sexta-feira, 14 de abril de 2017

Não há demonstração “quia” da existência dos anjos


Carlos Nougué

Por muito tempo repeti que não haveria por que duvidar que os astros influem, de algum modo, sobre os corpos no mundo sublunar. Hoje porém não hesito: não influem mais do que o fazem entre si os mesmos corpos na terra, ou seja, não com a necessidade decorrente do sistema cosmológico antigo, em especial o aristotélico-tomista, que caducou quase de todo. Com efeito, caducaram não só as esferas celestes, mas ainda o papel dos astros com respeito às formas terrestres (conquanto seja inegável que sem o sol não haveria vida na terra). Não só isso, todavia: caducaram em consequência as substâncias separadas ou anjos segundo as punha Aristóteles, ou seja, como motores das esferas celestes; o que de certo modo reafirmava Santo Tomás de Aquino, por exemplo, na estupenda Questão Disputada sobre as Criaturas Espirituais (que a É Realizações publicará proximamente).
Mas esses eram os únicos efeitos necessários causados pelos anjos que poderiam estar sob nossa observação. Como pois em verdade, como o sabemos hoje, não se dão tais efeitos, então não se pode ter demonstração quia da existência dos anjos, como se tem todavia de que Deus é. Insista-se. Com efeito, como põe Tomás de Aquino no Comentário aos Analíticos Posteriores, não se pode conhecer a quididade das substâncias separadas, ou seja, Deus e os anjos, mas pode conhecer-se se são (an sint), o que não são (quid non sunt), e algo quiditativo seu segundo a similitude (analógica) que encontramos nas coisas inferiores, porque, com efeito, “unumquodque agens agit sibi simile” (cf. Summa Theol., I, q. 25, a. 3; q. 110, a. 2; q. 113, a. 1; etc.). Mas vimos já que não há efeitos naturais necessários de ação angélica que possam cair sob nossa observação, razão por que não se pode conhecer rationabiliter que são, o que é o mesmo que dizer que não pode dar-se demonstração quia de que são: tão somente de Deus, entre as substâncias separadas, pode demonstrar-se que é, pelos efeitos de sua ação criadora.
Resta pois que só conhecemos a existência dos anjos e algo seu a partir de princípios da fé. Mas, se os princípios da fé não se captam pelo intelecto nem se alcançam por demonstração, são porém certíssimos segundo a autoridade de quem no-los revela. E por isso se pode dizer, com Santo Tomás, que uma velhinha camponesa com fé sabe em verdade mais que qualquer filósofo pagão.