sábado, 8 de outubro de 2016

Se “Teogonia” e “Trabalhos e Dias”, de Hesíodo, são poesia


A Titanomaquia

Carlos Nougué

Nota prévia. Este breve escrito é parte de meu Das Artes do Belo: Essência e Fim (por publicar), mas encontra-se aqui ligeiramente adaptado e ampliado. Servirá ainda como material didático para o curso A História da Filosofia: Do Impulso Grego ao Abismo Moderno.

I

• É quase geral o considerar que Teogonia e Trabalhos e Dias, de Hesíodo, são poesia e fazem parte, portanto, da história da literatura. Se porém o são ou não o são, é o que se verá ao fim deste escrito. Antes, sumariem-se as mesmas obras e deem-se dados históricos relativos a elas.  
• Para muitos, Hesíodo não só foi tão poeta como Homero, senão que foi contemporâneo seu. Com efeito, Heródoto (em II, 53) dizia que ambos tinham vivido cerca de quatrocentos anos antes (ou seja, no século IX a.C.). Outros, como Pausânias (em Descrição da Grécia, IX, 30, 3), concediam que se tratava de questão controversa, já então.
• Há, ademais, a controvérsia – como com respeito aos poemas de Homero – quanto a se a Teogonia e Trabalhos e Dias se compuseram para recitar-se oralmente ou se já se compuseram por escrito. A primeira possibilidade é defendida pela quase totalidade dos historiadores, em especial os ligados aos trabalhos sobre a “tradição de estilo global-oral”, ou seja, a fundada sobre a memorização de textos longos como a Bíblia, os Vedas, a epopeia finlandesa Kaleava, etc. Permito-me, todavia, não rejeitar a possibilidade de que tanto as obras de Hesíodo como as de Homero se tenham composto originalmente por escrito, o que obviamente não impede que fossem recitadas ou cantadas por aedos. Pelo que hoje se sabe, com efeito, parece que foram os gregos os que primeiramente aperfeiçoaram o sistema alfabético dos fenícios (em verdade, um sistema consonântico); e a data de tal aperfeiçoamento vem recuando desde já algum tempo na consideração dos mesmos especialistas. Hoje, pelo que sei, a maioria tende a datar tal aperfeiçoamento em não muito depois de 800 a.C. Ora, tal data se aproxima da fornecida por Heródoto para a existência de Hesíodo e de Homero; e, afinal, a precisão com que nos chegou a composição das obras de ambos faz propender para uma composição original escrita, conquanto nada impeça, conceda-se, que tal precisão composicional se tenha dado posteriormente a Hesíodo e a Homero. Não o creio, todavia, e no mesmo Das Artes do Belo: Essência e Fim digo por quê.     
• Intimamente ligada a esta questão está a da autenticidade das duas obras de Hesíodo, e uma vez mais opto pela solução mais simples: considerá-las de todo autênticas, como as consideravam em geral os antigos. Considerá-las apócrifas no todo ou em parte não faz senão que o estudioso se embarace em possibilidades potencialmente infinitas. Mas todos sabemos (ou deveríamos saber) que não há conhecimento sem que nos detenhamos em algum ponto, ainda quando se trata de estudos históricos.

