segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Admiração por Antônio Conselheiro e sua obra


Ataliba Nogueira

«Respeitemos as convicções do Conselheiro e reconheçamos-lhe a inteireza moral, intelectual e física. Nem insano, nem fanático.[1]
Homem excepcional, sim; embora extremamente simples. Amante do seu povo, para cujo serviço sofreu muito e para cujo bem e progresso foi chefe e condutor.
A sua obra manuscrita, que pela primeira vez se imprime, revela-nos o seu estofo moral e intelectual.
Trouxe tal luz sobre sua personalidade que, depois da leitura, somos arrastados a compulsar de novo não só Os Sertões [de Euclides da Cunha], mas ainda os escritos de quantos a ele se referiram a fim de se separarem as afirmações errôneas das verdadeiras. Esta sua obra vem aguçar o espírito crítico dos amigos da verdade.
As suas prédicas e o único discurso político que nos deixou, neste manuscrito, dão-nos notícia, ou melhor, documentam muito do que se passava dentro em Canudos.
Já tendo fundado o arraial do Bom Jesus, “quase uma cidade” [Euclides da Cunha], criou no fim da vida Canudos, denominando-a Belo Monte.
O monte em que demorava a cidade por ele erguida era encantador em seu tempo, não pela obra da natureza, mas porque pulsavam ali corações de bem mais de vinte mil pessoas, fruindo as delícias da vida honesta, pacata e operosa. Sobretudo podiam rezar diariamente e diariamente trabalhar.
Mas não os deixaram [os republicanos] viver assim e ao cabo de quatro anos felizes, no quinto, a destruição completa.

*

António Conselheiro, alto, magro, idoso, de cabelos e barba respeitáveis, metido na sua túnica de zuarte, amparado no bordão, porte grave e impressionante, voz clara e palavra eloquente, lembrava um daqueles veneráveis patriarcas do Antigo Testamento. Falava com autoridade e pregava boa doutrina.

*

Sem preocupação da forma, vamos ler as suas prédicas. Surge delas o vulto do Conselheiro, tão deturpado durante um século [até por membros da hierarquia brasileira].
Em qualquer outra parte do mundo seria perpetuado o seu nome como benemérito.
Foi ele grande, sem dúvida.»[2]




[1] Erros tinha-os. Em contrapartida, “a sua fé é esclarecida e sólida”, como escreve Ataliba Nogueira. “E procura viver a sua fé. Espalha a boa doutrina e esforça-se para que outros a vivam sinceramente. Nenhum fanatismo. Na cerimônia do término da igreja de Santo Antônio [...], do princípio ao fim só se refere a Nosso Senhor Jesus Cristo, aos textos bíblicos sobre a casa de Deus, desde a tenda levantada por Moisés até o templo de Salomão.” [Nota de C. N.]
[2] Extraído de Ataliba Nogueira, António Conselheiro e Canudos, São Paulo, Companhia Editora Nacional (Brasiliana, vol. 355), 1974, p. 40-41. – Livro admirável, apesar de certas imprecisões doutrinais. [Nota de C. N.]