domingo, 22 de dezembro de 2019

AS DIVERSAS CORRENTES NA IGREJA ATUAL (I): O MODERNISMO CONSERVADOR E SUA HERMENÊUTICA DA CONTINUIDADE


Carlos Nougué

Nota prévia: esta série é parte do esboço do livro VII e último da coleção "História da Santa Igreja: A Barca e as Tempestades", que se publicará pelo Centro Dom Bosco.

1) Segundo o modernismo vitorioso no Concílio Vaticano II, a Igreja vive da experiência do mistério de Cristo. Sucede, porém, que os homens que a compõem necessitam expressar esta vivência. A Revelação oferece-lhes para isso a Escritura, que é a própria expressão da experiência dos primeiros discípulos. Mas, depois, em cada época é preciso reexpressar a experiência do mistério de Cristo, como um Evangelho reencarnado nas condições históricas e culturais do momento. Para tal se unem a Hierarquía e o conjunto dos fiéis, que meditam a Palavra e a exprimem numa pluralidade de teologias, ao passo que a Hierarquia deve unificar tais teologias para que se tornem de fato eclesiais: é a “autenticação” da interpretação comum. Veja-se que tal aberração só é possível por uma inversão herética: agora, a Hierarquia deixou de ser docente e os fiéis discentes, porque estes são dotados por si e em conjunto de um infalível senso da fé, ao contrário do definido, por exemplo, pelo Vaticano I, segundo o qual a Igreja em conjunto só é indefectível na fé porque o Papa e os Bispos a tornam tal. 
2) É a hermenêutica da continuidade, a doutrina hegeliana do modernismo conservador. Em tal processo de reinterpretação contínua, há três momentos: o início (a tese), o movimento (a antítese) e o termo ou término (a síntese), que requerem três modos de intervenção do Magistério. 
a) Primeiro: a defesa da tradição dogmática, como se vê, por exemplo, na “Profissão de Fé” e no “Juramento de Fidelidade” promulgados pela Congregação da Doutrina da Fé em 9 de janeiro de 1989, com aprovação de João Paulo II; na Carta apostólica Ordinatio sacerdotalis, do mesmo João Paulo II; talvez no Motu proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI; etc. Como diz o Padre Calderón no estupendo opúsculo “La autoridad doctrinal del Magisterio conciliar”, se há algum grau de autoridade nos documentos conciliares e pós-conciliares, encontra-se nos documentos deste momento de “tese”. Mas, se o há, será menor ou ínfimo, justamente porque este momento se subordina ou ordena aos dois seguintes. 
b) Segundo: as contribuições do Papa, enquanto mero membro da Igreja, para a reflexão do conjunto de seus membros, como se vê pela grande maioria das confusíssimas encíclicas pós-conciliares, que, como já se disse, poderiam definir-se como “cartas de unidade”. O grau de autoridade destas encíclicas é nulo, e nem sequer, a meu ver (como o digo em Do Papa Herético), pode ter-se por magistério autêntico. Reduzem-se de algum modo, a meu ver ainda, a magistério de doutores privados. Não por nada, com efeito, João Paulo II começa a substituir em suas encíclicas o "Nós" pelo "eu", 
c) Terceiro: os documentos de síntese, como o são os do Vaticano II e o “Catecismo da Igreja Católica”. Sua autoridade é igualmente nula, por sua mesma intenção. É o caso, repita-se, do CIC, a mais perfeita concretização da Lumen Gentium, e cuja autoridade é negada em seu próprio bojo. Com efeito, ao tratar “A interpretação do depósito da fé” (n. 84), diz o CIC antes de tudo: “O depósito da fé confiado à totalidade da Igreja. O depósito sagrado da fé... foi confiado pelos apóstolos ao conjunto da Igreja”, pastores e fiéis juntos. E passa a sustentar e explicar a herética noção de “senso da fé infalível por parte do conjunto da Igreja por si”. 
Observação: por isso mesmo é que a alteração feita por Francisco no CIC com respeito à pena de morte é nulíssima: nulidade de nulidade. 
3) Parece que alguns ilustres membros da Hierarquia, como D. Athanasius Schneider e D. Carlo Maria Viganò, estão deixando de ser modernistas conservadores para passar a tradicionais. Mas há que ver ainda, primeiro, se persistem neste trânsito e, segundo, se terminarão no tradicional em sentido estrito ou no chamado (pelo Padre Calderón) “tradicionalismo crítico”. Mas a distinção entre os tradicionalismos é assunto para outra postagem desta série. 

(Continua.)