sábado, 12 de setembro de 2020

AS DIVERSAS CORRENTES NA IGREJA ATUAL (republicação revista)

Carlos Nougué

I
O modernismo conservador
e sua hermenêutica da continuidade

1) Segundo o modernismo vitorioso no Concílio Vaticano II, a Igreja vive da experiência do mistério de Cristo. Sucede, porém, que os homens que a compõem necessitam expressar esta vivência. A Revelação oferece-lhes para isso a Escritura, que é a própria expressão da experiência dos primeiros discípulos. Mas, depois, em cada época é preciso reexpressar a experiência do mistério de Cristo, como um Evangelho reencarnado nas condições históricas e culturais do momento. Para tal se unem a Hierarquia e o conjunto dos fiéis, que meditam a Palavra e a exprimem numa pluralidade de teologias, ao passo que a Hierarquia deve unificar tais teologias para que se tornem de fato eclesiais: é a “autenticação” da interpretação comum. Veja-se que tal aberração só é possível por uma inversão herética: agora, a Hierarquia deixou de ser docente e os fiéis discentes, porque estes são dotados por si e em conjunto de um infalível senso da fé, ao contrário do definido, por exemplo, pelo Vaticano I, segundo o qual a Igreja em conjunto só é indefectível na fé porque o Papa e os Bispos a tornam tal. 
2) É a hermenêutica da continuidade, a doutrina hegeliana do modernismo conservador. Em tal processo de reinterpretação contínua, há três momentos: o início (a tese), o movimento (a antítese) e o termo ou término (a síntese), que requerem três modos de intervenção do Magistério. 
a) Primeiro: a insistência na tradição dogmática, como se vê, por exemplo, nas encíclicas de Paulo VI Mysterium Fidei, de 1965, e Humanae vitae, de 1968; na “Profissão de Fé” e no “Juramento de Fidelidade” promulgados pela Congregação da Doutrina da Fé em 9 de janeiro de 1989, com aprovação de João Paulo II; na Carta apostólica Ordinatio sacerdotalis, do mesmo João Paulo II; talvez no Motu proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI; etc. Como diz o Padre Calderón no estupendo opúsculo “La autoridad doctrinal del Magisterio conciliar”, se há algum grau de autoridade nos documentos conciliares e pós-conciliares, encontra-se nos documentos deste momento de “tese”. Mas, se o há, será menor ou ínfimo, justamente porque este momento se subordina ou ordena aos dois seguintes. 
b) Segundo: as contribuições do Papa, enquanto mero membro da Igreja, para a reflexão do conjunto de seus membros, como se vê pela grande maioria das confusíssimas encíclicas pós-conciliares, que, como já se disse, poderiam definir-se como “cartas de unidade”. O grau de autoridade destas encíclicas é nulo, e nem sequer, a nosso ver (como o dizemos em Do Papa Herético), pode ter-se por magistério autêntico. Reduzem-se de algum modo, a meu ver ainda, a magistério de doutores privados. Não por nada, com efeito, João Paulo II começa a substituir em suas encíclicas o “Nós” pelo “eu”. 
c) Terceiro: os documentos de síntese, como o são os do Vaticano II e o “Catecismo da Igreja Católica”. Sua autoridade é igualmente nula, por sua mesma intenção. É o caso, repita-se, do CIC, a mais perfeita concretização da Lumen Gentium, e cuja autoridade é negada em seu próprio bojo. Com efeito, ao tratar “A interpretação do depósito da fé” (n. 84), diz o CIC antes de tudo: “O depósito da fé confiado à totalidade da Igreja. O depósito sagrado da fé... foi confiado pelos apóstolos ao conjunto da Igreja”, pastores e fiéis juntos. E passa a sustentar e explicar a herética noção de “senso da fé infalível por parte do conjunto da Igreja por si”. 
Observação: por isso mesmo é que a alteração feita por Francisco no CIC com respeito à pena de morte é nulíssima: nulidade de nulidade. 
3) Alguns ilustres membros da Hierarquia, como D. Athanasius Schneider e D. Carlo Maria Viganò, vêm deixando de ser modernistas conservadores para passar a tradicionais. Mas há que ver se terminarão no tradicional em sentido estrito ou no chamado (pelo Padre Calderón) “tradicionalismo crítico”.

