quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

OUTRA AULA GRATUITA PARA OLAVO DE CARVALHO: INDUÇÃO VERSUS DEMONSTRAÇÃO "QUIA"

                                                                                                                         Carlos Nougué

Em seu afã de enganar as mentes incautas, OdC foi capaz até de confundir indução com demonstração quia ou pelo efeito. Ou será que ele mesmo não as sabe distinguir? Pensando bem, tendo agora a esta segunda possibilidade. Mas por isso mesmo é que tem ainda mais importância esta segunda aula gratuita para OdC, porque, pelo visto, ou seja, pela referida confusão, ele não leu os Analíticos Posteriores de Aristóteles; se todavia os leu, não os entendeu; e, se enfim os entendeu, é incapaz de comunicar corretamente seu conteúdo. Falemos então da distinção entre indução e demonstração quia.

1) Antes de tudo, a diferença entre demonstração propter quid ou pela causa e demonstração quia ou pelo efeito. Insista-se: a primeira procede da causa para o efeito, enquanto a segunda procede do efeito para a causa. Mas toda demonstração supõe uma triangulação, que na demonstração propter quid dá-se da seguinte maneira: o termo que significa a causa deve explicar por que a propriedade, significada pelo predicado de dada proposição, pertence ao sujeito. A explicação consegue dar-se por meio de outras duas proposições. Em uma, assinala-se que a causa pertence ao sujeito: assim, o corpo é causa material do homem; a racionalidade é causa formal do homem; Deus é causa eficiente do homem; o Bem é causa final do homem. Na outra, todavia, assinala-se que a propriedade se segue da causa: a corruptibilidade segue-se de ter corpo; a sociabilidade segue-se de ser racional; o dever de sacrificar-se segue-se de ter a Deus como criador; o agir segundo a virtude segue-se de ter o Bem universal como fim. Como quer que seja, a explicação sempre tem na demonstração propter quid a seguinte estrutura triangular: a propriedade pertence ao sujeito porque a propriedade pertence à causa e a causa se dá no sujeito. Ou, dito de outra maneira: o sujeito é com a propriedade, porque o sujeito é com a causa e a causa é com a propriedade.

2) Por aí já se vê que demonstração mais propriamente científica é a propter quid – porque ciência é o conhecimento certo, perfeito e atual do necessário por suas causas – e não a quia, justamente porque nesta não se demonstra a existência de algo por suas causas, mas por seus efeitos. Em outras palavras, na demonstração quia a causa só se encontra na conclusão. É o que se dá nas cinco demonstrações quia tomistas da existência de Deus, as quais partem do efeito – a criação – para a existência da causa – Deus. Isto porém não quer dizer que as demonstrações quia não tenham lugar na ciência nem que não sejam verdadeiras demonstrações; quer dizer apenas que não são as demonstrações mais propriamente científicas.

3) Exemplos de demonstrações quia.

a) Demonstração quia por efeito convertível. Há demonstração quia se se demonstra, por exemplo, que os planetas estão perto porque não tremeluzem (assinale-se que acompanho aqui o Comentário aos Analíticos Posteriores de S. Tomás). Mas que não tremeluzam não é a causa de os planetas estarem perto; inversamente, não tremeluzem por estarem perto. Os planetas tremeluzem porque em razão da distância nossa vista se nubla ao abarcá-los. Veja-se o silogismo: “Tudo o que não tremeluz está perto. Os planetas não tremeluzem. Logo, estão perto”. “Os planetas” é o termo menor, “não tremeluzem” o termo médio e “perto” o termo maior. As premissas menor e maior são verdadeiras (todo planeta que não tremeluz está perto), verdades porém que se alcançam ou por indução ou pelos sentidos, porque neste caso o efeito é mais notório ad sensum que a causa. Segue-se então a conclusão, que demonstra que “os planetas” estão perto. Não obstante, não se sabe propter quid (por que) estão perto, já que não tremeluzirem não é o porquê de estarem perto, senão que, inversamente, estarem perto é que é o porquê de não tremeluzirem. Para converter, portanto, a demonstração quia em propter quid, é preciso tomar como médio o termo maior (a causa: “não estarem perto”): “Tudo o que está perto não tremeluz. As estrelas estão perto. Por conseguinte, as estrelas não tremeluzem”. Agora, sim, tem-se demonstração propter quid, já que agora se demonstra pela causa primeira e imediata. // Outro exemplo. Pode-se demonstrar que a lua é esférica por meio de seu aumento ou diminuição, porque todo mês aumenta e diminui como o faria uma esfera iluminada, assim: “Tudo o que varia a modo de esfera é esférico. Mas assim varia a lua. Logo, a lua é esférica”. É demonstração quia e não propter quid, porque a lua não é esférica por variar assim, senão que varia assim por ser esférica. Para convertê-la em demonstração propter quid, é necessário permutar os termos médio (efeito) e maior (causa) : “Tudo o que é esférico varia a modo de esfera. A lua é esférica. Logo, a lua varia assim”.

