domingo, 19 de março de 2017

O fado (ou fatalidade) e os astros, segundo Santo Tomás de Aquino


«Do posto anteriormente resulta o que havemos de pensar acerca do fado. Pois, vendo os homens que muitas coisas sucedem neste mundo per accidens do ângulo das causas particulares, pensaram alguns que não proviessem de nenhuma causa, nem sequer superior, que as ordenasse. Por isso negaram a fatalidade.
Outros tentaram reduzi-las a causas mais elevadas, das quais deviam proceder segundo certa disposição ordenada. Estes puseram o fado: como se as coisas que parecem suceder ao acaso fossem effata, ou seja, ou anunciadas ou preditas por algo, como que preordenadas a que existam.
Alguns destes tentaram reduzir tudo quanto aqui sucede por acaso ou contingentemente aos corpos celestes como a suas causas, incluídas as eleições humanas. E chamavam fado ao poder que provém da disposição dos astros, ao qual tudo deveria subordinar-se com certa necessidade. Mas esta opinião é impossível e vai contra a fé, como se patenteia do posto anteriormente.
Outros porém quiseram reduzir à disposição da providência divina tudo quanto parece ocorrer por acaso entre as coisas inferiores. E assim disseram que tudo se faz pelo fado, chamando por este nome à ordem que há nas coisas pela providência divina. Por isso diz Boécio em Da Consolação da Filosofia, livro 4, prosa 6, que “o fado é a disposição inerente às coisas móveis, pela qual a providência ata tudo a suas ordens”. Nesta descrição do fato, põe-se “disposição” como equivalente de “ordem”; e que seja “inerente às coisas” põe-se para distinguir o fado da providência. Porque a mesma ordenação, enquanto está na mente divina, mas ainda não se encontra impressa nas coisas, é providência; mas, enquanto se desdobra nas coisas, chama-se fado. E fala de coisas móveis para mostrar que a ordem da providência não tira às coisas sua contingência e mobilidade, como alguns puseram.
Segundo pois este modo de concebê-lo, negar o fado equivaleria a negar a providência divina. Mas, como com os infiéis não devemos ter em comum nem os nomes, para que o uso comum dos termos não nos venha a servir de ocasião de errar, os fiéis não devemos usar a palavra fado, para que não pareça que assentimos ao que opinaram mal sobre o fado, submetendo todas as coisas à necessidade imposta pelos astros. Por isso diz Agostinho [em Da Cidade de Deus, l. V, cap. 1]: “Se alguém à vontade ou potestade de Deus a chama pelo nome de fado, tenha a sentença, mas corrija a língua”. E diz Gregório [na Homilia X sobre o Evangelho, na Epifania], segundo o mesmo entendimento: “Fique fora da mente dos fiéis o dizer que existe o fado”.»        

[Suma contra os Gentios, III, cap. 93.]