segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O QUE É SER TOMISTA


Carlos Nougué

Ser tomista é antes de tudo ter a S. Tomás de Aquino por mestre. Mas isso deve entender-se em duplo sentido: primeiro, e principal, segui-lo em espírito e (sempre que possível) em letra; segundo, e secundário ainda que importante, tê-lo quanto ao essencial por modelo de vida. Deixo porém aqui de lado este segundo aspecto. Restrinjo-me ao primeiro.
1) Ser tomista é antes de tudo ser teólogo sagrado (ou ao menos reconhecer a autoridade suprema e última da Teologia Sagrada sobre as demais disciplinas, o que se dá todavia de modo apenas análogo).
2) Depois, é fazer da Filosofia serva da Teologia Sagrada. Mas, para que seja uma serva eficaz, há de tratar-se da filosofia aristotélica tal como completada por S. Tomás e sintetizada com a filosofia platônica tal como corrigida pelo mesmo S. Tomás. Daí decorrem as 24 teses tomistas aprovadas por Bento XV como pastor universal, o que implica dizer que o tomismo, também no filosófico, é a única doutrina que a Igreja fez sua.
3) Mas, ademais, ser tomista é saber dar respostas a tudo o que surgiu depois da morte de S. Tomás, o que implica por vezes superar na mesma doutrina do Mestre o que caducou. Exemplos: hoje o tomista deve professar sem hesitação o dogma da Imaculada Conceição; deve rejeitar as doutrinas aristotélico-tomistas da animação diferida, da incorruptibilidade dos corpos celestes, dos quatro elementos, da geração espontânea; e, em geral, quando possível, deve apropriar-se das descobertas da ciência moderna como base de dados para indução.
4) Por fim, ser tomista é sustentar os seguintes pontos principais.
a) A Teologia Sagrada é a ciência de Deus enquanto Deus e parte de princípios revelados, não alcançáveis pela razão humana por si, o que implica dizer que é subordinada à ciência de Deus e dos bem-aventurados. Destaque-se, no entanto, em primeiro lugar, que é estritamente tomista a doutrina segundo a qual a História humana tem por fim a completação do números dos eleitos e se remata na Jerusalém Celeste definitiva – ou seja, o fim da História humana é transcendente e não imanente, como mostrarei no livro Da História e Sua Ordem a Deus. E, em segundo lugar, que também é estritamente tomista a doutrina segundo a qual a Igreja é o próprio Reino de Deus, ou em estado militante, ou em estado padecente, ou em estado triunfante – o que também é de fé.
b) A Lógica porfiriano-aristotélica é a ciência-arte propedêutica às demais artes e ciências, e é um todo potencial de partes potenciais (Dialética, Retórica e Poética [ou, como creio ter provado no livro Da Arte do Belo], Arte do Belo, que tem sua ciência prática própria, como creio ainda ter demonstrado no mesmo livro).

Observação: Aristóteles e S. Tomás resolveram a querela ou questão dos universais com um realismo estrito: as essências existem de modo particular ou singular nas coisas e de modo universal na mente.

c) A Física Geral aristotélico-tomista, a ciência do ente móvel, é degrau ineludível para alcançar a Metafísica, e é um todo universal de partes subjetivas (Cosmologia, ou ciência do ente móvel segundo o lugar; Química, ou ciência do ente móvel segundo geração e corrupção; Biologia, ou ciência do ente móvel segundo aumento e diminuição; Psicologia, ou ciência do ente móvel segundo alteração).
d) A Ciência Ética é ciência prática e um todo universal-nominal de partes subjetivas (Ética Monástica ou Individual, Econômica ou Familiar-social e Política). Por seu lado, a Prudência (igualmente um todo universal-nominal de partes subjetivas) é arte em sentido latíssimo e não é ciência em sentido nenhum. – Atente-se a que, como a Ética Monástica e a Econômica, a Política tomista é ciência prática subordinada estritamente à Teologia Sagrada, e tem por seu centro que ou as nações se porão sob a realeza de Cristo, ou serão cadáveres de sociedade e pasto de demônios. Negá-lo é deixar de ser por isso mesmo tomista.
e) A Metafísica é a rainha das ciências, ou melhor, é a única ciência – das alcançáveis pela razão humana – em sentido estrito, sendo todas as demais ciências meras partes potenciais suas. É a ciência do ente enquanto ente, e chama-se também Filosofia Primeira e Teologia Filosófica. Mas a metafísica tomista é antes de tudo tomista, um alcançamento sublime do próprio S. Tomás, conquanto, insista-se, se funde também num aristotelismo completado e num platonismo corrigido. Eis seus três principais fundamentos, que ninguém pode negar sem deixar de ser automaticamente tomista.
• A “existência” de Deus é demonstrável por demonstração quia ou pelos efeitos, a partir dos quais, ademais, podemos conhecer analogicamente algo quiditativo d’Ele. Isto, ademais, é de fé, e negá-lo é ao menos tangente ao herético.
• A distinção entre essência e existência é evidente para todos, mas é de razão; ao passo que a distinção entre essência e ser ou ato de ser é evidente só para os sapientíssimos, mas é real.
• Só em Deus não há distinção real nem de razão entre essência e ser, porque Ele é o próprio Ser subsistente por si mesmo. É ente por essência, enquanto todos os demais entes o são por participação.

Observação 1: tudo isto estava implícito na doutrina aristotélica do ato e da potência (e da matéria e da forma, e da unicidade da forma substancial, etc.), bem como, de certo modo, na doutrina platônica da participação; mas o mesmo Aristóteles e o mesmo Platão foram incapazes de alcançá-lo.

Observação 2: o tomista não pretende fundar nenhuma nova filosofia nem se envergonha de ter a S. Tomás por autoridade, porque, como católico e ao contrário do liberal, sabe que a autoridade (verdadeira) aprimora a liberdade, enquanto para o liberal – esse rebelde – a autoridade constrange a liberdade. 

Observação 3: tudo isto é profunda e detidamente explicado na Escola Tomista.