quinta-feira, 4 de junho de 2020

AINDA SOBRE O INCONVENIENTE LIVRO “O FIM DOS TEMPOS E SETE AUTORES MODERNOS", DO PE. ALFREDO SÁENZ, SJ


Carlos Nougué

Em um texto anterior, referi-me criticamente ao livro citado no título deste texto. Agora devo explicá-lo, devo aprofundá-lo.
1) Antes de tudo, este é o único livro do Padre Sáenz que li, razão por que obviamente me é impossível falar do conjunto de sua vasta obra. Falarei pois aqui somente do livro em questão, publicado pelo Centro Dom Bosco.
2) O título do livro é autoexplicativo. Mas seus problemas começam pela escolha mesma dos autores de que trata.
a) Entre os sete autores de que trata, está o literato russo Dostoiévski. Ora, não só é inconveniente invocar a literatura para tratar qualquer tema filosófico e sobretudo teológico, e ainda mais se se trata de tema tão árduo como o fim dos tempos, senão que o escritor russo é furibundamente anticatólico. Defensor de um pan-eslavismo de todo contrário a Roma e à cristandade ocidental, seus romances não raro destilam seu ódio à Igreja Católica. Independentemente, pois, dos méritos literários deste russo, como incluí-lo neste livro, que se quer católico?
b) Algo – digamos – não tão grave, mas igualmente problemático, é a inclusão entre os sete autores de outro russo, Vladimir Soloviev. Este não odeia a Igreja Católica, mas, prevendo a reunificação dela e da ortodoxa para o fim dos tempos, diz que cada uma tem algo que acrescentar à outra. Ora, se algo se acrescenta a outro, é porque este outro não é perfeito, ou seja, porque lhe falta algo. Mas isto é herético. E o interessante é que o próprio Papa João Paulo II, ainda que imbuído do espírito do Vaticano II, disse isto mesmo ao dirigir-se à Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé: “Para dar remédio a esta mentalidade relativista, é necessário, antes de tudo, afirmar o caráter definitivo e completo da revelação de Cristo. […] É, portanto, contrária à fé da Igreja a tese que afirma o caráter limitado da revelação de Cristo, a qual encontraria seu complemento nas outras religiões. […] É, portanto, errado considerar a Igreja como um caminho de salvação junto aos propostos por outras religiões, os quais seriam complementares à Igreja, ainda que convergentes com ela para o Reino escatológico de Deus [exatamente o que diz Soloviev]. Deve-se, pois, excluir certa mentalidade indiferentista ‘marcada por um relativismo religioso que termina por pensar que uma religião equivale a outra’ (Redemptoris missio, 36)” (“Sólo la Iglesia Católica es sacramento universal de salvación”, Discurso a los participantes de la Asamblea Plenaria de la Congregación para la Doctrina de la Fe, 28/01/00, 02/02/00, em www.noticiasglobales.org).
c) E o que dizer da inclusão do Padre Leonardo Castellani, que fora um dos alvos do decreto do Santo Ofício (da década de 1940) assinado por Pio XII segundo o qual “o sistema do milenarismo mitigado não pode ser ensinado sem perigo [para as almas]”? Pois é exatamente este sistema o que o Padre Castellani sustenta no texto incluso no livro do Padre Sáenz, que chega a dizer que a doutrina milenarista de Castellani não cai sob a interdição do referido decreto... Tanto cai, que Mons. Juan Straubinger, grande tradutor da Bíblia e companheiro de milenarismo de Castellani, deixou de sustentar esta doutrina assim que saiu o decreto (como se pode ler em nota à sua mesma tradução da Bíblia). É verdade que o prefaciador do livro lançado pelo CDB, Leonardo Penitente, diz ali mesmo que o milenarismo mitigado é um erro e que a obra por ele prefaciada deve ser lida com cautela. Muito bem. Mas haveria que acrescentar que deve ser lida com cautela por teólogos – e simplesmente não deve ser lida pelo público em geral, que não tem armas para defender-se intelectualmente diante de um autor brilhante mas defensor de algo interditado como o é o Padre Castellani. Mas é o que eu já disse no outro texto: infelizmente, multidão de importantes bispos, padres, juristas, etc., hispânicos tem em Castellani uma referência, mesmo quando sustenta algo, repita-se, interditado, e despreza assim o magistério da Igreja.
3) Poder-me-ão porém retrucar: Mas o Cardela Joseph Ratzinger elogia o livro em carta (publicada na edição do CDB) ao Padre Sáenz. Respondo: Ele o faz como doutor privado, não como Magistério. Pio XII, porém, ao assinar o referido decreto do Santo Ofício, fê-lo como Magistério supremo, como Papa, “in persona Christi”, e portanto com assistência do Espírito Santo. A conclusão impõe-se.
NOTA FINAL. Não tenho a menor ideia de se o CDB é milenarista. Mas está à vista de todos que publicou um livro inconveniente, este do Padre Sáenz. E isso me basta: é só o que eu queria dizer.