segunda-feira, 9 de março de 2020

O CAMINHO PARA A SABEDORIA


Carlos Nougué

A André Abdelnor Sampaio

1) Todos os homens conhecem, mas só alguns sabem: são os filósofos. Ora, talvez eu tenha capacidade ou pendor para ser filósofo, o que se vê por minhas mesmas interrogações acerca da realidade. Lembre-se que o menino Tomás de Aquino perguntou um dia: “Que é Deus?”
b) A realidade já me fala, a mim enquanto homem, e a mim enquanto possível filósofo. Se assim não fosse, minhas ideias antecederiam o conhecimento que tenho das coisas – o que é absurdo. Ter tal certeza, a de que é a realidade a que antes me fala a mim, chama-se realismo.
c) Ademais, assim como o jovem Tomás de Aquino logo constatou que gerações e gerações de filósofos anteriores a ele já haviam feito interrogações acerca da realidade semelhantes às que ele fazia desde menino, assim também eu, como todo e qualquer possível filósofo realista, logo verei que não poderei senão alçar-me sobre ombros de gigantes.
d) E logo perceberei, em meu pendor filosófico realista, que alguns deram respostas mais adequadas e mais realistas às comuns interrogações filosóficas – e passarei a preferi-los. Mas não me será difícil constatar que a filosofia por antonomásia é a aristotélica, a que se poderão juntar contribuições especialmente platônicas ou, antes, neoplatônicas.
e) Não obstante, logo verei também que no aristotelismo, se se lançaram solidamente os alicerces da sabedoria – ou seja, a Lógica –, a cúpula porém da mesma sabedoria filosófica – a Metafísica – permaneceu ainda na infância.
f) O próximo e derradeiro passo não é árduo: terei de aderir à doutrina metafísica de Santo Tomás de Aquino, ou seja, à sua síntese ordenada à Teologia Sagrada, na qual ressalta, sim, o aristotelismo, mas corrigido, aprimorado, completado e elevado às alturas com a doutrina da distinção real entre ser e essência e da distinção entre ente por essência e ente por participação. O tomismo é o ápice da sabedoria.
g) Em outras palavras: não serei eclético nem inventarei uma nova doutrina, senão que seguirei a Santo Tomás em espírito e – sempre que possível – em letra, tentando aplicar sua doutrina a campos ou a aspectos da realidade em que o mesmo Santo Tomás não o fez. (E, naturalmente, poderei até aperfeiçoá-lo e corrigi-lo no que dele se possa aperfeiçoar ou corrigir – sempre, porém, mediante conclusões diretas do núcleo de sua mesma doutrina.) E tal adesão decorre, em última instância, da humildade radical do realismo: não havemos de dar as costas a um ápice.
    h) Se, todavia, além de ter pendor filosófico, sou católico, serei radicalmente dócil ao magistério da Igreja, cujas definições infalíveis, certas ou prováveis são sempre assistidas pelo Espírito Santo. O mesmo magistério, todavia, fez sua não só a teologia de Santo Tomás, mas, mediante as chamadas “24 Teses Tomistas”, sua filosofia – e em especial sua metafísica. Sendo assim, terei aderido ao tomismo não só segundo a razão, mas por docilidade ao magistério da Igreja. Qualquer outra adesão não se poderá pois dizer condizente com a razão nem com a fé.