segunda-feira, 6 de novembro de 2017

"Das Artes Liberais: A Necessária Revisão", opúsculo de Carlos Nougué


Das Artes Liberais: A Necessária Revisão


Carlos Nougué

I

Por todo o Medievo o Trivium (Gramática [com Poética], Retórica [com Direito] e Dialética ou Lógica) compôs com o Quadrivium (Aritmética, Geometria [com Geografia e História Natural], Música e Astronomia) as chamadas Sete Artes Liberais, ou seja, o conjunto de estudos que antecedia o ingresso na Universidade (na qual, por sua vez, havia três faculdades: a de Teologia [Sagrada], a de Direito Canônico e a de Medicina).[1] E, se, como veremos, tal conjunto (e especialmente o Trivium) resultou da confluência heterogênea de várias doutrinas, permitiu, todavia, uma abundância de bons frutos filosóficos e foi o sustentáculo educacional da mais pujante das civilizações que já houve na face da Terra: a Cristandade medieval.
Esta, porém, por diversos motivos – incluído o humanismo hiperestetizante e hiperbeletrista –, começou a ruir no já distante século XIV; e foi no principal desdobramento do humanismo – o Renascimento – que de fato começou a derrocar-se o conjunto das Sete Artes Liberais. O principal fautor de tal derrocada, como mostrou José Monir Nasser,[2] foi “o teólogo [...] tcheco Jean Amos Comenius (1592-1670), que, em sua principal obra, Magna Didactica, não apenas faz pouco caso das Sete Artes como estabelece as bases das pedagogias modernas, desenhadas para fins antes de distribuição social que de efetiva educação. Na Advertência ao leitor com que abre sua obra, o tcheco esboçao plano mestre de seu admirável mundo novo pedagógico’: ‘Ouso prometer uma grande didática, uma arte universal que permita ensinar a todos com resultado infalível; ensinar rapidamente, sem preguiça ou aborrecimento para alunos e professores; ao contrário, com o mais vivo prazer. Dar um ensino sólido, sobretudo não superficial ou formal, [que conduza] os alunos à verdadeira ciência, aos modos gentis e à generosidade de coração. Enfim, eu demonstro tudo isso a priori, com base na natureza das coisas. [Assim] como de uma nascente correm os pequenos riachos que vão unir-se no fim em um único rio, [assim também] estabeleci uma técnica universal que permite fundar escolas universais’”. – Com efeito, aí estão já algumas das notas da pedagogia moderna: arte universal, ensino rápido, resultado “infalível”, tudo estabelecido de antemão – o que redundará em algo que não lhe é oposto senão aparentemente, porque, com efeito, é uma inelutável consequência sua: o renascimento do flatus vocis sofístico sob o justo nome de relativismo.
Basta pois comparar o sistema educacional moderno e seus resultados com a pedagogia das Sete Artes Liberais e seus resultados para que ressalte a superioridade incalculável desta sobre aquele.
• Antes de tudo, as Sete Artes ordenavam-se à verdade e sua complexidade, ao passo que o ensino moderno visa a uma formação “simples” e “universal” tão somente na medida em que, sob a “luz” de um Protágoras ou de um Górgias, tem ao homem individual por medida de todas as coisas – fosse isso possível.
• Depois, o jovem medieval que pudesse ou quisesse estudar as Sete Artes capacitava-se para a Sabedoria adquirida efetivamente nas universidades, ao passo que o jovem atual, sempre obrigado a cursar o ensino primário e o secundário, não se capacita senão a curvar a cerviz a si mesmo enquanto “medida de todas as coisas” e a ocupar certa posição na escala socioeconômica.[3]
• Não é pois de assombrar que aquele jovem medieval se distinguisse por buscar algo superior a ele mesmo – porque, com efeito, nossa alma só repousa na verdade –, enquanto este jovem atual é crescentemente egocentrista, fundado num pretenso saber que não é senão um espelho deformado e idealizado dele mesmo e de suas pobres idiossincrasias.
• E não é de admirar que então brotassem sábios verdadeiramente universais, como Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino ou São Boaventura, enquanto hoje tristemente quase não brotam senão “especialistas” tão especializados, que de fato perdem de vista a universalidade da verdade em que poderiam repousar.[4]

II

domingo, 5 de novembro de 2017

"O Que É a Ideologia", opúsculo de Carlos Nougué


O que é a ideologia


Carlos Nougué


I

Parafraseando a Aristóteles, diga-se que o homem é um animal de ciências e de artes. No sentido, porém, que nos interessa aqui, ciência e arte identificam-se enquanto esta se distingue da experiência ou costume. Com efeito, ter o hábito de dada ciência (ou a Física, ou a Matemática, ou a Metafísica) implica que se conheçam seu sujeito (ou seja, aquilo de que ela trata própria e formalmente) e as causas, as partes, as propriedades, os efeitos de seu sujeito. Mas também o artista conhece o sujeito de sua arte (a Marcenaria, a Medicina, a Arquitetura, a Música...) e as causas, etc. Não as conhece, porém, o operário que trabalha ou opera somente por experiência ou costume e sob orientação de um artista: assim como algum obreiro pode tão somente serrar certas peças segundo o plano e a ordem de um marceneiro.[1] O que assim opera, opera, como dito, por experiência ou costume, e só se distingue nisto do animal porque, se este aprende também por experiência, não o faz senão no marco da estimativa e dos instintos próprios à sua espécie.[2]

II

sábado, 4 de novembro de 2017

“Das Complexas Relações entre Fé e Razão e entre Filosofia e Teologia Sagrada”, opúsculo de Carlos Nougué


Das complexas relações entre fé e razão
e entre Filosofia e Teologia Sagrada


Carlos Nougué

Lê-se em Jeremias 9, 24: “Aquele que se gloria glorie-se em conceber-me e conhecer-me”. Ora, não só Deus não nos mandaria fazer algo impossível, senão que tal gloriar-se seria pura vanglória se não o pudéssemos efetivamente conceber e conhecer. Logo, não há dúvida de que o podemos fazer. Mas há que saber se podemos fazê-lo naturalmente, mediante unicamente nosso intelecto, ou necessitamos do auxílio da revelação divina para concebê-lo e conhecê-lo.
As duas coisas são verdadeiras por ângulos diversos.