domingo, 22 de dezembro de 2019

QUEM É O MAIOR TOMISTA DO SÉCULO XX-XXI


Carlos Nougué

Escreveu-me há uns anos um aluno:

“Estou lendo o livro La nozione metafisica di partecipazione secondo S. Tommaso d’Aquino de Cornelio Fabro – aliás, que maravilha é o Fabro; pode-se dizer que é o maior tomista do século XX-XXI? – [...]”.

Hoje eu lhe responderia assim:

Antes de tudo, meus parabéns pela importante leitura. Quanto a quem é o maior tomista do século XX-XXI, de início depende do ângulo. Se se trata da amplitude e abrangência da obra, é talvez Jacques Maritain, ou Étienne Gilson. Se se trata do aprofundamento do problema dos universais, e em particular da analogia, o galardão vai para Santiago Ramírez O.P. Se se trata do gigantesco resgate da noção de ser como ato de ser, o posto cabe ao Pe. Cornelio Fabro. Se se trata da Teologia Sagrada em sentido mais estrito, ou Hugon O.P., ou Garrigou-Lagrange O.P., ou o Pe. Leite Penido (seu tratado sobre a Igreja, fundado em Pio XII, é exponencial). Se se trata, no entanto, do resgate mais abrangente do espírito do tomismo, temos o Pe. Álvaro Calderón, da FSSPX. Mas avancemos no assunto. Jacques Maritain, espírito profundo, capaz de voos próprios, foi porém – ou em parte por causa disso mesmo – o maior dos desvirtuadores ou corruptores da doutrina do Mestre; ao passo que Étienne Gilson nunca alcançou perfeitamente o pilar do tomismo – a doutrina do ser enquanto ato de ser participado ou por essência – e com o Concílio Vaticano II deixou de defender aquilo que fora um de seus grandes acertos: a plena potestade do poder espiritual sobre o poder temporal. Santiago Ramírez, por seu lado, se escreveu o insuperável e extensíssimo De analogia – como diria o Pe. Calderón, não venha discutir comigo quem não tiver lido este livro –, foi como Maritain um discípulo da escola de Salamanca na política, o que o levou a cometer alguns crimes, como El Derecho de Gentes e A Concepção Política de Santo Tomás, a qual é tudo menos de Santo Tomás. O Pe. Fabro, por seu lado, não só se deixou levar por demasiado ecletismo, o que por fim o fez incorrer em algo scotista e perfeitamente antitomista: a hipertrofia da vontade em detrimento do intelecto; mas ainda incorreu em demasiada rigidez terminológica: assim, por exemplo, é falso dizer com Fabro que para S. Tomás, a partir do Comentário ao Liber de Causis, a dialética do ser passou a dar-se “tão somente” entre o esse per essentiam [ser por essência] e o ens per participationem [ente por participação], ou seja, teria Santo Tomás deixado de chamar “ente” a Deus. Com efeito, tal não é fato: abunda na Suma Teológica, por exemplo, o chamar a Deus “ente primeiro”, etc. Sucede apenas que o ente primeiro “é o mesmo Ser”, enquanto os demais entes “têm ser”, razão por que ainda se está no campo da analogia. Mas Fabro, com sua rigidez, quer equivocadamente dar a ambos os termos a fixidez da univocidade. Ademais, insista-se em seu ecletismo nefasto: aproximar de qualquer modo, como ele faz, a doutrina tomista do esse da Diremtion hegeliana implica a quase anulação do valor que a obra do Italiano possa ter. O Pe. Hugon O.P. foi um dos neotomistas que melhor resgataram o espírito do tomismo, mas seu esforço não foi isento de lacunas e de falhas, ao passo que Garrigou-Lagrange O.P. não raro macula sua teologia de um mau entendimento metafísico do tomismo (como a confusão entre ser e existência, o considerar o princípio de identidade [que nunca S. Tomás reconheceu] como o primeiro dos primeiros princípios, o considerar o desejo humano de felicidade como prova da existência de Deus, etc.); e diga-se pouco mais ou menos o mesmo do Pe. Leite Penido. Mas o Pe. Álvaro Calderón não padece de NENHUM dos males apontados acima: é o maior tomista do século XX-XXI. Mais, e atirem-me pedras quanto quiserem os “homens de pouca fé”: é o maior dos tomistas. Maior que o grandíssimo Cardeal Caetano (cujos erros, todavia, merecem tratamento à parte) e que o também grandíssimo João de Santo Tomás (autor de um estupendo tratado de Física Geral, mas também pai dos desvios do tomismo no campo da Lógica, etc.). É um presente de Deus que, nestes tempos apocalípticos, tenhamos a luz deste padre. É gigantíssimo na Lógica, nas Ciências da Natureza, na Metafísica, na Teologia Sagrada (foi quem solucionou, em definitivo, o enigma do Concílio Vaticano II), e em particular no resgate quase solitário da doutrina da Realeza de Cristo. Ainda que por caminhos inesperados e estranhos, tive a dádiva de tê-lo por mestre e de, assim, poder corrigir meu desordenado tomismo pregresso (fruto de autodidatismo), o qual hoje rejeito quase totalmente. Obviamente, após ter sido dócil pupilo seu, hoje posso discrepar de Calderón em uma que outra coisa – mas absolutamente em nada de essencial – e posso dar voos próprios como a Suma Gramatical da Língua Portuguesa, Do Papa Herético, Da Arte do Belo, a Suma Retórica, Da História e Sua Ordem a Deus, o Tratado dos Universais, etc. (só os três primeiros já foram lançados). Mas sua enorme obra (enorme se se consideram suas obras não publicadas) é um manancial em que muito e constantemente sigo haurindo. O Pe. Calderón, contra o que ele mesmo, em sua verdadeira humildade, diz de si, é um dos mestres-auxiliares de Santo Tomás. Para mim, insisto, o maior de todos.  
O Padre Álvaro Calderón