sexta-feira, 19 de junho de 2020

QUANTO A CHARLES MAURRAS QUEM TEM RAZÃO? PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA? ORLANDO FEDELI? DOM MARCEL LEFEBVRE? OU...?


Carlos Nougué

1) Charles Maurras (1868-1952) foi um direitista francês, agnóstico (dizem que se converteu nos últimos dias de vida), monarquista, nacionalista extremado, positivista e fundador da Action Française, a qual combatia o comunismo e a democracia liberal e congregava numerosos católicos, alguns dos quais muito importantes. O lema de Maurras era “a Cidade [ou seja, a pólis] e a Deusa França antes de tudo”. Maurras foi excomungado por Pio XI, e então muitas obras suas foram postas no Index; depois Pio XII suspenderia sua excomunhão, mas não a inclusão de seus livros no Index. Não me aprofundarei aqui em sua biografia e em seu pensamento, porque me basta o dito e, ademais, porque já os estudou com suficiência Orlando Fedeli (aqui: http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/maurras1/). A este importante texto de Fedeli, porém, já farei certas considerações críticas.
2)  Para o que dizia de Maurras o fundador da TFP, Plínio Corrêa de Oliveira, veja-se aqui: http://www.oprincipedoscruzados.com.br/2014/06/d-lefebvre-e-seu-amor-pelo-movimento.html. Este artigo do “Príncipe dos Cruzados”, porém, tem por principal objeto vincular um suposto apoio de D. Marcel Lefebvre a Maurras com o que o bispo francês fez em reação ao magistério conciliar, o que não é nada liso em estritos termos argumentativos, como já se verá. Mas ali está, resumidamente, o pensamento de Plínio quanto a Maurras. A crítica todavia que devo fazer a Plínio quanto a isto é pouco mais ou menos a mesma que faço a Fedeli, como já se verá.
3) Com seu tom sempre áspero, Fedeli critica com justeza o fato de que católicos aderissem (ou ainda adiram) a um movimento, a Action Française, não católico e laicista, cujo lema expressava sua tendência ao fascismo e sua dependência de um mal entendido aristotelismo. Com efeito, digo eu, Aristóteles dizia que a Política é arquitetônica com respeito às demais ciências práticas, mas não punha a cidade ou pólis antes de tudo, senão que a punha a serviço da “bíos theōrētikós”, da vida contemplativa ou teorética, que, dizia o Estagirita, é a vida feliz. Nada mais distante do pensamento de Maurras. Antes no entanto de prosseguir com Fedeli, vejamos como historicamente foi possível que tantos católicos importantes aderissem à Action Française.
4) Com efeito, a doutrina da realeza de Cristo, que se consubstancia na ordenação ESSENCIAL do poder temporal ao espiritual – já que o Papa é o vigário de Cristo –, estava definida desde que Cristo mesmo dissera a seus discípulos: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações o que vos tenho ensinado, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Traduziu-a em termos infalíveis e dogmáticos o magistério da Igreja, sobretudo com a bula Unam Sanctam (1302), de Bonifácio VIII. Mas este mesmo grande papa, tão caluniado pelos liberais “católicos”, sofreu uma grave afronta e prisão do ambicioso e rebelde rei francês Felipe, o Belo. A partir de então, os papas deixaram de repetir a doutrina da ordenação essencial do poder temporal ao espiritual até nada menos que o século XX, ou seja, não a repetiram nem sequer o Concílio de Trento e o do Vaticano (I). Os próprios tomistas, desde a Escola de Salamanca e contra o mesmo Mestre Tomás de Aquino, vieram deformando a doutrina de Bonifácio VII, o que se rematou na alta traição de Maritain com seu nefando “humanismo integral”. Até que surgisse o Cardeal Pie de Poitiers no século XIX, só o jesuíta São Roberto Belarmino (1542-1621) sustentara a doutrina magisterial (ainda que com terminologia algo imprópria). No século XX, no entanto, seguindo ao Cardeal Pie, São Pio X toma por lema de seu pontificado “restaurar tudo em Cristo”; mas caberá a Pio XI a honra de retomar e aprofundar cabalmente a doutrina magisterial da ordenação essencial do temporal ao espiritual, com sua encíclica Quas primas, que porém a maioria dos católicos considerou como escrita meramente para instituir a festa de Cristo Rei. É que mesmo muitos católicos que se diziam antiliberais já não sabiam ou não entendiam perfeitamente a doutrina, de modo que os seguidores, por exemplo, do jesuíta Francisco Suárez (1548-1617), outro grande corruptor da doutrina magisterial, eram capazes de não ver maiores problemas em aderir à Action Française, porque esta combatia justamente a democracia liberal e dizia defender a Igreja (ainda que não dissesse que devia submeter-se essencialmente a ela!). Do mesmo modo, se o Concílio Vaticano II, como diria D. Marcel Lefebvre, teve por objetivo maior o liberal destronamento de Cristo, nem por isso os antiliberais de então foram muro de contenção suficiente para impedi-lo (veja-se, por exemplo, o esquema preparatório para o concílio sobre as relações entre estado e Igreja, redigido pelo conservador Cardeal Ottaviani e ferido, ele mesmo, de certo liberalismo – o que aprofundarei no livro Da História e Sua Ordem a Deus).
5) Sucede contudo que Orlando Fedeli, como pouco mais ou menos Plínio Corrêa de Oliveira, critica a adesão dos católicos à “totalitária” e “socializante” Action Française porque o totalitarismo nacionalista socializante seria um mal maior que a democracia e o capitalismo; e invoca para tal a condenação de tal totalitarismo pelo mesmo magistério da Igreja. Mas o professor paulista diz apenas uma meia-verdade, ou seja, ao fim e ao cabo uma falsidade: porque, com efeito, o magistério, desde ao menos Pio IX até Pio XII, condenou dura e explicitamente não só o capitalismo, mas a democracia liberal. Baste-me transcrever este trecho de São Pio X: “A democracia é uma religião mais universal que a Igreja [...]. Resulta do grande movimento de apostasia organizado em todos os países para o estabelecimento de uma Igreja Universal que não terá dogmas, nem hierarquia, nem regra para o espírito, nem freio para as paixões” (Pio XNotre charge apostolique). Mas, pergunto-me, pode-se conceder a Fedeli que a democracia liberal ao menos dá mais liberdade que o totalitarismo para a propagação da fé e que portanto deve preferir-se à tirania? Respondo: o que foi a história da democracia laica e liberal em todo o mundo, quase sempre, senão um ataque frontal à Igreja e sua doutrina da realeza de Cristo? E não era exatamente isto o que se dava na França do tempo da Action  Française, razão por que, ao que parece, São Pio X e Bento XV viam no movimento de Maurras um mal menor que a democracia liberal e por isso, ainda que julgando se devesse pôr no Index os livros de Maurras, não o fizeram? Não teria errado portanto Pio XI, ao fazê-lo e excomungar Maurras, em termos de prudência política? Leia-se o que dizia Mons. Sévin, Arcebispo de Lyon: “Na obra literária ou filosófica de M. Charles Maurras, há uma centena de proposições contrárias à fé e aos costumes. O Sr. Maurras é digno de ser condenado, ninguém o duvida”. Mas o arcebispo também considerava que uma condenação de Maurras seria muito inoportuna nas circunstâncias de então, porque, se “o Sr. Maurras não escreveu ou ensinou senão erros agnósticos, ele também deu golpes muito duros no Sillonismo, no Liberalismo, no Democratismo”. Assim, condenar obras de Maurras forneceria a seus adversários um pretexto “para concluir que tudo o que este escritor publicou, especialmente o que justamente ia contra eles, é rejeitado [pela Igreja]”.

