quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

AS DIVERSAS CORRENTES NA IGREJA ATUAL (III): OS TRADICIONALISMOS


Carlos Nougué

Nota prévia 1: esta série é parte do esboço do livro VII e último da coleção História da Santa Igreja: A Barca e as Tempestades, que se publicará pelo Centro Dom Bosco.
Nota prévia 2: para entender mais perfeitamente esta terceira parte da série, convém ter lido a primeira e a segunda parte suas (links: https://www.estudostomistas.com.br/2019/12/as-diversas-correntes-na-igreja-atual-i.html; e https://www.estudostomistas.com.br/2020/01/as-diversas-correntes-na-igreja-atual.html).

1) O tradicionalismo atual, que não se deve confundir com o tradicionalismo condenado pelo Vaticano I, começou ainda no Vaticano II com a organização do Coetus Internationalis Patrum, formado por vários padres conciliares (ocardeais Giuseppe Siri, Alfredo Ottaviani, Arcadio Maria Larraona Saralegui, Ernesto RuffiniMichael BrowneAntonio BacciBenedetto Aloisi Masella, Francis Spellman Fernando Quiroga y PalaciosJosé María Bueno y Monreal Rufino Jiao Santos; os bispos ou arcebispos Marcel Lefebvre, Casimiro Morcillo González Geraldo de Proença Sigaud, Ermenegildo Florit Thomas Benjamin Cooray, Georges Cabana, Alfredo Silva Santiago Joseph Marie Anthony Cordeiro, Secondino Petronio Lacchio, José Maurício da Rocha, Antônio de Castro Mayer, Luis Carlos Borromeo, Luigi Maria Carli; o abade de Solesmes Jean Prou; além de 250 outros prelados participantes no Concílio). Seria ocioso dizer que este grupo se formou em reação às organizadíssimas correntes progressistas que estavam a dominar, por diversos meios, os trabalhos e as votações na aula conciliar. Mas o Coetus Internationalis Patrum não resistiria ao fim do concílio: o grupo desfez-se em multidão de atitudes diferentes ante o resultado do Vaticano II; e a atitude mais célebre foi a de Dom Marcel Lefebvre, que com o apoio de Dom Antônio de Castro Mayer fundaria a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ordenaria unilateralmente quatro bispos para preservar a fé e o sacerdócio, e seria, com seus quatro bispos e com Dom Antônio, iniquamente excomungado por João Paulo II. Mas a FSSPX tornar-se-ia a coluna da tradição, apesar de encontrar-se fora da jurisdição pela excomunhão de seus bispos, e apesar do fracionamento dos tradicionalistas em muitas correntes, a maioria das quais acabaria por empreender um acordo canônico com as autoridades vaticanas. (Note-se, porém, que Bento XVI suspenderia a excomunhão dos quatro bispos da FSSPX, ainda que sem chegarem as duas partes a um acordo canônico.)
2) Quem leu as duas primeiras partes desta séria nem sequer imaginará que eu possa não ser tradicionalista (ou tradicional, como prefiro, justo pela confusão nominal com os tradicionalistas condenados pelo Vaticano I). As razões encontram-se naquelas mesmas duas primeiras partes. Mas poderia ser muito de esperar que nesta parte eu tratasse antes das divergências e antagonismos entre os grupos tradicionalistas que fundam suas diversas cristalizações, divergências e antagonismos que giram principalmente em torno da licitude ou ilicitude de um acordo canônico com o Vaticano neomodernista. Algo vou dizer disso, sim; não porém centralmente. E, embora até uns quatro anos atrás eu também estivesse grandemente envolvido em tal disputa, hoje, tradicional independente, já não o estou – e pretendo mostrar aqui que o que essencialmente separa os tradicionalistas não é a questão canônica, mas algo que os divide independentemente dos grupos a que pertençam. Trata-se da divisão entre tradicionalismo “dócil” e tradicionalismo crítico. Esta divisão foi proposta primeiramente pelo Pe. Álvaro Calderón, em especial na segunda edição de seu La lámpara bajo el celemín (“A Candeia debaixo do Alqueire”), sem todavia o aspeado “dócil”, de que lanço mão eu mesmo. Adoto sua divisão, mas com desdobramentos por que sou de todo responsável. Digo, ademais, que evitarei nomear conterrâneos meus que ainda estejam vivos.
3) Mas algo ainda prévio: o sedevacantismo. À primeira vista poderia parecer que os sedevacantistas constituem, eles também, um grupo tradicionalista. Não são todavia tradicionalistas. Como já se disse, sua doutrina é uma como vertigem e, como mostro creio que cabalmente no livro Do Papa Herético, implica a enormidade de que a Igreja teria acabado, contra as promessas de Cristo e contra o definido pelo Vaticano I. Não serão, portanto, levados em consideração aqui.
4) O que chamo tradicionalista “dócil” é o que se funda de algum modo, em seu mesmo tradicionalismo, numa ABSOLUTA docilidade ao Magistério da Igreja, e que reconhece a assistência do Espírito Santo não só para as definições infalíveis, mas, em algum grau ou de algum modo, para todos os atos de magistério autêntico. Se se opõe ao chamado magistério conciliar (ou seja, o do Vaticano II e dos papas que o seguem, exceção feita de certo modo, digo eu, aos documentos referidos no item 2a da primeira parte deste estudo, mais uma Mysterium Fidei e uma Humanae vitae de Paulo VI ou uma Ordinatio sacerdotalis de João Paulo II), se se opõe a ele, portanto, é porque ele mesmo rejeita tal assistência, ao depor sua autoridade e seu carisma para subordinar-se a um suposto senso da fé infalível de todo o Povo de Deus por si. O tradicionalismo “dócil” é a posição que se consolidou definitivamente com a referida obra