina Cristã). Reimpresso numerosas vezes e de difusão ininterrupta em quase todas as línguas ocidentais, este catecismo formou gerações e gerações no século XX, até à tragédia do Concílio Vaticano II. Não se sabe por quê, porém, no Brasil até muito recentemente só teve tradução e curso o Catecismo Maior, ao contrário do que se deu nos demais países. Mas o fato é que o segundo catecismo se publicou, apenas sete anos após a publicação do primeiro, para substituir este. Muito provavelmente, o santo Papa havia considerado insuficiente o primeiro para o fim primordial de seu Pontificado, a saber, a ‘instrução religiosa do povo cristão e em particular das crianças, [porque] grande parte dos males que afligem a Igreja provêm da ignorância de sua doutrina e de suas leis […]’ (da ‘Lettera di approvazione del nuovo catechismo’). Mas muito provavelmente também pesaram em sua decisão de lançar o segundo catecismo algumas imprecisões que havia no primeiro”. Uma delas é justamente o que se diz no número 225 e que transcrevi acima. Tal imprecisão teria decorrido, talvez, do mesmo estado de insuficiência tomista que marcou aquela época (e que não se começaria a superar senão com a promulgação das “24 Teses Tomistas” pelo mesmo S. Pio X e por Bento XV). Mas que fosse imprecisão vê-se pelo que se lê no número 125 do novo catecismo: Chi sono gl’infedeli? Gl’infedeli sono i non battezzati che non credono in alcun modo nel Salvatore promesso, cioè nel Messia o Cristo, come gl’idolatri e i maomettani”, ou seja: “Quem são os infiéis? Os infiéis são os não batizados que não creem de modo algum no Salvador prometido, isto é, no Messias ou Cristo, como os idólatras e os maometanos”. Expurgou-se assim a imprecisão. E, se estas são palavras de sempre do magistério autêntico da Igreja, há que acrescentar-lhes outra sentença sempre expressa não só pelo mesmo magistério, mas pelo consentimento unânime dos Padres (lugar teológico que havemos de receber como de fé, segundo o definido pelo Vaticano I): os deuses de todas as religiões não cristãs são falsos. É verdade que, se a verdade não comporta mais e menos, a falsidade sim: algo pode ser mais ou menos falso. Mas o mais ou menos falso sempre será falso. Ou isso, ou se cai – repita-se – no relativismo e indiferentismo religioso, verdadeiro veneno para a fé. 

AMDG