quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

AS DIVERSAS CORRENTES NA IGREJA ATUAL (II): O PROGRESSISMO


Carlos Nougué

Nota prévia 1: esta série é parte do esboço do livro VII e último da coleção História da Santa Igreja: A Barca e as Tempestades, que se publicará pelo Centro Dom Bosco.
Nota prévia 2: para entender esta segunda parte da série, é preciso ter lido a primeira parte (link: https://www.estudostomistas.com.br/2019/12/as-diversas-correntes-na-igreja-atual-i.html).

1) Estudamos já, na primeira parte desta série, a dialética de cariz hegeliano que saiu vitoriosa no Concílio Vaticano II: segundo ela, o conjunto da Igreja tem um senso da fé infalível por si, o que faz que o Magistério da Igreja deponha a autoridade e o carisma da infalibilidade que Cristo lhe deu em matéria doutrinal. É a dialética do modernismo conservador e sua hermenêutica da continuidade, cujos expoentes foram Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.
2) Mas desde o Concílio Vaticano II atuou a corrente progressista, ou seja, aquela que despreza o primeiro momento da referida dialética (o da tradição da Igreja) e por isso defende posições evidentemente heréticas sem nenhum pudor. Para esta corrente, importaria sobretudo o terceiro momento daquela dialética, a saber, o resultante da consulta à pluralidade de posições teológicas do Povo de Deus. Mas atente-se ao seguinte.
a) Isto de que o Magistério deve seguir um infalível senso da fé do conjunto do Povo de Deus por si (doutrina comum a conservadores e progressistas) é tão falso como dizer que na democracia liberal quem manda é o povo. Com efeito, assim como nesta quem manda de fato são os poderes plutocráticos, partidários e midiáticos, assim também na Igreja iniciada pelo Concílio Vaticano II quem manda são os “peritos”, ou seja, os neoteólogos vitoriosos no Concílio, e a hierarquia que os segue.
b) Depois, em verdade o progressismo evidencia as raízes ocultas do mesmo e mais tímido modernismo conservador, razão por que é de todo lícito recorrer a seu extremismo para explicar a tragédia conciliar. Um exemplo: segundo alguns, a missa nova foi uma traição à Constituição “Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia”, indo além, em suas mudanças, do que pretendera o Concílio, mas o fato é que foram os mesmos os que redigiram o documento conciliar e que empreenderam a reforma litúrgica. Mais ainda: em setembro de 1965 Paulo VI emitiu a Encíclica Mysterium Fidei, uma defesa (ao modo novo, claro, ou seja, sem império suficiente) do caráter sacrifical da missa, o mesmo Paulo VI que depois aprovaria uma missa, a nova, antes memorial que sacrifical, de cuja forma ou fórmula da consagração do vinho se chegou a tirar a própria expressão “myterium fidei”! (Se isso torna por si inválida a missa nova ou não é o que estudarei no livro Da Missa Nova.) Ademais, como mostra Michael Davies em vários passos de sua obra, os conservadores tentavam impedir maiores radicalizações na missa nova, mas, diante de fatos consumados pelos progressistas, acabavam por incorporá-las...
3) Nada disto, é claro, implica dizer que não há diferenças entre modernistas conservadores e progressistas, conquanto não se deva exagerar quanto a elas. Mas o fato é que tanto as há, que vemos hoje desenrolar-se certo conflito entre ratzingerianos (como o Cardeal Sarah ou o Cardeal Müller, por exemplo) e bergoglianos, em torno por exemplo do celibato, dos “dúbia” de Amoris laetitia, do Sínodo da Amazônia, da Pachamama, etc. Não se trata de uma invenção da mídia ou de um jogo de cena. É que pela primeira vez desde o Concílio um progressista se torna papa, o que afeta aquele resquício de apego à tradição que têm os modernistas conservadores. Francisco adere ao mundo de modo muito mais despudorado que seus antecessores.
4) Por outro lado, todavia, em verdade é mais coerente que estes. Diz ele com perfeito e cru realismo: “Também no campo ecumênico o caminho vem de longe, com os passos de meus antecessores. Esse é o caminho da Igreja [pós-conciliar]. Não sou eu. Eu não dei nenhuma aceleração. À medida que seguimos em frente, o caminho parece ir mais rápido, é o ‘motus in fine velocior’”.
5) Cabe porém perguntar ainda duas coisas.
a) Primeira, se é indiferente para a Igreja a luta entre ratzingerianos e bergoglianos. E deve dizer-se que não. Sempre devemos rezar para que as coisas não piorem. Dizer-se indiferente a isto é postura que ao menos tangencia o sedevacantismo. Obviamente, se Sarah se fizesse papa, teríamos certo respiro; e, apesar de ao fim e ao cabo, por seu compromisso com o erro, ter por efeito próprio o esvaziamento da tradição, a hermenêutica da continuidade pode, acidentalmente, ao frear a velocidade da ação do mal, reacender de algum modo na Santa Sé o fogo da caridade verdadeira (Padre Calderón dixit). Ademais, tenhamos certeza de que, dado o caráter monárquico da Igreja, não haverá solução para sua terrível crise atual senão a partir de cima, ou seja, com a conversão de algum papa à tradição por moção do Espírito Santo (como ocorreu com Pio IX).
Observação: o Espírito Santo não deixa de atuar nem sobre os papas problemáticos. É evidente que, quando se tornam papas, os modernistas se fazem mais conservadores em algum grau. Foi o caso claríssimo de Bento XVI, e é até o caso de Francisco, que negou, por certo apego à tradição, a ordenação de mulheres (“Quem quiser ordenar mulheres”, disse, “procure outra religião”), e acaba de excomungar um padre LGBT.
b) Segunda, se na atual hierarquia da Igreja não há nenhum tradicional ou tradicionalista. É o que veremos na próxima parte da série, quando estudarei justamente os “tradicionalismos”.

(Continua.)