II
progressismo

1) Vimos já a dialética de cariz hegeliano que saiu vitoriosa no Concílio Vaticano II: segundo ela, o conjunto da Igreja tem um senso da fé infalível por si, o que faz que o Magistério da Igreja deponha a autoridade e o carisma da infalibilidade que Cristo lhe deu em matéria doutrinal. É a dialética do modernismo conservador e sua hermenêutica da continuidade, cujos expoentes foram Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.
2) Mas desde o Concílio Vaticano II atuou a corrente progressista, ou seja, aquela que despreza o primeiro momento da referida dialética (o da tradição da Igreja) e por isso defende posições evidentemente heréticas sem nenhum pudor. Para esta corrente, importaria sobretudo o terceiro momento daquela dialética, a saber, o resultante da consulta à pluralidade de posições teológicas do Povo de Deus. Mas atente-se ao seguinte.
a) Isto de que o Magistério deve seguir um infalível senso da fé do conjunto do Povo de Deus por si (doutrina comum a conservadores e progressistas) é tão falso como dizer que na democracia liberal quem manda é o povo. Com efeito, assim como nesta quem manda de fato são os poderes plutocráticos, partidários e midiáticos, assim também na Igreja iniciada pelo Concílio Vaticano II quem manda são os “peritos”, ou seja, os neoteólogos vitoriosos no Concílio, e a hierarquia que os segue.
b) Depois, em verdade o progressismo evidencia as raízes ocultas do mesmo e mais tímido modernismo conservador, razão por que é de todo lícito recorrer a seu extremismo para explicar a tragédia conciliar. Um exemplo: segundo alguns, a missa nova foi uma traição à Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia, indo além, em suas mudanças, do que pretendera o Concílio, mas o fato é que foram os mesmos os que redigiram o documento conciliar e que empreenderam a reforma litúrgica. Mais ainda: em setembro de 1965 Paulo VI emitiu a já referida Encíclica Mysterium Fidei, uma defesa do caráter sacrifical da missa, o mesmo Paulo VI que depois aprovaria uma missa, a nova, antes memorial que sacrifical, de cuja forma ou fórmula da consagração do vinho se chegou a tirar a própria expressão “myterium fidei”! (Se isso torna por si inválida a missa nova ou não, é o que estudarei alhures.) Ademais, como mostra Michael Davies em vários passos de sua obra, os conservadores tentavam impedir maiores radicalizações na missa nova, mas, diante de fatos consumados pelos progressistas, acabavam por incorporá-las...
3) Nada disto, é claro, implica dizer que não há diferenças entre modernistas conservadores e progressistas, conquanto não se deva exagerar quanto a elas. Mas o fato é que tanto as há, que vemos hoje desenrolar-se certo conflito entre ratzingerianos (como o Cardeal Sarah ou o Cardeal Müller, por exemplo) e bergoglianos, em torno por exemplo do celibato, dos “dubia” quanto à Amoris laetitia, do Sínodo da Amazônia, da Pachamama, etc. Não se trata de uma invenção da mídia ou de um jogo de cena. É que pela primeira vez desde o Concílio um progressista se torna papa, o que afeta aquele resquício de apego à tradição que têm os modernistas conservadores. Francisco adere ao mundo de modo muito mais despudorado que seus antecessores.
4) Por outro lado, todavia, em verdade é mais coerente que estes. Diz ele com perfeito e cru realismo: “Também no campo ecumênico o caminho vem de longe, com os passos de meus antecessores. Esse é o caminho da Igreja [pós-conciliar]. Não sou eu. Eu não dei nenhuma aceleração. À medida que seguimos em frente, o caminho parece ir mais rápido, é o ‘motus in fine velocior’”.
5) Cabe porém perguntar ainda uma coisa: se é indiferente para a Igreja a luta entre ratzingerianos e bergoglianos. E deve dizer-se que não. Sempre devemos rezar para que as coisas não piorem. Dizer-se indiferente a isto é postura que ao menos tangencia o sedevacantismo. Obviamente, se Sarah se fizesse papa, teríamos certo respiro; e, apesar de ao fim e ao cabo, por seu compromisso com o erro, ter por efeito próprio o esvaziamento da tradição, a hermenêutica da continuidade pode, acidentalmente, ao frear a velocidade da ação do mal, reacender de algum modo na Santa Sé o fogo da caridade verdadeira (Padre Calderón dixit). Ademais, tenhamos certeza de que, dado o caráter monárquico da Igreja, não haverá solução para sua terrível crise atual senão a partir de cima, ou seja, com a conversão de algum papa à tradição por moção do Espírito Santo (como, mutatis mutandis, ocorreu com Pio IX).
Observação: o Espírito Santo não deixa de atuar nem sequer sobre os papas problemáticos. É evidente que, quando se tornam papas, os modernistas se fazem mais conservadores em algum grau. Foi o caso claríssimo de Bento XVI, e é até o caso de Francisco, que negou, por certo apego à tradição, a ordenação de mulheres (“Quem quiser ordenar mulheres”, disse, “procure outra religião”) e acaba de excomungar um padre LGBT.