II

• A Teogonia de Hesíodo – que pode chamar-se o livro das linhagens divinas do panteísmo grego – divide-se, de certo modo, numa cosmogonia e numa teogonia, como já se verá. O que neste ponto importa ressaltar é que, muito diferentemente das cosmogonias e das teogonias do Oriente, as da Teogonia de Hesíodo já se dão segundo algum encadeamento causal, razão por que pode dizer Aristóteles que o criador de mitos se aproxima mais do filósofo que o historiador; e por que diz com razão Giovanni Reale que a cosmogonia e a teogonia mitológicas gregas serviram de antessala intelectual para o surgimento da filosofia. Se assim é, foi parte de um processo que, segundo a bênção de Noé a seu filho Jafé, desembocaria no resgate da sabedoria natural pelo povo jônio. – Diga-se por fim que Hesíodo não deixa em momento algum entender que sua Teogonia expresse algo que não seja da mais estrita realidade: conta-a, com efeito, e como já se disse, como se ele próprio tivesse presenciado a tudo.
• A Teogonia começa, pois, por uma como cosmogonia: é a primeira linhagem hesiódica, origem das demais linhagens e cuja própria origem é, por seu lado, de todo desconhecida. Assim, o Caos (certo abismo, provavelmente) e Gaia (a Terra), unidos por Eros (o Amor), formam o Universo. Gaia desdobra-se num como duplo seu, o Céu, e nos elementos que povoam a ambos (montanhas, estrelas, etc.). Do Caos, ademais, surgirão a Noite e tudo quanto envolve abstratamente o âmbito do humano – é a antropomorfização múltipla que constituirá o panteão grego.[1] Note-se, porém, que não se pode encontrar aqui fronteira precisa entre a cosmogonia e a teogonia, o que já se constata pelos nomes próprios atribuídos aos eventos cosmogônicos.
• Por isso é possível dizer que, unida ao Céu, Gaia faz-se mãe de uma segunda geração de deuses, na qual a antropomorfização de eventos físicos já se mescla com a de virtudes ou de atributos da alma humana:[2] por exemplo, Febe, personificação da luz, Têmis, personificação da retidão, e Mnemósine, personificação da memória. 
• Com a antropomorfização, dota-se aos deuses dos piores vícios e crimes humanos. Assim, Urano é lascivo e tirânico, e impede o nascimento dos filhos aprisionando-os no seio materno. Mas seu filho Cronos libertará os irmãos e a mãe castrando o pai, e de tal castração surgirão (do sêmen caído do céu) Afrodite, a deusa do Amor, e (do sangue caído na Terra) as Erínias, deusas vingadoras, e os Titãs e as Mélias (ninfas dos freixos), de cuja conjunção nascerão os homens. – E assim se prossegue: da conjunção de Érebo, a escuridão, e da Noite nasce o Éter e o Dia.[3] Mas a Noite mesma gera multidão de filhos: Destino, Discórdia, Lamento, Morte, Traição, Velhice, et reliqua, e (mediante a Discórdia) Dores, Enganos, Esquecimento, Fadiga, Fome, Guerras, Homicídios, et reliqua. – O mesmo princípio preside às linhagens marinhas, tanto a que descende do Ponto, ou Alto-Mar, como a dos filhos do Oceano, os rios conhecidos por Hesíodo e sua época, enquanto suas filhas, as Oceânides, recebem nomes marinhos relativos à sua localização geográfica e às suas rotas (Ásia, Europa, Electra [rota do âmbar], et reliqua).
• Toda essa sucessão de linhagens se ordena, como parecem anunciar as Musas no proêmio, à ascensão de Zeus – o que na mitologia há de mais próximo (ainda que de muito longe) do verdadeiro e único Deus, e que parece antes encarnar o papel da suma justiça. Mas, para que se firme seu poder divino superior ao de todos os demais deuses, Zeus tem de percorrer um árduo caminho. Em primeiro lugar, tem de sobreviver; depois, para alcançar o poder, tem de lutar contra Cronos e contra os Titãs (na Titanomaquia); depois, tem de assegurá-lo contra o que poderíamos chamar o primeiro humanismo, no episódio de Prometeu; e, por fim, tem de mantê-lo mediante luta feroz contra Tífon. Como diz Ana Elias Pinheiro (tradutora da obra ao português,[4] “Zeus não é apenas um patriarca em afirmação numa esfera familiar, ele é de facto um rei cujo poder político é garantido não apenas pela justiça com que para cada um dos outros deuses determina competências e honras, mas também pela força com que exerce sua vontade”.    
• A Teogonia de Hesíodo chegou-nos incompleta, sem que se possa saber a razão disto.

