terça-feira, 5 de janeiro de 2021

AULA GRATUITA PARA OLAVO DE CARVALHO

                                                                                                                         Carlos Nougué

Nota prévia: este texto foi escrito para o Facebook.

Hoje me veio perguntar alguém, cujo perfil era patentemente falso – provavelmente um olavete, ou até o próprio Olavo de Carvalho –, qual a diferença entre demonstração lógica e demonstração metafísica, já que OdC metera os pés pelas mãos neste assunto e eu o assinalara. Pois bem, dou-lhe(s) uma aulinha de graça, sobre coisas que os alunos da Escola Tomista já estão “carecas” de saber.

1) Toda ciência se especifica por seu sujeito, ou seja, por aquilo em torno do qual giram ou ao qual se atribuem suas causas, seus efeitos, suas propriedades. Tomemos as três ciências principais. A Lógica tem por sujeito as relações de razão em toda a sua formal universalidade. A Física, o ente móvel. E a Metafísica, o ente enquanto ente. E já é exatamente a partir disto que se distinguem entre si as demonstrações nas três ciências.

2) Com efeito, na Lógica as demonstrações se fazem com entes de razão de segunda intenção (também chamados universais lógicos), ou seja, com fundamento remoto na realidade: gênero, espécie, etc. Em sua mútua relação, tais entes são como a argamassa de todas as demonstrações físicas e metafísicas. Mas entre estas há diferenças, resultantes da diversidade de sujeitos das duas ciências.

3) Na Física, as demonstrações dão-se com entes de primeira intenção (também chamados universais metafísicos), ou seja, com fundamento próximo na realidade: animal, homem, etc. Assim, por exemplo, demonstra-se nas ciências físicas ou naturais que o homem é animal racional, ou seja, que está para o animal assim como a espécie está para o gênero na Lógica.

4) Na Metafísica, também temos entes de primeira intenção. Mas aqui não se trata de demonstrar que o homem é animal racional, e sim como o universal homem ou animal racional se dá, na realidade mesma, em multidão de indivíduos: José, Maria, Joaquim, Sônia, etc.

5) Ou seja, estamos no âmbito da árdua questão dos universais (e lembre-se que sairá um livro meu intitulado Tratado dos Universais – do Verbo Cordial ao Verbo Vocal). E, com respeito aos universais, há três posturas. A primeira nega a própria existência dos universais: é o nominalismo, o empirismo, etc. A segunda exagera a realidade dos universais a ponto de considerá-los como existentes em si: é o platonismo ou realismo exagerado, sempre tendente a algum idealismo. E a terceira é a aristotélico-tomista (assumida, nas “24 Teses Tomistas”, pelo magistério da Igreja): segundo Aristóteles e Tomás de Aquino, os universais só existem como tais, ou seja, em si mesmos e à parte, na mente que os abstrai; mas existem imanentemente de algum modo na multidão de indivíduos que estão sob as espécies. É o realismo sem mais. (Costumou-se equivocadamente chamar ao realismo aristotélico-tomista realismo moderado, como se fosse um termo médio entre o nominalismo e o realismo exagerado. Mas isto é concessão dos tomistas ao ambiente criado nas universidades a partir do nominalismo. Sim, porque, entre um Santo Anselmo [realista exagerado] e um Guilherme de Ockham [nominalista], há a imensa diferença de que o primeiro está no caminho da verdade, conquanto não chegue a alcançá-la, ao passo que o segundo alcança a falsidade mais cabal. Ademais, se o realismo aristotélico-tomista é a verdade quanto aos universais, não tem o menor cabimento qualificá-lo, ao modo de diferença específica, de “moderado”. É o realismo simpliciter, puro e simples: a solução definitiva para um dos mais intricados problemas filosóficos.)

Observação. Se OdC quiser, ele, que é tão escasso de recursos... dar-lhe-ei assistência gratuita na Escola Tomista. Não há idade para enfim sair da formação do imaginário e adentrar a ciência...