terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

AINDA SOBRE A EXPRESSÃO “FILOSOFIA PERENE” E O ESPÍRITO DE SEITA


Carlos Nougué

Não me deixa de impressionar o radical espírito de seita que passou a imperar entre os católicos sobretudo a partir da segunda metade do século XX. Naturalmente, filhos do pecado que somos desde Adão, tal espírito sempre houve. Exemplos não faltam: o dos seculares contra os mendicantes na querela das universidades no século XIII; o que se deu a partir do século XVI entre os dominicanos e os jesuítas, os quais, sob pretexto da disputa sobre a predestinação, passaram a repugnar-se mutuamente enquanto ordens; etc. Mas o que caracteriza o sectarismo moderno entre os católicos é que já não se dá em torno de interesses, digamos, “gremiais”; mas em torno de líderes, de “gurus” – e agora praticamente sem pretextos doutrinais (que, apesar de tudo, nunca haviam deixado de motivar de algum modo). É o que constato uma vez mais, e uma vez mais impressionado, em torno agora da expressão “filosofia perene”. Dou os dados da querela.
Alguns tenazes combatentes da heresia gnóstica andaram exagerando, e filiaram um professor que usa a expressão “filosofia perene”, quase por esse só fato, à variante gnóstica do perenialismo. Tentei mostrar que tal filiação é injustificada se nos atemos a essa só expressão. É que com efeito, antes talvez de seu uso pelos perenialistas, já os neotomistas a usavam, em especial no tempo que mediou entre Leão XIII e Pio XII – e em alguns casos com o beneplácito e o eco dos próprios papas. É o caso do grande tomista francês Édouard Hugon, o autorizado comentador das 24 Teses Tomistas encomendadas por S. Pio X e aprovadas e publicadas por Bento XV. – Até aí, aplausos para mim... Bastou-me todavia dizer que a expressão “filosofia perene” é imprecisa para merecer já não aplausos, mas indignadas exclamações: “O professor que a usa tem vasta obra e é homem de grande santidade!!”... É o argumento sectário em torno de um líder. Está-se longe de discutir o mérito doutrinal da questão. Eu poderia responder em primeiro lugar que, se cada um escolhe o santo que mais lhe apraz, a santidade não há de ser privilégio de um, nem funda inerrância doutrinal (conquanto não haja santidade se se incorre em qualquer heresia, por pequena que seja). Poderia responder em segundo lugar que minha obra já é mais vasta que a do referido professor – mas quem disse que vastidão é sinônimo de qualidade? E poderia responder em terceiro lugar como o farei agora, ou seja, entrando (ainda que algo sumariamente) no mérito doutrinal da questão, o único que em verdade deveria interessar em casos como este.

Praticamente desde a morte de Santo Tomás o tomismo veio sofrendo, para usar uma expressão do Pe. Cornelio Fabro, uma sequência cada vez mais grave de inflexões (ou desvios). A perda da distinção, fundamental, entre “ser” e “existência”; a entronização pelo Cardeal Caetano da analogia de proporcionalidade em lugar da analogia de atribuição; o entendimento literal e equivocado de João de Santo Tomás das expressões aristotélico-tomistas “lógica formal” e “lógica material” (como explico detidamente na Escola Tomista); a negação a partir de Vitória da ordenação essencial do poder temporal ao poder espiritual (a qual viria dar no “humanismo integral” de Maritain); etc. Mas o tomismo terminou de ser marginalizado após a revolução francesa, e foi preciso esperar Leão XIII e sua encíclica Aeterni Patris para que renascesse – sob o nome genérico de “neotomismo”. Os papas seguintes, até Pio XII, não fizeram senão reafirmar que o tomismo é a única doutrina que a Igreja fez sua, o que possibilitou o surgimento de uma impressionante plêiade de novos tomistas a tratar problemas novos e a tentar resgatar o espírito original da obra do mestre. Mas, como deveria ser óbvio, depois de tantos séculos de inflexões e de marginalização, não era possível que o tomismo renascesse imaculado. Para um quadro da questão, vejam-se dois artigos meus: “Ainda os descaminhos filosóficos do neotomismo: os primeiros princípios e a teodiceia” (https://www.estudostomistas.com.br/2017/01/ainda-os-descaminhos-filosoficos-do.html) e “Quem é o maior tomista do século XX-XXI” (https://www.estudostomistas.com.br/2019/12/quem-e-o-maior-tomista-do-seculo-xx-xxi.html). Sucede todavia que a expressão “filosofia perene” é parte deste problema.

Entre suas dificuldades, com efeito, está o confundir a filosofia e a teologia sagrada. Em sentido estrito, a filosofia perene seria a aristotélica, com contributos platônicos e neoplatônicos. Mas não seria a tomista? É que Santo Tomás deixou uma teologia sagrada perfeitamente sistematizada; ao passo que sua filosofia ele nunca a sistematizou. Deixou a tarefa para seus discípulos. Mas a infiltração indevida entre uma e outra disciplina gerou alguns dos mais graves erros entre o neotomismo (como mostro nos dois artigos acima referidos). Para superá-lo, seria então preciso falar de uma filosofia perene (a aristotélica), que porém nunca saiu da infância quanto à metafísica, e de uma teologia sagrada perene, que alcançou a plena maturidade com Tomás de Aquino; para que a filosofia perene atinja também sua maturidade, é necessário terminar o trabalho de sistematização da filosofia tomista iniciado pelo Pe. Calderón (trabalho de que, em minha escala, me julgo partícipe).

Ou seja, o melhor é não usar a expressão, até para distinguir-se mais cabalmente do perenialismo. Ademais, eu finalmente terminei de ler a obra do referido professor em que ele usa a expressão “filosofia perene”; e, conquanto siga afirmando que ela não tem traços de perenialismo, não são pequenas algumas de minhas divergências com ela (em especial no campo da política, mas também quanto a Hugo de São Vítor, cujos méritos e insuficiências metodológicos trato com certo detalhe no livro Da Arte do Belo). Mas deixo este assunto para outro escrito e termino este escrito, não sem antes conclamar a todos a que deixem de lado o espírito sectário e sua necessidade de “gurus”. A obra teorética dos homens vale o que vale doutrinalmente. E estou tão convicto disso, que digo: meus livros e cursos, mais que falarem por mim, sou eu.