b) Demonstração quia por efeito não convertível. Quando a demonstração quia se faz tomando como médio um efeito mais notório quoad nos (para nós) que, todavia, não se converte com a causa  (termo maior), então não é possível converter a demonstração quia em propter quid. Para que seja convertível, o termo maior (a causa) deve poder converter-se com o médio e exceder o menor. Com efeito, a demonstração quia diz: “O efeito tem sempre tal causa; mas o sujeito tem tal efeito; logo, tem tal ‘causa’”. Para poder convertê-la em propter quid, deve dar-se assim: “A causa tem sempre tal efeito” e “o sujeito tem sempre tal causa”. Tome-se, por exemplo, a seguinte demonstração quia: “O que se desloca a si mesmo tem vida; o animal desloca-se a si mesmo; portanto, o animal tem vida”. O efeito não é convertível. De fato, não é verdadeiro pôr: “O que tem vida se desloca a si mesmo”, porque deslocar-se a si mesmo não é efeito necessário da vida: com efeito, os vegetais têm vida e no entanto não se deslocam. Mas tampouco poderia converter-se uma demonstração propter quid em quia se o efeito não se convertesse com a causa. Tome-se o seguinte silogismo propter quid: “Tem febre, se se lhe acelera o pulso; etc.”, não pode converter-se em quia porque não se pode pôr: “Se se lhe acelera o pulso, tem febre”, porque é um efeito que pode ter outras causas, como o medo ou um esforço físico.

c) Demonstração quia pelo não imediatoHá um caso de demonstração que se costumou chamar quia (e não propter quid) que, contudo, não parte do efeito; trata-se de quando o termo médio é posto fora. Diz-se que o médio é posto fora em dois casos: 1) quando é diverso do termo maior, como sucede no silogismo negativo; 2. quando se dá fora de gênero, como mais comum, e não se converte com o termo maior. Em tais casos, o médio não é causa propriamente dita, razão por que a demonstração não é propter quid. Se, por exemplo, se demonstrasse que a parede não respira porque não é animal, não se demonstraria propter quid, porque não se tomou a causa. Sim, porque, se não ser animal fosse a causa de não respirar, ser animal deveria, conseguintemente, ser a causa de respirar – o que é falso, porque muitos animais não respiram. Para que a negação seja causa da negação, é preciso que a afirmação seja causa da afirmação, e, obviamente, vice-versa: se não estar frio e quente em justa medida é causa de que não se cure, é porque estar frio e quente é causa de que se cure. No caso anterior, todavia, o termo maior é “respirar”, o médio é “animal” e o menor “parede”. A premissa maior, portanto, deve ser afirmativa, porque “respirar” deve estar unido a “animal”; como no entanto a conclusão deve ser negativa, não poderá ordenar-se o silogismo em primeira figura, já que os modos negativos de primeira figura têm sempre negativa a maior (celarent e ferio). Não se pode usar senão a segunda figura (pre-pre): “Tudo o que respira é animal; mas a parede não é animal; logo, a parede não respira” (modo cesare). Vê-se assim que o termo médio é posto fora do gênero do termo maior, porque é mais comum, e não se converte com ele. Se todavia se tomasse um termo médio imediato, então a demonstração seria propter quid, já que daria a causa própria: por exemplo, se se pusesse como termo médio “ter pulmão”, porque o que tem pulmão respira e o que respira tem pulmão, e não ter pulmão é a causa primeira e imediata de não respirar. // Com respeito, contudo, às conclusões, tais médios que são postos fora são causas remotas, comparáveis às máximas ou sentenças excelentes, que excedem a amplitude da conclusão que se deve demonstrar; e por isso se diz que são médios que distam muito. É o que se dá com o argumento de Anacársis (filósofo cita, amigo de Sólon [século VI a.C.]), que prova que entre os citas não há assobiadores porque “eles não têm videiras (ou parreiras)”. Este é um médio muito remoto; mais próximo seria “não terem vinho”, e mais ainda “não beberem vinho”, porque daí se segue a alegria que leva a assobiar.

4) Diz Aristóteles na primeira frase dos Analíticos Posteriores: “Todo ensinamento racional dado ou recebido deriva sempre de um conhecimento prévio”. Isto vale não só para a aquisição da ciência, mas também para a aquisição de todo e qualquer conhecimento. Não obstante, trata-se aqui de todo e qualquer ensinamento “racional”, com o que se exclui o conhecimento sensitivo e imaginativo (oh! pobre da formação do nosso imaginário...); proceder de um a outro não é próprio senão da razão. Para entendê-lo, considerem-se os vários modos de aquisição de conhecimento.

Tal é evidente nas ciências demonstrativas, como a Física, e em todas as artes que procedem, em sua parte especulativa, mediante algum modo de demonstração, propter quid ou quia.

Tal também se dá nas disputas dialéticas, que usam o silogismo dialético (ou seja, não demonstrativo) e a indução, porque ambos estes recursos procedem de algo preconhecido. No silogismo se conclui o universal incluído em outros universais conhecidos; na indução se conclui o universal a partir de singulares manifestos aos sentidos. – Mas, OdC, não pense que a partir disto poderá continuar a enganar os incautos, porque, com efeito, se na indução se parte de singulares evidentes aos sentidos para concluir num universal que não é causa deles, na demonstração quia se parte de efeitos evidentes aos sentidos para concluir necessariamente na causa deles. Além disso, e isto é decisivo, na demonstração quia há, mutatis mutandis, a triangulação referida mais acima, ao passo que na indução não a há de modo algum.

Vê-se o mesmo nas exposições retóricas, uma vez que elas persuadem pelo entimema (ou silogismo truncado) ou por exemplos (porque, como tratam dos atos humanos singulares, nos quais há incerteza e não se podem tomar proposições universais verdadeiras, em lugar do silogismo se usa nestas exposições o entimema [ou silogismo truncado]; e em lugar da indução se usa o exemplo, que do singular não procede ao universal [como na indução], mas também ao singular). Mas, como o entimema é um silogismo truncado e o exemplo uma indução imperfeita, assim como o silogismo e a indução procedem de algo preconhecido, assim também procedem de algo conhecido tanto o entimema como o exemplo.

Isso basta, não, OdC? para mostrar que sua confusão entre indução e demonstração quia procede ou de malícia ou de ignorância. Mas qualquer outra dúvida é só escrever-me.