Observação 1. Diga-se, em honra da justiça, que o mesmo Fedeli diz que a opinião deste arcebispo é “equilibrada”.
Observação 2. Contra porém o que diz Fedeli quanto à democracia como um mal menor, insista-se em que nem sempre o é. Com efeito, como mostro no livro Estudos Tomistas – Opúsculos II, para Santo Tomás de Aquino, se se trata das três corrupções dos regimes políticos, é preferível a democracia à oligarquia e à tirania, porque, com efeito, na democracia menos são oprimidos, além de que o caos que comumente nela se gera – no qual pugnam entre si os maus – permite aos virtuosos certo respiro. Dizê-lo, todavia, é pouco, continuava o nosso Santo. Porque, se a tirania não é excessiva, senão que o tirano ainda propicia algum bem comum à pólis, devemos preferi-la não só à oligarquia e à democracia, mas até à mesma aristocracia e à mesma politia (a democracia não democratista antiga).  
Observação 3. Assim, portanto, para os católicos de então, parece que a Action Française devia considerar-se um mal menor. Seu erro, todavia, era considerá-la um bem. – Aliás, causa-me estupor ouvir hoje alguns católicos, digamos, conservadores criticar o inepto Bolsonaro e a bisonha direita em nome da democracia e da liberdade de expressão... Assim, a emenda é pior que o soneto; e tais conservadores não passam, eles mesmos, de perfeitos liberais.
Observação 4. Aliás ainda, e pelo que se vê no texto de Fedeli, parece que Maurras também era inepto... ainda que, por impossível, não tanto como Bolsonaro e nossa direita!

6) Por todo o dito, vê-se que multidão de tradicionalistas se equivoca ao apoiar Maurras e a Action Française – e nisto tem razão Fedeli. Mas o que os da TFP não sabem ou não referem é que, segundo o Padre Guillaume de Tanoüarn (cf. https://fratresinunum.com/2011/05/03/dom-marcel-lefebvre-20-anos-depois-%E2%80%93-o-nosso-dever-de-devocao/), Dom Marcel Lefebvre não conhecia a obra de Maurras e que as citações de Maurras em epígrafe de certos capítulos de sua obra Ils l’ont découronné são de Dom Tissier Mallerais (Charles Maurras tinha sido padrinho de casamento de seus pais), um dos quatro bispos sagrados por D. Lefebvre. Aliás, D. Lefebvre foi, junto com Pio XII, o grande apoiador do movimento de Jean Ousset, La Cité Catolique, pelo reinado de Cristo nas sociedades (cf. https://marcellefebvre.info/pt/content/16078?fbclid=IwAR3brqkGOE8YKIH1KNqjgiCP7OlMRw41BMmBcDff2Fhtfyl_eUIhSFp2SDU) e o único dos antigos conservadores que entendeu, depois do Concílio Vaticano II, que a revolução operada por este residiu antes de tudo em destronar a Cristo. Parece pois que, além de sua coragem ao enfrentar o mundo para salvar a fé e o sacerdócio, D. Marcel Lefebvre não apoiaria a doutrina de Maurras se a conhecesse. Se porém não estiver correto o Padre Guillaume de Tanoüarn quanto a isto, todo o restante da obra de D. Lefebvre compensaria largamente essa sua deficiência teológica – ainda que nem por isso o devêssemos seguir nesta, mas superá-lo.