sábado, 12 de novembro de 2016

Mais um sofisma dos defensores de Francisco


Carlos Nougué

1) Os defensores de Francisco buscam agora defendê-lo recorrendo à própria encíclica de Pio XI Quadragesimo anno, na qual se condena a doutrina comunista. Valem-se sobretudo desta passagem:


“Mais moderada é a outra facção, que conservou o nome de socialismo: porque não só professa abster-se da violência, mas abranda e limita de algum modo, embora não as suprima de todo, a luta de classes e a extinção da propriedade particular. Dir-se-ia que o socialismo, aterrado com as consequências que o comunismo deduziu de seus próprios princípios, tende para as verdades que a tradição cristã sempre solenemente ensinou, e delas em certa maneira se aproxima; porquanto é inegável que as suas reivindicações concordam às vezes muitíssimo com as reclamações dos católicos que trabalham na reforma social.
Com efeito, a luta de classes, quando livre de inimizades e ódio mútuo, transforma-se pouco a pouco numa concorrência honesta, fundada no amor da justiça, que, se bem não é aquela bem-aventurada paz social por que todos suspiramos, pode e deve ser o princípio da mútua colaboração. Do mesmo modo, a guerra à propriedade particular, afrouxando pouco a pouco, chega a limitar-se a ponto de já não agredir a posse do necessário à produção dos bens, mas àquele despotismo social que a propriedade contra todo o direito se arrogou. E de fato tal poder não pertence aos simples proprietários, mas à autoridade pública. Por este caminho podem os princípios deste socialismo mitigado vir pouco a pouco a coincidir com os votos e reclamações dos que procuram reformar a sociedade segundo os princípios cristãos. Estes com razão pretendem que certos gêneros de bens sejam reservados ao Estado, quando o poderio que trazem consigo é tal, que, sem perigo do mesmo Estado, não pode deixar-se em mãos dos particulares.
Tão justos desejos e reivindicações em nada se opõem à verdade cristã, e muito menos são exclusivos do socialismo. Por isso quem só por eles luta não tem razão para declarar-se socialista.
Mas não se vá julgar que os partidos socialistas não filiados ainda ao comunismo professam já todos teórica e praticamente esta moderação. Em geral não renegam a luta de classes nem a abolição da propriedade, apenas as mitigam. Ora, se os falsos princípios assim se mitigam e obliteram, pergunta-se, ou melhor, perguntam alguns sem razão se não será bem que também os princípios católicos se mitiguem e moderem, para sair ao encontro do socialismo e congraçar-se com ele a meio caminho. Não falta quem se deixe levar da esperança de atrair por este modo os socialistas. Esperança vã! Quem quer ser apóstolo entre os socialistas é preciso que professe franca e lealmente toda a verdade cristã, e que de nenhum modo feche os olhos ao erro. Esforcem-se antes, se querem ser verdadeiros arautos do Evangelho, por mostrar aos socialistas que as suas reclamações, na parte que têm de justas, se defendem muito mais vigorosamente com os princípios da fé e se promovem muito mais eficazmente com as forças da caridade.”

2) A utilização deste trecho pelos defensores de Francisco (como se Pio XI autorizasse a defesa que Francisco faz do comunismo) é falaciosa, sofística. Explique-se por partes.
a) O comunismo é intrinsecamente mau.
b) O socialismo (forma atenuada do comunismo), se se desvencilha do intrinsecamente mau no comunismo, tem pontos de contato com a doutrina cristã.
c) Que implica dizer isso? Que o liberalismo econômico também é mau. Dizia S. Tomás, com efeito: a propriedade privada tem por limite o bem comum. É o que explico detidamente em meu curso O Melhor Regime Político segundo Santo Tomás de Aquino.
4) A condenação de Pio XI é do comunismo e do socialismo que não se livrou de importantes notas daquele. Mas, se se livrou de todo destas, incorre no que diz o Papa: “Tão justos desejos e reivindicações em nada se opõem à verdade cristã, e muito menos são exclusivos do socialismo. Por isso quem só por eles luta não tem razão para declarar-se socialista”. 
5) Insista-se: o socialismo que se reduz aos pontos de contato com a doutrina cristã não tem por que chamar-se socialismo! Ademais, veja-se como termina este trecho da encíclica: “Mas não se vá julgar que os partidos socialistas não filiados ainda ao comunismo professam já todos teórica e praticamente esta moderação. Em geral não renegam a luta de classes nem a abolição da propriedade, apenas as mitigam. Ora, se os falsos princípios assim se mitigam e obliteram, pergunta-se, ou melhor, perguntam alguns sem razão se não será bem que também os princípios católicos se mitiguem e moderem, para sair ao encontro do socialismo e congraçar-se com ele a meio caminho. Não falta quem se deixe levar da esperança de atrair por este modo os socialistas. Esperança vã! Quem quer ser apóstolo entre os socialistas é preciso que professe franca e lealmente toda a verdade cristã, e que de nenhum modo feche os olhos ao erro. Esforcem-se antes, se querem ser verdadeiros arautos do Evangelho, por mostrar aos socialistas que as suas reclamações, na parte que têm de justas, se defendem muito mais vigorosamente com os princípios da fé e se promovem muito mais eficazmente com as forças da caridade.”  
Exatamente o oposto do que faz Francisco.