III

• Como se acaba de ver, a Teogonia de Hesíodo é fundamentalmente docens, didática. Pois muito mais o é seu Trabalhos e Dias, cujo destinatário é Perses, um irmão seu ocioso e esbanjador que, além de ter dissipado a herança paterna, pretende agora apropriar-se da parte que cabe a Hesíodo. Discute-se se a figura de Perses é real ou fictícia; mas, uma vez mais, parece-me disputa vã. Não vejo por que, segundo o que nos indica a mesma obra, negar-lhe realidade. Ainda que não a tivesse, porém, nada se alteraria no caráter daquela.
• Como seja, os temas capitais de Trabalhos e Dias são a justiça e o trabalho. O primeiro aparece já na invocação inicial às Musas a que celebrem a Zeus, o garantidor da justiça. Em seguida, fazem sua entrada as duas Érides – uma a que semeia discórdia, a outra a benfazeja porque se funda no trabalho – e o segundo tema da obra. Enquanto o modo de agir de Perses e o dos reis “devoradores de presentes” introduzem a grande querela, os ensinamentos de Hesíodo cumprem-se no plano do mitológico: o castigo que Zeus inflige a Prometeu por ter roubado aos deuses o fogo para dá-lo aos homens, e a retaliação do deus supremo ao enviar a caixa de Pandora, que a abre e deixa escapar assim os males. Não resta senão a esperança. Segue-se o mito das Cinco Idades (que se reverá, conquanto alteradamente, em Platão).
• Temos depois uma fábula (a do falcão e do rouxinol), endereçada aos reis. Com isso tem início a exortação à justiça, dirigida tanto a estes como a Perses, a qual será completada por uma sequência de preceitos de vida relativos ao trabalho (“Trabalho não é vileza, vileza é não trabalhar”, v. 311). Em seguida, vêm sucessivamente o calendário agrícola e o tratado da navegação. Pois bem, terminada esta parte (que inclui, entre outras coisas, a vitória de Hesíodo num concurso de aedos) com importante preceito ético-prudencial (“observa a justa medida, em tudo a ocasião é o principal”, v. 694), sucedem-se então conselhos de várias ordens e uma enumeração dos dias fastos e nefastos para toda e qualquer atividade. Estamos diante, pois, dos Dias, que muitos qualificam de apócrifos. De minha parte, sigo a norma de sempre: antes com os antigos que com meras possibilidades aventadas modernamente.          

IV

• Já posso portanto resolver o problema que motivou este escrito. Com efeito, pergunta-se Aristóteles na Poética se um tratado filosófico escrito em versos é tão poesia como as epopeias homéricas. E responde que não: tratar-se-á antes, justamente, de filosofia em prosa. A filosofia versa sobre o necessário em ordem a superar a ignorância, enquanto a poesia apresenta eventos e ações verossímeis em ordem a, mediante o belo e o horrendo, fazer propender ao verdadeiro e ao bom e afastar-se do falso e do mau. Se assim é, num tratado filosófico escrito em verso (como os de pré-socráticos), ter-se-á tão somente arte aplicada, assim como se tem arte aplicada n’Os Sertões, obra historiográfico-jornalística de Euclides da Cunha.
• Pode dizer-se o mesmo, analogamente e mutatis mutandis, das duas obras de Hesíodo. Não se trata de poesia, mas, em Teogonia, de mitologia em verso, e, em Trabalhos e Dias, de tratado ético-político-mitológico em verso. Naturalmente, que não sejam poesia não depõe nem minimamente contra a alta qualidade dos versos hesiódicos. Mas Teogonia e Trabalhos e Dias tampouco são filosofia: são, precisamente, mitologia e tratado ético-político-mitológico. A Poesia é a parte potencial ínfima da Lógica (as demais, em escala ascendente, são a Retórica e a Dialética).[5] Mas a mitologia não é parte potencial da Lógica. Não resta senão que as duas obras de Hesíodo sejam o que dizia Aristóteles: como que germes de filosofia. É verdade que, como o confucianismo, o tratado ético-político de Trabalhos e Dias já poderia considerar-se certa filosofia ou ciência prática. Mas, além de ser muitíssimo inferior ao confucianismo, preciosa doutrina que ainda está por ser devidamente descoberta e estudada, funda-se ainda grandemente na mitologia. Ou se poderia dizer, talvez, que está numa intermediária zona de sombra.  


[1] A Teogonia estrutura-se segundo a mesma ordem com que se desdobra a linhagem cosmológico-divina. O recurso, ao que tudo indica, é antes tomado das epopeias: os catálogos ou os episódios construídos em anel ou em espiral.
[2] Não se julgue, porém, que já então os gregos conhecessem mais perfeitamente a alma humana. Muito pelo contrário, tal só começaria a dar-se com Sócrates.
[3] O Dia é entendido como resolução da Noite, razão por que necessariamente teria de surgir depois desta.
[4] Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005.
[5] O tratado dos sofismas também é parte potencial da Lógica, assim como um policial tem de conhecer a mente do delinquente para poder exercer perfeitamente seu ofício.