III
Os tradicionalismos

1) O tradicionalismo atual, que não se deve confundir com o tradicionalismo condenado pelo Vaticano I, começou ainda no Vaticano II com a organização do Coetus Internationalis Patrum, formado por vários padres conciliares (os cardeais Giuseppe Siri, Alfredo Ottaviani, Arcadio Maria Larraona Saralegui, Ernesto Ruffini, Michael Browne, Antonio Bacci, Benedetto Aloisi Masella, Francis Spellman,  Fernando Quiroga y Palacios, José María Bueno y Monreal,  Rufino Jiao Santos; os bispos ou arcebispos Marcel Lefebvre, Casimiro Morcillo González,  Geraldo de Proença Sigaud, Ermenegildo Florit,  Thomas Benjamin Cooray, Georges Cabana, Alfredo Silva Santiago,  Joseph Marie Anthony Cordeiro, Secondino Petronio Lacchio, José Maurício da Rocha, Antônio de Castro Mayer, Luis Carlos Borromeo, Luigi Maria Carli; o abade de Solesmes Jean Prou; além de 250 outros prelados participantes no Concílio). Seria ocioso dizer que este grupo se formou em reação às organizadíssimas correntes progressistas que estavam a dominar, por diversos meios, os trabalhos e as votações na aula conciliar. Mas o Coetus Internationalis Patrum não resistiria ao fim do concílio: o grupo desfez-se em multidão de atitudes diferentes ante o resultado do Vaticano II; e a atitude mais célebre foi a de Dom Marcel Lefebvre, que com o apoio de Dom Antônio de Castro Mayer fundaria a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ordenaria unilateralmente quatro bispos para preservar a fé e o sacerdócio, e seria, com seus quatro bispos e com Dom Antônio, iniquamente excomungado por João Paulo II. Mas a FSSPX tornar-se-ia a coluna da tradição, apesar de encontrar-se fora da jurisdição pela excomunhão de seus bispos, e apesar do fracionamento dos tradicionalistas em muitas correntes, a maioria das quais acabaria por empreender um acordo canônico com as autoridades vaticanas. (Note-se, porém, que Bento XVI suspenderia a excomunhão dos quatro bispos da FSSPX, o que, todavia, por diferentes motivos, não foi suficiente para que as duas partes chegassem a um acordo canônico.)
2) Para quem leu as duas primeiras partes deste opúsculo, seria muito de esperar que nesta parte tratássemos antes das divergências e antagonismos entre os grupos tradicionalistas que fundam suas diversas cristalizações, divergências e antagonismos esses que giram principalmente em torno da licitude ou ilicitude de um acordo canônico com o Vaticano neomodernista. No entanto, embora até uns quatro anos atrás nós também estivéssemos grandemente envolvido em tal disputa, hoje, tradicional independente, já não o estamos – e pretendemos mostrar aqui que o que essencialmente separa os tradicionalistas não é a questão canônica, mas algo que em princípio os divide independentemente dos grupos a que pertençam. Trata-se da divisão entre tradicionalismo “dócil” e tradicionalismo crítico. Esta divisão foi proposta primeiramente pelo Pe. Álvaro Calderón, em especial na segunda edição de seu La lámpara bajo el celemín (“A Candeia debaixo do Alqueire”), sem todavia o aspeado “dócil”, de que lançamos mão nós mesmo. Adotamos sua divisão, mas com desdobramentos por que somos de todo responsável.
3) Mas algo ainda prévio: o sedevacantismo. À primeira vista poderia parecer que os sedevacantistas constituem, eles também, um grupo tradicionalista. Não são todavia tradicionalistas. Como já se disse, sua doutrina é uma como vertigem e, como mostramos cremos que cabalmente no livro Do Papa Herético, implica a enormidade de que a Igreja teria acabado, contra as promessas de Cristo e contra o definido pelo Vaticano I. Não serão, portanto, levados em consideração aqui.
