segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

UM JESUÍTA VESTIDO DE BRÂMANE – OU DE COMO TORNAR-SE UMA DEMOCRACIA-CRISTÃ


Carlos Nougué

Os modernistas são pescadores de “pérolas”: rebuscam na tradição da Igreja citações isoladas, e deslocam-nas de seu contexto, para justificar seus erros e heresias. É o caso, por exemplo, das nefandas “sementes do Verbo”: tais pescadores sacam algo dito imprecisamente por São Justino mas referente à filosofia grega e aplicam-no à sua heresia de que todas as religiões conduzem de algum modo a Cristo. E com isso enganam almas católicas cheias de boa vontade e boa-fé mas ainda despreparadas filosófica e teologicamente.
É o caso também do que infelizmente vejo hoje no âmbito da Liga Cristo Rei. Alguns de seus mais sinceros e combativos membros andam a repetir que devemos, com respeito à seita gnóstico-direitista atualmente tão poderosa no Brasil, fazer como aquele jesuíta que para converter os hindus se vestia de brâmane. Ou seja, deveríamos fingir que não nos opomos à nefasta doutrina da referida seita para crescer entre ela. É como se os primeiros cristãos, para converter os judeus, continuassem a seguir os ritos judaicos, como de fato alguns queriam (o que porém foi rechaçado então pelo Magistério da Igreja). Ou como se São Francisco, para converter o célebre sultão, participasse da peregrinação a Meca... Mas mostre-se que o caso do jesuíta vestido de brâmane foi isolado, e que certamente foi pescado como “pérola” por alguma mente modernista.
“No início do século XVII”, escreve Peter Burke (“Perdas e ganhos: exilados e expatriados na história do conhecimento na Europa e nas Américas, 1500-2000”, Editora Unesp, 2017, p. 109), “antes de Rogier e Baldaeus, cinco jesuítas atuantes na Índia já ofereciam descrições das ‘cerimônias dos brâmanes’; Giacome Fenicio, Antonio Rubino, Diego Gonçalves, Gonçalo Fernandes e Roberto de Nobili. Talvez se possa explicar seu notável conjunto de relatórios como uma resposta aos resultados decepcionantes da missão jesuítica. Fenicio, por exemplo, escreveu mas não publicou um tratado sobre o que ele chamou de ‘seita’ das Índias Orientais (‘Livro da seita dos índios orientais’). Em tratado publicado no ano de 1616, Gonçalo Fernandes ‘Trancoso’ se referiu à combinação de crenças e rituais como ‘esta máquina do bramanismo’, usando esse nome geral possivelmente pela primeira vez. Os jesuítas escreviam para refutar as doutrinas hindus, e Rubino chegou a qualificar os brâmanes de ‘ministros do diabo’. Por outro lado, o jesuíta italiano [e caso único] Roberto de Nobili os chamou de ‘homens sábios’ (sapientes) e expressou respeito por suas diferentes formas de conhecimento (scientiae), do mesmo modo como respeitava as ideias dos filósofos da Grécia antiga, com quem às vezes os comparava (comparações entre as doutrinas dos brâmanes com as de Pitágoras e seus seguidores foram comuns no século XVII [quando o tomismo estava grandemente marginalizado]).”
Por seu lado, escreveu Sebastião Gonçalves a “Primeira parte da historia dos religiosos da Companhia de Jesus e do que fizeram com a divina graça na conversão dos infieis a nossa sancta fee catholica nos reynos e provincias da India Oriental”, e ali tampouco há nenhum registro de outros jesuítas que se vestissem de brâmane. Ao contrário, Portugal capturou uma cidade, e os jesuítas foram convertendo os hindus.
Sim, meus queridos amigos da Liga, acautelem-se dos “pescadores de pérolas”, esses que tentam vender como prudência o que não passa de pusilanimidade com respeito à fé – e que, em verdade, não passa de certa “prudência da carne”. É a estratégia que levou à perdição os partidos da democracia cristã e as Ações Católicas: descaracterizando-se ou ocultando a radicalidade da fé, unir-se ao inimigo considerado menos mau para crescer em seu próprio meio. O resultado final disso só pode ser a transformação de entidades tão pujantes como a Liga Cristo Rei, cuja progressão foi tão promissora, em organismos burocráticos a contar a quantidade de aderentes não segundo uma conversão cabal, mas enquanto meros números. Rezo e rezo para que a Liga Cristo Rei se afaste de tal caminho e entre finalmente no combate frontal contra todo e qualquer inimigo da verdadeira fé.

Observação: não se confunda isso com o voto num candidato menos mau ou menos indigno, como recurso, digamos, de sobrevivência. Segundo São Pio X, devemos fazê-lo sem porém nos descaracterizarmos nunca. A descaracterização não é ato de sobrevivência, mas mergulho no abismo.