do Pe. Calderón, de que eu mesmo sou caudatário. Mas note-se que, na citada segunda edição de La lámpara..., o Pe. Calderón, que é da FSSPX, arrola entre os tradicionalistas críticos o outro grande teólogo da mesma Fraternidade: o Pe. Gleize. Propõe-lhe ali, no entanto, uma conciliação doutrinal, e parece que tal conciliação se deu, porque, segundo me dizem, a segunda edição de outro livro do Pe. Calderón, Prometeo o la religión del hombre, conta com um texto do mesmo Pe. Gleize. Deo gratias. Isto porém não implica dizer que todos os eclesiásticos da FSSPX comunguem do tradicionalismo “dócil”: conheço alguns que são claramente tradicionalistas críticos, o que se mostra quando, por exemplo, rechaçam ao menos em parte as encíclicas Divino afflante Spiritu e Humani generis, de Pio XII, acusando-as, digamos, de facilitar o avanço do neomodernismo. Dessolidarizam-se delas. E diga-se o mesmo de membros da chamada Resistência, uma cisão mais recente da FSSPX. Também nela se encontram tradicionalistas de ambos os tipos.
5) Mas o tradicionalismo crítico subdivide-se.
a) Há, antes de tudo, tradicionalistas como os referidos no ponto anterior, os quais, por não entender que o conjunto do magistério autêntico é assistido em algum grau pelo Espírito Santo, razão por que seus documentos não podem encerrar erros (quando muito, imprecisões), nem que ao Magistério conciliar não o podemos desobedecer senão porque ele mesmo depôs sua autoridade e carisma, se arvoram em juízes do magistério. É o caso por exemplo, ainda, de um Roberto de Mattei (vide seu livro Apologia da Tradição).
b) O segundo grupo de tradicionalistas críticos distingue-se por algo mais complexo. Vão desde a aceitação de alguns documentos do Vaticano II e do magistério conciliar (documentos que estão entre os descritos nos itens 2b e 2c da primeira parte desta série) até a aceitação de todos os documentos do Vaticano II. No primeiro caso encontro (pelo que pude ver de sacerdotes brasileiros seus) o Instituto Bom Pastor, entre outros. No segundo a Administração Apostólica, entre outros, e tradicionalistas isolados como Dietrich von Hildebrand e Michael Davies. Especialmente estes últimos têm de entregar-se a verdadeiros malabarismos mentais para justificar que, sendo de algum modo infalível (em sua opinião) qualquer concílio, não o seria absolutamente qualquer papa (que porém é superior a qualquer concílio, e sem o qual nenhum concílio pode ser infalível). Assim, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II não incorreria em desvio da fé, mas o Papa Paulo VI sim, ao instituir o “Novus Ordo Missae” em 1969.   
Observação: naturalmente, nem sempre a fronteira entre os tradicionalistas críticos das duas subclasses descritas em 5b é perfeitamente nítida.
6) Mas o fato é que há na hierarquia da Igreja alguns pouquíssimos tradicionalistas (antes críticos), e outros que parecem marchar para a tradição. Este é o caso de Dom Athanasius Schneider e do arcebispo Carlo Maria Viganò, que hoje parecem ir além, por exemplo, da Administração Apostólica em sua crítica ao Vaticano II e a alguns de seus documentos. Esperemos porém para ver se essa marcha se firma definitivamente, e em direção a quê: se ao tradicionalismo “dócil” ou a algum modo de tradicionalismo crítico.
7) Uma última palavra. Definitivamente a FSSPX e a Resistência não são cismáticas, e devem dizer-se antes vítimas da iniquidade do neomodernismo vitorioso no Vaticano II. Minha crítica a elas é antes de ordem prática. Se é verdade que, como vítimas que são, ou seja, enquanto iniquamente despojadas de jurisdição, têm de manter-se em atitude de espera (ou seja, de que os católicos que descobrem a tradição vão até elas), isso porém não justifica que desconheçam a existência, por exemplo, de movimentos como a Liga Cristo Rei a ponto de NUNCA os referirem em seus sites, boletins, etc. A Liga Cristo Rei é um movimento essencialmente laico, ao contrário dos grupos tradicionalistas, que são essencialmente eclesiásticos, razão por que pode atuar de modo muito distinto de como o fazem tais grupos. Mas ninguém pode ser cego a ponto de não ver o progresso crescente da Liga Cristo Rei em direção à tradição nem o bem imenso que está fazendo a multidão de almas e à Igreja mesma. Ainda que considerem haja diferenças doutrinais com a Liga, que custaria a tais grupos tradicionalistas divulgar e apoiar o que considerassem bom na atuação dela? Esta postura de desconhecer o que não vem de si é o que gera, especialmente em alguns fiéis tradicionalistas, a soberba farisaica, a falta de paciência caritativa e a detração ou maledicência com respeito a católicos dignos de todo o respeito, como os da Liga Cristo Rei. Sou testemunha de seus progressos intelectuais, de sua sede de tradição e de missa tridentina, de sua busca de santidade, de sua piedosa vida de oração, de sua caridade à flor da pele, de sua absoluta ausência de detração dos grupos tradicionalistas, etc. Sem a devida correspondência.  
Observação: diga-se, no entanto, que também o IBP brasileiro (com a Associação Montfort) desconhece a Liga, ou antes, diferentemente da FSSPX e da Resistência, tem para com ela uma atitude de franca oposição. Mas cuidemo-nos de generalizações abusivas: não nego em princípio que sacerdotes ou bispos ou fiéis de tais grupos possam pensar de modo distinto com respeito a movimentos como a Liga Cristo Rei.

    (Continua.)