4) O que chamamos tradicionalista “dócil” é o que se funda de algum modo, em seu mesmo tradicionalismo, numa absoluta docilidade ao magistério da Igreja, e que reconhece a assistência do Espírito Santo não só para as definições infalíveis, mas, em algum grau ou de algum modo, para todos os atos de magistério autêntico. Se se opõe ao chamado magistério conciliar (ou seja, o do Vaticano II e dos papas que o seguem, exceção feita talvez e de certo modo, dizemo-lo nós, aos documentos referidos no item 2a da primeira parte deste estudo), se se opõe a ele, portanto, é porque ele mesmo rejeita tal assistência, ao depor sua autoridade e seu carisma para subordinar-se a um suposto senso da fé infalível de todo o Povo de Deus por si. O tradicionalismo “dócil” é a posição que se consolidou definitivamente com a referida obra do Pe. Calderón, de que nós mesmo somos caudatário. Mas note-se que, na citada segunda edição de La lámpara..., o Pe. Calderón, que é da FSSPX, arrola entre os tradicionalistas críticos o outro grande teólogo da mesma Fraternidade: o Pe. Gleize. Propõe-lhe ali, no entanto, uma conciliação doutrinal, e parece que tal conciliação se deu, porque, segundo nos dizem, a segunda edição de outro livro do Pe. Calderón, Prometeo o la religión del hombre, conta com um texto do mesmo Pe. Gleize. Deo gratias. Mas tampouco comunga do tradicionalismo “dócil” qualquer sacerdote que, por exemplo, rechace de algum modo as encíclicas Divino afflante Spiritu e Humani generis, de Pio XII, por considerar que facilitaram nisto ou naquilo o avanço do neomodernismo. Quanto à chamada Resistência, uma cisão mais recente da FSSPX, não nos sentimos seguro para dizer se nela há tal divisão entre tradicionalistas “dóceis” e tradicionalistas críticos.
5) Mas o tradicionalismo crítico subdivide-se.
a) Há, antes de tudo, tradicionalistas como os referidos no ponto anterior, os quais, por não entender que o conjunto do magistério autentico é assistido em algum grau pelo Espírito Santo, razão por que seus documentos não podem encerrar erros (quando muito, imprecisões), nem que ao Magistério conciliar não lhe podemos desobedecer senão porque ele mesmo depôs sua autoridade e carisma, se arvoram em juízes do magistério. É o caso por exemplo, ainda, de um Roberto de Mattei (vide seu livro Apologia da Tradição).
b) O segundo grupo de tradicionalistas críticos distingue-se por algo mais complexo. Vão desde a aceitação de alguns documentos do Vaticano II e do magistério conciliar (documentos que estão entre os descritos nos itens 2b e 2c da primeira parte desta série) até a aceitação "crítica" de todos os documentos do Vaticano II. No primeiro caso encontramos talvez (pelo que pudemos ouvir de apenas um de seus sacerdotes brasileiros) o Instituto Bom Pastor, entre outros. No segundo, tradicionalistas isolados como Dietrich von Hildebrand e Michael Davies. Especialmente estes têm de entregar-se a verdadeiros malabarismos mentais para justificar que, sendo de algum modo infalível (em sua opinião) qualquer concílio, não o seria de modo absoluto qualquer papa (que porém é superior a qualquer concílio, e sem o qual nenhum concílio pode ser infalível). Assim, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II não incorreria em desvio da fé, mas o Papa Paulo VI sim, de algum modo, ao instituir o “Novus Ordo Missae” em 1969.   
Observação final 1: naturalmente, nem sempre a fronteira entre os tradicionalistas críticos das duas subclasses descritas em 5b é perfeitamente nítida.
Observação final 2: uma última palavra. Definitivamente a FSSPX e a Resistência não são cismáticas, mas antes mantenedoras da fé e do sacerdócio, e devem dizer-se antes vítimas da iniquidade do neomodernismo vitorioso no Vaticano II.